Uma história mais antiga do que o nosso tempo
Quando ouvimos as estatísticas contemporâneas sobre violência doméstica e, em particular, sobre o número de mulheres assassinadas pelos maridos, companheiros ou antigos companheiros, em Portugal, em Espanha ou noutros países, somos facilmente levados a pensar que estamos perante uma das grandes barbáries do nosso tempo.
E estamos, efetivamente, perante uma barbárie.
O engano começa quando acrescentamos: do nosso tempo.
A violência doméstica não é uma invenção recente. O que é recente é a sua visibilidade, a sua contagem, a sua nomeação pública. Durante séculos, permaneceu escondida atrás das paredes das casas, protegida pelo silêncio das famílias, pela dependência económica das mulheres, por determinadas conceções sociais do casamento e até por ordenamentos jurídicos que reconheciam ao homem uma autoridade sobre a mulher hoje considerada inaceitável.
Não dispomos, para os séculos passados, de estatísticas comparáveis às atuais. Mas temos outras testemunhas. Temos processos judiciais, crónicas, correspondência, literatura, teatro. E temos a arte.
Poucas obras nos obrigam a olhar tão frontalmente para esta realidade como Otello, de Giuseppe Verdi.
A ópera estreou no Teatro alla Scala, em Milão, a 5 de fevereiro de 1887, com libreto de Arrigo Boito, baseado na tragédia Othello, de William Shakespeare.
A data é importante: 1887.
Poderíamos, portanto, concluir que Verdi e Boito estavam já a denunciar um problema do século XIX. Mas basta recuar à fonte para perceber que a questão é bastante mais antiga. Shakespeare escreveu Othello no início do século XVII. E o centro trágico da peça é precisamente aquilo a que hoje chamaríamos, sem hesitação, violência no seio de uma relação íntima: Otelo, convencido da infidelidade da mulher, mata Desdémona no leito conjugal. A investigação contemporânea sobre Shakespeare tem, aliás, chamado explicitamente a atenção para a violência doméstica presente na obra, para além da tradicional leitura centrada no ciúme.
E ainda podemos recuar mais.
Shakespeare não inventou a história. Inspirou-se numa narrativa de Giraldi Cinthio, publicada no século XVI. A genealogia literária de Otello conduz-nos, portanto, a uma realidade que atravessa vários séculos.
É precisamente aqui que a grande arte se transforma também num extraordinário documento sobre a condição humana.
Desdémona não morre numa guerra. Não morre durante a tempestade que abre espetacularmente a ópera de Verdi. Não é vítima dos inimigos de Veneza.
Desdémona é morta pelo homem que ama.
E é isto que torna Otello insuportavelmente atual.
Otelo ama Desdémona. Ou, pelo menos, acredita amá-la. Mas existe no seu amor uma fragilidade que Iago sabe explorar: a possibilidade de o amor degenerar em posse.
Iago, oficial de Otello e grande instigador da tragédia, movido pelo ressentimento e pela vontade de destruir o seu comandante, percebe a vulnerabilidade de Otello e explora-a através da mentira e da manipulação. Não precisa de colocar uma arma nas suas mãos. Faz algo talvez mais perverso: coloca-lhe uma suspeita no espírito.
Insinua.
Sugere.
Manipula.
Transforma coincidências em indícios e indícios em provas. O lenço de Desdémona acaba por adquirir um significado monstruoso precisamente porque Otelo já decidiu interiormente aquilo que pretende encontrar nele.
O ciúme alimenta-se então, como observa a crítica shakespeariana, daquilo que se imagina e não daquilo que verdadeiramente se viu.
E assim se desenvolve um mecanismo que continua assustadoramente reconhecível nos nossos dias.
Primeiro, a suspeita.
Depois, a vigilância.
Depois, a acusação.
Depois, a certeza construída sem prova.
Finalmente, a violência.
Há, porém, algo ainda mais profundo em Otello. Antes de matar fisicamente Desdémona, Otelo destrói-a enquanto pessoa na sua própria consciência.
Deixa de a escutar.
Desdémona fala, mas Otelo já não ouve Desdémona. Ouve aquilo que Iago lhe ensinou a ouvir.
Desdémona explica-se, mas Otelo já não procura a verdade. Procura apenas a confirmação da verdade que previamente construiu.
