Pecado original

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domingo, 10 de maio de 2026

O Mar Português

O Mar Português: entre a saudade, o medo e a revelação

Poucos povos fizeram do mar uma experiência tão profundamente espiritual e literária como Portugal. Em nenhuma outra tradição europeia o oceano surge simultaneamente como promessa de transcendência, ameaça existencial, espaço económico, cenário de perda amorosa e metáfora do próprio destino humano. O mar português nunca foi apenas geografia: foi imaginação, memória e destino.

A conferência recentemente realizada sobre a presença do mar na literatura portuguesa recorda precisamente essa extraordinária continuidade simbólica que atravessa séculos de cultura nacional. Desde as cantigas medievais até Fernando Pessoa, passando por Luís de Camões, Fernão Mendes Pinto e Cesário Verde, o oceano permanece o grande espelho onde Portugal contempla simultaneamente a sua fragilidade e a sua vocação universal.

Curiosamente, a literatura portuguesa não começou por glorificar o mar. Antes pelo contrário. Nas primeiras manifestações líricas medievais, o oceano surge como espaço disfórico, ameaçador e imprevisível. O mar era o desconhecido absoluto: lugar de monstros, tempestades e desaparecimentos sem regresso. Em Mendinho, na célebre cantiga “Sedia-m’eu na ermida de San Simion”, o mar aparece associado à angústia e ao desamparo. O ritmo repetitivo do leixa-pren intensifica essa sensação de ameaça incessante, quase hipnótica.

Mais decisiva ainda é a emergência precoce da saudade marítima. Nas cantigas de amigo, como as de Martim Codax, a voz feminina observa o mar a partir da terra firme. Não é o navegador que fala, mas quem fica. “Ondas do mar de Vigo” inaugura talvez uma das dimensões mais profundas da sensibilidade portuguesa: o país define-se menos pela partida heroica do que pela espera dolorosa.

A epopeia marítima portuguesa contém desde o início esta duplicidade essencial. A expansão ultramarina foi simultaneamente aventura e ausência, glória e perda. O marinheiro português torna-se figura quase sacrificial: alguém que abandona o espaço doméstico, afetivo e familiar para enfrentar um horizonte que mistura riqueza, violência, fé e morte.

É por isso que a grande literatura portuguesa sobre o mar raramente é triunfalista. Mesmo em Os Lusíadas, obra máxima da exaltação imperial, Luís de Camões revela permanente consciência do sofrimento humano envolvido na empresa marítima. O poeta celebra os feitos portugueses, mas nunca elimina o peso da fadiga, do erro e da vulnerabilidade. “Não é menos trabalho que grande erro”, escreve Camões, reconhecendo os limites da própria linguagem perante a vastidão da experiência oceânica.

Talvez aqui resida a grandeza singular da literatura marítima portuguesa: ela nunca reduz o mar a propaganda imperial. O oceano é sempre maior do que qualquer ideologia.

Mesmo Peregrinação, frequentemente lida como narrativa de aventuras exóticas, introduz uma visão profundamente ambígua da expansão portuguesa. Fernão Mendes Pinto não constrói um herói clássico; constrói antes um sobrevivente errante, perseguido pela fortuna e pelo acaso. O império surge menos como destino glorioso do que como labirinto caótico de encontros, violências e desenraizamentos.

Com o século XIX, o mar português sofre nova transformação estética. Em Cesário Verde, Lisboa torna-se cidade moderna atravessada por luminosidades artificiais, neblinas industriais e fragmentações visuais próximas da pintura moderna. O oceano deixa de ser apenas espaço épico; passa a integrar a experiência urbana e psicológica da modernidade.

Mas é talvez em Fernando Pessoa — sobretudo através de Álvaro de Campos — que o mar atinge a sua dimensão metafísica mais radical. O engenheiro naval contempla o oceano como abismo interior. O mar já não é apenas geografia nem história nacional: torna-se espelho da fragmentação moderna, espaço de vertigem, excesso e transcendência impossível.

A “Ode Marítima” permanece uma das mais extraordinárias experiências poéticas do século XX precisamente porque dissolve as fronteiras entre memória, sonho, desejo e paisagem. O mar pessoano contém simultaneamente piratas, máquinas, infância, erotismo, violência e nostalgia. Nele convivem Walt Whitman, a modernidade industrial e uma antiga melancolia atlântica que parece definir a própria condição portuguesa.

Não admira que Eduardo Lourenço tenha visto nesta tradição marítima uma das chaves da identidade portuguesa. Portugal construiu-se imaginariamente olhando o horizonte. Um pequeno território europeu tornou-se civilizacionalmente oceânico. A sua literatura testemunha essa tensão permanente entre limite e infinito.

