Pecado original

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segunda-feira, 8 de junho de 2026

A Grande Esfera de Co-Prosperidade Asiática:

 o Império que Tóquio Sonhou Construir

Quando se fala da Segunda Guerra Mundial no Pacífico, é frequente encontrar-se a ideia de que o Japão combateu essencialmente para garantir acesso a matérias-primas e para libertar a Ásia do domínio colonial europeu. A narrativa da chamada “Grande Esfera de Co-Prosperidade da Ásia Oriental” foi durante décadas apresentada pela propaganda japonesa como um projeto de emancipação dos povos asiáticos contra os impérios ocidentais.
Todavia, os documentos preparados pelo Ministério da Guerra japonês em dezembro de 1941 contam uma história bastante diferente.
Poucos dias após o ataque a Pearl Harbor, enquanto as forças japonesas avançavam triunfalmente pelo Pacífico e pelo Sudeste Asiático, estrategas do Exército, da Marinha e do Ministério dos Negócios Estrangeiros concluíam um plano de reorganização geopolítica cuja dimensão rivalizava com os maiores projetos imperiais da História.
O documento, posteriormente apresentado como prova no Tribunal Militar Internacional para o Extremo Oriente, revela que os objetivos japoneses ultrapassavam largamente a criação de uma zona de influência regional. O que estava em causa era a construção de um império oceânico destinado a dominar o Pacífico e o Índico, projetando-se inclusivamente para a América do Norte e para a América Central.
A lista dos territórios previstos impressiona ainda hoje.
A Austrália seria colocada sob um Governador-Geral japonês. O mesmo aconteceria com a Nova Zelândia. O Havai passaria a constituir uma administração colonial japonesa no Pacífico Oriental. O Alasca, a Colúmbia Britânica, Alberta, o Yukon e até o Estado de Washington figuravam igualmente nos planos. Na América Central, o Japão projetava controlar uma vasta região que se estenderia do Panamá às Caraíbas.
No Oceano Índico, o projeto incluía Ceilão, as Maldivas, as Seychelles e uma parte substancial da Índia. No Sudeste Asiático surgiriam reinos formalmente independentes — Indonésia, Birmânia, Malásia, Camboja e Annam — mas inevitavelmente subordinados à influência política, económica e militar de Tóquio.
Perante esta realidade, torna-se difícil sustentar que a Grande Esfera de Co-Prosperidade fosse apenas uma iniciativa anticolonial. Na verdade, o Japão procurava substituir os impérios europeus por um império próprio.
A semelhança com a Alemanha nazi é evidente. Tal como Hitler defendia a expansão territorial alemã em nome do Lebensraum, os dirigentes japoneses justificavam a sua expansão através da alegada missão histórica do Japão como líder natural dos povos asiáticos. Em ambos os casos encontramos a mesma lógica: uma potência convencida da sua superioridade moral e civilizacional reivindica para si o direito de reorganizar o espaço político internacional.
A História demonstra, porém, que os grandes projetos imperiais tendem a sofrer de um mal recorrente: confundem ambição com capacidade.
Em dezembro de 1941, o Japão encontrava-se no auge da confiança. A rápida conquista de Hong Kong, Malásia, Singapura, Filipinas e Índias Orientais Holandesas parecia confirmar a invencibilidade das forças imperiais. Contudo, os mesmos dirigentes que planeavam governar a Austrália e o Alasca revelavam uma profunda incapacidade para avaliar os recursos industriais e militares dos Estados Unidos.
O resultado tornou-se evidente poucos meses depois.
A Batalha de Midway, iniciada em 4 de junho de 1942, destruiu quatro dos mais importantes porta-aviões japoneses e alterou irreversivelmente o equilíbrio estratégico da guerra. Mais do que uma derrota militar, Midway representou o colapso de uma visão geopolítica. A partir desse momento, a expansão japonesa foi substituída por uma luta defensiva cada vez mais desesperada.
A ironia histórica é evidente. O império que sonhava administrar o Havai, a Austrália, a Nova Zelândia e parte da América do Norte acabou, menos de quatro anos depois, por assistir à ocupação do próprio território metropolitano pelas forças aliadas.
Do ponto de vista ético e político, o documento constitui um poderoso lembrete de uma verdade frequentemente esquecida. As potências expansionistas raramente se apresentam como conquistadoras. Pelo contrário, tendem a justificar os seus projetos em nome da segurança, da prosperidade, da civilização ou da libertação dos povos. Contudo, por detrás dessas formulações idealizadas encontra-se muitas vezes a mesma realidade: a vontade de poder.
A chamada Grande Esfera de Co-Prosperidade Asiática não foi uma exceção. Sob o discurso da solidariedade asiática escondia-se um projeto de hegemonia imperial sem precedentes na região.
Talvez seja essa a principal lição deste extraordinário documento histórico. As guerras começam frequentemente com promessas de prosperidade e libertação. Terminam, quase sempre, confrontadas com os limites da realidade, da resistência dos povos e das leis implacáveis da estratégia.
O Japão Imperial descobriu essa verdade nas águas de Midway. E o mundo aprendeu, uma vez mais, que os impérios costumam ser derrotados não apenas pelos seus inimigos, mas também pela dimensão desmedida dos seus próprios sonhos.

