Pecado original

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domingo, 7 de junho de 2026

Acolhimento e encontro

Homilía Leão XIV na Eucaristia do Corpo de Deus - 7 de junho - Madrid 2026

A homilia do Papa Leão XIV na Eucaristia do Corpo de Deus celebrada hoje na Praça de Cibeles, em Madrid, perante cerca de 1,2 milhões de fiéis, confirma uma das linhas mestras do seu pontificado: a recusa de uma fé reduzida à esfera privada e a afirmação da dimensão social, ética e política da Eucaristia.

O Papa afirmou que a religiosidade popular não pode ser entendida como um "museu do passado" nem como um conjunto de devoções intimistas fechadas sobre si mesmas. Pelo contrário, deve ser uma "escola" que educa para o encontro, para o acolhimento, para o compromisso e para a entrega aos outros.

A dimensão ética

Do ponto de vista ético, a mensagem é clara: não existe verdadeira adoração de Deus sem reconhecimento da dignidade do próximo. A Eucaristia não é apenas um acto de culto; é uma transformação do olhar humano. Quem participa do pão repartido deve tornar-se, ele próprio, pão repartido para os outros.

Por isso, Leão XIV insistiu na atenção aos pobres, aos marginalizados, aos migrantes, aos solitários e aos esquecidos. Deus, afirmou, identifica-se precisamente com aqueles que a sociedade tende a deixar para trás.

Sob este aspecto, a sua reflexão aproxima-se da tradição inaugurada pela encíclica Rerum Novarum. Tal como Leão XIII procurou responder às injustiças da Revolução Industrial, Leão XIV procura responder às exclusões produzidas pela revolução digital e pela globalização contemporânea.

A dimensão política

A política surge aqui não como luta partidária, mas como expressão do bem comum.

Quando o Papa afirma que os dirigentes devem evitar a divisão sistemática dos povos e respeitar a dignidade de cada pessoa, está a recordar que a política existe para unir e não para fragmentar.

A sua posição é particularmente relevante numa Europa marcada pela polarização ideológica, pela crise migratória e pelo crescimento de movimentos identitários. Sem nomear partidos ou governos, Leão XIV recorda que a legitimidade política não deriva apenas do voto, mas da capacidade de promover a justiça, a solidariedade e a coesão social.

É uma concepção profundamente agostiniana da política: a cidade humana encontra a sua estabilidade não na força, mas na ordem do amor (ordo amoris), isto é, numa correcta hierarquia de bens.

O bem comum como horizonte

O ponto mais interessante da homilia talvez seja a recuperação da ideia de bem comum, conceito praticamente desaparecido de grande parte do discurso político contemporâneo.

Nas democracias actuais, fala-se frequentemente de direitos individuais, interesses sectoriais ou reivindicações identitárias. Fala-se menos do que une uma comunidade política.

Ora, a procissão do Corpo de Deus pelas ruas de Madrid possui precisamente esse significado simbólico. Cristo deixa o espaço protegido do templo para percorrer a cidade. A fé entra na praça pública não para dominar, mas para recordar que existe algo superior aos interesses particulares: a dignidade da pessoa humana e a responsabilidade recíproca entre todos os membros da comunidade.

Uma leitura ontológica

Num plano mais profundo, a homilia revela uma visão da realidade assente na relação e não no isolamento.

O ser humano não é concebido como indivíduo autónomo e fechado sobre si próprio, mas como ser de participação e comunhão. A Eucaristia torna-se, assim, um símbolo ontológico da própria condição humana: ninguém existe apenas para si mesmo.

Esta ideia aproxima-se de reflexões presentes em autores como Louis Lavelle, para quem o ser se realiza plenamente na participação num acto maior do que si próprio. A comunhão eucarística aparece então como expressão concreta dessa participação: receber para dar, existir para partilhar.

Conclusão

A homilia de Cibeles poderá vir a ser recordada como um dos textos programáticos do pontificado de Leão XIV. Nela encontram-se já os seus temas fundamentais: a centralidade da pessoa humana, a prioridade dos pobres, a crítica do individualismo contemporâneo, a recuperação do bem comum e a necessidade de uma política orientada pela fraternidade.

Tal como Leão XIII procurou humanizar a sociedade industrial, Leão XIV parece determinado a humanizar a sociedade digital. E a sua mensagem essencial pode resumir-se numa ideia simples: uma sociedade que adora Deus mas esquece o homem trai o Evangelho; uma sociedade que esquece Deus acaba por esquecer também o homem.

