Pecado original

Pecado original

quarta-feira, 29 de julho de 2026

Elvira Madigan, Romeu e Julieta e a pedagogia da paixão

A paixão é um dom. Mas nunca deve conduzir a nossa vida.

Há histórias que sobrevivem aos séculos porque falam de algo permanente na condição humana. Romeu e Julieta, de Shakespeare, pertence à literatura. Elvira Madigan pertence à história. No entanto, ambas parecem narrar o mesmo drama: dois seres humanos que acreditam que a intensidade da paixão é suficiente para vencer todos os obstáculos.

É precisamente aqui que reside o equívoco.

A cultura romântica habituou-nos a considerar estas histórias como celebrações do amor absoluto. Talvez sejam, antes de mais, uma advertência sobre aquilo que acontece quando a paixão deixa de reconhecer a verdade.

Importa começar por uma distinção essencial.

A paixão não é um mal.

Pelo contrário, é uma das grandes riquezas da pessoa humana. Sem paixão não haveria entusiasmo, criatividade, coragem, desejo de conhecer, capacidade de admirar nem enamoramento. Uma existência sem paixão seria uma vida sem fogo interior.

O problema nunca foi a paixão.

O problema começa quando deixamos de ser nós a conduzi-la e passamos a ser conduzidos por ela.

Platão compreendeu esta realidade de forma admirável no Fedro. A alma humana é comparada a uma parelha alada. Dois cavalos representam as forças que habitam o coração humano. Um tende naturalmente para o bem; o outro é impulsivo, indisciplinado e procura satisfazer imediatamente os seus desejos. Nenhum dos dois deve ser eliminado. Ambos possuem uma energia indispensável. Mas a direção pertence ao cocheiro, imagem da razão. Quando são os cavalos que conduzem a carruagem, o desastre torna-se inevitável.

Mais de dois mil anos depois, Louis Lavelle retoma esta mesma intuição numa linguagem profundamente espiritual. As paixões fazem parte da riqueza da vida. São elas que dão intensidade à existência. Contudo, deixam de servir a pessoa quando pretendem ocupar o lugar da consciência. A liberdade não consiste em destruir as paixões, mas em integrá-las numa ordem superior, onde a inteligência e a vontade lhes conferem sentido e direção.

Esta talvez seja uma das grandes lições esquecidas do nosso tempo.

Vivemos numa cultura que frequentemente identifica autenticidade com espontaneidade. Parece-nos natural pensar que, se um sentimento é intenso, então deve ser seguido. Mas a intensidade nunca foi critério de verdade. Uma paixão pode ser sincera e, ainda assim, conduzir ao erro.

É precisamente isso que encontramos em Romeu e Julieta.

O sentimento entre ambos é verdadeiro. Shakespeare nunca o ridiculariza. O que mostra é um amor ainda demasiado jovem para suportar o peso da realidade. Em poucos dias conhecem-se, apaixonam-se, casam e morrem. A paixão corre mais depressa do que a prudência.

Também Elvira Madigan e Sixten Sparre acreditaram que bastava seguir o impulso do coração. Ela abandonou a sua carreira de artista de circo. Ele deixou para trás a esposa, os filhos e a carreira militar. Durante algum tempo viveram apenas da intensidade da paixão. Mas nenhuma paixão, por mais bela que seja, consegue abolir as responsabilidades anteriormente assumidas nem alterar a verdade das circunstâncias. A realidade acabou por revelar aquilo que a paixão recusava ver.

É aqui que importa fazer uma distinção decisiva.

Não foi o amor que fracassou.

Foi uma paixão que ainda não se tinha transformado plenamente em amor.

Porque o amor autêntico não é apenas um sentimento. É também inteligência, liberdade, responsabilidade, fidelidade e vontade de procurar o verdadeiro bem do outro. Como ensinava São Tomás de Aquino, amar é querer o bem da pessoa amada. A paixão pode iniciar esse caminho; nunca pode substituí-lo.

Talvez seja por isso que estas duas histórias continuam a comover-nos. Não porque glorifiquem o chamado "amor impossível", mas porque espelham um conflito que todos conhecemos. Cada ser humano experimenta dentro de si desejos intensos, impulsos generosos, entusiasmos e fascínios. Todos eles são bons enquanto forças da vida. Mas nenhuma dessas forças deve ocupar o lugar da consciência.

A paixão é um excelente motor.

É um péssimo piloto.

A sabedoria não consiste em apagar o fogo do coração, mas em aprender a orientá-lo.

No fundo, Platão, São Tomás de Aquino e Louis Lavelle dizem a mesma coisa, cada um na linguagem do seu tempo. A vida humana encontra a sua plenitude quando todas as dimensões da pessoa — inteligência, vontade, afetividade e liberdade — deixam de competir entre si e passam a colaborar na procura da verdade e do bem.

Talvez seja esta a verdadeira pedagogia da paixão.

Não a sua repressão.

Não a sua idolatria.

Mas a sua integração.

Porque o verdadeiro amor nunca nasce contra a verdade.

Nasce quando a paixão aceita deixar-se iluminar por ela.

Francisco Vaz

29 de julho de 2026

terça-feira, 28 de julho de 2026

A pessoa, a família e o Estado

Uma reflexão à luz do personalismo de Jacques Maritain

Reflexão suscitada pela reportagem de Iker Seisdedos, publicada no El País em 26 de julho de 2026, sobre o debate em torno da proposta «uma família, um voto» em alguns sectores do nacionalismo cristão norte-americano.

