Pecado original

Pecado original

sábado, 28 de março de 2026

Europa entre Mitos e Realidade

A Guerra na Ucrânia e o Desafio do Mundo Pós-Soviético

A guerra na Ucrânia não pode ser compreendida apenas como um conflito territorial ou como mais um episódio de rivalidade geopolítica entre potências. Como sublinhou Carmen Claudín na sua conferência na Fundación Juan March, trata-se, antes de mais, de um confronto entre narrativas — entre a construção de mitos políticos e a realidade histórica do espaço pós-soviético.

O pós-império que nunca terminou

Com o colapso da União Soviética, em 1991, emergiu formalmente um conjunto de Estados independentes. Contudo, essa independência nunca foi plenamente aceite por Moscovo como um dado irreversível. A Rússia continuou a ver o espaço pós-soviético como a sua esfera natural de influência, mantendo uma posição hegemónica, tanto política como simbólica.

As relações entre estas novas repúblicas revelaram-se tudo menos fraternas. A retórica soviética de “irmandade dos povos” deu lugar a tensões, desconfianças e, em muitos casos, conflitos congelados. A estratégia russa de distribuição de passaportes em regiões com populações russófonas tornou-se um instrumento eficaz para justificar intervenções futuras, criando uma espécie de soberania paralela que fragiliza os Estados vizinhos.

Neste contexto, a Ucrânia surge como o caso mais emblemático: simultaneamente próxima e irredutível, parte de uma história comum mas afirmando uma identidade política própria.

Os mitos como instrumento de poder

Segundo Claudín, a política externa russa assenta numa construção ideológica profundamente enraizada, feita de mitos fundacionais que moldam a perceção do mundo e legitimam a ação do Kremlin.

Entre esses mitos destaca-se a ideia de que a Rússia não está completa sem a Ucrânia e a Bielorrússia — como se estas fossem extensões naturais de um corpo histórico maior. A isto junta-se uma noção de excepcionalismo russo, que atribui ao país uma missão civilizadora sobre os povos vizinhos, e a convicção de que apenas o poder e a força garantem respeito no sistema internacional.

Este imaginário é reforçado por uma persistente mentalidade imperial, que vê ucranianos e bielorrussos como “irmãos menores”, negando-lhes plena autonomia histórica e política. Não se trata apenas de nostalgia; trata-se de uma visão ativa do mundo que orienta decisões estratégicas.

A guerra como narrativa

A invasão da Ucrânia foi justificada pelo Kremlin através de dois grandes eixos discursivos: a alegada “desnazificação” e a ameaça da expansão da OTAN.

Ambos os argumentos, como salientado na conferência, assentam em distorções profundas. A ideia de uma Ucrânia dominada por forças neonazis não encontra sustentação na realidade política do país — cujo presidente, Volodymyr Zelensky, é judeu e falante de russo, e onde a extrema-direita tem expressão marginal. Mais ainda, muitos dos que resistem à invasão são precisamente russófonos.

A “desnazificação” surge, assim, não como objetivo real, mas como linguagem legitimadora de uma operação mais profunda: a negação da identidade ucraniana enquanto tal.

Quanto à narrativa da ameaça da OTAN, Claudín recorda que o verdadeiro ponto de rutura foi o movimento popular do Euromaidan, em 2014 — uma mobilização interna que expressou a vontade de aproximação à Europa e de rejeição da tutela russa. A expansão da OTAN surge, neste quadro, mais como consequência do receio dos países da região face à Rússia do que como causa do conflito.

A hesitação do Ocidente

A resposta do Ocidente tem sido marcada por ambivalência. Por um lado, a União Europeia e a OTAN reconheceram a gravidade da agressão e apoiaram a Ucrânia. Por outro, esse apoio tem sido frequentemente tardio e insuficiente, contribuindo para um cenário de estagnação militar.

Durante anos, prevaleceu uma lógica de acomodação dos interesses russos, na esperança de evitar o confronto direto. A guerra demonstrou os limites dessa estratégia. Como sublinha Claudín, a contenção eficaz da agressão russa não passa pelo apaziguamento, mas pelo reforço da capacidade de resistência ucraniana.