Francisco Vaz

7 de junho de 2026

O Ser o Bem e a Cidade

Uma reflexão ontológica sobre ética e política

A reflexão de Louis Lavelle, desenvolvida e aprofundada por Américo Pereira em A Fundamentação Ontológica da Ética na Obra de Louis Lavelle (Lusosofia, 2009), assenta numa ideia fundamental: a realidade não é uma coleção de coisas acabadas, mas a manifestação contínua do Ato. O ser não é algo estático nem uma substância imóvel; é uma atividade permanente, uma adveniência incessante à presença.

O ato não produz efeitos exteriores a si mesmo, porque nada existe verdadeiramente fora dele. Tudo o que existe participa do Ato absoluto. Assim, a existência não corresponde à permanência de algo num mundo previamente constituído; corresponde ao próprio acontecimento pelo qual algo emerge à presença. Existir é manifestar-se. Mais ainda, existir é criar um mundo próprio, um horizonte de sentido e de relações que surge com o próprio ato de ser.

Nesta perspetiva, a existência é o ponto de convergência de uma infinidade de relações que encontram nela a sua referência e a sua possibilidade de manifestação. O ser não surge como uma entidade isolada, mas como uma realidade relacional cuja identidade se constitui através da participação ativa no Ato. Cada ato de ser humano representa uma forma singular de participação na riqueza infinita do ser.

Daqui decorre uma crítica radical daquilo que habitualmente designamos por realidade. O que vemos como realidade objetiva e consolidada não possui autonomia ontológica própria. A realidade manifesta é apenas a retenção ou memória de atos já realizados. O que verdadeiramente possui densidade ontológica é o ato presente de manifestação. O manifestado permanece apenas como vestígio, como memória, como presença derivada.

Por isso, a memória não pode constituir o fundamento último da identidade pessoal. A pessoa não é aquilo que recorda ter sido. A sua identidade funda-se no ato presente pelo qual participa continuamente no ser. A memória é sempre secundária relativamente ao ato vivo da presença. Como sublinha Américo Pereira, fundar a identidade humana apenas na memória equivale a edificá-la sobre algo ontologicamente insubstante, pois a memória conserva apenas a imagem de atos passados e não o seu dinamismo criador.

É precisamente neste ponto que a ontologia se transforma em ética. Se cada pessoa é uma participação singular no Ato absoluto, então o bem consiste em favorecer essa participação e em permitir que cada ser humano realize plenamente as possibilidades do seu ato de ser. O mal, pelo contrário, surge sempre que essa participação é diminuída, impedida ou negada.

A originalidade da interpretação de Américo Pereira reside na ideia de que o mal não representa apenas uma falha moral; representa igualmente uma diminuição ontológica. Sempre que um ser humano é reduzido a instrumento, silenciado, humilhado ou impedido de desenvolver plenamente o seu ser, não é apenas essa pessoa que sofre uma perda. É o próprio universo ontológico que se torna mais pobre, porque deixa de emergir uma possibilidade única e irrepetível de manifestação do ser.

Quando a ação humana permanece na esfera da interioridade, estamos ainda no domínio da ética. Contudo, nenhuma ação humana permanece confinada à consciência individual. Toda a ação produz efeitos sobre os outros e encontra inevitavelmente outras ações, outras consciências e outras liberdades. É nesse momento que nasce a política.

Como afirma Américo Pereira, quando a ação de cada ser humano transcende a pura interioridade ética em que se origina, surge imediata e necessariamente o domínio da política, entendido como o espaço onde diferentes éticas se encontram. A política não aparece, assim, como realidade originária. O que é originário é a pessoa, enquanto ato de ser e sujeito ético. A política nasce da coexistência de múltiplos atos livres de ser.

Esta conceção distancia-se profundamente da visão da política como mera disputa pelo poder ou simples técnica de administração social. A política surge como o espaço relacional onde diferentes manifestações do ser procuram coexistir e harmonizar-se. Não é um instrumento de dominação, mas uma condição necessária da convivência entre pessoas livres.

Neste sentido, a política pode ser definida como a arte de tornar possível a coexistência das diferentes realizações humanas do ser. O seu objetivo não consiste em uniformizar consciências nem em subordinar os indivíduos a uma vontade coletiva abstrata, mas em criar as condições que permitam a cada pessoa desenvolver plenamente a sua vocação ontológica.

A boa política será, portanto, aquela que favorece a emergência da riqueza humana em todas as suas formas. A má política será aquela que reduz a pessoa à condição de meio, instrumento ou simples elemento estatístico de um sistema. O critério último da política não é a eficácia, nem a prosperidade material, nem sequer a estabilidade institucional. O seu critério fundamental é ontológico: saber se favorece ou dificulta a realização plena do ser humano.

