Pecado original

Pecado original

terça-feira, 20 de outubro de 2026

Saint François d’Assise

da beleza do mundo à contemplação do eterno

A ópera de Messiaen, Saint François d’Assise, é menos uma narrativa sobre Francisco do que uma tentativa de fazer ouvir, musicalmente, a transformação de um homem pela graça. Nela, a santidade não aparece como fuga do mundo, mas como capacidade de descobrir, em todas as criaturas, sinais de uma realidade que as ultrapassa.

Há algo de profundamente franciscano na própria linguagem de Messiaen. O canto dos pássaros, que o compositor estudou e transcreveu durante toda a vida, deixa de ser simples matéria musical. Torna-se quase uma teologia da criação. Francisco escuta as aves porque aprendeu primeiro a escutar o mundo. E, ao escutá-lo, percebe que a natureza não é muda: cada criatura possui uma voz própria dentro de uma imensa polifonia do ser.

Por isso, a célebre cena da pregação aos pássaros não deve ser entendida como um episódio ingénuo ou pitoresco da vida do santo. É a expressão de uma determinada visão do universo: tudo aquilo que existe participa, de algum modo, na beleza do Criador. Messiaen transforma essa intuição numa extraordinária arquitetura sonora, onde timbres, modos, ritmos, cores e cantos de aves parecem constituir uma verdadeira liturgia cósmica.

Mas o caminho de Francisco não passa apenas pela beleza. Passa pelo Leproso. E talvez esteja aqui um dos centros espirituais da obra. Francisco deseja amar verdadeiramente, mas encontra diante de si aquilo que espontaneamente provoca repulsa. A santidade começa precisamente quando o amor deixa de depender da beleza exterior. O encontro com o Leproso representa a passagem decisiva entre amar aquilo que é belo e descobrir a beleza naquele que sofre.

É então que compreendemos melhor a presença do Anjo. O Anjo de Messiaen não pertence simplesmente ao domínio do maravilhoso teatral. É a irrupção de uma realidade que os sentidos humanos não conseguem abarcar. A sua música parece vir de outro lugar. Francisco deseja conhecer Deus, mas descobre que o conhecimento de Deus exige transformação: não basta compreender intelectualmente; é necessário tornar-se capaz de receber aquilo que nos ultrapassa.

A própria duração da ópera — quase quatro horas — participa dessa experiência. Messiaen recusa a velocidade dramática convencional. Obriga-nos a permanecer. A esperar. A escutar. O tempo teatral aproxima-se assim do tempo da contemplação. Tal como no Quarteto para o Fim dos Tempos, Messiaen parece perguntar se existe um tempo diferente daquele que os relógios medem. A música abre brechas no tempo cronológico para deixar entrever o eterno.

Os estigmas constituem o ponto culminante desse percurso. Francisco já não contempla Cristo apenas exteriormente: torna-se semelhante Àquele que contempla. O sofrimento não é glorificado por si mesmo; é transfigurado pelo amor. A verdadeira imitatio Christi não consiste numa representação exterior, mas numa transformação interior do ser.

E finalmente chega a morte.

Mas em Messiaen a morte não possui a última palavra. Francisco atravessa-a como quem atravessa uma porta. A grande explosão sonora final não celebra o desaparecimento do homem, mas a sua entrada numa plenitude que durante toda a ópera apenas pudemos pressentir.

É por isso que Saint François d’Assise ocupa um lugar singular na música do século XX. Num século marcado pelas guerras, pelos totalitarismos, pelo Holocausto e pela experiência radical do absurdo, Messiaen compõe uma obra monumental para afirmar exatamente o contrário do niilismo: o ser possui sentido; a criação possui beleza; o sofrimento pode ser atravessado pelo amor; e a morte não encerra o horizonte humano.

Talvez seja esta a chave mais profunda da ópera. Francisco começa procurando compreender Deus e termina tornando-se transparência de Deus. Começa escutando as criaturas e termina integrado no seu cântico. Começa diante do mistério e termina dentro dele.

Messiaen não escreveu apenas uma ópera sobre São Francisco de Assis. Escreveu uma espécie de catedral sonora da criação, onde pássaros, homens, sofrimento, cor, silêncio e música convergem para uma única afirmação:

tudo aquilo que existe é chamado a transformar-se em louvor.

Francisco Vaz

20 de outubro de 2026

domingo, 18 de outubro de 2026

O Reino dos Céus

Reflexão a partir da batalha de Hattin

Há uma pergunta que atravessa a história de Jerusalém: como pode uma cidade sagrada para diferentes religiões tornar-se lugar de tanta violência? A proximidade do sagrado deveria aproximar os homens. Contudo, quando a posse de um território se confunde com a posse da verdade, a fé pode ser convocada para legitimar aquilo que deveria interrogar.

A batalha dos Cornos de Hattin, travada em 4 de julho de 1187, oferece um ponto de partida particularmente exigente para esta reflexão. Nesse dia, Saladino derrotou o principal exército do reino latino de Jerusalém, abrindo caminho à conquista da cidade, em outubro. Mais do que uma catástrofe militar, Hattin obriga-nos a pensar na relação entre convicção e prudência, entre religião e poder, entre a Jerusalém que os homens disputam e o Reino dos Céus que nenhum exército pode conquistar.

Na conferência Los Cuernos de Hattin (1187). Saladino aplasta a los cruzados, apresentada na Fundación Juan March em 17 de janeiro de 2023, Fernando Quesada Sanz restitui à batalha a sua complexidade material. Como mostram a síntese oficial e os materiais da apresentação, confronta fontes cristãs e muçulmanas e examina o equipamento, as condições climáticas e a articulação entre infantaria e cavalaria pesada. Esta atenção ao funcionamento dos exércitos permite compreender uma derrota que a linguagem da fé, por si só, não explica. 

A partir desta abordagem histórica, podemos desenvolver uma reflexão que é nossa: os homens podem acreditar profundamente na justiça da sua causa e, ainda assim, julgar mal, decidir mal e conduzir outros à destruição.