Há debates que, pela reduzida probabilidade de se traduzirem em alterações legislativas, poderiam parecer meras curiosidades da vida política. Contudo, a história ensina precisamente o contrário. Muitas das grandes transformações culturais começaram por ideias consideradas marginais, quase irrelevantes, que acabaram por revelar mudanças muito mais profundas na forma como uma civilização compreendia o Homem. As instituições políticas não surgem do nada; são sempre a expressão de uma determinada antropologia.

Foi esta convicção que me ocorreu ao ler uma reportagem sobre alguns sectores do nacionalismo cristão norte-americano que defendem a substituição do princípio democrático «um cidadão, um voto» pelo princípio «uma família, um voto», cabendo o exercício desse voto ao chefe da família. Os seus defensores apresentam esta proposta como resposta ao individualismo moderno, sustentando que a unidade familiar, e não o indivíduo, deveria constituir o verdadeiro sujeito da vida política.

Não pretendo discutir a viabilidade constitucional de semelhante proposta, nem entrar na complexa realidade política dos Estados Unidos. O interesse filosófico da questão é muito mais profundo. Ela obriga-nos a regressar à pergunta fundamental que acompanha toda a história da filosofia política: quem é, afinal, o sujeito originário da comunidade política? É a pessoa? É a família? É o Estado? Ou será a sociedade um organismo ao qual os indivíduos pertencem apenas como partes de um todo?

Estas perguntas atravessam toda a tradição do pensamento ocidental, desde Aristóteles até aos debates contemporâneos sobre os direitos humanos. Mas adquiriram uma formulação particularmente fecunda na obra de Jacques Maritain. O filósofo francês compreendeu que muitas das crises da política moderna têm origem numa confusão antropológica: a incapacidade de distinguir entre o indivíduo e a pessoa.

O indivíduo pertence naturalmente à sociedade. É membro de uma família, exerce uma profissão, integra uma comunidade política e participa na construção do bem comum. Sob este aspeto, encontra-se legitimamente vinculado às exigências da vida social.

A pessoa, porém, é infinitamente mais do que um indivíduo.

Porque é dotada de inteligência, liberdade e consciência moral, possui uma dignidade espiritual que nenhuma realidade temporal pode absorver. Não pertence totalmente ao Estado, nem ao mercado, nem ao partido, nem sequer à própria família. O seu destino último ultrapassa todas as instituições humanas.

É precisamente esta a novidade da antropologia cristã. Cada homem e cada mulher são criados à imagem e semelhança de Deus. A sua dignidade não lhes é conferida pela sociedade; precede-a. Não nasce da lei; é a lei que deve reconhecê-la e protegê-la.

Quando esta verdade é esquecida, inicia-se um processo de despersonalização. Pouco importa o argumento utilizado para o justificar. Ao longo da história, esse processo assumiu formas muito diversas. Umas vezes foi a raça; outras, a classe social; outras ainda, a nação, o partido ou o Estado. Em todos esses casos, a pessoa deixou de ser considerada um fim em si mesma para passar a ser entendida como simples elemento de uma realidade coletiva.

O risco existe sempre que uma comunidade, por mais nobre que seja, pretende substituir permanentemente a consciência dos seus membros.

A família ocupa, sem dúvida, um lugar insubstituível na ordem natural. É nela que aprendemos a amar, a obedecer, a servir, a perdoar e a assumir responsabilidades. Antes de existir qualquer escola ou qualquer Estado, existe uma família. Sem famílias fortes dificilmente sobrevivem sociedades livres.

Mas precisamente porque a família possui tão elevada dignidade, não pode absorver a dignidade das pessoas que a constituem.

A sua missão consiste em formar pessoas livres, capazes de agir responsavelmente, e não em pensar ou decidir permanentemente por elas.

Também a autoridade deve ser compreendida nesta perspetiva. O cristianismo introduziu uma conceção profundamente original da autoridade ao apresentá-la como serviço. Cristo rompe definitivamente com a lógica do domínio quando afirma que quem quiser ser o primeiro deverá fazer-se servo de todos. A autoridade deixa então de significar poder sobre alguém para significar responsabilidade por alguém.

É a esta luz que importa compreender também os textos de São Paulo tantas vezes invocados nestes debates. O matrimónio cristão não é descrito como uma relação de domínio político, mas como uma comunhão de pessoas cujo modelo é Cristo que entrega livremente a sua vida pela Igreja. A unidade nasce do amor, nunca da absorção da consciência de um dos seus membros pelo outro.

Existe, porém, um aspeto frequentemente esquecido quando se fala de democracia. A cidadania não constitui apenas um direito; constitui igualmente uma responsabilidade moral.

Maritain insistia que os direitos da pessoa assentam precisamente na sua natureza espiritual e na sua capacidade de responder pelos próprios atos. Só quem possui consciência moral pode ser chamado à responsabilidade. E essa responsabilidade não pode ser delegada, nem sequer naqueles que mais amamos.