Desta forma, ontologia, ética e política revelam-se momentos distintos de uma mesma realidade fundamental. O ser funda o agir; o agir funda a convivência; e a convivência funda a cidade. A política não é exterior à ética nem a ética exterior à ontologia. Constituem graus sucessivos de uma mesma participação no Ato absoluto.

A dignidade da pessoa humana não deriva, assim, da sua utilidade social, do reconhecimento jurídico ou da posição que ocupa na sociedade. Deriva da sua condição ontológica de participante singular no ser. Cada pessoa representa uma possibilidade irrepetível de manifestação do Ato. Defender a pessoa humana é, por isso, mais do que uma exigência moral ou jurídica: é uma exigência metafísica.

À luz de Lavelle e de Américo Pereira, a realidade não é aquilo que já foi criado e permanece diante de nós como objeto concluído. A realidade é o próprio acontecimento incessante da criação. E a política, longe de ser apenas gestão do poder, é o espaço onde múltiplas participações no ser procuram realizar uma forma comum de coexistência sem renunciar à singularidade que as constitui.

Francisco Vaz

7 de junho de 2026

A Propósito do 82.º Aniversário da Operação Overlord

Normandia, Marianas e o Poder no Mar

As comemorações do Dia D constituem muito mais do que um exercício de memória histórica. A cada ano, as praias da Normandia transformam-se num palco onde o passado é convocado para iluminar os desafios do presente. O Dia D nunca é apenas uma evocação da maior operação anfíbia da História; é também uma declaração sobre a forma como cada geração compreende a liberdade, a segurança e o papel das democracias no mundo.

O discurso de Dwight D. Eisenhower, embora anterior às grandes comemorações modernas, permanece a referência fundadora. Na célebre Ordem do Dia dirigida aos homens que desembarcariam na Normandia, o foco estava na missão: derrotar a tirania nazi e restaurar a liberdade na Europa. Era um discurso de dever, sacrifício e responsabilidade moral. Não havia triunfalismo; havia a consciência da enorme incerteza da operação e da gravidade do momento.

Quarenta anos depois, em 1984, Ronald Reagan pronunciou em Pointe du Hoc um dos mais marcantes discursos políticos do século XX. Diante dos sobreviventes que tinham escalado aquelas falésias sob fogo inimigo, Reagan transformou o Dia D numa celebração da liberdade ocidental. O contexto era o da Guerra Fria. A União Soviética continuava a representar o principal adversário estratégico do Ocidente, e a mensagem implícita era clara: a mesma determinação que derrotara Hitler deveria continuar a defender o mundo livre contra qualquer forma de tirania.

Em 2024, por ocasião do 80.º aniversário, Joe Biden retomou muitos dos temas de Reagan, mas adaptando-os ao contexto da guerra na Ucrânia. O seu discurso insistiu na importância das alianças transatlânticas e na necessidade de resistir à agressão russa. Para Biden, a principal lição da Normandia era a de que as democracias apenas sobrevivem quando permanecem unidas perante ameaças comuns.

As comemorações deste ano revelaram uma interpretação diferente desse legado. No discurso de hoje, Pete Hegseth homenageou o sacrifício dos combatentes de 1944, mas utilizou também a ocasião para refletir sobre desafios contemporâneos. Ao afirmar que “outras praias da Europa estão hoje a ser assaltadas por ideologias perigosas”, numa referência aos fluxos migratórios e às questões de identidade cultural e segurança, Hegseth deslocou o centro da reflexão da defesa das alianças para a defesa da soberania, do controlo das fronteiras e da preservação daquilo que considera serem os fundamentos da civilização ocidental. A controvérsia que se seguiu demonstra, precisamente, como a memória da Normandia continua viva e politicamente relevante. O Dia D permanece um símbolo poderoso, mas o significado desse símbolo é permanentemente reinterpretado à luz das preocupações de cada época.

Todos estes discursos partilham uma mesma convicção: a liberdade exige sacrifício. Divergem, porém, na identificação das ameaças e das prioridades estratégicas. Para Eisenhower, era o nazismo; para Reagan, o expansionismo soviético; para Biden, a defesa da ordem internacional liberal perante o revisionismo autoritário; para Hegseth, um mundo multipolar marcado por desafios à soberania nacional, à identidade cultural e à capacidade dissuasora do Ocidente.

Há, contudo, uma dimensão frequentemente esquecida nestas reflexões. A Normandia tornou-se um mito fundador do Ocidente contemporâneo, mas a sua memória tende a concentrar-se quase exclusivamente na coragem dos homens que desembarcaram nas praias francesas. Essa coragem foi decisiva, mas não explica, por si só, a vitória.