Francisco Vaz
8 de junho de 2026


Hitler e Putin

e a Lição de Churchill

No dia 11 de dezembro de 1941, Adolf Hitler subiu à tribuna do Reichstag para anunciar aquilo que viria a ser uma das decisões mais desastrosas da sua carreira política e militar: a declaração de guerra aos Estados Unidos. O discurso procurava justificar perante os alemães uma escolha que, na visão do Führer, era inevitável. Na realidade, marcava o início de uma cadeia de acontecimentos que acabaria por conduzir à derrota da Alemanha nazi.

Lido hoje, mais de oitenta anos depois, o documento impressiona não apenas pelo que diz, mas sobretudo pela forma como procura transformar a realidade. Hitler apresenta a Alemanha como vítima de uma conspiração internacional, atribui a responsabilidade da guerra a Franklin Roosevelt, denuncia alegadas ameaças externas e procura convencer o seu povo de que luta apenas em legítima defesa.

A narrativa é conhecida. Não foi a Alemanha que quis a guerra; foram os outros que a impuseram. Não foi a Alemanha que ameaçou os seus vizinhos; foram os seus inimigos que cercaram o Reich. Não foi Hitler o agressor; foi o defensor de uma Europa alegadamente ameaçada.

A História demonstrou o contrário.

Esta constatação ajuda a compreender uma das razões pelas quais Winston Churchill afirmava que não se podia negociar com tiranos. Não porque a diplomacia fosse inútil, mas porque a diplomacia exige um mínimo de confiança na palavra dada. Quando um dirigente transforma sistematicamente a verdade em instrumento político, os acordos deixam de ser compromissos duradouros e tornam-se simples pausas entre conflitos.

Churchill tinha assistido à remilitarização da Renânia, à anexação da Áustria, ao desmembramento da Checoslováquia e à invasão da Polónia. Cada concessão feita a Hitler era apresentada como solução definitiva. Cada promessa era rapidamente substituída por uma nova exigência. A experiência ensinara-lhe que o problema não era apenas a agressividade do regime nazi; era a sua própria natureza.

É impossível ler hoje aquele discurso sem pensar noutro líder que domina a cena internacional: Vladimir Putin.

Naturalmente, a comparação exige prudência. Hitler e Putin pertencem a contextos históricos diferentes, possuem ideologias distintas e perseguem objetivos que não podem ser confundidos. A Alemanha nazi procurava remodelar radicalmente a Europa segundo uma visão racial e totalitária. A Rússia contemporânea move-se num contexto internacional completamente diverso, marcado pela dissuasão nuclear e pela interdependência económica global.

Mas existem semelhanças que merecem reflexão.

Tal como Hitler procurava apresentar a Alemanha como vítima de uma ameaça existencial, também a narrativa oficial do Kremlin descreve a guerra na Ucrânia como uma resposta defensiva ao avanço do Ocidente. Tal como Hitler invocava a História para justificar as suas ações, Putin recorre frequentemente à memória da Rússia imperial, da União Soviética e da Grande Guerra Patriótica para legitimar a sua política externa.

Em ambos os casos encontramos um fenómeno recorrente: a utilização da História como instrumento de mobilização política.

A História deixa de ser um campo de investigação para se transformar numa arma de combate.

Existe, contudo, uma semelhança ainda mais inquietante.

À medida que os regimes concentram o poder numa única figura, aumenta o risco de o líder deixar de ouvir opiniões divergentes. Os subordinados passam a transmitir apenas aquilo que acreditam que o chefe deseja ouvir. O contraditório desaparece. A realidade torna-se refém da ideologia.

Foi precisamente isso que aconteceu com Hitler. Convencido da inevitabilidade da sua vitória, subestimou a capacidade industrial americana, ignorou os avisos de muitos dos seus militares e declarou guerra aos Estados Unidos. O resultado foi unir contra a Alemanha a maior coligação militar e económica da História.

A lição permanece atual.

Os maiores erros estratégicos raramente nascem da falta de inteligência. Nascem, muitas vezes, da ausência de humildade. Surgem quando os governantes começam a acreditar que a sua visão pessoal substitui a realidade dos factos.

A História ainda não pronunciou o seu veredicto definitivo sobre Vladimir Putin. Esse julgamento pertence ao futuro. Mas o passado oferece já um ensinamento precioso.

Quando um líder se convence de que encarna sozinho o destino da nação, quando a crítica é vista como traição e quando a narrativa prevalece sobre a verdade, o risco de erro aumenta exponencialmente.

Foi assim em Berlim, em dezembro de 1941.

E é por isso que as palavras de Churchill continuam a ecoar no século XXI.

A paz não depende apenas da vontade de negociar. Depende também da confiança que os povos podem depositar na palavra dos seus dirigentes. Quando essa confiança desaparece, a História deixa de ser uma recordação do passado para se transformar num aviso para o futuro.