Quando um cidadão participa na vida política, não intervém apenas para defender interesses particulares. É chamado a discernir, segundo a sua própria consciência, aquilo que considera ser o bem comum. Este princípio aplica-se igualmente ao homem e à mulher, não porque sejam idênticos nas suas vocações ou nos modos de exercerem as suas responsabilidades, mas porque ambos possuem igual dignidade ontológica. Ambos são pessoas. Ambos respondem diante de Deus pelas suas escolhas. Ambos participam, segundo a justiça, na construção da comunidade política.

A crítica ao individualismo contemporâneo merece, evidentemente, ser levada a sério. Vivemos numa cultura que frequentemente identifica liberdade com autonomia absoluta, fragilizando os vínculos familiares e comunitários. Mas combater um erro através do seu contrário nunca produziu uma verdadeira solução.

Entre o individualismo absoluto e o coletivismo existe uma terceira via: o personalismo.

O homem realiza-se na comunidade, mas nunca deixa de ser pessoa. A comunidade protege a pessoa; não a absorve. O Estado promove o bem comum; não substitui a consciência. A família educa para a liberdade; não elimina a responsabilidade pessoal.

É neste equilíbrio delicado que reside uma das maiores contribuições de Jacques Maritain para a filosofia política contemporânea.

As democracias conhecem muitas imperfeições. Sofrem a influência da propaganda, do poder económico, da manipulação das emoções e da polarização ideológica. Mas nenhuma dessas fragilidades se resolve diminuindo o número daqueles que participam na vida pública. A verdadeira resposta consiste sempre em formar melhor as consciências, porque nenhuma reforma institucional poderá substituir aquilo que falta ao coração humano.

No fundo, toda a política depende da imagem do homem ou da mulher que a inspira.

Se o Homem for reduzido a simples indivíduo integrado num mecanismo coletivo, a organização social tenderá inevitavelmente para formas de dominação, ainda que apresentadas em nome do bem comum.

Se, pelo contrário, for reconhecido como pessoa, dotada de uma dignidade que transcende todas as instituições, então a política reencontra a sua verdadeira finalidade: servir o bem comum sem jamais sacrificar a consciência de cada ser humano.

Talvez seja esta a principal lição que podemos retirar deste debate.

As grandes crises políticas nunca começam nas constituições.

Começam quando deixamos de saber quem é o Homem.

O século XX demonstrou tragicamente que o totalitarismo nasce muito antes da violência. Nasce quando alguém deixa de ser visto como pessoa e passa a ser considerado apenas membro de uma raça, de uma classe, de um sexo, de uma nação ou de qualquer outra categoria coletiva.

É precisamente contra essa redução que se ergue o humanismo integral de Jacques Maritain.

Nenhuma sociedade é verdadeiramente humana quando esquece que o seu maior património não reside na força das instituições, nem na prosperidade económica, nem sequer na estabilidade da família.

Reside na pessoa.

Porque é na pessoa que o tempo se abre à eternidade.

E somente quando a política reconhece esta verdade pode tornar-se plenamente humana: uma ordem orientada para o bem comum, fundada na justiça e iluminada pela dignidade inviolável de cada homem e de cada mulher, criados à imagem de Deus.

Francisco Vaz

28 de julho de 2026


segunda-feira, 27 de julho de 2026

A calúnia

quando o riso revela a verdade

Há uma afinidade inesperada entre Gioachino Rossini e G. K. Chesterton. Um escreveu óperas cómicas; o outro, ensaios, romances e paradoxos. Um serviu-se da música, o outro da palavra. Mas ambos partilhavam uma mesma convicção: a comédia é uma forma superior de inteligência porque nos permite reconhecer, sorrindo, as tragédias da condição humana.

É neste espírito que devemos escutar La calunnia è un venticello, a célebre ária de Don Basilio em O Barbeiro de Sevilha. À primeira audição, tudo parece divertir-nos. Rossini faz crescer a música lentamente, desde um simples murmúrio até à explosão de uma tempestade sonora. O público ri perante a descrição quase científica da forma como um boato destrói uma reputação.

Mas o verdadeiro objeto da sátira não é Don Basilio.

Somos nós.

Chesterton escreveu que “os contos de fadas não dizem às crianças que existem dragões; as crianças já o sabem. Os contos de fadas dizem-lhes que os dragões podem ser vencidos.” A arte não inventa o mal; torna-o visível. Rossini faz exatamente isso. A calúnia sempre existiu. O génio da ópera consiste em revelar o seu mecanismo com tal clareza que já não podemos fingir que o ignoramos.

Chesterton via um perigo constante naquilo a que chamava a respeitabilidade das pequenas mentiras. O grande mal raramente entra pela porta principal. Apresenta-se quase sempre como algo insignificante: uma meia verdade, uma insinuação, uma frase começada por “ouvi dizer…”. A mentira procura parecer razoável antes de parecer convincente.

É precisamente assim que canta Don Basilio.

Tudo começa por um vento ligeiro. Nada parece grave. Ninguém assume a responsabilidade. Cada um limita-se a repetir o que ouviu. Contudo, quando todos se demitem da responsabilidade pela verdade, nasce uma força coletiva capaz de destruir uma pessoa inocente.

Chesterton desconfiava profundamente das multidões quando estas deixavam de pensar moralmente. Não porque desprezasse o povo — pelo contrário, defendia o homem comum —, mas porque sabia que uma multidão sem consciência deixa facilmente de procurar a verdade para procurar apenas confirmação dos seus preconceitos.