Paradoxalmente, a invasão teve um efeito inesperado: reforçou a identidade nacional ucraniana. Desde 2014, e de forma mais intensa após 2022, a Ucrânia consolidou-se como nação política, unida não apenas por fronteiras, mas por uma experiência comum de resistência.

Europa perante si mesma

A guerra na Ucrânia é, também, um teste à Europa. Não apenas à sua capacidade militar ou diplomática, mas à sua clareza estratégica.

Num mundo em transformação, onde o centro de gravidade se desloca e onde as grandes potências afirmam interesses de forma mais explícita, a Europa é confrontada com uma escolha: agir como sujeito ou resignar-se a ser objeto.

A questão colocada por Claudín permanece em aberto: como responder sem escalar o conflito, mas também sem ceder à lógica de facto consumado? A resposta implica, inevitavelmente, um reforço da unidade europeia e uma redefinição do seu papel no sistema internacional.

Entre a verdade e a narrativa

No fundo, a guerra na Ucrânia revela algo mais profundo do que uma disputa territorial: mostra o poder das narrativas na construção da realidade política. Quando mitos se tornam instrumentos de ação, deixam de ser apenas ideias — tornam-se forças materiais.

Combater esses mitos não é apenas um exercício académico; é uma necessidade estratégica.

Porque, como demonstra este conflito, as guerras do século XXI travam-se tanto no terreno como no imaginário. E é nesse duplo campo que se decide não apenas o destino da Ucrânia, mas o futuro da própria Europa.

Francisco Vaz

28 de Março de 2026

A Europa depois da Europa

Uma actualidade inquietante

A ideia de uma “Europa depois da Europa”, tal como formulada por Jan Patočka, ganha hoje uma atualidade quase inquietante. Se o século XX marcou o “suicídio” europeu através de duas guerras mundiais, o século XXI confronta o continente com um desafio mais subtil, mas talvez mais decisivo: o risco de irrelevância num mundo que já não se organiza em torno de si.

O texto de Emilio Lamo de Espinosa capta bem esta transição. Vivemos numa era paradoxal: ao mesmo tempo que a globalização se aprofunda, multiplicam-se os reflexos de retração identitária — nacionalismos, etnocentrismos, revisionismos históricos. Este movimento não é apenas político; é existencial. Trata-se, no fundo, de uma reação ao deslocamento do centro de gravidade do mundo.

Geoffrey Barraclough antecipava, em meados do século XX, que a “história europeia” deixaria de ser a história do mundo para se tornar apenas uma história regional. A passagem da “Era Atlântica” para uma emergente “Era do Pacífico” não é apenas geográfica; é civilizacional. Hoje, com a ascensão da China, da Índia e de outras potências asiáticas, essa previsão tornou-se realidade concreta.

Mas o mais inquietante não é esta deslocação — que, em certo sentido, corrige um desequilíbrio histórico —, mas a forma como a Europa reage a ela. Em vez de se projetar no mundo, tende a recolher-se em si mesma. Em vez de pensar o futuro, revisita obsessivamente o passado. Em vez de afirmar uma identidade aberta e dinâmica, fragmenta-se em identidades defensivas, muitas vezes recentes e artificialmente construídas.

Este é o “síndrome” identificado no texto: o medo do futuro traduzido como nostalgia do passado.

E, no entanto, a própria história recente da Europa mostra um caminho diferente. Após a devastação da Segunda Guerra Mundial, o continente foi capaz de se reinventar através de um projeto político sem precedentes — a integração europeia. A criação da União Europeia, apoiada por instrumentos como o Plano Marshall, permitiu transformar rivalidades históricas em cooperação estrutural.

Esse momento fundacional assentava numa lógica de abertura: abertura ao outro, ao comércio, ao mundo. Era uma Europa que, consciente da sua fragilidade, escolheu projetar-se para fora em vez de se fechar.

Hoje, porém, essa energia parece esgotar-se. Como advertia Herman Van Rompuy, o principal desafio já não é a guerra entre europeus, mas a forma como a Europa se posiciona no “oceano geopolítico” global. A questão deixou de ser interna; é externa. E é aqui que a hesitação europeia se torna mais visível.