Francisco Vaz

8 de junho de 2026

Nota metodológica:

Este artigo utiliza o discurso de 11 de dezembro de 1941 como fonte primária para análise da visão estratégica, ética e política de Adolf Hitler num momento decisivo da Segunda Guerra Mundial. A interpretação apresentada não valida as afirmações nele contidas, procurando antes contextualizá-las criticamente à luz do conhecimento histórico atualmente disponível.

domingo, 7 de junho de 2026

Da Defesa à Guerra?

O Significado de uma Mudança de Linguagem em Washington

A questão pode parecer meramente semântica, mas a história ensina que, em política, as palavras raramente são inocentes. Os nomes das instituições refletem visões do mundo, prioridades estratégicas e até conceções do papel do Estado na ordem internacional. Por isso, a substituição da designação de Secretário da Defesa por Secretário da Guerra merece uma reflexão que vá além da simples terminologia.

Até 1947, os Estados Unidos não possuíam um Departamento da Defesa. Existiam dois departamentos autónomos: o Departamento da Guerra, responsável pelo Exército, e o Departamento da Marinha, responsável pela Marinha e pelo Corpo de Fuzileiros Navais. Durante a Segunda Guerra Mundial, Henry L. Stimson dirigia o Departamento da Guerra, enquanto Frank Knox, e depois James Forrestal, lideravam o Departamento da Marinha.

A vitória aliada trouxe consigo uma profunda reflexão sobre a organização militar americana. A dimensão global do conflito demonstrara a necessidade de uma coordenação mais eficaz entre os diferentes ramos das forças armadas. Ao mesmo tempo, existia uma forte preocupação em evitar uma excessiva concentração de poder militar numa democracia que se orgulhava da sua tradição civilista.

O resultado desse debate foi a aprovação do National Security Act de 1947. A reforma criou uma Força Aérea independente, preservou a autonomia do Corpo de Marines e estabeleceu uma autoridade superior comum aos três ramos: o Secretário da Defesa. Não foi uma escolha casual. A substituição da palavra “Guerra” por “Defesa” procurava transmitir uma mensagem política clara. Os Estados Unidos emergiam da Segunda Guerra Mundial como a principal potência militar do planeta, mas desejavam apresentar-se como garantes da estabilidade internacional e não como uma potência militarista.

A palavra “Defesa” exprimia a ideia de proteção da paz, da liberdade e da ordem internacional. Mesmo durante a Guerra Fria, quando os Estados Unidos intervieram em múltiplos teatros de operações, a narrativa oficial manteve sempre uma lógica defensiva: defesa da Europa, defesa da Coreia do Sul, contenção do comunismo, defesa da segurança internacional ou combate ao terrorismo.

Hoje, porém, o contexto estratégico é profundamente diferente. A ascensão da China como potência global, a guerra na Ucrânia, a crescente instabilidade no Médio Oriente e a competição tecnológica e militar entre grandes potências alimentam a perceção de que os Estados Unidos enfrentam um ambiente internacional mais perigoso e menos previsível do que aquele que existiu durante as décadas posteriores ao fim da Guerra Fria.

Neste quadro, o reaparecimento de uma linguagem associada à “guerra” não deve ser interpretado apenas como uma mudança retórica. Ela reflete uma alteração mais profunda na forma como parte da elite estratégica americana encara o mundo. A ideia central parece ser a de que a simples dissuasão já não basta e que a preservação da posição internacional dos Estados Unidos exige uma postura mais assertiva, mais preparada para o confronto e menos preocupada em ocultar a dimensão coerciva do poder.

Isso significa que os Estados Unidos desejam a guerra? A história aconselha prudência perante essa conclusão. As grandes potências raramente procuram a guerra por si mesma. Procuram, isso sim, preservar os seus interesses, a sua segurança e a sua influência. Contudo, quando o pensamento estratégico passa a organizar-se em torno da inevitabilidade do conflito, aumenta o risco de que o conflito deixe de ser encarado como uma exceção e passe a ser visto como uma possibilidade normal da política internacional.

Existe aqui um paradoxo histórico interessante. Em 1947, quando os Estados Unidos possuíam uma superioridade militar sem paralelo e o monopólio da arma nuclear, optaram por adotar uma linguagem de contenção, criando um Departamento da Defesa. Hoje, num contexto em que a sua superioridade é mais contestada do que em qualquer momento desde o final da Segunda Guerra Mundial, surgem vozes que parecem preferir recuperar a linguagem da guerra para transmitir determinação e credibilidade estratégica.

Talvez isso revele uma das características mais persistentes da história das grandes potências: quanto mais segura é uma potência, mais facilmente fala de paz; quanto mais sente a sua posição desafiada, mais tende a recorrer à linguagem da força.

A verdadeira questão, portanto, não reside na designação formal do cargo. O essencial é compreender a visão do mundo que essa mudança procura traduzir. A substituição simbólica da “Defesa” pela “Guerra” indica, a meu ver, que, para uma parte significativa da liderança americana, o centro de gravidade da política internacional se está a deslocar da gestão da paz para a preparação da guerra.

