Pecado original

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sexta-feira, 14 de agosto de 2026

Verdi e a violência doméstica

Uma história mais antiga do que o nosso tempo

Quando ouvimos as estatísticas contemporâneas sobre violência doméstica e, em particular, sobre o número de mulheres assassinadas pelos maridos, companheiros ou antigos companheiros, em Portugal, em Espanha ou noutros países, somos facilmente levados a pensar que estamos perante uma das grandes barbáries do nosso tempo.

E estamos, efetivamente, perante uma barbárie.

O engano começa quando acrescentamos: do nosso tempo.

A violência doméstica não é uma invenção recente. O que é recente é a sua visibilidade, a sua contagem, a sua nomeação pública. Durante séculos, permaneceu escondida atrás das paredes das casas, protegida pelo silêncio das famílias, pela dependência económica das mulheres, por determinadas conceções sociais do casamento e até por ordenamentos jurídicos que reconheciam ao homem uma autoridade sobre a mulher hoje considerada inaceitável.

Não dispomos, para os séculos passados, de estatísticas comparáveis às atuais. Mas temos outras testemunhas. Temos processos judiciais, crónicas, correspondência, literatura, teatro. E temos a arte.

Poucas obras nos obrigam a olhar tão frontalmente para esta realidade como Otello, de Giuseppe Verdi.

A ópera estreou no Teatro alla Scala, em Milão, a 5 de fevereiro de 1887, com libreto de Arrigo Boito, baseado na tragédia Othello, de William Shakespeare.

A data é importante: 1887.

Poderíamos, portanto, concluir que Verdi e Boito estavam já a denunciar um problema do século XIX. Mas basta recuar à fonte para perceber que a questão é bastante mais antiga. Shakespeare escreveu Othello no início do século XVII. E o centro trágico da peça é precisamente aquilo a que hoje chamaríamos, sem hesitação, violência no seio de uma relação íntima: Otelo, convencido da infidelidade da mulher, mata Desdémona no leito conjugal. A investigação contemporânea sobre Shakespeare tem, aliás, chamado explicitamente a atenção para a violência doméstica presente na obra, para além da tradicional leitura centrada no ciúme.

E ainda podemos recuar mais.

Shakespeare não inventou a história. Inspirou-se numa narrativa de Giraldi Cinthio, publicada no século XVI. A genealogia literária de Otello conduz-nos, portanto, a uma realidade que atravessa vários séculos.

É precisamente aqui que a grande arte se transforma também num extraordinário documento sobre a condição humana.

Desdémona não morre numa guerra. Não morre durante a tempestade que abre espetacularmente a ópera de Verdi. Não é vítima dos inimigos de Veneza.

Desdémona é morta pelo homem que ama.

E é isto que torna Otello insuportavelmente atual.

Otelo ama Desdémona. Ou, pelo menos, acredita amá-la. Mas existe no seu amor uma fragilidade que Iago sabe explorar: a possibilidade de o amor degenerar em posse.

Iago, oficial de Otello e grande instigador da tragédia, movido pelo ressentimento e pela vontade de destruir o seu comandante, percebe a vulnerabilidade de Otello e explora-a através da mentira e da manipulação. Não precisa de colocar uma arma nas suas mãos. Faz algo talvez mais perverso: coloca-lhe uma suspeita no espírito.

Insinua.

Sugere.

Manipula.

Transforma coincidências em indícios e indícios em provas. O lenço de Desdémona acaba por adquirir um significado monstruoso precisamente porque Otelo já decidiu interiormente aquilo que pretende encontrar nele.

O ciúme alimenta-se então, como observa a crítica shakespeariana, daquilo que se imagina e não daquilo que verdadeiramente se viu.

E assim se desenvolve um mecanismo que continua assustadoramente reconhecível nos nossos dias.

Primeiro, a suspeita.

Depois, a vigilância.

Depois, a acusação.

Depois, a certeza construída sem prova.

Finalmente, a violência.

Há, porém, algo ainda mais profundo em Otello. Antes de matar fisicamente Desdémona, Otelo destrói-a enquanto pessoa na sua própria consciência.

Deixa de a escutar.

Desdémona fala, mas Otelo já não ouve Desdémona. Ouve aquilo que Iago lhe ensinou a ouvir.

