Leitura teológica, ética e política de 1 Reis 3, 11-12 (XVII Domingo do Tempo Comum)
«Porque foi este o teu pedido, e já que não pediste longa vida, nem riqueza, nem a morte dos teus inimigos, mas sabedoria para praticar a justiça, vou satisfazer o teu desejo. Dou-te um coração sábio e esclarecido, como nunca houve antes de ti nem haverá depois de ti.»
Entre todas as passagens da Sagrada Escritura dedicadas ao exercício do poder, poucas possuem tanta profundidade quanto o diálogo entre Deus e Salomão. O jovem rei poderia ter pedido aquilo que quase todos os homens desejam quando alcançam uma posição de autoridade: mais poder, mais riqueza, mais segurança ou a derrota dos seus adversários. Não o fez. Pediu algo incomparavelmente mais difícil: um coração capaz de discernir o bem do mal para governar o povo com justiça.
Esta escolha revela uma verdade decisiva: o maior problema da política nunca foi a falta de poder, mas a falta de sabedoria.
A dimensão teológica
Na perspetiva bíblica, a sabedoria não é simplesmente inteligência nem acumulação de conhecimentos. É um dom divino que permite contemplar a realidade à luz da verdade.
O texto é particularmente significativo porque Deus não elogia Salomão por desejar governar. Elogia-o porque compreendeu que ninguém é capaz de governar bem apenas com as próprias forças.
O coração bíblico representa o centro da pessoa: inteligência, vontade, consciência e liberdade.
Quando Deus promete um «coração sábio», está a prometer uma transformação interior. O verdadeiro governante não muda primeiro as leis; deixa primeiro que Deus transforme o seu próprio coração.
É por isso que, na tradição cristã, toda a autoridade é entendida como serviço.
Cristo levará esta ideia até às últimas consequências:
«Quem quiser ser o primeiro entre vós seja o servo de todos.»
A autoridade nasce do serviço e não da dominação.
A dimensão ética
A passagem oferece também uma profunda reflexão sobre a ética.
Os três pedidos recusados por Salomão continuam a ser, três mil anos depois, as grandes tentações do poder.
A longa vida representa a tentação da conservação do poder.
A riqueza representa a instrumentalização do cargo para benefício próprio.
A morte dos inimigos representa a política construída sobre o ressentimento e a vingança.
Salomão rejeita tudo isso.
Pede apenas a capacidade de fazer justiça.
É uma inversão completa da lógica habitual.
Hoje fala-se frequentemente de competência técnica, liderança, comunicação política, marketing eleitoral ou gestão estratégica.
Tudo isso pode ser útil.
Mas a Escritura recorda que nenhuma dessas capacidades substitui uma consciência reta.
A inteligência sem virtude pode tornar-se extraordinariamente perigosa.
A técnica indica como fazer.
A sabedoria pergunta primeiro se deve ser feito.
A dimensão política
Esta leitura possui uma atualidade impressionante.
Vivemos numa época em que frequentemente se identifica boa governação com eficiência económica, crescimento estatístico ou domínio tecnológico.
Tudo isso é importante.
Mas não basta.
Um Estado pode tornar-se mais rico e simultaneamente menos justo.
Pode tornar-se mais eficiente e perder a sua alma.
A tradição clássica — de Aristóteles a São Tomás de Aquino — ensinou sempre que o fim da política não é apenas garantir ordem ou prosperidade, mas promover o bem comum.
Ora, o bem comum exige governantes capazes de discernimento moral.
A primeira qualidade de um estadista não é a popularidade.
Também não é o carisma.
Muito menos a capacidade de vencer eleições.
É possuir um coração suficientemente livre para colocar a justiça acima do interesse pessoal.
Sem esta liberdade interior, a política degrada-se facilmente em mera luta pelo poder.
Quando isso acontece, os adversários deixam de ser pessoas e passam a ser obstáculos; os cidadãos transformam-se em eleitores; e a verdade torna-se apenas um instrumento de comunicação.
Uma lição para todos
Seria, contudo, um erro pensar que este texto se dirige apenas aos governantes.
Cada pessoa exerce diariamente alguma forma de autoridade: na família, na educação, na empresa, na investigação, na Igreja ou na sociedade civil.
Todos somos chamados, em maior ou menor medida, a decidir sobre a vida dos outros.
Também nós podemos pedir riqueza, reconhecimento ou sucesso.
Ou podemos pedir aquilo que Salomão pediu: um coração capaz de reconhecer a verdade e praticar a justiça.
No fundo, esta passagem coloca diante de cada homem uma escolha permanente.
A questão decisiva da vida não é quanto poder possuímos.
É o que fazemos com ele.
Conclusão
Num tempo em que tantas sociedades parecem confiar exclusivamente na técnica, nos algoritmos ou nas estatísticas, a liturgia recorda uma verdade antiga que permanece nova: nenhuma civilização se sustenta sem homens e mulheres de coração sábio.
A justiça não nasce automaticamente das leis.
As leis nascem da consciência daqueles que as fazem.
E a consciência, por sua vez, só permanece reta quando permanece aberta à verdade.
Talvez seja esta a oração mais urgente do nosso tempo.
Não pedir mais riqueza.
Não pedir mais poder.
Não pedir a derrota dos nossos adversários.
Mas pedir, como Salomão, um coração suficientemente sábio para reconhecer o bem, suficientemente humilde para o procurar e suficientemente corajoso para o praticar.
Francisco Vaz
26 de julho de 2026