E essa é uma mudança cujo significado ultrapassa largamente as fronteiras dos Estados Unidos, pois diz respeito ao modo como a principal potência mundial interpreta o século XXI e ao lugar que atribui à força militar na construção da ordem internacional.

Francisco Vaz

7 de junho de 2026

Acolhimento e encontro

Homilía Leão XIV na Eucaristia do Corpo de Deus - 7 de junho - Madrid 2026

A homilia do Papa Leão XIV na Eucaristia do Corpo de Deus celebrada hoje na Praça de Cibeles, em Madrid, perante cerca de 1,2 milhões de fiéis, confirma uma das linhas mestras do seu pontificado: a recusa de uma fé reduzida à esfera privada e a afirmação da dimensão social, ética e política da Eucaristia.

O Papa afirmou que a religiosidade popular não pode ser entendida como um "museu do passado" nem como um conjunto de devoções intimistas fechadas sobre si mesmas. Pelo contrário, deve ser uma "escola" que educa para o encontro, para o acolhimento, para o compromisso e para a entrega aos outros.

A dimensão ética

Do ponto de vista ético, a mensagem é clara: não existe verdadeira adoração de Deus sem reconhecimento da dignidade do próximo. A Eucaristia não é apenas um acto de culto; é uma transformação do olhar humano. Quem participa do pão repartido deve tornar-se, ele próprio, pão repartido para os outros.

Por isso, Leão XIV insistiu na atenção aos pobres, aos marginalizados, aos migrantes, aos solitários e aos esquecidos. Deus, afirmou, identifica-se precisamente com aqueles que a sociedade tende a deixar para trás.

Sob este aspecto, a sua reflexão aproxima-se da tradição inaugurada pela encíclica Rerum Novarum. Tal como Leão XIII procurou responder às injustiças da Revolução Industrial, Leão XIV procura responder às exclusões produzidas pela revolução digital e pela globalização contemporânea.

A dimensão política

A política surge aqui não como luta partidária, mas como expressão do bem comum.

Quando o Papa afirma que os dirigentes devem evitar a divisão sistemática dos povos e respeitar a dignidade de cada pessoa, está a recordar que a política existe para unir e não para fragmentar.

A sua posição é particularmente relevante numa Europa marcada pela polarização ideológica, pela crise migratória e pelo crescimento de movimentos identitários. Sem nomear partidos ou governos, Leão XIV recorda que a legitimidade política não deriva apenas do voto, mas da capacidade de promover a justiça, a solidariedade e a coesão social.

É uma concepção profundamente agostiniana da política: a cidade humana encontra a sua estabilidade não na força, mas na ordem do amor (ordo amoris), isto é, numa correcta hierarquia de bens.

O bem comum como horizonte

O ponto mais interessante da homilia talvez seja a recuperação da ideia de bem comum, conceito praticamente desaparecido de grande parte do discurso político contemporâneo.

Nas democracias actuais, fala-se frequentemente de direitos individuais, interesses sectoriais ou reivindicações identitárias. Fala-se menos do que une uma comunidade política.

Ora, a procissão do Corpo de Deus pelas ruas de Madrid possui precisamente esse significado simbólico. Cristo deixa o espaço protegido do templo para percorrer a cidade. A fé entra na praça pública não para dominar, mas para recordar que existe algo superior aos interesses particulares: a dignidade da pessoa humana e a responsabilidade recíproca entre todos os membros da comunidade.

Uma leitura ontológica

Num plano mais profundo, a homilia revela uma visão da realidade assente na relação e não no isolamento.

O ser humano não é concebido como indivíduo autónomo e fechado sobre si próprio, mas como ser de participação e comunhão. A Eucaristia torna-se, assim, um símbolo ontológico da própria condição humana: ninguém existe apenas para si mesmo.

Esta ideia aproxima-se de reflexões presentes em autores como Louis Lavelle, para quem o ser se realiza plenamente na participação num acto maior do que si próprio. A comunhão eucarística aparece então como expressão concreta dessa participação: receber para dar, existir para partilhar.

Conclusão

A homilia de Cibeles poderá vir a ser recordada como um dos textos programáticos do pontificado de Leão XIV. Nela encontram-se já os seus temas fundamentais: a centralidade da pessoa humana, a prioridade dos pobres, a crítica do individualismo contemporâneo, a recuperação do bem comum e a necessidade de uma política orientada pela fraternidade.

Tal como Leão XIII procurou humanizar a sociedade industrial, Leão XIV parece determinado a humanizar a sociedade digital. E a sua mensagem essencial pode resumir-se numa ideia simples: uma sociedade que adora Deus mas esquece o homem trai o Evangelho; uma sociedade que esquece Deus acaba por esquecer também o homem.