Talvez por isso o mar continue tão presente no imaginário português contemporâneo. Não apenas como memória histórica, mas como metáfora existencial. O oceano permanece aquilo que sempre foi: um lugar de passagem entre o conhecido e o desconhecido, entre a casa e o mundo, entre a segurança e o risco.

No fundo, a literatura portuguesa do mar fala menos de navegações do que da própria condição humana. Navegar nunca foi apenas descobrir territórios. Foi aprender a viver perante o indomável.

Francisco Vaz

10 de Maio de 2026

Nota

Reflexão a partir da conferência “Oito quadros, oito pausas no encontro entre a literatura portuguesa e o mar” do Professor Catedrático Mário Fernandes Avelar, realizada no dia 5 de Maio de 2026 na Academia de Marinaha.


Charles De Gaulle

Uma catedral por terminar

Num tempo em que a União Europeia se interroga sobre o seu rumo, revisitar a visão de Charles de Gaulle não é um exercício de nostalgia, mas de lucidez. Poucos líderes pensaram a Europa com tanta densidade histórica e tão aguda consciência dos seus limites quanto o general francês.

Para De Gaulle, a Europa nunca poderia ser reduzida a um projeto técnico ou burocrático. Não era, antes de mais, um mercado, nem um conjunto de instituições: era uma realidade histórica feita de povos, memórias e identidades. Esta convicção levava-o a rejeitar uma construção supranacional apressada, desligada das nações concretas. A sua pergunta implícita continua a ecoar: pode haver uma Europa política sem um verdadeiro sentimento de pertença comum?

A resposta de De Gaulle era prudente, quase desconfiada. Não se opunha à cooperação europeia — pelo contrário, foi decisivo na consolidação do Mercado Comum —, mas insistia que essa cooperação deveria assentar nos Estados soberanos. Para ele, só as nações possuem legitimidade histórica e capacidade de mobilizar os seus povos. Uma Europa construída ignorando essa realidade arriscar-se-ia a tornar-se uma abstração sem alma.

Contudo, seria injusto ver em De Gaulle apenas um defensor rígido da soberania nacional. A sua grande visão foi compreender que o futuro da Europa passava pela reconciliação entre França e Alemanha. Ao aproximar-se de Konrad Adenauer, o general não estava apenas a selar uma aliança política, mas a curar uma ferida civilizacional aberta durante séculos. Nesse gesto residiu talvez o verdadeiro fundamento da Europa contemporânea.

A imagem que melhor sintetiza o seu pensamento é a da “catedral europeia”. Para De Gaulle, a Europa constrói-se como as grandes catedrais: lentamente, com paciência, sobre alicerces sólidos. Esses alicerces não são tratados nem regulamentos, mas a reconciliação histórica e a consciência de um destino partilhado. Só depois se erguem os pilares económicos e, eventualmente, a arquitetura política.

Outro traço marcante da sua visão é a exigência de independência. Num mundo dominado pelas superpotências da Guerra Fria, De Gaulle recusava que a Europa fosse mero prolongamento dos interesses de Estados Unidos ou da União Soviética. Defendia uma Europa capaz de afirmar-se por si mesma, aliada mas não subordinada. Essa ambição, muitas vezes criticada como excessiva, revela hoje uma inquietante atualidade.

É certo que a sua visão levantava dificuldades. Como conciliar soberania nacional com unidade política? Como avançar sem instituições comuns fortes? Estas questões permanecem no coração do debate europeu. Mas talvez o maior contributo de De Gaulle não tenha sido oferecer respostas definitivas, e sim obrigar a colocar as perguntas certas.

Num momento em que a Europa enfrenta desafios geopolíticos, crises de identidade e tensões internas, a lição de De Gaulle mantém-se pertinente: não há construção europeia sólida sem raízes históricas, sem legitimidade política e sem uma ideia clara do que une os seus povos.

A Europa pode multiplicar tratados, criar mecanismos e reforçar instituições. Mas, se quiser ser mais do que um espaço de cooperação — se quiser ser um verdadeiro sujeito da história — terá de enfrentar o desafio que De Gaulle formulou com rara clareza: construir unidade sem destruir a diversidade, e afirmar-se no mundo sem perder a sua alma.

Talvez seja essa, ainda hoje, a catedral por terminar.

Francisco Vaz

10 de Maio de 2026


sábado, 9 de maio de 2026

Pearl harbor

O futuro antecipado

O episódio do exercício naval conduzido pelo almirante Harry E. Yarnell em 1932 permanece como uma das mais impressionantes parábolas estratégicas e políticas do século XX. Nele encontramos não apenas uma lição militar, mas também uma reflexão profunda sobre inteligência, conservadorismo institucional e a dificuldade humana em reconhecer a verdade antes da catástrofe.