O exército de Guido de Lusignan abandonou a posição abastecida de água em Sefória para marchar em socorro de Tiberíades. Saladino soube explorar essa decisão. O assédio à coluna, o calor, a sede e o impedimento do acesso à água foram desgastando a força adversária. Os próprios mapas apresentados por Quesada Sanz salientam a marcha de 3 de julho, o assédio e o reabastecimento das forças muçulmanas em água e flechas: a batalha foi preparada através de um domínio concreto das condições de combate. 

A cavalaria pesada precisava de chegar ao momento decisivo com capacidade para atuar e apoiada pela infantaria. Quando a exaustão desagregou essa cooperação, a coragem individual tornou-se insuficiente. Saladino não precisou de enfrentar o adversário nas condições que mais o favoreciam: contribuiu para as destruir.

Em Hattin, a água pesou mais do que a exaltação.

Esta constatação não diminui a importância da religião na vida daqueles homens. Recorda que a fé não suspende a condição humana. O corpo tem sede, o cavalo esgota-se, a formação rompe-se. A convicção religiosa não dispensa o conhecimento do terreno nem liberta o comandante da responsabilidade pelas vidas que lhe foram confiadas.

Comandar é ética precisamente porque uma decisão transforma uma intenção em consequências para outros. A firmeza pode ser necessária; a capacidade de escutar também. E há momentos em que preservar uma força exige mais coragem moral do que ceder à pressão de avançar.

No exército latino seguia uma relíquia venerada como fragmento da Vera Cruz. A sua captura tornou a derrota ainda mais dolorosa. Mas a presença da cruz no campo de batalha coloca ao cristão uma pergunta que permanece atual: que esperamos de Deus quando levamos o seu nome para as nossas disputas?

A cruz não é uma garantia de êxito militar. Remete para Cristo crucificado, para a entrega de si e para o mandamento de amar os inimigos. Quando se converte numa certeza de que Deus assegurará a nossa vitória, corre-se o risco de transformar a fé numa forma de apropriação do divino.

O Reino dos Céus torna-se, então, uma expressão incómoda. No horizonte evangélico, o Reino julga os poderes humanos, incluindo aqueles que invocam Deus. Nenhuma conquista territorial basta para demonstrar fidelidade ao Evangelho.

Também seria um erro resolver a complexidade histórica idealizando Saladino. A sua capacidade política e militar e os seus gestos de clemência coexistiram com atos de grande violência, entre eles a execução de prisioneiros templários e hospitalários depois da batalha. Reconhecer a grandeza de um adversário não exige silenciar os seus atos cruéis. 

A história esclarece quando nos permite reconhecer essa complexidade em todos os protagonistas. Empobrece quando distribui virtudes e crimes de acordo com a religião a que pertencem.

É aqui que Hattin se aproxima dos nossos dias. A memória das cruzadas pode alimentar conhecimento e discernimento; pode também fornecer um repertório de ofensas e vinganças. Quando um cristão contemporâneo é tratado como responsável pelos cruzados, ou um muçulmano como representante de todos os poderes que combateram a cristandade, a pessoa concreta desaparece sob uma identidade imposta.

Nenhuma criança nasce devedora das guerras dos seus antepassados.

A memória das vítimas deve ser preservada. A transmissão de culpa coletiva deve ser recusada. Sem esta distinção, cada comunidade encontrará no passado razões suficientes para prolongar indefinidamente a hostilidade.

Nas relações entre religiões, a paz exige mais do que manifestações ocasionais de cordialidade. Exige liberdade de consciência, proteção das minorias, segurança dos lugares de culto e possibilidade de discutir as diferenças sem medo. Exige ainda que cada comunidade seja capaz de reconhecer a injustiça quando ela é praticada pelos seus.

O diálogo não obriga o cristão a abandonar a sua fé nem o muçulmano a relativizar a sua. As diferenças sobre Cristo, a revelação e a compreensão de Deus são profundas. A convivência começa quando reconhecemos que essas diferenças não diminuem a dignidade de quem as sustenta.

A declaração Nostra aetate aponta neste sentido: reconhecendo a história de hostilidade entre cristãos e muçulmanos, propõe a compreensão mútua e o trabalho comum pela justiça, pela paz e pela liberdade. A diferença religiosa pode permanecer enquanto a relação humana se transforma. 

Essa transformação também exige prudência política. Quem governa deve saber que uma linguagem de confronto absoluto pode destruir as possibilidades de entendimento. Quando o compromisso passa a ser apresentado como traição a Deus, torna-se difícil reconhecer limites, corrigir decisões ou poupar vidas.

A investigação histórica de Quesada Sanz ajuda-nos a regressar aos homens concretos: aos seus corpos, armas, movimentos e vulnerabilidades. É desse chão que deve partir a nossa interrogação moral. Antes de serem símbolos de uma civilização, os mortos de uma batalha foram pessoas.

Hattin ensina como um exército pode perder a capacidade de combater. A reflexão religiosa deve levar-nos mais longe: perguntar o que acontece à fé quando perde a capacidade de reconhecer o próximo.

Jerusalém pode ser conquistada. O Reino dos Céus não se toma pelas armas. E a fidelidade a Deus torna-se particularmente exigente quando temos diante de nós alguém que o invoca de maneira diferente.

Francisco Vaz

18 de outubro de 2026


sexta-feira, 16 de outubro de 2026

Hiroshima e Nagasaki: as vidas perdidas e as vidas poupadas

O fim da guerra no Pacífico e a responsabilidade de decidir na incerteza

Em agosto de 1945, o Japão já não tinha condições para vencer a guerra. Conservava, porém, os meios e a determinação de uma parte dos seus dirigentes para continuar a travá-la. Esta diferença entre a derrota militar e a aceitação política da derrota é indispensável para compreender o emprego das bombas atómicas sobre Hiroshima e Nagasaki.