Francisco Vaz

7 de junho de 2026

O Ser o Bem e a Cidade

Uma reflexão ontológica sobre ética e política

A reflexão de Louis Lavelle, desenvolvida e aprofundada por Américo Pereira em A Fundamentação Ontológica da Ética na Obra de Louis Lavelle (Lusosofia, 2009), assenta numa ideia fundamental: a realidade não é uma coleção de coisas acabadas, mas a manifestação contínua do Ato. O ser não é algo estático nem uma substância imóvel; é uma atividade permanente, uma adveniência incessante à presença.

O ato não produz efeitos exteriores a si mesmo, porque nada existe verdadeiramente fora dele. Tudo o que existe participa do Ato absoluto. Assim, a existência não corresponde à permanência de algo num mundo previamente constituído; corresponde ao próprio acontecimento pelo qual algo emerge à presença. Existir é manifestar-se. Mais ainda, existir é criar um mundo próprio, um horizonte de sentido e de relações que surge com o próprio ato de ser.

Nesta perspetiva, a existência é o ponto de convergência de uma infinidade de relações que encontram nela a sua referência e a sua possibilidade de manifestação. O ser não surge como uma entidade isolada, mas como uma realidade relacional cuja identidade se constitui através da participação ativa no Ato. Cada ato de ser humano representa uma forma singular de participação na riqueza infinita do ser.

Daqui decorre uma crítica radical daquilo que habitualmente designamos por realidade. O que vemos como realidade objetiva e consolidada não possui autonomia ontológica própria. A realidade manifesta é apenas a retenção ou memória de atos já realizados. O que verdadeiramente possui densidade ontológica é o ato presente de manifestação. O manifestado permanece apenas como vestígio, como memória, como presença derivada.

Por isso, a memória não pode constituir o fundamento último da identidade pessoal. A pessoa não é aquilo que recorda ter sido. A sua identidade funda-se no ato presente pelo qual participa continuamente no ser. A memória é sempre secundária relativamente ao ato vivo da presença. Como sublinha Américo Pereira, fundar a identidade humana apenas na memória equivale a edificá-la sobre algo ontologicamente insubstante, pois a memória conserva apenas a imagem de atos passados e não o seu dinamismo criador.

É precisamente neste ponto que a ontologia se transforma em ética. Se cada pessoa é uma participação singular no Ato absoluto, então o bem consiste em favorecer essa participação e em permitir que cada ser humano realize plenamente as possibilidades do seu ato de ser. O mal, pelo contrário, surge sempre que essa participação é diminuída, impedida ou negada.

A originalidade da interpretação de Américo Pereira reside na ideia de que o mal não representa apenas uma falha moral; representa igualmente uma diminuição ontológica. Sempre que um ser humano é reduzido a instrumento, silenciado, humilhado ou impedido de desenvolver plenamente o seu ser, não é apenas essa pessoa que sofre uma perda. É o próprio universo ontológico que se torna mais pobre, porque deixa de emergir uma possibilidade única e irrepetível de manifestação do ser.

Quando a ação humana permanece na esfera da interioridade, estamos ainda no domínio da ética. Contudo, nenhuma ação humana permanece confinada à consciência individual. Toda a ação produz efeitos sobre os outros e encontra inevitavelmente outras ações, outras consciências e outras liberdades. É nesse momento que nasce a política.

Como afirma Américo Pereira, quando a ação de cada ser humano transcende a pura interioridade ética em que se origina, surge imediata e necessariamente o domínio da política, entendido como o espaço onde diferentes éticas se encontram. A política não aparece, assim, como realidade originária. O que é originário é a pessoa, enquanto ato de ser e sujeito ético. A política nasce da coexistência de múltiplos atos livres de ser.

Esta conceção distancia-se profundamente da visão da política como mera disputa pelo poder ou simples técnica de administração social. A política surge como o espaço relacional onde diferentes manifestações do ser procuram coexistir e harmonizar-se. Não é um instrumento de dominação, mas uma condição necessária da convivência entre pessoas livres.

Neste sentido, a política pode ser definida como a arte de tornar possível a coexistência das diferentes realizações humanas do ser. O seu objetivo não consiste em uniformizar consciências nem em subordinar os indivíduos a uma vontade coletiva abstrata, mas em criar as condições que permitam a cada pessoa desenvolver plenamente a sua vocação ontológica.

A boa política será, portanto, aquela que favorece a emergência da riqueza humana em todas as suas formas. A má política será aquela que reduz a pessoa à condição de meio, instrumento ou simples elemento estatístico de um sistema. O critério último da política não é a eficácia, nem a prosperidade material, nem sequer a estabilidade institucional. O seu critério fundamental é ontológico: saber se favorece ou dificulta a realização plena do ser humano.

Desta forma, ontologia, ética e política revelam-se momentos distintos de uma mesma realidade fundamental. O ser funda o agir; o agir funda a convivência; e a convivência funda a cidade. A política não é exterior à ética nem a ética exterior à ontologia. Constituem graus sucessivos de uma mesma participação no Ato absoluto.