Para um historiador, esta evolução é particularmente relevante. Em 1944, a Operação Overlord constituiu uma das mais impressionantes demonstrações do poder naval aliado, a par da Operação Forager, a grande ofensiva anfíbia lançada no Pacífico com o desembarque em Saipan, a 15 de junho de 1944, destinada à conquista das Ilhas Marianas e à expulsão das forças japonesas de um arquipélago cuja importância estratégica era decisiva para o desfecho da guerra. Em ambos os casos, o sucesso das operações assentou na conjugação do controlo do mar, da supremacia aérea, da capacidade logística e da projeção de força a partir do mar, demonstrando que o poder naval não é apenas um instrumento militar, mas uma condição essencial para a realização dos grandes objetivos políticos e estratégicos das nações.

Se a Normandia abriu o caminho para a libertação da Europa, as Marianas colocaram o Japão ao alcance dos bombardeiros estratégicos americanos, acelerando o colapso do Império Japonês. Juntas, estas operações representam o auge da arte operacional anfíbia e da aplicação do poder naval no século XX. A coragem dos homens que desembarcaram sob fogo inimigo só produziu efeitos decisivos porque foi sustentada por uma colossal infraestrutura naval, aérea, industrial e logística construída ao longo de anos.

É precisamente esta dimensão que muitas vezes se perde nas cerimónias comemorativas. Recordam-se os homens — e justamente —, mas esquece-se por vezes a estrutura de poder que permitiu transformar a coragem em vitória. A Normandia e as Marianas demonstraram que a liberdade não depende apenas de ideais nobres; depende também da capacidade das sociedades para organizar recursos, construir alianças, dominar tecnologias e sustentar esforços prolongados perante ameaças existenciais.

Talvez essa seja a principal lição que permanece oitenta e dois anos depois. As democracias podem desejar a paz, mas apenas conseguem preservá-la quando possuem a vontade política, a capacidade industrial, a coesão social e os instrumentos militares necessários para a defender. Como observava Alfred Thayer Mahan, o poder no mar não é apenas um instrumento de guerra; é o fundamento invisível da prosperidade, da segurança e da liberdade das nações.

Em certo sentido, a Normandia e as Marianas continuam a falar ao presente. Não apenas como memórias gloriosas de um passado distante, mas como advertências permanentes de que a liberdade tem um preço e de que a sua preservação exige, simultaneamente, coragem moral, visão política e poder estratégico. É por isso que as praias da Normandia continuam a ser visitadas por estadistas, militares e cidadãos comuns: porque nelas não se recorda apenas o que aconteceu em 1944; procura-se compreender o que continua a estar em jogo no século XXI.

Francisco Vaz

6 de junho de 2026

As Primeiras Marinhas

Como o comércio marítimo deu origem às primeiras marinhas e moldou os fundamentos do poder naval que ainda hoje sustenta a ordem internacional


A história das marinhas confunde-se com a própria história do comércio marítimo. Desde que os homens começaram a transportar riquezas pelo mar, surgiram também aqueles que procuravam apropriar-se delas pela força. A pirataria foi, assim, uma consequência quase inevitável do crescimento das trocas comerciais, e os primeiros confrontos navais não passaram de escaramuças desorganizadas entre mercadores e predadores marítimos em busca de saque.

Perante essa ameaça, as comunidades mais organizadas compreenderam rapidamente que a prosperidade dependia da proteção das rotas marítimas. Surgiram então embarcações destinadas especificamente à escolta dos navios mercantes, transportando a bordo guerreiros especialmente destacados para combater no mar — os precursores dos modernos fuzileiros navais.

A especialização das funções conduziu naturalmente à especialização dos navios. No Mediterrâneo antigo começaram a destacar-se dois tipos fundamentais de embarcações: os navios mercantes, largos e pesados, concebidos para transportar carga, e as galeras de guerra, longas e estreitas, impulsionadas por remos durante o combate e equipadas com velas para aproveitar os ventos favoráveis. Nascia assim uma distinção que marcaria toda a evolução naval posterior: a separação entre os meios destinados ao comércio e os meios destinados à guerra.

Desde os seus primórdios, as marinhas tiveram uma missão essencial: proteger as comunicações marítimas. O termo “comunicações” abrangia todo o sistema de rotas e transportes que permitia a circulação de mercadorias, pessoas e informação. Defender essas comunicações e impedir que o inimigo utilizasse as suas tornou-se a principal razão de ser do poder naval.

Desta realidade nasceu um dos conceitos fundamentais da estratégia marítima: o domínio do mar. Uma potência naval detinha o domínio do mar quando conseguia garantir a segurança das suas próprias linhas de comunicação e negar ao adversário a utilização dessas mesmas rotas. Frequentemente, esse objetivo era alcançado através da destruição da esquadra inimiga numa batalha decisiva, assegurando de uma só vez a supremacia numa determinada região marítima.

