Uma jornada memorável
Há momentos em que o desporto deixa de ser apenas competição e se transforma em revelação do humano. O IV Troféu Baptista Pereira de Natação Masters, realizado este domingo nas piscinas municipais de Vila Franca de Xira, foi precisamente um desses momentos. Mais do que tempos, classificações ou resultados, aquilo que ficou foi uma experiência de humanidade partilhada, onde a prática desportiva se elevou a espaço de encontro, inclusão e sentido.
Entre os vários participantes, esteve presente o João Vaz, incluido, pela primeira vez, na equipa do Sport Algés e Dafundo. A sua participação não é apenas um dado desportivo: é um testemunho de perseverança, disciplina e superação. Mas seria redutor limitar esta jornada ao esforço individual. O que aqui se revela é algo mais amplo: a capacidade de uma comunidade desportiva reconhecer, acolher e valorizar cada pessoa na sua singularidade.
O verdadeiro valor deste campeonato não reside apenas na performance, mas naquilo que ele tornou visível: a possibilidade de uma prática inclusiva, onde ninguém é excluído à partida e onde cada um, independentemente das suas diferenças e limitações, encontra lugar e dignidade. Os colegas da equipa do Algés e Dafundo, ao oferecerem um acolhimento humano exemplar, mostraram que o desporto pode ser muito mais do que rivalidade — pode ser cuidado, solidariedade e pertença.
Esta dimensão é fundamental nos nossos tempos. A deficiência, sendo uma realidade estranha para alguns, revela ainda outra dimensão: a vulnerabilidade. Nascemos dependentes, crescemos dependentes e, muitas vezes, terminamos a vida novamente na dependência dos outros. Entre os dois extremos, todos os seres humanos conhecem, em diferentes graus e momentos, a fragilidade da existência. A fragilidade não é exceção; é condição partilhada.
É por isso que uma sociedade verdadeiramente humana não pode ser aquela que apenas tolera a diferença, mas aquela que a integra como parte da sua própria compreensão do humano. A inclusão não é um gesto de benevolência; é uma forma mais profunda de verdade. Reconhecer o outro na sua condição concreta é reconhecer também a nossa própria possibilidade de fragilidade futura.
O que este campeonato demonstrou é que o desporto pode ser um laboratório dessa humanidade possível. Quando as regras não servem para excluir, mas para organizar a participação; quando a competição não destrói a dignidade do outro, mas a reconhece; quando o esforço individual se inscreve numa comunidade que sustenta e valoriza, então o desporto deixa de ser apenas performance e torna-se formação humana.
Há aqui também uma dimensão ontológica profunda: o ser humano não se realiza isoladamente. A identidade não é apenas aquilo que cada um conquista sozinho, mas também aquilo que é recebido dos outros — apoio, reconhecimento, amizade, cuidado. A presença dos colegas, o ambiente de respeito e o acolhimento demonstrado neste evento revelam que a pessoa humana é constitutivamente relacional. Somos com os outros ou não somos plenamente.
Num tempo em que tantas vezes a diferença é motivo de exclusão e a fragilidade é escondida, experiências como esta lembram-nos de algo essencial: a verdadeira grandeza de uma comunidade mede-se pela forma como trata os seus mais vulneráveis. E, nesse sentido, o IV Troféu Baptista Pereira de Natação Masters não foi apenas uma prova desportiva. Foi uma pequena, mas significativa, afirmação de humanidade.
No fim, fica a imagem de uma jornada memorável não apenas pelos feitos desportivos, mas pela densidade humana que nela se revelou. Porque quando o desporto toca a dignidade, quando a competição se abre à inclusão e quando o esforço individual se inscreve numa comunidade solidária, então algo maior acontece: o humano torna-se mais humano.
Francisco Vaz
19 de Maio de 2026