A Marinha Imperial perdera grande parte da sua capacidade operacional. O bloqueio estrangulava a economia e os bombardeamentos devastavam as cidades. Apesar disso, milhões de militares japoneses permaneciam mobilizados, no arquipélago e nos territórios ocupados. A superioridade aliada tornava a vitória previsível; não tornava a rendição imediata. (history.navy.mil⁠)

Okinawa demonstrara o que essa resistência podia significar. Entre abril e junho de 1945, os norte-americanos sofreram cerca de 49 mil baixas, incluindo aproximadamente 12 mil mortos. As perdas militares japonesas e a mortalidade da população civil foram devastadoras. Para quem sobrevivera à campanha, a perspetiva de desembarcar no Japão anunciava uma nova experiência de destruição, talvez ainda mais terrível. (nationalww2museum.org⁠)

É a partir dessa experiência que deve compreender-se o alívio de muitos combatentes perante a notícia das bombas. Para esses homens, o fim da guerra significava sobreviver, regressar à família e escapar à possibilidade de uma mutilação permanente. A ideia de que uma bomba disponível mais cedo poderia ter evitado Okinawa exprime uma interrogação humana legítima. Historicamente, permanece uma hipótese: não podemos saber se o seu emprego antecipado teria produzido a rendição.

Os planos aliados permitem, contudo, perceber a dimensão do perigo. A operação Olympic previa desembarques em Kyushu em novembro de 1945; a Coronet, uma invasão da região de Tóquio, em Honshu, na primavera de 1946. A preparação exigia uma concentração gigantesca de forças e a transferência de unidades que tinham combatido na Europa. Homens que acabavam de sobreviver à guerra contra Hitler preparavam-se para enfrentar outro teatro de operações, outro inimigo e novas perdas. Os planeadores admitiam que os combates pudessem prolongar-se até 1947. (history.navy.mil⁠)

As estimativas de baixas variavam consideravelmente. Não existe um número único que permita afirmar quantas pessoas morreriam numa invasão ou quanto tempo duraria a guerra. Além disso, baixas militares não significam apenas mortos: incluem feridos e desaparecidos. A possibilidade de uma catástrofe humana era real; a sua dimensão exata permanece impossível de demonstrar.

A guerra continuava também fora do arquipélago. Na China e noutros territórios ocupados, populações e prisioneiros permaneciam sujeitos à violência, à privação e à morte. O prolongamento do conflito tinha um custo diário que não pode ser excluído do julgamento sobre agosto de 1945. A alternativa às bombas teria de ser avaliada pelas consequências previsíveis de continuar os combates, o bloqueio e os bombardeamentos.

Isso exige rigor na utilização dos números. As cifras de entre 8.000 a 14.000 mortos por dia, referidas por Richard B. Frank, e de mais de 5 milhões de vítimas em mais dois anos de guerra não devem ser tratadas como factos estabelecidos sem uma fundamentação que esclareça o que contabilizam e como foram calculadas. Do mesmo modo, as estimativas das autoridades de Hiroshima apontam para cerca de 140 mil mortos nessa cidade e 74 mil em Nagasaki até ao final de 1945. Estes valores já incluem muitas mortes posteriores às explosões, mas não encerram o sofrimento causado pelas radiações. (pref.hiroshima.lg.jp⁠)

As bombas tiveram um papel central na rendição. A entrada da União Soviética na guerra foi também um choque decisivo: destruiu a esperança japonesa de uma mediação de Moscovo e agravou a situação estratégica. Mesmo perante estes acontecimentos, a direção japonesa continuou dividida. A intervenção do imperador foi necessária para ultrapassar o impasse. Por isso, a importância relativa das bombas e da ofensiva soviética continua a ser discutida. (history.navy.mil⁠)

Existe, porém, fundamento documental para reconhecer que Hiroshima ofereceu aos partidários da paz uma oportunidade de vencer a resistência dos militaristas. Num testemunho recolhido após a guerra, o secretário do gabinete japonês descreveu a bomba como o acontecimento que permitia impulsionar a decisão de terminar o conflito. A catástrofe externa ajudava a romper uma paralisia interna. (history.state.gov⁠)

O julgamento histórico encontra aqui a ética. Quem decidia em 1945 desconhecia o futuro, mas tinha de responder pelas consequências previsíveis das suas escolhas. Continuar uma guerra perdida também era uma decisão. Sacrificava soldados, prisioneiros e populações em nome de objetivos que já não podiam ser alcançados. A responsabilidade da direção imperial japonesa por esse prolongamento deve permanecer presente quando se examina a responsabilidade norte-americana pela destruição das duas cidades.

É historicamente defensável sustentar que Hiroshima e Nagasaki contribuíram decisivamente para abreviar a guerra e provavelmente evitaram uma mortandade ainda maior. Essa conclusão não permite calcular com certeza as vidas poupadas nem transforma a morte dos habitantes das duas cidades num acontecimento moralmente simples.

O sobrevivente de Okinawa que viu na bomba a possibilidade de regressar a casa e a criança de Hiroshima que perdeu a família pertencem à mesma história. Compreender agosto de 1945 exige olhar para ambos: reconhecer o horror infligido e considerar, com a prudência que a história impõe, o horror que o fim da guerra poderá ter evitado.

Francisco Vaz

11 de outubro de 2026


PACEM IN TERRIS - Da paz de João XXIII à paz desarmada e desarmante de Leão XIV

A paz e a condição humana

A paz constitui uma das mais antigas e persistentes aspirações da humanidade. Paradoxalmente, porém, a história revela uma extraordinária capacidade para desejar a paz e, simultaneamente, criar as condições que a tornam impossível. As civilizações desenvolveram instituições, sistemas jurídicos, formas de organização política e instrumentos de cooperação, mas não conseguiram eliminar a violência, a injustiça e a guerra. Talvez porque a paz, antes de constituir um problema político, seja uma questão profundamente enraizada na própria condição humana.

O fim das hostilidades não significa necessariamente o estabelecimento da paz. Uma guerra pode terminar sem que desapareçam as causas que a provocaram. A imposição da vontade do vencedor pode produzir silêncio, submissão ou resignação, mas não necessariamente reconciliação. Do mesmo modo, a ausência de violência manifesta pode ocultar situações de injustiça que conservam intactas as sementes de futuros conflitos.

A paz exige, portanto, uma compreensão mais profunda do que aquela que a identifica com a simples ausência de guerra. Não se reduz ao equilíbrio entre forças adversárias, à eficácia dos tratados internacionais ou à capacidade dissuasora dos arsenais militares. Embora estas realidades possam desempenhar uma função na preservação da segurança, nenhuma delas, isoladamente, constitui o fundamento último de uma paz duradoura.