A dignidade da pessoa humana não deriva, assim, da sua utilidade social, do reconhecimento jurídico ou da posição que ocupa na sociedade. Deriva da sua condição ontológica de participante singular no ser. Cada pessoa representa uma possibilidade irrepetível de manifestação do Ato. Defender a pessoa humana é, por isso, mais do que uma exigência moral ou jurídica: é uma exigência metafísica.

À luz de Lavelle e de Américo Pereira, a realidade não é aquilo que já foi criado e permanece diante de nós como objeto concluído. A realidade é o próprio acontecimento incessante da criação. E a política, longe de ser apenas gestão do poder, é o espaço onde múltiplas participações no ser procuram realizar uma forma comum de coexistência sem renunciar à singularidade que as constitui.

Francisco Vaz

7 de junho de 2026

A Propósito do 82.º Aniversário da Operação Overlord

Normandia, Marianas e o Poder no Mar

As comemorações do Dia D constituem muito mais do que um exercício de memória histórica. A cada ano, as praias da Normandia transformam-se num palco onde o passado é convocado para iluminar os desafios do presente. O Dia D nunca é apenas uma evocação da maior operação anfíbia da História; é também uma declaração sobre a forma como cada geração compreende a liberdade, a segurança e o papel das democracias no mundo.

O discurso de Dwight D. Eisenhower, embora anterior às grandes comemorações modernas, permanece a referência fundadora. Na célebre Ordem do Dia dirigida aos homens que desembarcariam na Normandia, o foco estava na missão: derrotar a tirania nazi e restaurar a liberdade na Europa. Era um discurso de dever, sacrifício e responsabilidade moral. Não havia triunfalismo; havia a consciência da enorme incerteza da operação e da gravidade do momento.

Quarenta anos depois, em 1984, Ronald Reagan pronunciou em Pointe du Hoc um dos mais marcantes discursos políticos do século XX. Diante dos sobreviventes que tinham escalado aquelas falésias sob fogo inimigo, Reagan transformou o Dia D numa celebração da liberdade ocidental. O contexto era o da Guerra Fria. A União Soviética continuava a representar o principal adversário estratégico do Ocidente, e a mensagem implícita era clara: a mesma determinação que derrotara Hitler deveria continuar a defender o mundo livre contra qualquer forma de tirania.

Em 2024, por ocasião do 80.º aniversário, Joe Biden retomou muitos dos temas de Reagan, mas adaptando-os ao contexto da guerra na Ucrânia. O seu discurso insistiu na importância das alianças transatlânticas e na necessidade de resistir à agressão russa. Para Biden, a principal lição da Normandia era a de que as democracias apenas sobrevivem quando permanecem unidas perante ameaças comuns.

As comemorações deste ano revelaram uma interpretação diferente desse legado. No discurso de hoje, Pete Hegseth homenageou o sacrifício dos combatentes de 1944, mas utilizou também a ocasião para refletir sobre desafios contemporâneos. Ao afirmar que “outras praias da Europa estão hoje a ser assaltadas por ideologias perigosas”, numa referência aos fluxos migratórios e às questões de identidade cultural e segurança, Hegseth deslocou o centro da reflexão da defesa das alianças para a defesa da soberania, do controlo das fronteiras e da preservação daquilo que considera serem os fundamentos da civilização ocidental. A controvérsia que se seguiu demonstra, precisamente, como a memória da Normandia continua viva e politicamente relevante. O Dia D permanece um símbolo poderoso, mas o significado desse símbolo é permanentemente reinterpretado à luz das preocupações de cada época.

Todos estes discursos partilham uma mesma convicção: a liberdade exige sacrifício. Divergem, porém, na identificação das ameaças e das prioridades estratégicas. Para Eisenhower, era o nazismo; para Reagan, o expansionismo soviético; para Biden, a defesa da ordem internacional liberal perante o revisionismo autoritário; para Hegseth, um mundo multipolar marcado por desafios à soberania nacional, à identidade cultural e à capacidade dissuasora do Ocidente.

Há, contudo, uma dimensão frequentemente esquecida nestas reflexões. A Normandia tornou-se um mito fundador do Ocidente contemporâneo, mas a sua memória tende a concentrar-se quase exclusivamente na coragem dos homens que desembarcaram nas praias francesas. Essa coragem foi decisiva, mas não explica, por si só, a vitória.

Para um historiador, esta evolução é particularmente relevante. Em 1944, a Operação Overlord constituiu uma das mais impressionantes demonstrações do poder naval aliado, a par da Operação Forager, a grande ofensiva anfíbia lançada no Pacífico com o desembarque em Saipan, a 15 de junho de 1944, destinada à conquista das Ilhas Marianas e à expulsão das forças japonesas de um arquipélago cuja importância estratégica era decisiva para o desfecho da guerra. Em ambos os casos, o sucesso das operações assentou na conjugação do controlo do mar, da supremacia aérea, da capacidade logística e da projeção de força a partir do mar, demonstrando que o poder naval não é apenas um instrumento militar, mas uma condição essencial para a realização dos grandes objetivos políticos e estratégicos das nações.