Num mundo em rápida transformação — marcado por mudanças tecnológicas, pressões demográficas, competição entre grandes potências e crescente incerteza — a Europa corre o risco de se tornar espectadora. A transição de um sistema unipolar, centrado nos Estados Unidos, para uma ordem mais difusa e possivelmente multipolar coloca desafios que a Europa ainda não conseguiu internalizar plenamente.

Como sublinhou Federica Mogherini, está em causa não apenas o papel da União Europeia, mas a própria perceção da sua existência como ator relevante.

A reflexão de Niall Ferguson sobre a queda não linear dos impérios acrescenta um elemento de urgência: a história não garante transições suaves. Estruturas aparentemente sólidas podem colapsar rapidamente sob pressão de choques inesperados — os chamados “cisnes negros”. A incapacidade de antecipar eventos como o fim da União Soviética, o 11 de Setembro ou a crise financeira de 2008 deve servir de aviso.

Neste contexto, a Europa enfrenta uma escolha decisiva.

Ou se afirma como unidade política capaz de agir no mundo — não como um Estado clássico, mas como um ator estratégico coerente —, ou aceitará uma progressiva marginalização. Como lembra Angela Merkel, os europeus têm de “tomar o destino nas suas mãos”. Esta não é apenas uma afirmação política; é uma exigência histórica.

O paradoxo final é este: nunca os europeus viveram com tanto bem-estar, liberdade e segurança — e nunca o risco de irrelevância foi tão grande. Como observou Octavio Paz, a Europa corre o risco de se tornar uma “prosperidade sem grandeza”, confortável mas passiva, rica mas desprovida de vontade histórica.

A ideia de “Europa depois da Europa” não é, portanto, um epitáfio, mas um desafio. Obriga a repensar o continente não como centro do mundo, mas como parte de uma totalidade mais vasta — a “era planetária” de Patočka.

E talvez a lição mais exigente seja esta: a Europa só poderá continuar a ser relevante se aceitar deixar de ser central — e, a partir dessa consciência, reinventar a sua forma de presença no mundo.

Não olhando para trás, mas para fora. Não protegendo-se do futuro, mas entrando nele.

Francisco Vaz

28 de Março de 2026

Como terminar uma guerra

Lições da Segunda Guerra Mundial

Pensar “como terminar uma guerra” obriga a regressar a uma das decisões estratégicas mais marcantes do século XX: a imposição da rendição incondicional da Alemanha e do Japão por Winston Churchill e Franklin D. Roosevelt durante a Segunda Guerra Mundial. Longe de ser apenas uma fórmula retórica, esta opção refletia uma compreensão profunda da natureza do inimigo e da relação entre liderança, ideologia e continuidade da guerra.

A guerra contra a Alemanha nazi não era apenas uma guerra contra um Estado, mas contra um projeto ideológico encarnado em Adolf Hitler. Enquanto Hitler subsistisse como figura política, o “sonho” do Reich manter-se-ia vivo. Uma paz negociada poderia significar apenas uma pausa — e não o verdadeiro fim do conflito. A rendição incondicional visava, assim, eliminar não apenas a capacidade militar, mas a própria possibilidade de continuidade do regime.

Como sublinhou Churchill, esta exigência não significava a destruição do povo alemão, mas antes a recusa de qualquer compromisso que limitasse a liberdade de ação dos vencedores no momento decisivo. A paz não poderia nascer de um acordo com o regime que gerara a guerra, mas da sua dissolução completa. A rendição incondicional era, nesse sentido, uma condição para uma paz estrutural, e não meramente formal.

Contudo, a experiência do pós-guerra introduz uma nuance essencial: a vitória total, por si só, não garante a paz duradoura. É na forma como essa vitória é administrada que se decide o futuro.

O caso do Japão é paradigmático. Sob a liderança do General Douglas MacArthur, a ocupação combinou transformação profunda com continuidade simbólica. A desmilitarização e democratização foram amplas, mas manteve-se o imperador Hirohito, agora como figura constitucional. Esta escolha revelou uma compreensão subtil da cultura política japonesa: ao preservar um elemento central de identidade, facilitou-se a aceitação das reformas e evitou-se o colapso social. A rendição incondicional abriu espaço à mudança; a inteligência política deu-lhe estabilidade. O resultado foi a emergência de uma democracia sólida e de uma das economias mais dinâmicas do mundo.