O domínio do mar permitia então desempenhar as restantes funções estratégicas das marinhas: defender o território nacional contra invasões vindas do mar, isolar economicamente o inimigo e projetar o poder militar para além das fronteiras através de operações anfíbias e expedições militares.

Quando a história marítima do Mediterrâneo começa a ser registada com alguma precisão, no século V a.C., as civilizações da região já dominavam muitos dos princípios fundamentais da guerra. Compreendiam a importância da logística, isto é, do abastecimento e manutenção das forças; conheciam a necessidade do planeamento estratégico; e tinham desenvolvido sistemas táticos relativamente sofisticados para a condução das batalhas.

Todavia, a guerra naval permanecia profundamente influenciada pela guerra terrestre. Os mesmos comandantes dirigiam frequentemente exércitos e frotas, considerando os navios como uma extensão das forças terrestres. As galeras navegavam em colunas e, perante o inimigo, formavam linhas compactas inspiradas na falange hoplítica. Cada embarcação protegia os flancos vulneráveis das vizinhas e apresentava ao adversário a sua arma principal: o esporão de bronze instalado na proa, concebido para abalroar e afundar navios inimigos.

As primeiras táticas navais sofriam, contudo, da mesma limitação da falange terrestre: a rigidez. A falta de flexibilidade tornava difícil responder a manobras inesperadas ou a ataques de flanco, uma vulnerabilidade que seria gradualmente superada à medida que a arte naval evoluísse.

Entre as primeiras grandes potências marítimas destacaram-se os cretenses. A geografia montanhosa e pouco fértil de Creta obrigou os seus habitantes a procurar no mar os recursos que a terra lhes negava. A posição estratégica da ilha, situada no centro das principais rotas do Mediterrâneo oriental, favoreceu o desenvolvimento do comércio e conferiu-lhe uma importância excecional como ponto de controlo das comunicações marítimas.

Aos cretenses sucederam os fenícios, talvez os maiores navegadores da Antiguidade. A partir de cidades como Sidon e Tiro, construíram uma vasta rede comercial que se estendia desde a Grã-Bretanha até à costa ocidental africana. Procuravam estanho, âmbar, marfim e escravos, que trocavam pelos produtos luxuosos do Oriente. O seu dinamismo comercial levou-os a fundar inúmeras colónias e entrepostos, entre os quais se destacou Cartago, destinada a tornar-se uma das grandes potências do Mediterrâneo.

Mas foi na Grécia que o poder marítimo alcançou uma das suas expressões mais notáveis. Graças aos relatos de Heródoto e Tucídides, possuímos uma imagem relativamente clara da guerra naval grega. Dependentes do mar para o seu comércio e expansão, os gregos construíram uma vasta rede de assentamentos que se estendia da Ásia Menor ao Mar Negro, da Sicília à Península Ibérica.

No século V a.C., os gregos dominavam grande parte do comércio do Mediterrâneo oriental. Exportavam vinho, azeite, produtos artesanais e obras de arte procurados em todo o mundo conhecido. A sua prosperidade assentava numa poderosa tradição marítima e numa extraordinária capacidade de navegação.

Todavia, a Grécia possuía uma fraqueza estrutural que acabaria por comprometer o seu destino histórico. As cidades-estado gregas permaneciam divididas e frequentemente em conflito entre si. Atenas, Esparta, Corinto e Tebas competiam pela hegemonia em vez de cooperarem numa política comum. As colónias ultramarinas mantinham laços culturais e comerciais com as suas cidades de origem, mas gozavam de ampla autonomia.

Esta fragmentação impediu os gregos de transformarem a sua superioridade marítima num verdadeiro império unificado. Paradoxalmente, foi a mesma energia criadora que os levou a conquistar os mares que contribuiu para a sua divisão política. E foi essa dispersão de poder, mais do que qualquer inimigo externo, que acabaria por custar à Grécia a liberdade que tanto valorizava.

A história das primeiras marinhas revela uma verdade permanente da condição humana: o mar nunca foi apenas um espaço geográfico. Foi, e continua a ser, um espaço económico, político e estratégico onde se decide a prosperidade das nações.

Desde os navegadores cretenses e fenícios até às grandes frotas de Atenas e Cartago, todas as potências marítimas compreenderam que a riqueza depende da liberdade de circulação e que essa liberdade exige proteção. O comércio gerou a necessidade de segurança; a segurança gerou o poder naval; e o poder naval tornou-se instrumento de influência política e de projeção estratégica.

A história demonstra igualmente que o domínio do mar não resulta apenas da posse de navios ou de tecnologia superior. Exige visão política, capacidade económica e, sobretudo, unidade estratégica. Quando estes elementos se conjugam, surgem as grandes potências marítimas. Quando se fragmentam, mesmo os povos mais talentosos acabam por perder a posição conquistada.