É por isso que a calúnia é tão sedutora.

Ela oferece uma ilusão de superioridade moral. Quem a difunde sente-se informado, esclarecido ou até virtuoso, quando, na realidade, apenas participa na degradação da justiça.

Rossini exprime esta dinâmica através da música. Chesterton explicá-la-ia através do paradoxo. Ambos chegam à mesma conclusão: o mal raramente se apresenta como monstruoso. Quase sempre se mascara de normalidade.

Talvez seja por isso que o humor ocupa um lugar tão importante nos dois autores.

O humor autêntico não banaliza o mal; desmonta-o. Faz-nos rir precisamente porque revela o absurdo das nossas próprias fraquezas. Rimos de Don Basilio porque o julgamos caricatural. Contudo, ao sair do teatro, percebemos que já ouvimos conversas semelhantes, já repetimos informações sem as verificar e, talvez, já contribuímos para que uma simples suspeita se transformasse numa condenação pública.

Chesterton escreveu também que “os anjos podem voar porque se levam a si mesmos com leveza.” O caluniador faz exatamente o contrário. Leva-se demasiado a sério. Convence-se de que conhece intenções, julga consciências e distribui culpas. Esquece que apenas Deus conhece plenamente o coração humano.

A verdadeira resposta à calúnia não é outra calúnia. Também não é o silêncio cúmplice.

É a fidelidade paciente à verdade.

Porque a verdade pode caminhar lentamente. Pode até parecer derrotada durante algum tempo. Mas possui uma força que a mentira nunca terá: não precisa de ser constantemente reinventada.

Rossini transformou essa verdade numa das páginas mais brilhantes da história da ópera.

Chesterton recordar-nos-ia que o riso só cumpre a sua missão quando nos conduz à humildade.

Talvez seja essa a maior lição desta extraordinária sátira: o primeiro antídoto contra a calúnia não consiste em desconfiarmos dos outros.

Consiste em desconfiarmos da facilidade com que nós próprios estamos dispostos a acreditar nela.

Francisco Vaz

27 de julho de 2026


domingo, 26 de julho de 2026

Um coração sábio: a primeira condição do bom governo

Leitura teológica, ética e política de 1 Reis 3, 11-12 (XVII Domingo do Tempo Comum)

«Porque foi este o teu pedido, e já que não pediste longa vida, nem riqueza, nem a morte dos teus inimigos, mas sabedoria para praticar a justiça, vou satisfazer o teu desejo. Dou-te um coração sábio e esclarecido, como nunca houve antes de ti nem haverá depois de ti.»

Entre todas as passagens da Sagrada Escritura dedicadas ao exercício do poder, poucas possuem tanta profundidade quanto o diálogo entre Deus e Salomão. O jovem rei poderia ter pedido aquilo que quase todos os homens desejam quando alcançam uma posição de autoridade: mais poder, mais riqueza, mais segurança ou a derrota dos seus adversários. Não o fez. Pediu algo incomparavelmente mais difícil: um coração capaz de discernir o bem do mal para governar o povo com justiça.

Esta escolha revela uma verdade decisiva: o maior problema da política nunca foi a falta de poder, mas a falta de sabedoria.

A dimensão teológica

Na perspetiva bíblica, a sabedoria não é simplesmente inteligência nem acumulação de conhecimentos. É um dom divino que permite contemplar a realidade à luz da verdade.

O texto é particularmente significativo porque Deus não elogia Salomão por desejar governar. Elogia-o porque compreendeu que ninguém é capaz de governar bem apenas com as próprias forças.

O coração bíblico representa o centro da pessoa: inteligência, vontade, consciência e liberdade.

Quando Deus promete um «coração sábio», está a prometer uma transformação interior. O verdadeiro governante não muda primeiro as leis; deixa primeiro que Deus transforme o seu próprio coração.

É por isso que, na tradição cristã, toda a autoridade é entendida como serviço.

Cristo levará esta ideia até às últimas consequências:

«Quem quiser ser o primeiro entre vós seja o servo de todos.»

A autoridade nasce do serviço e não da dominação.

A dimensão ética

A passagem oferece também uma profunda reflexão sobre a ética.

Os três pedidos recusados por Salomão continuam a ser, três mil anos depois, as grandes tentações do poder.

A longa vida representa a tentação da conservação do poder.

A riqueza representa a instrumentalização do cargo para benefício próprio.

A morte dos inimigos representa a política construída sobre o ressentimento e a vingança.

Salomão rejeita tudo isso.

Pede apenas a capacidade de fazer justiça.

É uma inversão completa da lógica habitual.

Hoje fala-se frequentemente de competência técnica, liderança, comunicação política, marketing eleitoral ou gestão estratégica.

Tudo isso pode ser útil.

Mas a Escritura recorda que nenhuma dessas capacidades substitui uma consciência reta.

A inteligência sem virtude pode tornar-se extraordinariamente perigosa.

A técnica indica como fazer.

A sabedoria pergunta primeiro se deve ser feito.

A dimensão política

Esta leitura possui uma atualidade impressionante.

Vivemos numa época em que frequentemente se identifica boa governação com eficiência económica, crescimento estatístico ou domínio tecnológico.

Tudo isso é importante.

Mas não basta.

Um Estado pode tornar-se mais rico e simultaneamente menos justo.