Na Europa, o desafio assumiu uma forma diferente. Não se tratava de reconstruir um único Estado sob ocupação direta, mas um continente devastado, politicamente fragmentado e sob a pressão da Guerra Fria. A resposta veio através do Plano Marshall, impulsionado por George C. Marshall. Aqui, a estratégia não foi de imposição direta, mas de capacitação: fornecer recursos e enquadramento para que os próprios europeus reconstruíssem as suas economias e consolidassem regimes democráticos.

A diferença entre os dois modelos é evidente:

  • No Japão, uma reconstrução dirigida, com forte intervenção externa, mas sensível à continuidade interna.

  • Na Europa, uma reconstrução cooperativa, baseada na autonomia dos Estados e na integração económica.

Apesar disso, ambos partilham um princípio comum: a rejeição da lógica punitiva que marcara o pós-Grande Guerra e o Tratado de Versalhes. Em vez de humilhar os vencidos ou enfraquecer os derrotados, procurou-se integrá-los numa nova ordem internacional estável e próspera.

É aqui que se revela a verdadeira profundidade da estratégia de Churchill e Roosevelt. A rendição incondicional não era um fim, mas um meio: garantir liberdade total no momento da vitória para moldar a paz de forma duradoura. E essa paz exigia mais do que desarmar — exigia reconstruir, legitimar e integrar.

A lição que emerge é exigente e atual. Há conflitos que não podem terminar por compromisso, porque o que está em causa é estruturalmente incompatível com uma ordem estável. Mas mesmo nesses casos, a vitória só se transforma em paz se for seguida por uma reconstrução inteligente, capaz de distinguir entre o que deve ser eliminado e o que pode ser preservado.

Em última análise, terminar uma guerra é sempre um duplo exercício: destruir a capacidade de continuar a lutar e construir as condições para que não haja razão — nem possibilidade — de voltar a fazê-lo.

Francisco Vaz

28 de Março de 2026

sexta-feira, 27 de março de 2026

Gallipoli e Ormuz

 A persistência das lições ignoradas

Há momentos na história em que o passado não passa — permanece como advertência silenciosa, à espera de ser escutada. A Batalha de Gallipoli é um desses momentos. Mais do que uma derrota militar dos Aliados, foi uma revelação dura sobre os limites do poder quando confrontado com a geografia, a logística e a vontade de um povo. Hoje, ao pensar-se no Estreito de Ormuz, essa lição reaparece com inquietante atualidade.

Em 1915, sob a inspiração de Winston Churchill, os Aliados procuraram abrir uma rota estratégica através dos estreitos otomanos. A ambição era clara: alterar o curso da guerra, aliviar a pressão sobre a Rússia e redesenhar o equilíbrio geopolítico. O resultado, porém, foi o oposto. Subestimaram o terreno, dispersaram esforços, confiaram excessivamente na superioridade material e, sobretudo, falharam na compreensão do adversário. O que deveria ser uma operação decisiva tornou-se um impasse sangrento, culminando numa retirada humilhante.

O paralelismo com Ormuz não reside numa repetição literal dos factos, mas na persistência das condições estruturais. Também aqui se trata de um estreito vital, onde o fluxo marítimo global se concentra e onde a geografia favorece desproporcionalmente o defensor. Rodeado por terreno acidentado e adaptado à guerra assimétrica, o espaço de Ormuz não é apenas um ponto de passagem — é um sistema defensivo natural, potencialmente ampliado por tecnologia contemporânea.

A tentação moderna é acreditar que a precisão das armas, a superioridade aérea e a inteligência em tempo real anulam os constrangimentos que derrotaram os Aliados em Gallipoli. Mas essa crença pode revelar-se uma nova forma de cegueira. A tecnologia altera os meios, não elimina a fricção. E a fricção — como bem se sabe — é o elemento constante da guerra.