Desdémona explica-se, mas Otelo já não procura a verdade. Procura apenas a confirmação da verdade que previamente construiu.

A mulher concreta desapareceu. No seu lugar ficou uma representação imaginária: «a mulher infiel».

É neste momento que o amor se transforma em domínio.

E talvez aqui esteja uma das raízes mais profundas da violência doméstica: a transformação de uma pessoa num objeto de posse.

Enquanto o outro é reconhecido como pessoa, existe relação. Quando passa a ser considerado propriedade, a relação começa a transformar-se em poder.

É a lógica terrível condensada numa expressão que atravessou gerações: «matei-a porque era minha».

Mas Desdémona nunca foi de Otelo.

Amava Otelo.

E existe uma diferença ontológica imensa entre as duas coisas.

Amar alguém é reconhecer a existência do outro como outro. Possuir alguém significa pretender reduzir a sua liberdade à nossa vontade. O amor diz: tu és. A posse diz: tu és minha.

Quando a segunda afirmação destrói a primeira, o amor já começou a morrer.

É também por isso que devemos ter algum cuidado quando apresentamos Otello simplesmente como «a tragédia do ciúme». O ciúme explica uma parte. Não explica tudo. Estudos contemporâneos continuam a identificar a relação entre ciúme, suspeita de infidelidade e violência entre parceiros íntimos. Mas chamar a Otelo apenas «um homem ciumento» pode quase funcionar como uma atenuante cultural.

Otelo é um homem que mata a mulher.

E Shakespeare não permite que esqueçamos esse facto.

Verdi e Boito também não.

Quando Verdi regressa a Shakespeare quase três séculos depois, a música torna ainda mais terrível aquilo que o teatro já tinha mostrado. O homem que entra triunfalmente em cena com o monumental Esultate! — general vitorioso, herói militar, senhor de si e dos seus homens — será incapaz de governar aquilo que acontece dentro da sua própria consciência.

Venceu inimigos exteriores.

É derrotado pelos seus fantasmas interiores.

E Desdémona paga com a vida essa derrota.

Talvez por isso a cena final de Otello continue a causar um desconforto tão profundo. Sabemos que estamos perante uma obra escrita no século XIX a partir de um drama do início do século XVII, mas reconhecemos imediatamente aquilo que vemos.

Mudaram as leis.

Mudou profundamente a condição social das mulheres.

Mudaram as estruturas familiares.

Mudou a consciência coletiva perante a violência doméstica.

Passámos a contar as vítimas. E essa é uma diferença civilizacional fundamental. Aquilo que durante séculos podia desaparecer no silêncio de uma casa passou a ter um nome, um número, uma investigação, uma condenação pública.

Mas a estatística, precisamente porque conta, também corre o risco de esconder aquilo que pretende revelar.

Dizemos: morreram tantas mulheres este ano.

E avançamos para o número seguinte.

Verdi obriga-nos a fazer o contrário.

Dá um rosto à estatística.

Chama-lhe Desdémona.

Dá-lhe uma voz.

Faz com que a escutemos cantar.

Mostra-nos o seu medo.

E depois deixa-nos assistir à sua morte às mãos do homem que dizia amá-la.

Talvez seja esta uma das funções supremas da arte. As estatísticas dizem-nos quantas pessoas morreram. A grande arte recorda-nos que cada uma delas era uma pessoa.

Por isso Otello continua a ser tão necessário.

Não porque Shakespeare ou Verdi nos ofereçam uma explicação sociológica da violência doméstica, mas porque ambos nos colocam perante algo mais antigo e mais profundo: a possibilidade de o amor se perverter quando deixa de reconhecer o outro como pessoa e passa a considerá-lo propriedade.

A violência doméstica não nasceu no século XXI.

Nem no século XX.

Nem sequer no século XIX de Verdi.

Quando Shakespeare colocou Desdémona nas mãos de Otelo, há mais de quatro séculos, já sabia que estava a contar uma história que os seus contemporâneos podiam reconhecer.

E talvez seja essa a parte mais perturbadora.

Passaram séculos. Construímos Estados de direito, proclamámos a igualdade entre homens e mulheres, reconhecemos direitos fundamentais, criminalizámos comportamentos que durante demasiado tempo foram tolerados e aprendemos finalmente a contar as vítimas.

Mas continuamos a ter Desdémonas.