Pode tornar-se mais eficiente e perder a sua alma.

A tradição clássica — de Aristóteles a São Tomás de Aquino — ensinou sempre que o fim da política não é apenas garantir ordem ou prosperidade, mas promover o bem comum.

Ora, o bem comum exige governantes capazes de discernimento moral.

A primeira qualidade de um estadista não é a popularidade.

Também não é o carisma.

Muito menos a capacidade de vencer eleições.

É possuir um coração suficientemente livre para colocar a justiça acima do interesse pessoal.

Sem esta liberdade interior, a política degrada-se facilmente em mera luta pelo poder.

Quando isso acontece, os adversários deixam de ser pessoas e passam a ser obstáculos; os cidadãos transformam-se em eleitores; e a verdade torna-se apenas um instrumento de comunicação.

Uma lição para todos

Seria, contudo, um erro pensar que este texto se dirige apenas aos governantes.

Cada pessoa exerce diariamente alguma forma de autoridade: na família, na educação, na empresa, na investigação, na Igreja ou na sociedade civil.

Todos somos chamados, em maior ou menor medida, a decidir sobre a vida dos outros.

Também nós podemos pedir riqueza, reconhecimento ou sucesso.

Ou podemos pedir aquilo que Salomão pediu: um coração capaz de reconhecer a verdade e praticar a justiça.

No fundo, esta passagem coloca diante de cada homem uma escolha permanente.

A questão decisiva da vida não é quanto poder possuímos.

É o que fazemos com ele.

Conclusão

Num tempo em que tantas sociedades parecem confiar exclusivamente na técnica, nos algoritmos ou nas estatísticas, a liturgia recorda uma verdade antiga que permanece nova: nenhuma civilização se sustenta sem homens e mulheres de coração sábio.

A justiça não nasce automaticamente das leis.

As leis nascem da consciência daqueles que as fazem.

E a consciência, por sua vez, só permanece reta quando permanece aberta à verdade.

Talvez seja esta a oração mais urgente do nosso tempo.

Não pedir mais riqueza.

Não pedir mais poder.

Não pedir a derrota dos nossos adversários.

Mas pedir, como Salomão, um coração suficientemente sábio para reconhecer o bem, suficientemente humilde para o procurar e suficientemente corajoso para o praticar.

Francisco Vaz

26 de julho de 2026

sexta-feira, 24 de julho de 2026

Uma metáfora tauromáquica:

o peão de brega

A arena não é apenas um lugar de confronto. É um espaço de revelação.

Nela, cada interveniente manifesta não só a sua força ou a sua habilidade, mas também o modo como se relaciona com a realidade, com o outro e consigo próprio. A tauromaquia, para além do espetáculo, pode assim ser lida como uma pequena representação da condição humana.

Entre todas as figuras da lide, uma das mais discretas é também uma das mais necessárias: o peão de brega.

O público concentra o olhar no cavaleiro. É ele o protagonista, aquele de quem se espera a coragem, a elegância e a precisão do gesto. Mas a sua mestria só pode revelar-se plenamente quando alguém preparou, com paciência, inteligência e dedicação, o terreno favorável à faena.

Esse trabalho pertence ao peão de brega.

Ele observa o touro, interpreta-lhe os movimentos, reconhece-lhe os vícios, as hesitações e as tendências. Não age precipitadamente. Espera, chama, desvia, aproxima e conduz. A sua função não consiste em vencer o animal, nem em ocupar o lugar do cavaleiro, mas em criar as condições para que a lide possa acontecer segundo a sua verdade.

É um trabalho de serviço.

É também um trabalho de mediação.

O peão de brega não procura a glória do centro. Procura conduzir o touro para o centro, onde o protagonista poderá mostrar a sua arte. A sua grandeza reside precisamente em tornar possível a ação de outro sem reclamar para si o aplauso.

Há aqui uma primeira lição ética: nem toda a ação verdadeiramente importante é visível. Muitas vezes, aquilo que sustenta o bem permanece oculto, paciente e silencioso.

O problema surge quando o touro se refugia nas tábuas.

Ali, junto ao limite da arena, sente-se aparentemente protegido. O espaço é mais estreito, a retaguarda parece segura e a proximidade da trincheira oferece-lhe a ilusão de dominar a situação. Mas essa segurança é ambígua. O touro acantonado nas tábuas torna-se mais difícil, desconfiado e imprevisível. Não aceita facilmente ser chamado ao espaço aberto da lide. Espera, observa e investe por vezes quando menos se espera.

Em vez de agir a partir da liberdade do centro, reage a partir do medo do limite.

Também entre os homens existem tábuas.

Podem ser uma profissão, um estatuto, uma competência técnica ou um domínio particular do conhecimento. Há quem se refugie na linguagem jurídica, por exemplo, não para procurar a justiça, mas para transformar a lei numa fortificação. O conhecimento, que deveria servir a verdade e o bem comum, torna-se então um território defensivo, a partir do qual se vigia, se suspeita e se ataca.

O problema nunca está no direito, na técnica ou na inteligência.

Está no uso que deles se faz.

Quando um saber particular é convertido numa trincheira, a pessoa começa a confundir o domínio de uma parcela da realidade com o domínio da realidade inteira. Julga-se segura porque conhece procedimentos, normas e argumentos. No entanto, essa segurança pode esconder uma profunda incapacidade para compreender o outro e para se deixar interpelar pelo real.

