Uma reflexão à luz da liberdade e do amor
«A radical incapacidade de viver no amor filial não é pecado. Pecado tem de ser um acto voluntário mau contra Deus e contra o ser humano, amado por Deus.»
Armindo dos Santos Vaz
Esta afirmação coloca, desde o início, um critério decisivo para a compreensão cristã do pecado: o pecado não pertence à condição humana enquanto tal, mas ao exercício concreto e livre da liberdade. A incapacidade radical de viver no amor filial — experiência real e universal — não constitui culpa moral. Ela expressa antes a fragilidade própria de um ser criado, finito, histórico, chamado ao amor, mas ainda não plenamente realizado nele.
Se o pecado exige voluntariedade, então a criação divina não pode ser pensada como portadora de culpa. Deus não cria no pecado, nem cria para o pecado. A criação é boa porque procede do amor e é orientada para o amor. Confundir limite com pecado seria negar a bondade originária da criação e transformar a finitude em falha moral.
É neste horizonte que o padre Armindo Vaz sublinha o carácter cristológico da questão. Jesus não anuncia um pecado original herdado nem se refere às origens míticas da humanidade. O seu apelo é sempre pessoal: conversão, decisão, mudança de vida. O pecado de que Jesus fala é sempre o pecado cometido, não o pecado transmitido; é o pecado de sujeitos livres e responsáveis, não de uma natureza previamente condenada.
Também os textos bíblicos fundamentais frequentemente invocados — Gn 2–3 e Rm 5,12–21 — não impõem a ideia de um pecado original no sentido clássico. O relato do Génesis não descreve uma “queda” ontológica da humanidade, mas apresenta simbolicamente a condição humana marcada pela ambiguidade da liberdade: entre confiança e suspeita, entre acolhimento da vida como dom e apropriação autónoma. Paulo, por sua vez, ao reler Gn 2–3, fala do pecado actual, histórico e reiterado, e não de uma culpa herdada biologicamente. O seu discurso visa mostrar a universalidade do pecado vivido, não a transmissão de uma culpa de origem.
Deste modo, afirmar uma criação divina sem pecado humano não elimina a gravidade do mal, mas desloca a sua raiz: o mal nasce na história da liberdade, não no acto criador de Deus. O ser humano não nasce culpado, nasce vulnerável e chamado. A salvação cristã não consiste em apagar uma mancha original, mas em conduzir a humanidade à plenitude do amor filial que desde sempre lhe foi prometida.
A criação permanece, assim, o primeiro lugar da graça — e o pecado, longe de ser destino, permanece sempre uma possibilidade trágica, mas nunca necessária.
Francisco Vaz
1 de Fevereiro de 2026