Se a Normandia abriu o caminho para a libertação da Europa, as Marianas colocaram o Japão ao alcance dos bombardeiros estratégicos americanos, acelerando o colapso do Império Japonês. Juntas, estas operações representam o auge da arte operacional anfíbia e da aplicação do poder naval no século XX. A coragem dos homens que desembarcaram sob fogo inimigo só produziu efeitos decisivos porque foi sustentada por uma colossal infraestrutura naval, aérea, industrial e logística construída ao longo de anos.

É precisamente esta dimensão que muitas vezes se perde nas cerimónias comemorativas. Recordam-se os homens — e justamente —, mas esquece-se por vezes a estrutura de poder que permitiu transformar a coragem em vitória. A Normandia e as Marianas demonstraram que a liberdade não depende apenas de ideais nobres; depende também da capacidade das sociedades para organizar recursos, construir alianças, dominar tecnologias e sustentar esforços prolongados perante ameaças existenciais.

Talvez essa seja a principal lição que permanece oitenta e dois anos depois. As democracias podem desejar a paz, mas apenas conseguem preservá-la quando possuem a vontade política, a capacidade industrial, a coesão social e os instrumentos militares necessários para a defender. Como observava Alfred Thayer Mahan, o poder no mar não é apenas um instrumento de guerra; é o fundamento invisível da prosperidade, da segurança e da liberdade das nações.

Em certo sentido, a Normandia e as Marianas continuam a falar ao presente. Não apenas como memórias gloriosas de um passado distante, mas como advertências permanentes de que a liberdade tem um preço e de que a sua preservação exige, simultaneamente, coragem moral, visão política e poder estratégico. É por isso que as praias da Normandia continuam a ser visitadas por estadistas, militares e cidadãos comuns: porque nelas não se recorda apenas o que aconteceu em 1944; procura-se compreender o que continua a estar em jogo no século XXI.

Francisco Vaz

6 de junho de 2026

As Primeiras Marinhas

Como o comércio marítimo deu origem às primeiras marinhas e moldou os fundamentos do poder naval que ainda hoje sustenta a ordem internacional


A história das marinhas confunde-se com a própria história do comércio marítimo. Desde que os homens começaram a transportar riquezas pelo mar, surgiram também aqueles que procuravam apropriar-se delas pela força. A pirataria foi, assim, uma consequência quase inevitável do crescimento das trocas comerciais, e os primeiros confrontos navais não passaram de escaramuças desorganizadas entre mercadores e predadores marítimos em busca de saque.

Perante essa ameaça, as comunidades mais organizadas compreenderam rapidamente que a prosperidade dependia da proteção das rotas marítimas. Surgiram então embarcações destinadas especificamente à escolta dos navios mercantes, transportando a bordo guerreiros especialmente destacados para combater no mar — os precursores dos modernos fuzileiros navais.

A especialização das funções conduziu naturalmente à especialização dos navios. No Mediterrâneo antigo começaram a destacar-se dois tipos fundamentais de embarcações: os navios mercantes, largos e pesados, concebidos para transportar carga, e as galeras de guerra, longas e estreitas, impulsionadas por remos durante o combate e equipadas com velas para aproveitar os ventos favoráveis. Nascia assim uma distinção que marcaria toda a evolução naval posterior: a separação entre os meios destinados ao comércio e os meios destinados à guerra.

Desde os seus primórdios, as marinhas tiveram uma missão essencial: proteger as comunicações marítimas. O termo “comunicações” abrangia todo o sistema de rotas e transportes que permitia a circulação de mercadorias, pessoas e informação. Defender essas comunicações e impedir que o inimigo utilizasse as suas tornou-se a principal razão de ser do poder naval.

Desta realidade nasceu um dos conceitos fundamentais da estratégia marítima: o domínio do mar. Uma potência naval detinha o domínio do mar quando conseguia garantir a segurança das suas próprias linhas de comunicação e negar ao adversário a utilização dessas mesmas rotas. Frequentemente, esse objetivo era alcançado através da destruição da esquadra inimiga numa batalha decisiva, assegurando de uma só vez a supremacia numa determinada região marítima.

O domínio do mar permitia então desempenhar as restantes funções estratégicas das marinhas: defender o território nacional contra invasões vindas do mar, isolar economicamente o inimigo e projetar o poder militar para além das fronteiras através de operações anfíbias e expedições militares.

Quando a história marítima do Mediterrâneo começa a ser registada com alguma precisão, no século V a.C., as civilizações da região já dominavam muitos dos princípios fundamentais da guerra. Compreendiam a importância da logística, isto é, do abastecimento e manutenção das forças; conheciam a necessidade do planeamento estratégico; e tinham desenvolvido sistemas táticos relativamente sofisticados para a condução das batalhas.

Todavia, a guerra naval permanecia profundamente influenciada pela guerra terrestre. Os mesmos comandantes dirigiam frequentemente exércitos e frotas, considerando os navios como uma extensão das forças terrestres. As galeras navegavam em colunas e, perante o inimigo, formavam linhas compactas inspiradas na falange hoplítica. Cada embarcação protegia os flancos vulneráveis das vizinhas e apresentava ao adversário a sua arma principal: o esporão de bronze instalado na proa, concebido para abalroar e afundar navios inimigos.