A inteligência perde então a sua vocação contemplativa.

Deixa de perguntar: «O que é verdadeiro?»

Passa a perguntar apenas: «Como posso demonstrar que tenho razão?»

A partir desse momento, o pensamento já não se abre à realidade. Procura obrigar a realidade a confirmar uma conclusão previamente estabelecida.

É aqui que se manifesta a paralaxe cognitiva.

O problema não consiste simplesmente em cometer um erro. Todos erramos. A paralaxe começa quando existe uma separação persistente entre aquilo que a pessoa afirma e a realidade concreta da sua própria atitude. Alguém pode declarar que procura a justiça, quando procura apenas derrotar um adversário; pode invocar a razão, quando é conduzido pelo ressentimento; pode falar em prudência, quando vive dominado pela suspeita.

A inteligência continua ativa, mas deixou de servir a verdade.

Tornou-se instrumento de autodefesa.

Tudo passa então a ser interpretado a partir da hostilidade.

Uma divergência transforma-se em provocação.

Um conselho torna-se uma tentativa de domínio.

Uma aproximação converte-se em armadilha.

Uma mão estendida é recebida como se escondesse uma arma.

O outro deixa de ser reconhecido como pessoa e passa a ser reduzido à figura de inimigo.

É precisamente aqui que a questão deixa de ser apenas intelectual e se torna ética e ontológica.

O ser humano não se realiza no isolamento. A pessoa é relação. Existe recebendo, respondendo, dando e acolhendo. A identidade não se constrói apenas contra os outros, mas também com os outros. Quando alguém transforma toda a diferença em ameaça, empobrece não apenas a relação, mas o próprio ser.

Recusar o encontro é recusar uma possibilidade de crescimento.

Recusar a escuta é recusar uma parte da realidade.

Recusar sistematicamente a boa vontade do outro é construir uma prisão interior e chamar-lhe liberdade.

O peão de brega representa a atitude oposta.

Ele não força o touro a ir para o centro. Procura conduzi-lo. Não o humilha. Não o combate por ódio. Não deseja feri-lo inutilmente. A sua ação é orientada para uma ordem superior da lide, na qual cada interveniente possa ocupar o seu lugar.

Do mesmo modo, aquele que procura retirar alguém das tábuas da suspeita não é necessariamente seu inimigo. Pode ser precisamente aquele que deseja evitar-lhe uma queda mais grave.

Pode querer ajudá-lo a abandonar o espaço estreito da reação para entrar no espaço amplo da compreensão.

Pode desejar que deixe de combater sombras e reconheça a realidade.

Mas para isso é necessário um ato difícil: admitir que nem toda a oposição é perseguição, nem toda a crítica é agressão, nem toda a ajuda constitui humilhação.

É necessário reconhecer que a inteligência não foi dada ao homem para fabricar inimigos, mas para discernir a verdade.

A verdade não pertence às tábuas.

As tábuas oferecem proteção, mas limitam o horizonte.

O centro da arena é mais arriscado, porque nele não existem esconderijos. Porém, só aí pode haver verdadeira relação. Só aí a força deixa de ser reação cega. Só aí a inteligência pode recuperar a sua função própria: reconhecer o real e ordenar a ação ao bem.

A verdadeira coragem não está, por isso, em atacar a partir do abrigo.

Está em abandonar o abrigo.

Está em aceitar o encontro.

Está em reconhecer que o outro pode não querer destruir-nos; pode querer apenas impedir que nos destruamos a nós próprios.

Talvez a maior tragédia não seja possuir pouca inteligência, mas usar a inteligência contra a verdade. E talvez a maior cegueira não seja deixar de ver, mas imaginar que se vê tudo a partir de um canto estreito da arena.

O peão de brega continua, apesar de tudo, a cumprir a sua missão.

Chama o touro.

Espera.

Aproxima-se.

Recua quando é necessário.

Volta a chamar.

Porque sabe que a paciência não é fraqueza e que servir o bem do outro exige, muitas vezes, suportar a incompreensão, a rudeza e até a agressividade.

Ele não pretende ser o protagonista.

Deseja apenas que a lide não termine nas tábuas.

Porque nas tábuas domina a suspeita.

No centro pode nascer a verdade.

Nas tábuas cada homem está sozinho com o seu medo.

No centro pode finalmente encontrar o outro.

E é apenas nesse encontro, humilde e desarmado, que a inteligência se reconcilia com a realidade, a liberdade com o bem e a pessoa com a sua própria humanidade.

Francisco Vaz

24 de julho de 2026

terça-feira, 21 de julho de 2026

O Abandono:

uma fratura ontológica, ética e política

Entre todas as ações humanas, poucas revelam uma rutura tão profunda da ordem moral quanto o abandono. Não apenas porque provoca sofrimento físico ou psicológico, mas porque atinge algo muito mais radical: as próprias condições que tornam possível a existência humana. O abandono constitui uma negação prática da responsabilidade pelo outro e, por isso, fere simultaneamente as dimensões ontológica, ética e política da vida em comum.