Mais ainda: há uma dimensão frequentemente negligenciada nas análises estratégicas — a da vontade. Em Gallipoli, a resistência otomana, de onde emergiria a figura de Mustafa Kemal Atatürk, demonstrou que a defesa da pátria não é apenas um ato militar, mas existencial. O defensor não luta apenas por território; luta por identidade, memória e continuidade histórica. Em Ormuz, qualquer confronto enfrentaria essa mesma energia latente. O Irão não é apenas um ator estratégico — é uma comunidade com consciência histórica e capacidade de mobilização simbólica.

Há, por fim, uma lição mais subtil, mas talvez mais decisiva: a do erro de julgamento. Em Gallipoli, os Aliados foram vítimas de uma confiança excessiva, por vezes tingida de preconceito cultural, que os levou a subestimar o adversário. Esse erro não pertence apenas ao passado. Ele reaparece sempre que o poder se convence de que a superioridade técnica equivale a superioridade estratégica.

Gallipoli mostrou o preço da arrogância. Ormuz pode voltar a cobrá-lo. A diferença não estará nos meios, mas na lucidez. Porque, na guerra, quem ignora os limites não os ultrapassa — é esmagado por eles.

Francisco Vaz

26 de Março de 2026


segunda-feira, 23 de março de 2026

Fado e sentido

A arte de transformar a experiência


O fado ocupa um lugar singular na cultura portuguesa porque não se limita a ser uma forma musical: é uma experiência de sentido. Nascido no século XIX, em ambientes urbanos marcados pela precariedade, pela saudade e pela intensidade das relações humanas, o fado foi-se afirmando como uma linguagem capaz de dar voz ao que, muitas vezes, escapa à palavra comum. Mais do que cantar, o fadista interpreta — e, ao interpretar, transforma.


Reconhecido como Património Cultural Imaterial da Humanidade pela UNESCO, o fado constitui uma das expressões mais profundas da tradição artística portuguesa. Mas essa profundidade não reside apenas na sua antiguidade ou na sua difusão; reside sobretudo na sua capacidade de converter a experiência vivida em significado partilhável. É nesse movimento — da vida ao sentido — que o fado revela a sua verdadeira natureza.


As diferentes vertentes do fado ilustram essa riqueza. O fado tradicional de Lisboa, associado a bairros populares como Alfama ou Mouraria, caracteriza-se pela intensidade emocional, pela proximidade com o quotidiano e por uma expressividade crua, onde a voz se impõe como veículo de verdade existencial. Já o fado de Coimbra, ligado ao universo académico, apresenta uma tonalidade distinta: mais contido, mais lírico, frequentemente cantado por vozes masculinas, incorpora temas como o amor idealizado, a passagem do tempo e a nostalgia da juventude. Outras formas e evoluções contemporâneas do fado mostram a sua capacidade de se renovar, sem perder a ligação à sua matriz originária.


Apesar das diferenças estilísticas, há um traço comum que atravessa todas estas expressões: o fado não descreve apenas sentimentos — transfigura-os. A dor torna-se canto, a ausência torna-se presença simbólica, o destino torna-se narrativa. O corpo do fadista — na voz, no gesto, na pausa — é o lugar onde essa transformação acontece. E é precisamente aqui que se revela algo de essencial sobre a condição humana.


Na experiência que conhecemos — a experiência humana — não encontramos outro ser capaz de realizar este movimento de forma plena: transformar o vivido em sentido. A máquina pode reproduzir sons, imitar estilos, até gerar composições formalmente semelhantes ao fado. Mas não pode viver, e por isso não pode significar. Falta-lhe essa interioridade onde a experiência se torna consciência e, depois, expressão.


O fado, nesse sentido, não é apenas um género musical. É uma afirmação silenciosa de que o humano não se esgota naquilo que faz, mas naquilo que compreende e significa. Ao cantar, o fadista não executa — revela. E ao escutar, o ouvinte não consome — reconhece-se.


É precisamente essa dimensão viva do fado — enquanto experiência que transforma o vivido em sentido — que se renova em cada atuação ao vivo. Não está apenas em causa um momento musical, mas um verdadeiro encontro humano. No fado, os artistas, ao cantarem, não interpretam apenas um repertório: dão corpo a histórias, memórias e emoções que se tornam partilháveis no instante da performance. E os ouvintes, longe de serem meros espectadores, participam desse mesmo movimento, acolhendo e reconhecendo no canto algo da sua própria experiência.