Dois mil e quinhentos anos depois, as circunstâncias mudaram, mas os princípios permanecem. Mais de noventa por cento do comércio mundial continua a viajar por mar. Os estreitos marítimos, as rotas energéticas, os cabos submarinos de comunicações e os grandes portos permanecem elementos vitais da economia global. As tensões no Mar do Sul da China, no Estreito de Ormuz ou no Mar Vermelho recordam-nos diariamente que a segurança marítima continua a ser condição indispensável da prosperidade.

As primeiras marinhas nasceram para proteger mercadorias transportadas em frágeis embarcações de madeira. As marinhas contemporâneas protegem cadeias logísticas globais que sustentam a civilização moderna. Mudaram os navios, as armas e as tecnologias; não mudou a lógica fundamental. O mar continua a recompensar os povos capazes de unir comércio, poder e visão estratégica.

Talvez seja esta a mais duradoura das lições legadas por Creta, Fenícia, Atenas e Cartago: quem controla as comunicações marítimas influencia a história; quem as negligencia arrisca-se a ser por ela ultrapassado.

Francisco Vaz

7 de junho de 2026


sexta-feira, 5 de junho de 2026

A Não Violência como Horizonte de Convivência

Entre a lógica da guerra e a possibilidade do encontro

Ao longo da história da humanidade, fomos educados a acreditar que a guerra, a competição e a luta constituem o fundamento da existência humana. Desde as antigas epopeias até às modernas teorias políticas, económicas e sociais, repetiu-se incessantemente a ideia de que o conflito é o motor da história. Heróis são celebrados pelas vitórias militares, impérios são recordados pela capacidade de conquista e muitas filosofias apresentaram a rivalidade como condição inevitável da vida humana.

Não surpreende, por isso, que se tenha chegado a considerar a guerra como uma espécie de categoria metafísica, quase uma lei da natureza. Em diferentes épocas, pensadores procuraram justificar racionalmente a violência, transformando-a não apenas num facto histórico, mas numa necessidade. A luta entre indivíduos, classes, povos ou nações passou a ser apresentada como inevitável e até desejável, como se o progresso humano dependesse dela.

Contudo, esta visão encerra uma profunda redução da realidade humana.

Do ponto de vista ontológico, isto é, da reflexão sobre o ser e sobre aquilo que torna possível a existência humana, a guerra não pode ser considerada originária. Antes de qualquer combate, existe a relação. Antes da rivalidade, existe o encontro. Nenhum ser humano nasce em guerra; nasce dependente do cuidado de outros. A condição humana funda-se na vulnerabilidade, na necessidade de acolhimento e na capacidade de reconhecimento mútuo.

A própria existência de cada pessoa é testemunho dessa verdade. Nenhum ser humano se cria a si mesmo. Todos somos recebidos no mundo através de uma relação de cuidado. A violência pode destruir a relação, mas não a cria. O conflito pode interromper a comunhão, mas não a origina. Ontologicamente, o ser humano é um ser-com-os-outros. A cooperação não é uma invenção tardia da civilização; é uma condição da própria sobrevivência da espécie.

É significativo que muitas tradições religiosas e culturais não coloquem a guerra no princípio, mas sim uma idade de harmonia perdida. O Paraíso bíblico, a Idade de Ouro dos gregos ou os mitos de uma humanidade primordial reconciliada exprimem uma intuição comum: a violência não pertence ao fundamento do ser, mas à sua degradação.

Daqui emerge a dimensão ética da questão.

A ética começa quando reconhecemos o outro como alguém que possui uma dignidade igual à nossa. A violência procura transformar o outro em objeto, instrumento ou obstáculo. A não violência, pelo contrário, reconhece-o como sujeito.

Não se trata de sentimentalismo nem de ingenuidade. A não violência não ignora o mal nem nega a existência do conflito. O que ela recusa é a ideia de que a guerra seja mais racional do que o amor, ou que a destruição constitua uma forma superior de inteligência política.

Durante séculos, exaltaram-se as virtudes do guerreiro, do conquistador e do vencedor. Menos atenção se deu à coragem daquele que reconcilia, daquele que perdoa, daquele que constrói pontes onde outros erguem muros. Contudo, a história demonstra que as maiores transformações civilizacionais ocorreram quando a lógica da força foi substituída pela lógica da cooperação.

A verdadeira grandeza ética não reside na capacidade de derrotar um adversário, mas na capacidade de reconhecer a humanidade daquele que se encontra diante de nós.

A dimensão política decorre naturalmente desta visão.