A reflexão contemporânea tende a interpretar o abandono quase exclusivamente através da linguagem da psicologia ou da sociologia. Fala-se de trauma, de perturbações emocionais, de contextos familiares desestruturados, de exclusão social ou de pobreza. Todas estas abordagens são importantes e indispensáveis. Contudo, permanecem insuficientes quando ignoram uma questão mais funda: o que significa abandonar outro ser humano?

A ontologia, entendida como reflexão sobre o ser enquanto ser, permite formular essa pergunta de forma radical. O ser humano não existe como realidade autossuficiente. Desde o primeiro instante da vida depende inteiramente de alguém que o acolha, cuide e proteja. O cuidado não constitui um acrescento posterior à existência; é uma das suas condições constitutivas. Um recém-nascido abandonado não sofre apenas: pode literalmente deixar de existir. O abandono atinge, assim, a própria possibilidade do ser.

É precisamente desta condição ontológica que nasce a exigência ética. Se a existência humana depende do cuidado, então cuidar não pode ser reduzido a um sentimento ou a uma preferência afetiva. É um dever. A ética começa no reconhecimento da vulnerabilidade do outro e na responsabilidade que essa vulnerabilidade suscita. Quando aqueles cuja missão é proteger — os pais, a família ou qualquer responsável — abandonam uma criança em situação de perigo, não estamos apenas perante uma falha emocional ou jurídica. Estamos perante uma rutura da ordem moral.

Existe, porém, uma terceira dimensão frequentemente esquecida: a política. Não a política entendida como disputa partidária, mas no sentido clássico que Aristóteles lhe atribuiu. A polis nasce porque seres humanos capazes de agir moralmente reconhecem deveres recíprocos e organizam a convivência em função do bem comum. A confiança é o seu primeiro fundamento. Quando uma comunidade deixa de considerar intolerável o abandono dos mais frágeis, começa a corroer silenciosamente as bases da sua própria existência política. O problema deixa então de ser apenas individual: torna-se civilizacional.

O recente caso dos dois irmãos abandonados pela mãe e pelo padrasto em circunstâncias de extrema perigosidade recordou-nos precisamente essa tripla fratura. Grande parte do debate público procurou explicações psicológicas ou sociológicas — necessárias, sem dúvida —, mas quase nada se ouviu sobre as implicações ontológicas, éticas e políticas de um gesto desta natureza. E, no entanto, é precisamente aí que reside a sua gravidade mais profunda.

Porque cuidar nunca é apenas uma escolha privada. É uma exigência inscrita na própria condição humana.

Curiosamente, esta verdade permanece particularmente evidente nos contextos em que a civilização parece suspender-se: a guerra. Em praticamente todas as unidades militares existe uma regra não escrita, mas absoluta: não abandonar um camarada ferido. Trata-se de uma obrigação que ultrapassa qualquer cálculo estratégico. É uma questão de honra, de fidelidade e de humanidade.

Os exemplos abundam durante a Segunda Guerra Mundial, especialmente entre os United States Marine Corps. Nos combates do Pacífico, inúmeros Marines arriscaram — e muitos perderam — a própria vida para resgatar companheiros sob intenso fogo inimigo. Fizeram-no não porque isso aumentasse necessariamente a eficácia operacional, mas porque abandonar um camarada representaria uma degradação moral incompatível com a identidade da própria unidade. A coesão militar assentava, antes de mais, na certeza de que ninguém seria deixado para trás.

É profundamente revelador que, mesmo no cenário extremo da guerra, o homem reconheça esta obrigação elementar, enquanto em sociedades pacificadas ela parece, por vezes, diluir-se entre relativismos morais ou explicações exclusivamente psicológicas.

Reconhecer esta realidade não significa desvalorizar a psicologia, a psiquiatria ou as ciências sociais. Significa apenas recordar que existe uma camada mais profunda da experiência humana. O abandono não é apenas um trauma. É uma negação das condições fundamentais que tornam possível a existência, a responsabilidade moral e a própria vida em comunidade.

Os filósofos clássicos compreenderam-no muito antes da linguagem moderna da psicologia. Platão mostra-nos que toda a desordem exterior nasce de uma desordem interior da alma. Quando o homem perde a capacidade de reconhecer o bem, acaba por inverter a ordem natural das coisas: proteger deixa de ser prioridade, cuidar deixa de ser dever e o outro deixa de ser um fim para se transformar num obstáculo.

A alegoria da caverna não é apenas uma reflexão sobre o conhecimento; é igualmente uma meditação sobre a alienação moral e política. Quem vive afastado da verdade deixa também de ver corretamente o outro. E quando essa cegueira se instala, o abandono torna-se possível.

Talvez seja precisamente essa a sua ferida mais profunda. O abandonado não sofre apenas pela fome, pelo medo ou pela solidão. Sofre porque experimenta, de forma radical, o não reconhecimento. Descobre demasiado cedo que aqueles que deveriam garantir a sua existência deixaram de o considerar digno de cuidado.

É por isso que o abandono figura entre as ações mais desumanas que um ser humano pode cometer. Porque rompe simultaneamente a possibilidade do ser, destrói a obrigação ética do cuidado e enfraquece o vínculo político que sustenta qualquer comunidade.

Uma civilização pode sobreviver à pobreza, à guerra ou às crises institucionais. O que dificilmente sobreviverá é à perda da consciência de que cuidar do outro — sobretudo do mais vulnerável — não constitui uma opção sentimental nem um gesto de mera benevolência. É o fundamento ontológico da existência humana, o primeiro dever da ética e a condição indispensável de toda a comunidade política digna desse nome.