A mulher concreta desapareceu. No seu lugar ficou uma representação imaginária: «a mulher infiel».
É neste momento que o amor se transforma em domínio.
E talvez aqui esteja uma das raízes mais profundas da violência doméstica: a transformação de uma pessoa num objeto de posse.
Enquanto o outro é reconhecido como pessoa, existe relação. Quando passa a ser considerado propriedade, a relação começa a transformar-se em poder.
É a lógica terrível condensada numa expressão que atravessou gerações: «matei-a porque era minha».
Mas Desdémona nunca foi de Otelo.
Amava Otelo.
E existe uma diferença ontológica imensa entre as duas coisas.
Amar alguém é reconhecer a existência do outro como outro. Possuir alguém significa pretender reduzir a sua liberdade à nossa vontade. O amor diz: tu és. A posse diz: tu és minha.
Quando a segunda afirmação destrói a primeira, o amor já começou a morrer.
É também por isso que devemos ter algum cuidado quando apresentamos Otello simplesmente como «a tragédia do ciúme». O ciúme explica uma parte. Não explica tudo. Estudos contemporâneos continuam a identificar a relação entre ciúme, suspeita de infidelidade e violência entre parceiros íntimos. Mas chamar a Otelo apenas «um homem ciumento» pode quase funcionar como uma atenuante cultural.
Otelo é um homem que mata a mulher.
E Shakespeare não permite que esqueçamos esse facto.
Verdi e Boito também não.
Quando Verdi regressa a Shakespeare quase três séculos depois, a música torna ainda mais terrível aquilo que o teatro já tinha mostrado. O homem que entra triunfalmente em cena com o monumental Esultate! — general vitorioso, herói militar, senhor de si e dos seus homens — será incapaz de governar aquilo que acontece dentro da sua própria consciência.
Venceu inimigos exteriores.
É derrotado pelos seus fantasmas interiores.
E Desdémona paga com a vida essa derrota.
Talvez por isso a cena final de Otello continue a causar um desconforto tão profundo. Sabemos que estamos perante uma obra escrita no século XIX a partir de um drama do início do século XVII, mas reconhecemos imediatamente aquilo que vemos.
Mudaram as leis.
Mudou profundamente a condição social das mulheres.
Mudaram as estruturas familiares.
Mudou a consciência coletiva perante a violência doméstica.
Passámos a contar as vítimas. E essa é uma diferença civilizacional fundamental. Aquilo que durante séculos podia desaparecer no silêncio de uma casa passou a ter um nome, um número, uma investigação, uma condenação pública.
Mas a estatística, precisamente porque conta, também corre o risco de esconder aquilo que pretende revelar.
Dizemos: morreram tantas mulheres este ano.
E avançamos para o número seguinte.
Verdi obriga-nos a fazer o contrário.
Dá um rosto à estatística.
Chama-lhe Desdémona.
Dá-lhe uma voz.
Faz com que a escutemos cantar.
Mostra-nos o seu medo.
E depois deixa-nos assistir à sua morte às mãos do homem que dizia amá-la.
Talvez seja esta uma das funções supremas da arte. As estatísticas dizem-nos quantas pessoas morreram. A grande arte recorda-nos que cada uma delas era uma pessoa.
Por isso Otello continua a ser tão necessário.
Não porque Shakespeare ou Verdi nos ofereçam uma explicação sociológica da violência doméstica, mas porque ambos nos colocam perante algo mais antigo e mais profundo: a possibilidade de o amor se perverter quando deixa de reconhecer o outro como pessoa e passa a considerá-lo propriedade.
A violência doméstica não nasceu no século XXI.
Nem no século XX.
Nem sequer no século XIX de Verdi.
Quando Shakespeare colocou Desdémona nas mãos de Otelo, há mais de quatro séculos, já sabia que estava a contar uma história que os seus contemporâneos podiam reconhecer.
E talvez seja essa a parte mais perturbadora.
Passaram séculos. Construímos Estados de direito, proclamámos a igualdade entre homens e mulheres, reconhecemos direitos fundamentais, criminalizámos comportamentos que durante demasiado tempo foram tolerados e aprendemos finalmente a contar as vítimas.
Mas continuamos a ter Desdémonas.
E enquanto houver uma só, Otello continuará a interpelar-nos.
Francisco Vaz
14 de agosto de 2026