As primeiras táticas navais sofriam, contudo, da mesma limitação da falange terrestre: a rigidez. A falta de flexibilidade tornava difícil responder a manobras inesperadas ou a ataques de flanco, uma vulnerabilidade que seria gradualmente superada à medida que a arte naval evoluísse.

Entre as primeiras grandes potências marítimas destacaram-se os cretenses. A geografia montanhosa e pouco fértil de Creta obrigou os seus habitantes a procurar no mar os recursos que a terra lhes negava. A posição estratégica da ilha, situada no centro das principais rotas do Mediterrâneo oriental, favoreceu o desenvolvimento do comércio e conferiu-lhe uma importância excecional como ponto de controlo das comunicações marítimas.

Aos cretenses sucederam os fenícios, talvez os maiores navegadores da Antiguidade. A partir de cidades como Sidon e Tiro, construíram uma vasta rede comercial que se estendia desde a Grã-Bretanha até à costa ocidental africana. Procuravam estanho, âmbar, marfim e escravos, que trocavam pelos produtos luxuosos do Oriente. O seu dinamismo comercial levou-os a fundar inúmeras colónias e entrepostos, entre os quais se destacou Cartago, destinada a tornar-se uma das grandes potências do Mediterrâneo.

Mas foi na Grécia que o poder marítimo alcançou uma das suas expressões mais notáveis. Graças aos relatos de Heródoto e Tucídides, possuímos uma imagem relativamente clara da guerra naval grega. Dependentes do mar para o seu comércio e expansão, os gregos construíram uma vasta rede de assentamentos que se estendia da Ásia Menor ao Mar Negro, da Sicília à Península Ibérica.

No século V a.C., os gregos dominavam grande parte do comércio do Mediterrâneo oriental. Exportavam vinho, azeite, produtos artesanais e obras de arte procurados em todo o mundo conhecido. A sua prosperidade assentava numa poderosa tradição marítima e numa extraordinária capacidade de navegação.

Todavia, a Grécia possuía uma fraqueza estrutural que acabaria por comprometer o seu destino histórico. As cidades-estado gregas permaneciam divididas e frequentemente em conflito entre si. Atenas, Esparta, Corinto e Tebas competiam pela hegemonia em vez de cooperarem numa política comum. As colónias ultramarinas mantinham laços culturais e comerciais com as suas cidades de origem, mas gozavam de ampla autonomia.

Esta fragmentação impediu os gregos de transformarem a sua superioridade marítima num verdadeiro império unificado. Paradoxalmente, foi a mesma energia criadora que os levou a conquistar os mares que contribuiu para a sua divisão política. E foi essa dispersão de poder, mais do que qualquer inimigo externo, que acabaria por custar à Grécia a liberdade que tanto valorizava.

A história das primeiras marinhas revela uma verdade permanente da condição humana: o mar nunca foi apenas um espaço geográfico. Foi, e continua a ser, um espaço económico, político e estratégico onde se decide a prosperidade das nações.

Desde os navegadores cretenses e fenícios até às grandes frotas de Atenas e Cartago, todas as potências marítimas compreenderam que a riqueza depende da liberdade de circulação e que essa liberdade exige proteção. O comércio gerou a necessidade de segurança; a segurança gerou o poder naval; e o poder naval tornou-se instrumento de influência política e de projeção estratégica.

A história demonstra igualmente que o domínio do mar não resulta apenas da posse de navios ou de tecnologia superior. Exige visão política, capacidade económica e, sobretudo, unidade estratégica. Quando estes elementos se conjugam, surgem as grandes potências marítimas. Quando se fragmentam, mesmo os povos mais talentosos acabam por perder a posição conquistada.

Dois mil e quinhentos anos depois, as circunstâncias mudaram, mas os princípios permanecem. Mais de noventa por cento do comércio mundial continua a viajar por mar. Os estreitos marítimos, as rotas energéticas, os cabos submarinos de comunicações e os grandes portos permanecem elementos vitais da economia global. As tensões no Mar do Sul da China, no Estreito de Ormuz ou no Mar Vermelho recordam-nos diariamente que a segurança marítima continua a ser condição indispensável da prosperidade.

As primeiras marinhas nasceram para proteger mercadorias transportadas em frágeis embarcações de madeira. As marinhas contemporâneas protegem cadeias logísticas globais que sustentam a civilização moderna. Mudaram os navios, as armas e as tecnologias; não mudou a lógica fundamental. O mar continua a recompensar os povos capazes de unir comércio, poder e visão estratégica.

Talvez seja esta a mais duradoura das lições legadas por Creta, Fenícia, Atenas e Cartago: quem controla as comunicações marítimas influencia a história; quem as negligencia arrisca-se a ser por ela ultrapassado.

Francisco Vaz

7 de junho de 2026