Durante os chamados Fleet Problems da Marinha dos Estados Unidos, Yarnell comandou uma força naval que simulou um ataque surpresa contra Pearl Harbor. Em vez de seguir a doutrina dominante — centrada nos grandes couraçados — decidiu apostar numa estratégia considerada heterodoxa: lançou aviões a partir de porta-aviões num ataque aéreo surpresa ao amanhecer, aproveitando más condições meteorológicas e a vulnerabilidade da base havaiana.

O exercício foi um sucesso impressionante. As defesas foram ultrapassadas. A base foi “destruída” simbolicamente. Yarnell demonstrara, quase uma década antes do ataque japonês de 1941, exactamente aquilo que viria a acontecer.

E, no entanto, a lição não foi verdadeiramente aprendida.

O mais perturbador neste episódio não é apenas o facto de alguém ter previsto Pearl Harbor. O mais perturbador é que a previsão existiu dentro do próprio sistema, diante dos olhos da própria instituição, e ainda assim foi desvalorizada. A ameaça não foi invisível; foi psicologicamente recusada.

Aqui reside a dimensão filosófica do caso.

As instituições humanas tendem a defender não apenas interesses, mas paradigmas mentais. A Marinha americana dos anos 1930 era ainda herdeira do imaginário estratégico do século XIX: o poder naval significava grandes couraçados, linhas de batalha, confrontos simétricos e domínio progressivo do oceano. O porta-aviões parecia auxiliar, quase experimental. Yarnell ameaçava não apenas uma doutrina, mas toda uma visão do mundo naval.

Como frequentemente acontece, a verdade apareceu primeiro como heresia.

Existe aqui um paralelismo evidente com o mito da caverna de Platão. O problema dos habitantes da caverna não é ausência total de luz, mas apego às sombras familiares. A inteligência humana resiste frequentemente ao novo não por falta de dados, mas porque aceitar certas verdades implica destruir estruturas mentais, hierarquias, carreiras e hábitos de pensamento.

Yarnell viu aquilo que outros não queriam ver: que a guerra moderna deixara de ser apenas mecânica e passara a ser sobretudo velocidade, surpresa e domínio do espaço aéreo. O avião alterava radicalmente a geografia do poder. O oceano deixava de ser barreira suficiente. O inimigo já não precisava aproximar lentamente os couraçados; podia surgir repentinamente do céu.

Há neste episódio uma reflexão mais ampla sobre o destino das civilizações. Muitas vezes os sinais da crise aparecem muito antes da queda efectiva. O problema não é falta de aviso, mas incapacidade espiritual e institucional para interpretar o aviso.

A história está cheia destes momentos.

Antes da Primeira Guerra Mundial, poucos compreenderam verdadeiramente o impacto da industrialização da guerra. Antes da queda da França em 1940, muitos ainda acreditavam na segurança estática da Linha Maginot. Antes do colapso soviético, muitos imaginavam a URSS eterna. Antes de 11 de Setembro, vários sinais de vulnerabilidade já existiam. O homem tende a imaginar que o futuro será apenas continuação do presente.

O drama de Pearl Harbor começa, de certo modo, com a incapacidade de imaginar.

Mas o episódio também revela algo admirável: o valor das minorias intelectualmente livres. Yarnell representa o espírito estratégico capaz de romper a tirania do hábito. Toda a renovação civilizacional começa quase sempre com indivíduos que ousam pensar contra o consenso dominante.

Por isso, este episódio não deve ser lido apenas como curiosidade militar, mas como advertência permanente.

As sociedades morrem muitas vezes não por falta de informação, mas por excesso de conformismo. O perigo raramente é invisível; apenas parece improvável até acontecer. E quando acontece, aquilo que era considerado impensável transforma-se retrospectivamente em inevitável.

Hoje, num mundo marcado pela inteligência artificial, pela guerra cibernética, pelos drones, pela manipulação algorítmica da opinião pública e pela transformação acelerada da ordem internacional, a lição de Yarnell mantém-se extraordinariamente actual. As grandes ameaças do futuro talvez já tenham sido simuladas, previstas ou anunciadas por alguns espíritos atentos. A questão é saber se as instituições possuem ainda capacidade de escutar os “hereges” antes da catástrofe.

Porque a história mostra repetidamente que o maior perigo não é o inimigo externo. É a incapacidade interna de reconhecer a verdade a tempo.