É nesta reciprocidade — entre quem canta e quem escuta — que o fado revela a sua natureza mais profunda: não como espetáculo, mas como acontecimento de sentido. Num tempo marcado pela mediação tecnológica e pela reprodução infinita, o fado ao vivo recorda-nos que há algo insubstituível: o instante em que o humano se encontra consigo mesmo através da voz de outro.


Francisco Vaz

16 de março de 2026

Ormuz

História e ilusão de poder

Há momentos na história em que as grandes potências parecem esquecer aquilo que, durante séculos, constituiu o fundamento mais sólido do poder: a geografia. A recente tensão entre os Estados Unidos e o Irão — seja por ação direta, seja por escalada indireta — revela um desses momentos de amnésia estratégica. E como tantas vezes acontece, essa amnésia não se manifesta na ausência de meios, mas na fragilidade da visão.

O paradoxo é evidente. Ao mesmo tempo que se reforçam alinhamentos políticos com Israel, corre-se o risco de produzir efeitos colaterais que beneficiam adversários estratégicos como a Rússia, nomeadamente no contexto da guerra na Ucrânia. Mas o problema mais profundo não está apenas na redistribuição de poder entre atores; está na negligência de um dos pontos nevrálgicos do sistema global: o Estreito de Ormuz.

Ormuz não é apenas um estreito. É uma das principais artérias energéticas do mundo. Uma parte significativa do petróleo global atravessa diariamente aquele corredor estreito e vulnerável. Qualquer perturbação ali não tem consequências locais — tem efeitos sistémicos. Ignorar esta realidade não é apenas um erro tático; é um erro de leitura da própria estrutura do poder global.

Curiosamente, esta não é uma descoberta recente. Há mais de quatro séculos, Portugal compreendeu com notável clareza aquilo que hoje parece escapar a análises mais sofisticadas. Quando Vasco da Gama abriu o caminho marítimo para o Índico, inaugurou uma nova era. Mas foi Afonso de Albuquerque quem lhe deu coerência estratégica. A sua visão assentava numa ideia simples e profundamente moderna: não é necessário controlar territórios vastos; é essencial controlar os pontos de passagem.

Essa estratégia materializou-se num triângulo decisivo: Goa, o Estreito de Malaca e o Estreito de Ormuz. Quem controlasse estes nós controlaria os fluxos entre o Oriente e o Ocidente. Durante cerca de um século, com recursos limitados, Portugal conseguiu exercer uma influência desproporcionada à sua dimensão. Não por força numérica, mas por inteligência geoestratégica.

Hoje, chamamos a esses pontos “chokepoints”. Enumeramo-los, classificamo-los, analisamo-los. Mas o essencial permanece o mesmo: são os locais onde o sistema global revela a sua vulnerabilidade. Entre eles, Ormuz continua a ser um dos mais sensíveis — talvez o mais sensível. A sua importância não diminuiu com o tempo; pelo contrário, intensificou-se.

E, no entanto, a ação política contemporânea parece, por vezes, operar como se essa realidade fosse secundária. A multiplicação de teatros de conflito, a pressão das alianças e a necessidade de respostas imediatas criam uma espécie de miopia estratégica. O resultado é um fenómeno recorrente: decisões que, no curto prazo, afirmam poder, mas que, no médio e longo prazo, o redistribuem de forma inesperada.

Uma escalada no Golfo pode ter precisamente esse efeito. Ao aumentar os preços da energia, reforça economias exportadoras como a russa. Ao dispersar a atenção estratégica, fragiliza outras frentes consideradas prioritárias. Ao expor a vulnerabilidade dos fluxos energéticos, revela a dependência estrutural das economias globais.

Este é o verdadeiro paradoxo: numa era de tecnologia avançada e capacidade militar sem precedentes, continuamos dependentes de corredores marítimos estreitos, definidos por uma geografia imutável. A ilusão de controlo global esbarra, repetidamente, na realidade física do planeta.

Talvez por isso a lição de Afonso de Albuquerque permaneça atual. O poder não reside apenas na capacidade de agir, mas na capacidade de compreender. E compreender implica distinguir o essencial do acessório, o estrutural do circunstancial.