É precisamente esta questão que atravessa o pensamento social cristão contemporâneo, encontrando uma das suas formulações mais significativas na encíclica Pacem in Terris, publicada por São João XXIII em 11 de abril de 1963.

Desde então, os sucessivos pontífices aprofundaram uma reflexão que, sem abandonar os fundamentos estabelecidos por João XXIII, procurou responder às transformações políticas, sociais e culturais do mundo contemporâneo. Da justiça ao desenvolvimento, da solidariedade ao perdão, da fraternidade à proposta de uma paz desarmada e desarmante, desenha-se um percurso de notável continuidade doutrinal.

Mais do que uma sucessão de ensinamentos pontifícios, este percurso constitui uma verdadeira antropologia da paz: uma reflexão sobre o homem, a sua dignidade, a sua liberdade e a sua responsabilidade perante os outros.

João XXIII: a paz fundada numa ordem moral

Quando João XXIII publicou a Pacem in Terris, a humanidade vivia sob a ameaça permanente de uma guerra nuclear. A crise dos mísseis de Cuba, em outubro de 1962, demonstrara como decisões políticas tomadas num contexto de confronto ideológico podiam colocar em risco a sobrevivência de milhões de pessoas.

O desenvolvimento tecnológico proporcionara à humanidade uma capacidade de destruição sem precedentes. A inteligência humana, capaz de desvendar os segredos da natureza, parecia incapaz de assegurar uma convivência pacífica entre os povos.

É neste contexto que João XXIII introduz uma perspetiva decisiva. A paz não depende apenas da organização do poder ou da contenção dos conflitos. Depende, antes de tudo, do reconhecimento de uma ordem moral que precede e fundamenta a própria organização política.

A encíclica começa com uma afirmação que contém o núcleo essencial do seu pensamento:

«A paz na terra, anseio profundo de todos os homens de todos os tempos, não se pode estabelecer nem consolidar senão no pleno respeito da ordem instituída por Deus.»¹

João XXIII parte da observação de que o universo manifesta uma ordem inteligível, que a razão humana procura compreender. Mas também a convivência entre as pessoas exige uma ordem, fundada na natureza e na dignidade do ser humano.

A paz não pode, por conseguinte, resultar exclusivamente da imposição da força. Uma ordem sustentada apenas pelo medo permanece vulnerável, porque não transforma as razões que conduzem ao conflito.

A verdadeira paz deve assentar em quatro fundamentos inseparáveis: verdade, justiça, amor e liberdade.

A verdade exige o reconhecimento da dignidade de cada pessoa, impedindo que o outro seja reduzido a instrumento dos nossos interesses. A justiça traduz esse reconhecimento em direitos e deveres concretos. O amor impede que a convivência humana se limite ao cumprimento formal das obrigações jurídicas. A liberdade torna possível a responsabilidade moral, sem a qual nenhuma ordem social pode considerar-se autenticamente humana.

Estes quatro princípios constituem a arquitetura moral da Pacem in Terris.

Mas João XXIII acrescenta uma dimensão particularmente importante: a reciprocidade entre direitos e deveres. O direito à vida implica o dever de respeitar a vida alheia; o direito à liberdade pressupõe o reconhecimento da liberdade dos outros.

A dignidade humana não constitui, assim, uma prerrogativa individual desligada da comunidade. É simultaneamente fundamento de direitos e origem de responsabilidades.

O Papa transfere depois estes princípios das relações interpessoais para as relações entre os Estados. Também as nações devem orientar a sua convivência pela verdade, pela justiça, pela solidariedade e pela liberdade.

Nenhum Estado pode procurar legitimamente o seu próprio bem ignorando o bem dos outros. A soberania política não elimina a pertença a uma comunidade humana mais vasta.

Surge, deste modo, o conceito de bem comum universal, particularmente relevante num mundo em que os problemas fundamentais ultrapassam as fronteiras nacionais.

A proteção dos direitos humanos, a segurança internacional, o desenvolvimento económico e a prevenção da guerra exigem instituições e mecanismos de cooperação que correspondam à crescente interdependência da humanidade.

A Pacem in Terris representa, por isso, um momento decisivo na evolução da Doutrina Social da Igreja. A questão social, inicialmente desenvolvida por Leão XIII na Rerum Novarum, de 1891, sobretudo perante os problemas do trabalho e da industrialização, alcança agora plenamente a dimensão das relações internacionais.

A paz deixa de ser apenas uma questão entre Estados. Torna-se uma responsabilidade da própria família humana.

O Concílio Vaticano II: a paz como obra da justiça

A reflexão de João XXIII seria retomada e aprofundada pelo Concílio Vaticano II na Constituição Pastoral Gaudium et Spes, promulgada em 1965.

O Concílio rejeita expressamente uma compreensão negativa da paz, entendida como mera ausência de guerra, equilíbrio entre forças adversárias ou consequência da dominação de uns povos sobre outros.

Retomando a tradição profética de Isaías, afirma que a paz é obra da justiça.²

Esta definição possui consequências profundas. A paz não constitui simplesmente uma situação política favorável, mas o resultado de relações humanas organizadas segundo a justiça e orientadas para o bem comum.

Contudo, o Concílio acrescenta uma observação igualmente decisiva: a paz nunca se alcança de uma vez para sempre.

É uma construção permanente.

A ordem justa exige atenção constante às transformações históricas, às necessidades das pessoas e às condições concretas da convivência social. Cada geração recebe a paz como uma responsabilidade, não como uma herança definitivamente assegurada.

A Gaudium et Spes reconhece que a dissuasão militar pode impedir temporariamente o desencadeamento de uma guerra, mas recusa identificar o equilíbrio do medo com uma paz verdadeira.

A corrida aos armamentos, longe de resolver as causas dos conflitos, pode agravá-las, desviando recursos indispensáveis ao desenvolvimento humano e perpetuando relações internacionais dominadas pela desconfiança.

Importa, todavia, evitar uma interpretação ingénua desta doutrina.

O Concílio reconhece a responsabilidade das autoridades políticas na defesa das populações e admite, sob condições rigorosas, o exercício da legítima defesa enquanto não existir uma autoridade internacional eficaz capaz de garantir a segurança comum.