Se a política, a relação entre diferentes entidades éticas, é a arte de tornar possível a convivência entre diferentes, então a violência representa sempre um fracasso da política. Pode, em certas circunstâncias, ser necessário o uso da força para proteger inocentes ou garantir a sobrevivência de uma comunidade, mas, a violência, nunca pode constituir o horizonte último da organização social.

As grandes tragédias do século XX demonstraram como a absolutização da violência conduz inevitavelmente ao totalitarismo, à guerra permanente e à instrumentalização do ser humano. Quando a guerra, ou seja, a continuação da política por outros meios, se torna permanente, desaparece o espaço do diálogo e da construção comum.

Hoje, num mundo marcado por conflitos armados, polarização ideológica e crescente fragmentação social, a questão da não violência assume uma renovada atualidade. A humanidade dispõe de meios tecnológicos capazes de destruir o planeta várias vezes, mas continua a revelar dificuldade em construir relações de confiança.

Talvez o desafio do nosso tempo seja precisamente este: substituir a categoria da guerra pela categoria do amor.

Não se trata de negar a existência do conflito, mas de reconhecer que ele não constitui o fundamento da realidade humana. O fundamento é o encontro. O fundamento é a possibilidade de comunhão. O fundamento é a capacidade de reconhecer no outro não um inimigo, mas um semelhante.

Por isso, a não violência não deve ser entendida como mera ausência de guerra. Ela é uma visão do ser humano, uma exigência ética e um projeto político. Representa a convicção de que a história não está condenada a repetir eternamente a lógica da violência.

Num tempo em que muitos parecem acreditar que apenas o poder produz ordem, importa recordar uma verdade frequentemente esquecida: nenhuma sociedade se sustenta apenas pela força. O que verdadeiramente a mantém unida é a confiança, a cooperação e o reconhecimento mútuo.

A não violência não é, portanto, uma utopia ingénua. É talvez a mais elevada expressão da racionalidade humana. Porque, no fim de contas, a civilização não começou quando o homem aprendeu a guerrear; começou quando aprendeu a cuidar.

Francisco Vaz

5 de Maio de 2026

Fé, razão e consciência

E a aventura do conhecimento

A tendência contemporânea é associar a fé exclusivamente ao fenómeno religioso, reduzindo-a ao domínio das crenças espirituais. Contudo, uma análise mais rigorosa revela que a fé laica, ou seja, o acreditar humano, é uma condição prévia de toda a atividade racional. Antes mesmo de qualquer formulação teológica, a fé manifesta-se como confiança fundamental na inteligibilidade do real, na continuidade da existência e na validade do próprio pensamento.

Na verdade, a razão não opera num vazio absoluto. Todo o raciocínio parte de pressupostos que não podem ser demonstrados sem que se caia numa regressão infinita. Quando nos deitamos à noite, acreditamos que despertaremos no dia seguinte como a mesma pessoa; acreditamos que a memória conservará a sua coerência; acreditamos que as leis da natureza continuarão a funcionar e que o mundo não se transformará radicalmente durante o sono. Nenhuma destas certezas pode ser provada antecipadamente. Elas assentam numa confiança racional que constitui uma forma elementar de fé.

É precisamente aqui que surge a questão da consciência. A consciência é o lugar privilegiado onde o ser humano experimenta simultaneamente a sua identidade e a sua continuidade. Ao acordar, não recomeçamos do zero; reconhecemo-nos como os mesmos que adormeceram na noite anterior. Essa experiência de permanência não é apenas psicológica; possui uma dimensão ontológica profunda. A consciência testemunha a unidade do ser ao longo do tempo, permitindo-nos afirmar que existe um “eu” que permanece apesar das mudanças físicas, emocionais e intelectuais.

Neste sentido, o acreditar, não se opõe à razão; pelo contrário, torna-a possível. A razão necessita de confiar na estabilidade da consciência, na fiabilidade da memória e na inteligibilidade do mundo para poder exercer a sua função crítica. Sem essa confiança originária, toda a construção racional desmoronar-se-ia. Duvidar de tudo, de forma absoluta, conduziria não ao conhecimento, mas à impossibilidade de conhecer.

A tradição filosófica, de Santo Agostinho a René Descartes, passando por Edmund Husserl, procurou compreender esta relação íntima entre consciência, certeza e existência. Todos reconheceram, de modos diferentes, que há uma experiência originária do ser que precede qualquer demonstração lógica.

Por isso, fé e razão devem ser entendidas como dimensões complementares da condição humana. A fé fornece o horizonte de confiança sem o qual a razão não pode iniciar o seu trabalho; a razão, por sua vez, examina, esclarece e ordena aquilo que a fé pressupõe. Entre ambas encontra-se a consciência, esse mistério quotidiano através do qual o ser humano toma conhecimento de si próprio e do mundo.