E enquanto houver uma só, Otello continuará a interpelar-nos.

Francisco Vaz

14 de agosto de 2026


quinta-feira, 13 de agosto de 2026

A Batalha de Midway

e as virtudes cardeais


O ser humano possui uma dimensão inevitavelmente material e biológica, comum a todos os seres vivos, mas não se reduz a ela. Embora não possa prescindir do corpo e das suas necessidades, tampouco pode submeter-se a elas sem perder a sua humanidade. A especificidade humana reside na integração harmónica entre corpo e espírito, sendo precisamente essa integração que fundamenta a ética das virtudes.


A virtude pode ser entendida em dois sentidos fundamentais: como potência orientada ao bem e como ato que realiza esse bem. Neste segundo sentido, a virtude não é apenas uma disposição psicológica, mas uma realidade ontológica, ética e política, pois introduz positividade no ser. O seu contraditório, o vício, que possui gravidade equivalente, não é um simples erro, uma vez que destrói ou impede a realização do bem, afetando simultaneamente o indivíduo e a comunidade.


Na tradição platónica, particularmente na República, as virtudes cardeais são sistematizadas como temperança, coragem, sabedoria e justiça, correspondendo aos diferentes níveis estruturais do ser humano. A justiça não aparece como virtude isolada, mas como a harmonia resultante da ação integrada das demais virtudes, garantindo a unidade do indivíduo e da pólis.


Kairós

Na tradição aristotélico-tomista, o kairós distingue-se do simples tempo cronológico (chrónos). Trata-se do instante qualitativo em que a decisão certa deve ser tomada, um momento que não se impõe automaticamente, mas que exige discernimento e maturidade moral. O kairós só é reconhecido pelo agente dotado de sabedoria, capaz de ler a realidade para além da sucessão mecânica dos acontecimentos. Aplicado à liderança, o kairós é o instante em que não decidir já é decidir mal, e em que decidir bem exige simultaneamente domínio de si, coragem para agir e sabedoria para reconhecer o tempo certo.


A Batalha de Midway representa o momento decisivo — o momento kairótico — em que a liderança de Chester W. Nimitz se manifesta na sua plenitude moral. À luz da ética clássica, tal momento não pode ser compreendido apenas como resultado de superioridade técnica ou informacional, mas como expressão de um carácter moldado pelas virtudes cardeais. Em Nimitz, temperança, coragem e sabedoria convergem para a justiça, entendida não como virtude isolada, mas como o resultado harmonioso de um agir humano ordenado.


Temperança


A temperança ocupa lugar fundamental nesse processo. Ela garante o domínio das paixões e impede que decisões estratégicas sejam capturadas por impulsos de vingança, vaidade ou excesso de confiança — especialmente relevantes no contexto posterior ao ataque Japonês a Pearl Harbor. Em Nimitz, a temperança manifesta-se por meio de virtudes derivadas como a modéstia, a paciência e a humildade, que preservam a clareza de julgamento e permitem que o líder atue sem ruído interior. Essa moderação cria as condições para uma liderança marcada pela simplicidade, afastada de gestos espetaculares ou de retórica inflamada.


Coragem


A coragem, por sua vez, não se manifesta como ousadia irrefletida, mas como fortaleza racional. Nimitz assume riscos reais — forças limitadas, informações incompletas, possibilidade concreta de derrota — sustentado por persistência e iniciativa, virtudes que exprimem a disposição constante para agir apesar da incerteza. Essa coragem perseverante revela um compromisso profundo com a missão e desagua no cuidado, entendido como responsabilidade concreta pelos homens sob o seu comando e pelo destino da campanha no Pacífico.


Sabedoria


A sabedoria constitui o eixo que articula temperança e a coragem. É ela que permite reconhecer o momento oportuno (kairós) e ordenar meios escassos a um fim justo. Em Midway, a sabedoria de Nimitz manifesta-se também por meio da flexibilidade, ao adaptar planos às circunstâncias, e da integridade, ao manter coerência entre princípios, decisões e consequências. Essa sabedoria prática gera confiança, tanto no

plano institucional como na relação com os seus subordinados.


