Poder, memória e responsabilidade
Entre a sobriedade moral de Dwight D. Eisenhower e o registo verbal frequentemente associado a Donald Trump medeia mais do que uma diferença de estilo: revela-se uma transformação profunda na forma de compreender o poder, a palavra e a responsabilidade política.
No seu discurso em Londres, em junho de 1945, Eisenhower fala como comandante vitorioso — mas recusa a linguagem da vitória. Em vez da exaltação, escolhe a contenção; em vez da afirmação pessoal, a humildade; em vez da retórica triunfalista, a memória dos mortos. “Humility must always be the portion of any man who receives acclaim earned in the blood of his followers”, afirma. A frase não é apenas retórica: é ontologica. O líder não é o centro da ação, mas o seu depositário provisório. Não se pertence a si próprio; pertence àqueles que caíram.
Esta visão traduz uma ética exigente. A guerra, mesmo quando justa, nunca é celebrada — é suportada. O poder não absolve, antes obriga. A palavra pública, neste contexto, tem uma função quase sacramental: dar sentido ao sofrimento sem o banalizar. Eisenhower sabe que nenhuma vitória apaga o luto, nenhuma estratégia consola uma viúva, nenhuma medalha substitui um pai. E é dessa consciência que nasce a legitimidade do seu discurso.
O contraste com certas expressões do discurso político contemporâneo — como apelos a “violência esmagadora” ou desejos de que “cada bala encontre o seu alvo” — não poderia ser mais evidente. Aqui, a linguagem aproxima-se perigosamente de uma lógica instrumental, onde a eficácia se sobrepõe à reflexão moral e o adversário tende a ser desumanizado. A palavra deixa de conter o poder; passa a amplificá-lo.
Esta mudança tem implicações políticas profundas. Em Eisenhower, a comunidade constrói-se a partir de valores partilhados — liberdade, dignidade, direito — que permitem reconhecer no outro um aliado potencial, mesmo na diferença. A guerra surge como exceção trágica, não como estado natural. Já numa retórica mais agressiva, a política tende a organizar-se em torno da oposição permanente: “nós” contra “eles”, segurança contra ameaça, força contra fraqueza. A coesão nasce do confronto, não do reconhecimento.
Mas talvez a diferença mais decisiva seja outra: a relação com a memória. Eisenhower fala a partir de um mundo devastado, onde cada palavra carrega o peso de milhões de mortos. A sua linguagem é medida porque conhece o abismo. Quando essa memória se atenua — ou é substituída por uma retórica imediata, emocional e por vezes beligerante — corre-se o risco de banalizar aquilo que deveria permanecer excecional: o recurso à violência.
Não se trata de nostalgia, nem de idealização de um passado irrepetível. Trata-se de reconhecer que a qualidade moral da linguagem política não é um detalhe — é uma condição da própria democracia. Quando o poder esquece os limites que a história lhe ensinou, deixa de ser apenas eficaz ou ineficaz: torna-se, potencialmente, irresponsável.
E é nesse ponto que a lição de 1945 permanece atual. Não como modelo a copiar, mas como critério a recordar: o verdadeiro poder não se afirma no volume da voz, mas na consciência do seu peso.
Francisco Vaz
1 de Abril de 2026