Pecado original

Pecado original

quarta-feira, 1 de abril de 2026

O peso da palavra

Poder, memória e responsabilidade

Entre a sobriedade moral de Dwight D. Eisenhower e o registo verbal frequentemente associado a Donald Trump medeia mais do que uma diferença de estilo: revela-se uma transformação profunda na forma de compreender o poder, a palavra e a responsabilidade política.

No seu discurso em Londres, em junho de 1945, Eisenhower fala como comandante vitorioso — mas recusa a linguagem da vitória. Em vez da exaltação, escolhe a contenção; em vez da afirmação pessoal, a humildade; em vez da retórica triunfalista, a memória dos mortos. “Humility must always be the portion of any man who receives acclaim earned in the blood of his followers”, afirma. A frase não é apenas retórica: é ontologica. O líder não é o centro da ação, mas o seu depositário provisório. Não se pertence a si próprio; pertence àqueles que caíram.

Esta visão traduz uma ética exigente. A guerra, mesmo quando justa, nunca é celebrada — é suportada. O poder não absolve, antes obriga. A palavra pública, neste contexto, tem uma função quase sacramental: dar sentido ao sofrimento sem o banalizar. Eisenhower sabe que nenhuma vitória apaga o luto, nenhuma estratégia consola uma viúva, nenhuma medalha substitui um pai. E é dessa consciência que nasce a legitimidade do seu discurso.

O contraste com certas expressões do discurso político contemporâneo — como apelos a “violência esmagadora” ou desejos de que “cada bala encontre o seu alvo” — não poderia ser mais evidente. Aqui, a linguagem aproxima-se perigosamente de uma lógica instrumental, onde a eficácia se sobrepõe à reflexão moral e o adversário tende a ser desumanizado. A palavra deixa de conter o poder; passa a amplificá-lo.

Esta mudança tem implicações políticas profundas. Em Eisenhower, a comunidade constrói-se a partir de valores partilhados — liberdade, dignidade, direito — que permitem reconhecer no outro um aliado potencial, mesmo na diferença. A guerra surge como exceção trágica, não como estado natural. Já numa retórica mais agressiva, a política tende a organizar-se em torno da oposição permanente: “nós” contra “eles”, segurança contra ameaça, força contra fraqueza. A coesão nasce do confronto, não do reconhecimento.

Mas talvez a diferença mais decisiva seja outra: a relação com a memória. Eisenhower fala a partir de um mundo devastado, onde cada palavra carrega o peso de milhões de mortos. A sua linguagem é medida porque conhece o abismo. Quando essa memória se atenua — ou é substituída por uma retórica imediata, emocional e por vezes beligerante — corre-se o risco de banalizar aquilo que deveria permanecer excecional: o recurso à violência.

Não se trata de nostalgia, nem de idealização de um passado irrepetível. Trata-se de reconhecer que a qualidade moral da linguagem política não é um detalhe — é uma condição da própria democracia. Quando o poder esquece os limites que a história lhe ensinou, deixa de ser apenas eficaz ou ineficaz: torna-se, potencialmente, irresponsável.

E é nesse ponto que a lição de 1945 permanece atual. Não como modelo a copiar, mas como critério a recordar: o verdadeiro poder não se afirma no volume da voz, mas na consciência do seu peso.

Francisco Vaz

1 de Abril de 2026

A Tuna

Mais do que música

A Tuna da Universidade Sénior da Portela — Portela Sábios — é mais do que um grupo musical: é um sinal vivo do que uma universidade sénior é — e, sobretudo, do que pretende ser. Nela reconhece-se uma ideia de educação que não termina com a idade, mas antes se transforma, aprofunda e ganha novos sentidos.

Uma universidade sénior não é apenas um espaço de transmissão de conhecimentos; é um lugar de reencontro com o tempo, com a curiosidade e com a comunidade. Ao contrário dos modelos tradicionais, orientados para a certificação ou para o mercado de trabalho, aqui o saber é cultivado como fim em si mesmo — como expressão de liberdade interior e de dignidade humana. Aprender deixa de ser obrigação e volta a ser escolha; deixa de ser instrumento e torna-se experiência.

Neste contexto, grupos artísticos como a Tuna assumem um papel particularmente significativo. A música, como linguagem universal, cria pontes imediatas entre pessoas, memórias e emoções. Mas o seu valor vai muito além da dimensão estética: ela organiza o tempo, disciplina o esforço coletivo, exige escuta do outro e promove um sentido de pertença. Num grupo coral ou instrumental, cada voz conta, mas só faz sentido na harmonia do conjunto — uma metáfora poderosa da própria vida em comunidade.

O mesmo se pode dizer de outras expressões culturais. A poesia permite dar forma à memória e à interioridade, transformando a experiência vivida em palavra partilhada. A pintura oferece um espaço de contemplação e criação onde o olhar se educa e se reinventa. As atividades académicas — palestras, debates, oficinas — mantêm viva a inquietação intelectual e o diálogo com o mundo contemporâneo. Em todas estas áreas, o que está em causa não é apenas “ocupar o tempo”, mas dar-lhe sentido.

Há ainda uma dimensão social incontornável. Estes grupos combatem o isolamento, reforçam laços de amizade e criam redes de apoio informal que são fundamentais numa fase da vida muitas vezes marcada pela perda de referências profissionais ou familiares. Ao mesmo tempo, projetam-se para fora, através de atuações, exposições ou encontros, afirmando uma presença ativa na sociedade e contrariando a ideia de que a idade avançada corresponde a retirada ou silêncio.

Assim, uma universidade sénior revela-se como um espaço de cidadania plena: um lugar onde se continua a participar, a criar e a contribuir. E os seus grupos artísticos, como a Tuna Portela Sábios, são expressão concreta dessa vitalidade — mostrando que a cultura não é privilégio de uma idade, mas um caminho aberto ao longo de toda a vida.

Francisco Vaz

1 de Abril de 2026