O Estreito de Ormuz não é um detalhe. É um dos lugares onde se decide, silenciosamente, o equilíbrio do mundo. Esquecê-lo não é apenas um erro estratégico. É, no limite, uma forma de ilusão.

Francisco Vaz

23 de março de 2026


Pela presença da ausência

Guerra, viuvez e a memória que permanece

A guerra não termina quando cessam os combates. Permanece — não apenas nos territórios devastados, mas sobretudo nas vidas interrompidas e nas relações feridas. Permanece, de forma paradoxal, pela presença da ausência. A expressão pode parecer contraditória, mas traduz com precisão a experiência das viúvas de guerra descrita por Erika Kuhlman. A ausência do marido não é um vazio neutro; é uma presença contínua, densa, que molda o quotidiano, a identidade e o futuro. O que falta não desaparece — transforma-se em memória, em dor, em referência silenciosa.

A ausência que estrutura a vida

A viúva não vive apenas sem o outro; vive em relação com a sua ausência. Cada gesto quotidiano — a mesa posta, a casa habitada, o silêncio — é atravessado por essa presença invisível. Neste sentido, a guerra prolonga-se para além do tempo do conflito. Ela instala-se na vida concreta, reorganiza afetos, redefine papéis, reconfigura a própria perceção do tempo. O passado invade o presente, e o futuro constrói-se sobre uma falta que nunca se resolve plenamente.

A memória como lugar de resistência

Há, contudo, nesta presença da ausência, uma dimensão de resistência. A memória impede que a morte se reduza a estatística. Cada viúva guarda uma história, um nome, um rosto. Contra a lógica impessoal da guerra — que conta mortos em números — a memória afirma a singularidade de cada vida perdida. É, por isso, um ato profundamente humano e, em certo sentido, político: recusar que o sacrifício se dissolva no anonimato. Mas esta memória não é neutra. Pode ser lugar de luto, mas também pode ser mobilizada por narrativas coletivas que procuram dar sentido à perda.

Entre o íntimo e o político

É aqui que a análise de Erika Kuhlman se torna particularmente incisiva. As viúvas não são apenas sujeitos de dor; são também integradas na reconstrução social e política do pós-guerra. As políticas pró-natalistas, o incentivo ao recasamento, a valorização simbólica do sacrifício — tudo isto mostra como a ausência é, de algum modo, instrumentalizada. A mulher viúva é chamada a transformar a perda em continuidade: gerar vida onde a morte interrompeu. Mas esta continuidade carrega uma ambiguidade profunda. Ao mesmo tempo que reconstrói, pode preparar — ainda que involuntariamente — o terreno para novos conflitos. A ausência, assim, não é apenas memória; pode tornar-se também **matéria de repetição histórica**.

A invisibilidade do sofrimento

Como recorda Cynthia Enloe, a pergunta “onde estão as mulheres?” revela uma ausência na própria narrativa da guerra. E, no entanto, são elas que frequentemente vivem de forma mais prolongada e silenciosa as suas consequências. A presença da ausência é, muitas vezes, invisível aos olhos da história oficial. Não se traduz em monumentos nem em tratados, mas em vidas quotidianas marcadas por uma falta irreparável.

A guerra como rutura relacional

No fundo, a guerra não destrói apenas corpos; destrói relações. E é essa rutura que se prolonga no tempo, encarnada na experiência das viúvas. A ausência do outro revela, de forma dramática, aquilo que a guerra nega: que o ser humano é essencialmente relacional. Quando o outro desaparece, não é apenas ele que falta — é parte de nós que se perde com ele.

 Conclusão

“Pela presença da ausência” não é apenas uma expressão poética. É uma chave de leitura da guerra enquanto fenómeno humano total. À luz da reflexão de Erika Kuhlman, compreendemos que a guerra não termina no campo de batalha. Ela continua nas vidas das mulheres que ficaram, na memória que resiste, na ausência que permanece. E talvez seja precisamente aí — nessa presença silenciosa — que se revela, com maior verdade, o custo real da guerra.

Francisco Vaz

23 de março de 2026