A paz cristã não significa indiferença perante o mal, nem renúncia à proteção dos inocentes. Significa que a força, quando moralmente admissível, deve permanecer subordinada ao direito, à justiça e à dignidade humana.

A paz não se confunde com a passividade. Mas também não pode ser construída sobre a absolutização da força.

É nesta tensão entre a necessidade de proteger e a obrigação de reconciliar que se manifesta uma das exigências mais difíceis da responsabilidade política.

O Concílio acrescenta ainda que a justiça, embora indispensável, não basta por si só. A paz exige também o amor, porque a convivência humana não se esgota no reconhecimento jurídico dos direitos.

A justiça estabelece as condições da paz. O amor abre a possibilidade de ultrapassar as divisões que a justiça, isoladamente, nem sempre consegue superar.

Paulo VI: o desenvolvimento como condição da paz

Em 1967, Paulo VI publica a encíclica Populorum Progressio, introduzindo uma dimensão que se tornaria fundamental no pensamento social cristão: a relação entre paz e desenvolvimento.

O Papa reconhece que as desigualdades económicas e sociais entre os povos não constituem apenas problemas de distribuição da riqueza. Podem transformar-se em causas profundas de instabilidade, ressentimento e violência.

Um mundo dividido entre sociedades que dispõem de abundantes recursos e populações privadas do essencial não pode considerar-se verdadeiramente pacificado.

Mesmo quando não existe guerra declarada, a injustiça estrutural compromete as condições de uma convivência duradoura.

É neste contexto que Paulo VI formula uma das expressões mais conhecidas da Doutrina Social da Igreja:

«O desenvolvimento é o novo nome da paz.»³

O desenvolvimento, porém, não se reduz ao crescimento económico.

A prosperidade material, embora necessária, não assegura por si só a realização humana. Uma sociedade pode tornar-se economicamente poderosa e permanecer moralmente empobrecida.

O verdadeiro desenvolvimento deve ser integral, abrangendo todas as dimensões da pessoa: material, social, cultural, moral e espiritual.

Deve promover todos os homens e o homem todo.

A paz passa, assim, a exigir condições concretas que permitam a cada pessoa realizar a sua dignidade e participar responsavelmente na vida da comunidade.

Esta reflexão conduz Paulo VI a uma iniciativa de grande alcance pastoral: a instituição do Dia Mundial da Paz, celebrado pela primeira vez em 1 de janeiro de 1968.

A partir desse momento, a paz torna-se objeto de uma pedagogia anual dirigida à Igreja e ao mundo.

As mensagens pontifícias procuram interpretar os desafios de cada época à luz dos princípios permanentes da Doutrina Social da Igreja.

A paz deixa de ser apenas o tema de grandes documentos doutrinais. Passa a constituir uma exigência continuada de formação das consciências.

João Paulo II: liberdade, solidariedade e perdão

Durante o longo pontificado de João Paulo II, a reflexão sobre a paz adquiriu uma amplitude particularmente significativa.

As mensagens anuais para o Dia Mundial da Paz abordaram sucessivamente a educação, a liberdade, a solidariedade, os direitos das minorias, a liberdade religiosa, a pobreza, a responsabilidade perante a criação e o perdão.

Esta diversidade temática revela uma convicção fundamental: a paz não pode ser compreendida exclusivamente no âmbito das relações internacionais.

A sua possibilidade depende da conceção que temos da pessoa humana e da forma como organizamos a vida em sociedade.

Não existe paz verdadeira onde a liberdade religiosa é negada, onde as minorias são perseguidas ou onde os pobres são privados das condições necessárias a uma existência digna.

Também não existe paz duradoura quando as sociedades permanecem prisioneiras da humilhação, do ressentimento e da vingança.

Na encíclica Sollicitudo Rei Socialis, de 1987, João Paulo II aprofunda o conceito de solidariedade, recusando reduzi-lo a um sentimento passageiro de compaixão.

A solidariedade constitui uma determinação firme e perseverante de procurar o bem comum, fundada na consciência de que todos somos responsáveis por todos.⁴

Esta conceção introduz uma exigência que ultrapassa a simples coexistência pacífica.

Não basta tolerar a presença do outro. É necessário reconhecer que o seu destino não nos é indiferente.

A paz torna-se, deste modo, uma responsabilidade partilhada.

Mas João Paulo II levaria esta reflexão ainda mais longe, introduzindo uma dimensão particularmente exigente: o perdão.

Na mensagem para o Dia Mundial da Paz de 2002, publicada poucos meses depois dos atentados de 11 de Setembro, escolheu como tema:

«Não há paz sem justiça, não há justiça sem perdão.»⁵

A afirmação não pretende substituir a justiça pelo perdão.

O perdão não elimina a responsabilidade, não apaga o mal cometido nem dispensa a reparação devida às vítimas.

O perdão opõe-se à vingança, não à justiça.

A distinção é essencial.

A justiça procura reconhecer a verdade dos acontecimentos, estabelecer responsabilidades e restaurar os direitos violados. Mas nem sempre consegue, por si só, interromper a reprodução da violência.

O ressentimento pode sobreviver à punição. A memória da ofensa pode transmitir-se de geração em geração. O desejo de vingança pode transformar as vítimas de ontem nos agressores de amanhã.

O perdão introduz então uma possibilidade radicalmente nova: libertar o futuro da repetição indefinida do passado.

Não significa esquecer a injustiça, mas recusar que ela determine para sempre as relações humanas.

A paz encontra aqui uma das suas dimensões mais profundas: a capacidade de transformar a memória do sofrimento sem a converter em fundamento de nova violência.

Assis: o encontro como caminho de paz

Entre os acontecimentos mais significativos do pontificado de João Paulo II encontra-se a jornada de oração pela paz realizada em Assis, em 27 de outubro de 1986.

Num mundo ainda dividido pela Guerra Fria, representantes de diferentes Igrejas e tradições religiosas reuniram-se para testemunhar uma responsabilidade comum perante a paz.⁶

O encontro não pretendia apagar as diferenças doutrinais, estabelecer uma religião universal ou relativizar a identidade das diversas tradições.

