A história do espírito ou o espírito da história?
Perguntar se a Bíblia é a história do espírito ou o espírito da história é colocarmo-nos diante da sua natureza mais profunda. Desde o encerramento do Concílio Vaticano II, a interpretação bíblica conheceu um desenvolvimento significativo, sobretudo com a valorização do contexto como chave hermenêutica. O documento A Interpretação da Bíblia na Igreja (1993) reforçou essa abertura metodológica, permitindo uma leitura que ultrapassa o literalismo e o historicismo estreito, especialmente no que se refere aos primeiros capítulos do Génesis¹.
Génesis
Ler a Bíblia à luz do contexto não significa relativizar o seu conteúdo, mas situá-lo na dinâmica histórica, cultural e literária em que nasceu. Como sublinha Armindo dos Santos Vaz, os textos de Gn 1–11 pertencem ao género das narrativas mítico-simbólicas, não no sentido de ficção, mas enquanto linguagem teológica que expressa verdades fundamentais sobre Deus, o mundo e o ser humano². Os relatos da criação deixam, assim, de ser compreendidos como descrições científicas ou cronologias exatas e revelam-se como textos de profunda densidade antropológica.
O seu objetivo não é explicar “como” o mundo surgiu em termos físicos, mas afirmar “quem” está na origem de tudo e “para quê” o ser humano existe. A criação é apresentada como dom, ordem e bondade original. Armindo dos Santos Vaz insiste que estes capítulos afirmam, antes de mais, a positividade radical do ser criado³. Onde se fala de criação, fala-se de sentido, de harmonia e de relação; não se fala de pecado. O pecado pertence à história humana, mas não à intenção criadora de Deus. Confundir criação com pecado é obscurecer a afirmação fundamental de que o ser é bom e que a existência é querida.
Apocalipse
Nesse sentido, a Bíblia pode ser vista como a história do espírito: ela acompanha o percurso da consciência humana na sua relação com Deus, revelando progressivamente o sentido da liberdade, da responsabilidade e da esperança. Mas também é o espírito da história, porque ilumina os acontecimentos humanos com uma luz que ultrapassa a mera sucessão de factos. Não é apenas um registo de eventos passados; é interpretação teológica da história à luz da revelação. Essa tensão atinge o seu ápice no Apocalipse. Longe de ser um livro de medo ou de fatalismo catastrófico, ele é palavra de consolação e resistência. João Duarte Lourenço destaca que o Apocalipse deve ser lido como literatura simbólica de esperança, escrita para sustentar comunidades perseguidas, afirmando que Deus continua Senhor da história⁴. As imagens fortes e dramáticas não pretendem anunciar destruição inevitável, mas revelar que o mal é provisório e que a fidelidade é possível.
Encontro entre Espírito e História
Como recorda João Paulo II, o Apocalipse contém um encorajamento dirigido a todos os crentes: para além das aparências e mesmo quando os efeitos ainda não são visíveis, a vitória de Cristo já aconteceu e é definitiva⁵. A história humana, com as suas vicissitudes, não é um caos sem direção, mas um caminho atravessado pela presença ativa do Ressuscitado. Assim, a Bíblia não é simplesmente história passada nem puro símbolo intemporal. É o lugar onde espírito e história se encontram. Ela revela que a história humana possui profundidade espiritual e que o espírito não flutua fora do tempo, mas encarna-se na história concreta. Ao lê-la no seu contexto literário e teológico, descobre-se que ela não é um livro fechado no passado, mas palavra viva que continua a iluminar o presente.
A Bíblia é, portanto, simultaneamente história do espírito e espírito da história: narra o caminho da humanidade diante de Deus e, ao mesmo tempo, oferece o sentido último desse caminho. Entre a criação — dom originário — e o Apocalipse — promessa de plenitude — manifesta-se a certeza de que a história não é abandono, mas promessa sustentada pela esperança.
Francisco Vaz
12 de Fevereiro de 2026
Notas
1. PONTIFÍCIA COMISSÃO BÍBLICA, A Interpretação da Bíblia na Igreja, 1993. O documento valoriza o método histórico-crítico integrado numa leitura teológica e eclesial.
2. Cf. VAZ, Armindo dos Santos. Génesis 1–11: Origem e sentido. Lisboa: Universidade Católica Editora, 2002. O autor sublinha o carácter simbólico-teológico destes capítulos.
3. Idem, onde se destaca a afirmação da bondade originária da criação como núcleo teológico de Gn 1–2.
4. Cf. LOURENÇO, João Duarte. O Apocalipse de João: mensagem de esperança. Lisboa: Universidade Católica Editora, 2010. O autor interpreta o livro como revelação do sentido da história à luz do senhorio de Cristo.
5. JOÃO PAULO II, Exortação Apostólica Pós-sinodal Ecclesia in Europa, 28 de Junho de 2003, n. 18.