dois escritores, uma mesma procura da verdade
A decisão do Bispo de Oslo de abrir oficialmente a causa de canonização de Sigrid Undset, Prémio Nobel da Literatura de 1928, constitui uma notícia de grande significado. Não apenas para a Igreja Católica, mas para todos aqueles que continuam a acreditar que a literatura pode ser muito mais do que entretenimento: pode ser uma forma de procurar a verdade.
A propósito desta notícia, há um facto pouco conhecido que merece ser recordado. Sigrid Undset era uma apaixonada leitora de G. K. Chesterton. Possuía uma vasta coleção das suas obras, traduziu para norueguês The Everlasting Man em 1931 e, poucos meses antes de receber o Prémio Nobel, visitou Chesterton e a sua esposa Frances, na sua casa de Beaconsfield. Sabe-se pouco sobre esse encontro. Mas, na verdade, quase nada é necessário acrescentar. Basta conhecer a obra de ambos para perceber que pertenciam à mesma família espiritual.
À primeira vista, dificilmente poderiam ser mais diferentes. Chesterton escrevia com humor, paradoxo e ironia. Undset preferia a narrativa histórica, a introspeção psicológica e a construção paciente das personagens. Um parecia olhar o mundo através do brilho da inteligência; a outra através da profundidade da experiência humana.
Mas ambos partilhavam a mesma convicção essencial: a realidade possui um sentido e esse sentido pode ser conhecido.
Num século marcado pelo relativismo crescente, pelo niilismo e pelas grandes ideologias totalitárias, tanto Chesterton como Undset recusaram aceitar que o homem fosse apenas produto da história, da economia ou da biologia. Defenderam, cada um à sua maneira, a liberdade da pessoa, a objetividade do bem e a possibilidade de conhecer a verdade.
É precisamente isso que torna The Everlasting Man uma obra tão singular. Chesterton não pretende apenas defender o cristianismo. Procura mostrar que a história da humanidade só se compreende plenamente quando se reconhece a singularidade da pessoa de Cristo. Não é uma obra de apologética no sentido estreito; é uma interpretação da própria aventura humana.
Não surpreende, por isso, que tenha sido Sigrid Undset a traduzi-la para norueguês. Ela reconheceu naquele livro algo que também procurava nos seus romances: compreender quem é verdadeiramente o ser humano.
A monumental trilogia Kristin Lavransdatter é talvez o melhor exemplo dessa procura. Situada na Noruega medieval, não idealiza o passado nem apresenta personagens moralmente perfeitas. Pelo contrário. Mostra homens e mulheres profundamente livres, capazes do amor e do pecado, da fidelidade e da traição, sempre confrontados com as consequências das suas escolhas.
É exatamente aqui que a literatura de Undset se aproxima da visão antropológica de Chesterton. Ambos acreditavam que a grandeza do homem não reside na sua perfeição, mas na sua capacidade de recomeçar. O pecado existe; mas também existe o perdão. A liberdade pode destruir; mas pode igualmente reconstruir. A esperança não nasce da ingenuidade, mas da graça.
Também as suas vidas testemunham essa coerência. Ambos se converteram ao catolicismo depois de longos percursos intelectuais. Ambos enfrentaram incompreensões culturais. Ambos recusaram acomodar a sua escrita aos preconceitos dominantes do seu tempo. E ambos demonstraram que a fé não limita a inteligência; antes lhe oferece um horizonte mais vasto.
A vida de Undset conheceu ainda provas particularmente duras. Sofreu tragédias familiares, enfrentou dificuldades pessoais e viu-se obrigada a abandonar a Noruega durante a ocupação nazi. Nada nela corresponde à imagem romântica de uma escritora retirada do mundo. A sua fé foi continuamente provada pela realidade. Talvez por isso a sua obra conserve uma autenticidade que continua a impressionar o leitor contemporâneo.
A eventual canonização de Sigrid Undset encerra, por isso, um profundo significado simbólico. A Igreja não reconhecerá nela apenas uma grande romancista. Reconhecerá uma mulher que fez da inteligência uma forma de serviço, da cultura uma missão e da literatura um caminho de santidade.
Talvez seja essa a maior lição destes dois gigantes da literatura. Escreveram livros extraordinários porque procuraram fazer da existência um permanente exercício ontológico: tornar-se, em cada momento, o melhor que cada um podia ser. A beleza das suas obras nasce da coerência das suas vidas.
Num tempo saturado de informação e de opinião, a sua voz continua a recordar-nos algo de essencial: a verdadeira cultura não consiste em saber muitas coisas, mas em aprender a olhar o mundo à luz da verdade. E quando a inteligência se coloca humildemente ao serviço dessa verdade, pode tornar-se, ela própria, um caminho de santidade.
Francisco Vaz
17 de julho de 2026