Tratava-se de reconhecer que a diversidade religiosa não precisava de constituir um obstáculo à convivência e que a procura da paz exigia uma disposição comum para o encontro.

Os participantes rezaram segundo as respetivas tradições, jejuaram, caminharam e fizeram silêncio.

Assis revelou uma dimensão da paz frequentemente esquecida nas análises políticas: a importância da escuta.

A violência começa muitas vezes quando deixamos de escutar o outro, quando o reduzimos a uma categoria ou quando substituímos o reconhecimento da sua humanidade por uma imagem construída a partir dos nossos medos e preconceitos.

O encontro não elimina automaticamente as divergências.

Mas permite que a diferença deixe de ser interpretada como ameaça.

Antes de procurar vencer o outro, importa compreendê-lo. Antes de transformar as estruturas da sociedade, é necessário reconhecer a responsabilidade da própria consciência.

A paz exige instituições justas, mas exige também homens capazes de habitar essas instituições sem reproduzir continuamente a lógica da hostilidade.

Bento XVI e Francisco: da verdade à fraternidade

Bento XVI aprofundaria esta reflexão na encíclica Caritas in Veritate, publicada em 2009.

Retomando a questão do desenvolvimento humano integral, o Papa coloca no centro a relação inseparável entre caridade e verdade.⁷

A caridade sem verdade corre o risco de se transformar em sentimentalismo, perdendo a capacidade de orientar racionalmente a ação humana.

A verdade sem caridade, por sua vez, pode converter-se numa abstração incapaz de transformar as relações concretas entre as pessoas.

A paz exige ambas.

Não basta desejar o bem. É necessário procurar compreendê-lo e realizá-lo segundo critérios que respeitem a dignidade humana.

Com o Papa Francisco, a reflexão sobre a paz encontra uma expressão particularmente significativa no conceito de fraternidade.

Na encíclica Fratelli Tutti, de 2020, a parábola do Bom Samaritano torna-se uma chave de interpretação da convivência humana.⁸

Um homem encontra-se caído à beira da estrada. Outros passam, observam e prosseguem o seu caminho. Apenas um se aproxima e assume a responsabilidade de cuidar daquele desconhecido.

A questão decisiva não consiste em saber a que grupo pertence o homem ferido, qual a sua origem ou quais as suas convicções.

Consiste em reconhecer que a sua vulnerabilidade interpela a nossa humanidade.

A fraternidade deixa, assim, de ser apenas uma disposição afetiva. Torna-se uma categoria moral, social e política.

A guerra começa muito antes do primeiro disparo.

Começa quando deixamos de reconhecer humanidade no outro. Quando o reduzimos a inimigo absoluto. Quando o sofrimento daqueles que se encontram do outro lado de uma fronteira, de uma religião ou de uma divergência política deixa de nos interpelar.

A fraternidade procura contrariar precisamente esta desumanização.

Não elimina os conflitos de interesses, as divergências políticas ou as responsabilidades históricas.

Mas impede que essas diferenças justifiquem a negação da dignidade do outro.

A paz exige, portanto, mais do que tolerância. Exige a consciência de uma pertença humana comum.

Leão XIV: uma paz desarmada e desarmante

Quando Leão XIV apareceu pela primeira vez na varanda central da Basílica de São Pedro, em 8 de maio de 2025, dirigiu ao mundo a saudação do Cristo ressuscitado:

«A paz esteja com todos vós.»

E acrescentou uma expressão que viria a marcar a orientação do seu pontificado: uma paz desarmada, uma paz que desarma, humilde e perseverante.⁹

Esta formulação encontraria desenvolvimento na mensagem para o Dia Mundial da Paz de 2026, intitulada A paz esteja com todos vós. Rumo a uma paz desarmada e desarmante.¹⁰

A expressão possui uma densidade que merece ser considerada.

Uma paz desarmada é, antes de tudo, uma paz que não procura afirmar-se através da ameaça, da humilhação ou da imposição.

Não significa necessariamente a ausência de todos os instrumentos de defesa, nem a renúncia à responsabilidade de proteger os inocentes.

Significa reconhecer que a força, mesmo quando legitimamente utilizada, não possui capacidade suficiente para produzir uma reconciliação verdadeira.

Pode conter uma agressão, impedir uma injustiça ou restabelecer condições mínimas de segurança. Mas não consegue, por si só, transformar a hostilidade em confiança.

A paz exige mais do que a cessação da violência.

É precisamente aqui que a segunda palavra adquire especial significado.

Uma paz desarmante.

O adjetivo desloca a reflexão do instrumento para a intenção, da arma para a consciência, da violência manifesta para as disposições interiores que a tornam possível.

Desarmar não significa apenas retirar as armas das mãos.

Significa procurar desarmar o medo, o ódio, a mentira, a humilhação, o ressentimento e a vontade de domínio que frequentemente conduzem os homens a empunhá-las.

A distinção é fundamental.

Uma paz desarmada descreve uma forma de agir.

Uma paz desarmante exprime uma capacidade de transformar.

A primeira recusa fazer da violência o fundamento das relações humanas. A segunda procura interromper os mecanismos morais e psicológicos que perpetuam a violência.

Não se trata, porém, de uma transformação exclusivamente interior.

A paz começa na consciência, mas não termina nela.

Tem de encontrar expressão na justiça, no direito, nas instituições, na solidariedade, no diálogo e na reconciliação.

Uma paz apenas interior seria insuficiente perante a realidade das injustiças sociais e políticas. Mas uma paz exclusivamente institucional, sem transformação moral, permaneceria sempre vulnerável à reaparição dos mesmos conflitos.

Esta continuidade não resulta apenas de uma aproximação interpretativa entre dois pontificados separados por mais de seis décadas. Na sua mensagem para o Dia Mundial da Paz de 2026, Leão XIV regressa expressamente à Pacem in Terris, convocando o ensinamento de João XXIII para refletir sobre o desarmamento, a confiança entre os povos e a superação da lógica da ameaça.

O percurso iniciado em 1963 encontra, assim, uma nova expressão num mundo profundamente transformado, mas ainda confrontado com a mesma contradição fundamental: a capacidade humana de produzir instrumentos cada vez mais sofisticados de destruição não tem sido acompanhada por idêntico progresso na construção de uma ordem internacional verdadeiramente justa.