Justiça


A justiça, neste quadro, não é o ponto de partida, mas o resultado. Ela emerge quando o ato é simultaneamente temperado, corajoso e sábio. Nimitz é justo porque governa sem arbitrariedade, distribui responsabilidades com equidade e age sempre em vista do bem comum. Virtudes como a lealdade reforçam essa justiça, consolidando relações de confiança mútua e estabilidade moral no interior da cadeia de comando


Midway e a liderança contemporânea


A análise da Batalha de Midway à luz das virtudes cardeais revela que a liderança eficaz não é resultado exclusivo de tecnologia, dados ou modelos estratégicos, mas, sobretudo, de carácter. Num contexto contemporâneo marcado por decisões rápidas, excesso de informação e forte pressão por resultados imediatos, o exemplo de Chester W. Nimitz permanece profundamente atual.


A sabedoria continua a ser a virtude central do líder contemporâneo, pois somente ela permite discernir o momento oportuno (kairós) face à instabilidade e à incerteza. Do mesmo modo, a justiça mantém a sua relevância ao recordar que liderar é servir o bem comum, e não interesses pessoais ou institucionais de curto prazo. A coragem mostra-se indispensável em cenários de crise prolongada, nos quais o líder deve sustentar decisões impopulares sem ceder ao medo ou à paralisia. Já a temperança atua como salvaguarda contra os excessos típicos do poder (hýbris), impedindo que a vaidade, a impulsividade ou o ressentimento comprometam o julgamento racional. 


Tal como em Midway, a liderança contemporânea exige mais do que competência técnica: exige unidade interior e domínio moral. O legado de Nimitz confirma a intuição central da ética clássica, de Aristóteles a Tomás de Aquino: não há verdadeira excelência na ação sem excelência do agente. Em qualquer tempo ou contexto, o líder capaz de reconhecer o kairós é aquele cuja autoridade nasce da virtude, e não apenas da posição hierárquica que ocupa. Nesse sentido, o kairós de Nimitz em Midway não foi apenas um momento histórico, mas um momento moral, no qual a vitória emergiu como fruto da sua ação temperada, corajosa e sábia e por isso justa.


Francisco Vaz

13 de agosto de 2026

quarta-feira, 12 de agosto de 2026

Quando um eclipse se torna absoluto

Sobre eclipses, ídolos e a economia da atenção

Há acontecimentos verdadeiramente extraordinários que quase passam despercebidos e há acontecimentos perfeitamente normais que, por artes da comunicação contemporânea, adquirem subitamente a dimensão de acontecimentos cósmicos. O eclipse do Sol pertence, simultaneamente, às duas categorias: é extraordinário para quem o contempla, mas absolutamente banal para o universo.

Desde que existem Sol, Terra e Lua — e desde que as respectivas órbitas permitem o alinhamento — há eclipses. A Lua passa entre a Terra e o Sol, a luz diminui, durante alguns minutos o dia parece hesitar, e depois tudo regressa à normalidade. O Sol não desapareceu. A Lua não mudou de rumo. A Terra não interrompeu a rotação. O universo, aparentemente indiferente à nossa ansiedade, prossegue.

O que mudou não foi o eclipse.

Fomos nós.

Ou, talvez mais exactamente, mudou a extraordinária máquina mediática que se interpõe hoje entre nós e a realidade.

O eclipse astronómico acontece quando a Lua se coloca entre a Terra e o Sol. O eclipse mediático acontece quando os media se colocam entre o ser humano e o acontecimento.

E, neste segundo caso, a sombra pode durar muito mais tempo.

Durante dias somos preparados para o momento. Especialistas explicam aquilo que já foi explicado. Gráficos mostram aquilo que acontecerá. Repórteres deslocam-se para os melhores locais para observar aquilo que ainda não aconteceu. Outros repórteres entrevistam pessoas que viajaram para esses locais para observar aquilo que ainda não aconteceu. Finalmente, quando acontece aquilo que todos sabíamos que iria acontecer, os mesmos especialistas explicam aquilo que acabámos de ver acontecer.

E depois começa a análise do que aconteceu.

É um eclipse perfeito: o acontecimento deixa de ser notícia e a notícia transforma-se no acontecimento.

Talvez este seja um dos fenómenos mais curiosos da nossa civilização mediática: já não basta que uma coisa seja. É necessário que seja transmitida, repetida, comentada, ampliada e convertida em experiência colectiva obrigatória. A realidade necessita de certificação televisiva.

Quem perdeu o fenómeno começa quase a sentir-se culpado.