Talvez a verdadeira questão não seja saber se vivemos pela fé ou pela razão, mas reconhecer que toda a razão humana repousa sobre um ato primordial de confiança: a convicção de que o ser existe, de que a consciência permanece e de que o mundo pode ser compreendido. É nessa confiança originária que se funda toda a aventura do conhecimento humano.
Francisco Vaz
5 de junho de 2026

quinta-feira, 4 de junho de 2026

Midway

 o desastre japonês 

A Batalha de Midway é frequentemente apresentada como uma vitória americana obtida pela combinação de inteligência, coragem e alguma dose de acaso. Tudo isso é verdade. Mas, do lado japonês, Midway foi sobretudo uma tragédia estratégica: a incapacidade de reconhecer que a batalha já tinha mudado de natureza.

O excerto de Shattered Sword revela um dos momentos mais dramáticos da história naval. Enquanto o porta-aviões japonês Hiryū continuava a lançar ataques contra os americanos, os seus tripulantes observavam horrorizados o estado de Sōryū. As chamas consumiam o navio de proa à popa. O almirante Tamon Yamaguchi tentou contactá-lo por sinal luminoso: “Tentem salvar o vosso porta-aviões.” Não houve resposta. O silêncio era a confirmação de que o desastre já ultrapassava a capacidade humana de o controlar.

Mas a verdadeira tragédia não estava apenas nos navios em chamas. Estava na mente dos comandantes.

Nagumo e Yamaguchi continuavam a pensar segundo os pressupostos da manhã, quando o Kidō Butai era a mais poderosa força aeronaval do mundo. Contudo, ao meio-dia de 4 de Junho de 1942, a realidade era outra. Três dos quatro porta-aviões japoneses estavam mortalmente feridos. A capacidade ofensiva da força tinha sido reduzida a uma fração do que existira poucas horas antes. Ainda assim, ambos os almirantes persistiram numa lógica de ataque.

Há aqui uma profunda lição estratégica. A guerra exige coragem, mas exige igualmente discernimento. A coragem sem discernimento transforma-se em obstinação. O comandante que não consegue distinguir entre persistência e teimosia arrisca-se a sacrificar os meios de que ainda dispõe em nome de uma vitória que já não é possível alcançar.

O contraste com a atitude de Chester Nimitz é particularmente instrutivo. A estratégia americana assentava no princípio do risco calculado. Os meios não eram preciosos apenas pelo que podiam fazer hoje, mas pelo que poderiam fazer amanhã. Nimitz compreendia que a guerra é uma sucessão de batalhas e não um único confronto decisivo. Por isso, procurava preservar a capacidade de combate futura mesmo quando atacava com determinação.

Nagumo e Yamaguchi seguiram uma lógica diferente. Influenciados pela cultura militar japonesa da época, acreditavam que o dever supremo era continuar a lutar, independentemente das probabilidades. O conceito japonês do ganbatte — fazer o melhor possível até ao fim — possuía uma enorme dignidade moral. Contudo, quando transferido para a estratégia militar, podia conduzir a um paradoxo fatal: a nobreza do esforço substituindo-se à racionalidade do resultado.

A partir do momento em que Hiryū se tornou o único porta-aviões operacional japonês, a sua preservação deveria ter sido uma prioridade estratégica. Os seus aviões tinham alcance suficiente para atacar sem aproximar excessivamente o navio do inimigo. A prudência aconselhava uma retirada controlada para norte, mantendo a capacidade de combate e aguardando reforços. Em vez disso, Hiryū continuou a avançar na direção da força americana.

O resultado seria inevitável. Algumas horas depois, também ela seria encontrada e destruída.

Midway demonstra que as derrotas raramente resultam apenas da ação do inimigo. Muitas vezes nascem da incapacidade de adaptar o pensamento à nova realidade. O problema de Nagumo e Yamaguchi não foi falta de coragem. Pelo contrário, tiveram coragem em excesso e prudência a menos.

Por isso, a grande lição de Midway permanece atual muito para além do campo militar. Em política, nas empresas, nas instituições e até na vida pessoal, chega um momento em que a questão decisiva deixa de ser “como continuar a lutar?” para passar a ser “vale a pena continuar a lutar desta forma?”.

A sabedoria estratégica não consiste apenas em saber atacar. Consiste também em reconhecer quando a realidade mudou. Em Midway, os americanos compreenderam isso primeiro. Os japoneses compreenderam-no demasiado tarde. E foi nesse intervalo de poucas horas que se decidiu o destino do Império Japonês no Pacífico.

Francisco Vaz

4 de junho de 2026