A paz desarmada e desarmante não representa, por isso, uma alternativa aos fundamentos da Pacem in Terris, mas um apelo renovado à sua realização histórica.

João XXIII afirmara que a paz exige uma ordem fundada na verdade, na justiça, no amor e na liberdade.

Leão XIV recorda que essa ordem dificilmente poderá consolidar-se enquanto as relações humanas permanecerem dominadas pela lógica da hostilidade.

Entre os dois pontífices não existe uma rutura doutrinal, mas um aprofundamento da mesma exigência.

A paz é simultaneamente uma ordem moral e uma transformação das relações humanas.

A paz entre a responsabilidade política e a exigência moral

A reflexão cristã sobre a paz coloca-nos perante uma tensão que não deve ser ignorada.

Se a paz constitui um bem moral fundamental, como compreender a necessidade de recorrer à força para impedir uma agressão ou proteger populações indefesas?

A tradição cristã nunca resolveu esta questão através de uma identificação simplista entre paz e ausência de resistência.

Reconheceu, pelo contrário, que a responsabilidade perante os outros pode exigir decisões difíceis, especialmente quando estão em causa a vida, a liberdade e a segurança de pessoas inocentes.

A legítima defesa, submetida a condições morais rigorosas, não contradiz necessariamente a procura da paz.¹¹

Mas a possibilidade de recorrer legitimamente à força não transforma a guerra num bem, nem permite ignorar os limites morais da ação militar.

A força pode ser necessária para impedir um mal maior. Não pode, contudo, converter-se no princípio organizador da convivência internacional.

O verdadeiro problema não consiste apenas em determinar quando é legítimo combater, mas também em compreender como impedir que a necessidade de combater destrua as condições de uma paz futura.

A vitória militar e a paz política não são realidades equivalentes.

A história oferece numerosos exemplos de guerras terminadas no campo de batalha cujas consequências permaneceram abertas durante gerações.

A humilhação dos vencidos, a ausência de justiça, a destruição das instituições e a incapacidade de reconstruir relações de confiança podem transformar o fim de uma guerra no início de outro conflito.

A paz exige, portanto, prudência política e responsabilidade moral.

Exige a capacidade de distinguir entre a necessidade de conter a violência e a tentação de fazer da violência um instrumento permanente de domínio.

Neste sentido, a paz desarmada e desarmante não representa uma fuga à realidade histórica.

Representa antes uma exigência crítica dirigida ao exercício do poder.

Recorda que a legitimidade dos meios não pode ser separada da moralidade dos fins e que a proteção da dignidade humana deve permanecer como critério último da ação política.

A paz como dom e como tarefa

O percurso que vai de João XXIII a Leão XIV permite reconhecer uma notável continuidade no pensamento social cristão.

A Pacem in Terris estabeleceu os fundamentos morais da paz: verdade, justiça, amor e liberdade.

O Concílio Vaticano II apresentou-a como obra permanente da justiça, recusando identificá-la com o simples equilíbrio do medo.

Paulo VI demonstrou que não existe paz duradoura sem desenvolvimento humano integral.

João Paulo II aprofundou a relação entre paz, liberdade, solidariedade e perdão, mostrando que a reconciliação exige mais do que a reparação jurídica das injustiças.

Bento XVI recordou a inseparabilidade entre caridade e verdade.

Francisco colocou a fraternidade no centro da convivência humana.

Leão XIV convida agora a compreender a paz como uma realidade simultaneamente desarmada e desarmante.

Não se trata de uma sucessão de conceitos independentes, mas de diferentes dimensões de uma mesma compreensão da pessoa humana.

A paz não começa quando termina a guerra.

Começa muito antes, quando reconhecemos no outro uma pessoa cuja dignidade não depende da sua nacionalidade, religião, condição social ou posição política.

Começa quando compreendemos que aos nossos direitos correspondem deveres.

Quando a justiça se abre à solidariedade.

Quando a liberdade se torna responsabilidade.

Quando o perdão permite interromper a transmissão do ressentimento.

E quando a fraternidade impede que as diferenças se transformem em justificação para a desumanização.

Contudo, a perspetiva cristã introduz uma dimensão que ultrapassa a ordem política e social.

A paz é também um dom.

No Evangelho de São João, Cristo ressuscitado aparece aos discípulos reunidos no Cenáculo. Estão fechados, dominados pelo medo, com as portas trancadas.

Jesus apresenta-se no meio deles, mostra-lhes as mãos e o lado, e dirige-lhes a saudação:

«A paz esteja convosco.»¹²

A cena possui um significado extraordinário.

Cristo ressuscitado conserva as marcas da Paixão.

As feridas não desapareceram.

Mas já não produzem novas feridas.

A violência sofrida não se transforma em desejo de vingança. O sofrimento não conduz à reprodução do mal. A injustiça não recebe como resposta uma nova injustiça.

A Ressurreição revela, deste modo, uma possibilidade radicalmente nova para a existência humana: a de superar a violência sem negar a realidade do sofrimento.

Talvez resida aqui a dimensão mais profunda da paz cristã.

A verdadeira paz não nasce da ausência de sofrimento, mas da possibilidade de impedir que o sofrimento continue a alimentar a violência.

Não nasce do esquecimento da injustiça, mas da capacidade de a superar sem reproduzir o mal.

Não nasce da destruição do inimigo, mas da recusa de transformar definitivamente o outro em inimigo.

A paz é, por isso, simultaneamente dom e tarefa.

É dom porque a reconciliação plena ultrapassa as capacidades humanas e encontra em Cristo o seu fundamento último.

É tarefa porque exige decisões concretas, responsabilidade moral, compromisso social e perseverança histórica.

Não podemos limitar-nos a pedir a paz sem assumir a responsabilidade de a construir.

Mas também não podemos acreditar que a sua construção depende exclusivamente da eficácia das nossas instituições ou da capacidade dos nossos instrumentos políticos.

Entre a graça e a liberdade, entre a oração e a ação, entre a esperança e a responsabilidade, desenvolve-se a vocação cristã para a paz.