— Não viste o eclipse?

A pergunta é feita com a gravidade com que outrora alguém poderia perguntar:

— Não viste passar Napoleão?

E o pobre cidadão, que talvez estivesse nesse momento a trabalhar, a ler, a dormir uma sesta ou simplesmente a contemplar uma árvore, sente que perdeu um daqueles instantes irrepetíveis da história da humanidade.

Irrepetível, aliás, até ao próximo eclipse.

Mas o episódio ofereceu-nos uma situação ainda mais extraordinária. Durante algumas horas, um absoluto conseguiu eclipsar outro absoluto.

Porque havia já outro fenómeno destinado, segundo parecia, a ocupar uma parte considerável do espaço mediático: o casamento de Cristiano Ronaldo.

Quem? Onde? Quando? Quantos convidados? Que vestido? Que cerimónia? Que festa? Que alianças? Quem estará presente? Quem ficará de fora?

Questões evidentemente decisivas para o futuro da civilização.

E eis que aparece a Lua.

Silenciosamente.

Sem assessores de imprensa.

Sem publicação nas redes sociais.

Sem vender direitos de transmissão.

Sem sequer anunciar previamente a sua chegada.

Coloca-se diante do Sol e, por alguns minutos, consegue uma proeza que poucos seres humanos alcançariam: eclipsar Cristiano Ronaldo.

Não totalmente, evidentemente. Há limites até para a mecânica celeste.

Foi apenas um eclipse parcial.

O episódio seria apenas divertido se não revelasse algo mais profundo sobre a nossa relação com a realidade.

Vivemos progressivamente numa economia da atenção. E a atenção humana é limitada. Aquilo que ocupa obsessivamente o espaço mediático tende a ocupar também o espaço mental. Pela repetição, pela imagem, pela antecipação e pela dramatização, determinados acontecimentos deixam de ser acontecimentos entre acontecimentos e convertem-se, durante algumas horas ou dias, no acontecimento.

É aqui que começa o verdadeiro eclipse.

Não quando a Lua tapa o Sol, mas quando uma realidade particular tapa todas as outras realidades.

O problema não está, portanto, em admirarmos um eclipse. Pelo contrário. Há algo de profundamente humano em levantar os olhos para o céu e maravilharmo-nos perante o cosmos. Talvez devêssemos fazê-lo mais vezes.

O problema começa quando confundimos maravilhamento com absolutização.

O mesmo vale para Cristiano Ronaldo. É perfeitamente legítimo interessarmo-nos pelo casamento de uma das personalidades portuguesas mais conhecidas no mundo. O curioso é a desproporção que transforma um acontecimento privado — importante sobretudo para os próprios — numa espécie de acontecimento nacional, quando não planetário.

É a velha idolatria, apenas adaptada à sociedade do espectáculo.

Os antigos fabricavam ídolos de ouro.

Nós fabricamo-los com audiências.

E talvez a ironia maior esteja precisamente aqui. Durante alguns minutos, a natureza recordou-nos a escala das coisas.

De um lado, um homem extraordinariamente famoso prepara o seu casamento.

Do outro, três corpos celestes continuam, indiferentes, uma dança gravitacional iniciada muito antes de existirem futebol, televisão, redes sociais, jornalistas, comentadores e espectadores.

A Lua passou diante do Sol.

Os jornalistas falaram.

Os especialistas explicaram.

As câmaras filmaram.

As pessoas fotografaram.

Cristiano Ronaldo foi temporariamente remetido para segundo plano.

E o universo?

O universo continuou exactamente como estava.

Amanhã outro assunto ocupará o ecrã. Outro absoluto. Outra urgência. Outra coisa que, durante vinte e quatro horas, nos será apresentada como indispensável à compreensão do mundo.

Depois virá outra. E outra. E outra.

Talvez seja este o verdadeiro poder dos media: já nem precisam de nos dizer em que acreditar; basta-lhes escolher aquilo que deve ocupar o nosso pensamento.

A Lua, pelo menos, quando eclipsa o Sol, limita-se a cumprir a sua órbita. Não pretende convencer-nos de que o resto do universo deixou de existir.

Os media, por vezes, conseguem melhor: eclipsam-nos o mundo e ainda nos convencem de que estamos a vê-lo inteiro.

Francisco Vaz

12 de agosto de 2026