Francisco Vaz

21 de julho de 2021

segunda-feira, 20 de julho de 2026

A Terra do Esquecimento

no Mundo das redes sociais

Vivemos tempos estranhos. Nunca a humanidade dispôs de tantos meios para comunicar e nunca pareceu tão incapaz de verdadeiramente se encontrar. Multiplicam-se as guerras entre povos, entre culturas e religiões. Mas talvez as mais perigosas sejam as guerras silenciosas, travadas dentro de cada consciência, onde a verdade cede facilmente lugar ao ruído, a memória ao instante e a esperança à ansiedade.

As redes sociais não inventaram a divisão humana. O conflito acompanha a história desde Caim e Abel. Mas ampliaram-no até uma escala inédita. Cada ecrã tornou-se uma trincheira; cada opinião, uma identidade; cada diferença, uma fronteira. O homem contemporâneo corre o risco de viver permanentemente ligado ao mundo e, paradoxalmente, profundamente desligado da realidade.

Homero descreveu este perigo há quase três mil anos.

Na Odisseia, Ulisses aporta à terra dos Lotófagos. Os habitantes alimentavam-se do fruto do lótus. Quem o provava esquecia imediatamente a pátria, a família, os amigos e até o desejo de regressar. Não havia sofrimento, mas também não havia futuro. Não existia projeto, nem missão, nem fidelidade. Apenas um presente contínuo, indiferente e sem horizonte.

É difícil não reconhecer nesta narrativa uma poderosa metáfora da nossa época.

Também hoje somos constantemente convidados a consumir um outro tipo de lótus. Não cresce em árvores; nasce dos algoritmos, do entretenimento incessante, da sucessão infinita de notícias, imagens e opiniões. Alimenta-se da distração permanente. Pouco a pouco vai enfraquecendo a memória, dissolvendo a capacidade de contemplação e tornando dispensável qualquer pergunta sobre o sentido da existência.

O homem então deixa de caminhar. Flutua numa insustentável leveza, sem raízes na memória nem horizonte para o futuro.

A consequência não é apenas cultural ou política; é profundamente antropológica. Porque o homem só é verdadeiramente humano quando se lembra de quem é e para onde caminha.

É significativo que uma das primeiras definições de humano apareça precisamente na obra inaugural da humanidade: a Epopeia de Gilgamesh. Quando Enkidu abandona o estado selvagem, torna-se humano ao comer pão e beber vinho. O pão e o vinho não são apenas alimentos. Representam a entrada na cultura, na comunhão, na hospitalidade, no trabalho partilhado, na celebração e na transcendência. O Homem nasce verdadeiramente quando participa numa mesa.

O Homem é, desde o princípio da civilização, aquele que come pão e bebe vinho.

Nunca aquele que come lótus.

O pão exige trabalho. O vinho pede tempo. Ambos pressupõem memória, comunidade e esperança. O lótus, pelo contrário, oferece apenas esquecimento.

Talvez por isso Fernando Pessoa tenha descrito o homem sem horizonte como “o cadáver adiado que procria”. A expressão permanece inquietante. Não fala da morte física, mas de uma existência que perdeu a capacidade de desejar, de criar, de amar e de esperar. Uma vida biologicamente activa, mas espiritualmente suspensa.

E, no entanto, nem tudo está perdido.

Ao longo da história sempre existiram homens e mulheres que resistiram à terra do esquecimento. Não foram necessariamente grandes governantes, filósofos ou conquistadores. Foram, muitas vezes, pessoas anónimas.

Recordo a Rosa Fadista, a parteira que ajudou a trazer-me ao mundo. Penso nos antigos médicos de província que passavam décadas na mesma aldeia, conhecendo cada família, acompanhando o nascimento das crianças, consolando os doentes, permanecendo junto dos moribundos. Nunca apareceram nas manchetes dos jornais. Talvez nunca tenham tido milhares de seguidores. Mas deixaram uma marca profunda na vida concreta das pessoas.

Viviam numa geografia pequena, mas habitavam um universo infinitamente maior.

Sabiam que a felicidade não nasce da notoriedade, mas da fidelidade.

Hoje continuamos a precisar dessas pessoas. Homens e mulheres capazes de cultivar a memória, de construir comunidade, de permanecer quando todos passam, de cuidar quando todos comentam.

Porque a verdadeira resistência talvez consista simplesmente em não esquecer.

Não esquecer quem somos.

Não esquecer aqueles que nos precederam.

Não esquecer os que caminham connosco.

E não esquecer Aquele que caminha à nossa frente.

A esperança cristã começa precisamente onde termina o esquecimento. Na Eucaristia, Cristo não oferece o fruto do lótus, mas o pão e o vinho transformados na sua própria presença. E fá-lo dizendo: «Fazei isto em memória de Mim.»

A memória cristã não é nostalgia do passado. É a presença viva de uma promessa que continua a abrir o futuro.

Enquanto houver Homens que partam o pão, partilhem o vinho, guardem a memória e permaneçam fiéis ao bem, a terra do esquecimento jamais terá a última palavra.

Porque a última palavra pertence sempre à Ressurreição.

Francisco Vaz

20 de julho de 2026