É esta tensão fecunda que atravessa o pensamento social da Igreja, desde a Pacem in Terris até ao apelo de Leão XIV.

E talvez possamos encontrar a sua expressão mais simples na antiga súplica que a música de Marco Frisina transforma numa oração coletiva:

Dona nobis pacem in terris.

Dá-nos a paz na Terra.

Não uma paz fundada na indiferença, no medo ou na submissão, mas uma paz construída sobre a verdade, a justiça, o amor e a liberdade.

Uma paz que proteja os inocentes sem perpetuar o ódio.

Que reconheça as feridas da história sem as transformar em condenação do futuro.

Que seja suficientemente firme para resistir ao mal e suficientemente generosa para abrir caminho à reconciliação.

Uma paz desarmada e desarmante.

Porque, em última análise, a paz não é apenas aquilo que os homens desejam receber.

É também aquilo que são chamados a oferecer.

«Felizes os que promovem a paz, porque serão chamados filhos de Deus.» (Mt 5,9)


Francisco Vaz

15 de outubro de 2026


Nota editorial

Este artigo tem por base a apresentação efectuada na Casa Sacerdotal no dia 15 de outubro de 2026.

Notas

1. João XXIII, Carta encíclica Pacem in Terris, 11 de abril de 1963, n.os 1, 28–38 e 80–85. O documento estabelece os fundamentos da convivência humana na verdade, na justiça, no amor e na liberdade, estendendo-os às relações entre as comunidades políticas. Disponível em: https://www.vatican.va/content/john-xxiii/pt/encyclicals/documents/hf_j-xxiii_enc_11041963_pacem.html.

2. Concílio Vaticano II, Constituição Pastoral Gaudium et Spes, 7 de dezembro de 1965, n.os 77–82, especialmente n.º 78, sobre a paz como obra da justiça, n.º 79, relativo à responsabilidade de defesa, e n.º 81, sobre a corrida aos armamentos. Disponível em: https://www.vatican.va/archive/hist_councils/ii_vatican_council/documents/vat-ii_const_19651207_gaudium-et-spes_po.html.

3. Paulo VI, Carta encíclica Populorum Progressio, 26 de março de 1967, n.os 14, 42 e 76–80. A expressão «O desenvolvimento é o novo nome da paz» corresponde ao título da secção iniciada no n.º 76. Ver também Paulo VI, Mensagem para o I Dia Mundial da Paz, 1 de janeiro de 1968. Disponível em: https://www.vatican.va/content/paul-vi/pt/encyclicals/documents/hf_p-vi_enc_26031967_populorum.html.

4. João Paulo II, Carta encíclica Sollicitudo Rei Socialis, 30 de dezembro de 1987, n.os 38–40, especialmente n.º 38, onde a solidariedade é definida como determinação firme e perseverante de procurar o bem comum. Disponível em: https://www.vatican.va/content/john-paul-ii/pt/encyclicals/documents/hf_jp-ii_enc_30121987_sollicitudo-rei-socialis.html.

5. João Paulo II, Mensagem para o XXXV Dia Mundial da Paz, Não há paz sem justiça, não há justiça sem perdão, 1 de janeiro de 2002, especialmente n.os 8–10 e 15. O Papa distingue expressamente o perdão da impunidade e da renúncia à justiça. Disponível em: https://www.vatican.va/content/john-paul-ii/pt/messages/peace/documents/hf_jp-ii_mes_20011211_xxxv-world-day-for-peace.html.

6. João Paulo II, discursos proferidos durante a Jornada Mundial de Oração pela Paz, Assis, 27 de outubro de 1986. Ver, em particular, a intervenção conclusiva na Basílica de São Francisco, relativa à responsabilidade comum das religiões na promoção da paz, sem apagamento das respetivas diferenças doutrinais.

7. Bento XVI, Carta encíclica Caritas in Veritate, 29 de junho de 2009, n.os 1–7 e 11. O documento desenvolve a inseparabilidade entre caridade, verdade, justiça e desenvolvimento humano integral. Disponível em: https://www.vatican.va/content/benedict-xvi/pt/encyclicals/documents/hf_ben-xvi_enc_20090629_caritas-in-veritate.html.

8. Francisco, Carta encíclica Fratelli Tutti, 3 de outubro de 2020, n.os 56–86, sobre a parábola do Bom Samaritano; 128–153, sobre a fraternidade na vida social e política; e 225–245, sobre os percursos de reconciliação e paz. Disponível em: https://www.vatican.va/content/francesco/pt/encyclicals/documents/papa-francesco_20201003_enciclica-fratelli-tutti.html.

9. Leão XIV, Primeira Bênção Urbi et Orbi, 8 de maio de 2025. O Papa inicia a sua intervenção com a saudação do Cristo ressuscitado e apresenta a paz como desarmada, capaz de desarmar, humilde e perseverante. Disponível em: https://www.vatican.va/content/leo-xiv/pt/messages/urbi/documents/20250508-prima-benedizione-urbietorbi.html.

10. Leão XIV, Mensagem para o LIX Dia Mundial da Paz, A paz esteja com todos vós. Rumo a uma paz desarmada e desarmante, 8 de dezembro de 2025, para a celebração de 1 de janeiro de 2026. O documento retoma explicitamente a Pacem in Terris e desenvolve a relação entre desarmamento, confiança, educação para a paz e transformação das consciências. Disponível em: https://www.vatican.va/content/leo-xiv/pt/messages/peace/documents/20251208-messaggio-pace.html.

11. Concílio Vaticano II, Gaudium et Spes, n.os 79–82; Catecismo da Igreja Católica, n.os 2302–2317, especialmente n.º 2309, sobre as condições morais rigorosas da legítima defesa mediante a força militar. Ver igualmente Francisco, Fratelli Tutti, n.os 256–262, para uma apreciação contemporânea das dificuldades de aplicação dos critérios tradicionais da guerra justa.

12. Bíblia Sagrada, Jo 20,19–23; Jo 14,27; Ef 2,14–18; Mt 5,9. A interpretação das feridas do Ressuscitado como expressão de uma violência que deixa de gerar nova violência constitui uma reflexão teológica do autor, inspirada no significado pascal da reconciliação.