Francisco vaz

9 de maio de 2026

A Ordem da Ação e a Verdade do Sentimento

 

Reflexão a partir do pensamento de Louis Lavelle

“É mais fácil à razão regular as ações do que os sentimentos. Também é por aqui que devemos começar. É necessário, para que o sentimento seja posto no seu lugar, que seja o eco de uma boa ação, em vez de tentar em vão tornar-se no seu princípio.”

         Louis Lavelle, Cadernos de Guerra, fragmento 13.

O breve fragmento de Louis Lavelle contém uma profundidade filosófica rara. Em poucas linhas, Lavelle desmonta uma das ilusões centrais da modernidade: a ideia de que a autenticidade moral nasce espontaneamente da emoção. Pelo contrário, o filósofo francês sugere uma inversão decisiva: não é o sentimento que deve fundar a ação, mas a ação reta que educa o sentimento.

Esta ideia inscreve-se profundamente no núcleo do pensamento lavelliano. Para Lavelle, o homem não é um ser acabado, mas uma presença em participação contínua no ser. A existência humana constrói-se através de atos livres pelos quais a consciência se aproxima — ou se afasta — da ordem ontológica que a sustenta. A interioridade não é mero espaço psicológico; é lugar metafísico de participação no real.

Por isso, Lavelle desconfia de uma ética fundada exclusivamente na espontaneidade emocional. O sentimento é importante, mas é instável, ambivalente e frequentemente contraditório. A emoção pode aproximar-nos do bem, mas também pode justificar egoísmo, ressentimento ou violência. O homem que espera “sentir-se bem” antes de agir corretamente arrisca-se a nunca sair de si próprio.

Há aqui uma profunda herança clássica. Já Aristóteles afirmava que a virtude nasce do hábito: tornamo-nos justos praticando atos justos. O sentimento moral não surge magicamente; é educado pela repetição concreta do bem. Também o estoicismo compreendia que a liberdade interior exige disciplina da alma e ordenação racional das paixões.

Lavelle retoma esta tradição, mas dá-lhe uma tonalidade existencial e espiritual própria. A boa ação não é apenas comportamento exterior; é participação numa ordem mais profunda do ser. Quando agimos corretamente, mesmo contra inclinações imediatas, algo em nós se reorganiza interiormente. O sentimento torna-se então “eco” da ação justa. Não seu fundamento, mas sua ressonância.

Esta inversão é particularmente importante no contexto contemporâneo, marcado por uma hipertrofia do emocional. Vivemos numa cultura que frequentemente identifica verdade com intensidade afetiva. “Sentir” tornou-se critério último de legitimidade. Mas uma civilização orientada apenas pela emoção tende a oscilar entre sentimentalismo e brutalidade, porque o sentimento, isolado da razão e da ordem ética, é incapaz de estabilidade.

É precisamente aqui que a reflexão de Américo Pereira se aproxima de Lavelle. Em muitos dos seus estudos ontológicos, éticos e políticos Américo Pereira insiste que o ser humano não se define apenas pelo que sente ou deseja, mas pela capacidade de participar conscientemente no bem. A liberdade não consiste em seguir impulsos imediatos; consiste em orientar a ação segundo uma inteligibilidade do bem que transcende o mero capricho subjetivo.

Para Américo Pereira, a pessoa humana é essencialmente um ser de relação. O homem realiza-se não no fechamento narcísico sobre os próprios estados emocionais, mas na abertura ao outro, ao bem e ao ser. A ética não é construção arbitrária; nasce da própria estrutura relacional da realidade.

Neste sentido, o fragmento de Lavelle ganha uma dimensão quase pedagógica e civilizacional. Uma sociedade que ensina os indivíduos a esperar primeiro pelo “sentimento certo” antes de agir moralmente acaba por destruir a própria possibilidade de formação ética. Porque o bem raramente começa como espontaneidade confortável. Muitas vezes começa precisamente como esforço, disciplina e fidelidade a algo maior do que o desejo imediato.

A própria experiência humana confirma esta verdade. O amor autêntico não nasce apenas de emoção instantânea; constrói-se através de atos de cuidado, presença e responsabilidade. A coragem não exige ausência de medo; exige ação reta apesar do medo. A amizade não se reduz a afinidade sentimental; fortalece-se na lealdade concreta. O sentimento amadurece através da ação.

Há aqui também uma crítica implícita ao narcisismo contemporâneo. Quando o sujeito coloca o sentimento como princípio absoluto, tende a transformar toda a realidade em espelho de si mesmo. O mundo deixa de ser lugar de encontro com o real para se tornar prolongamento emocional do ego. O resultado é frequentemente fragilidade interior: qualquer frustração parece intolerável porque o indivíduo já não possui uma ordem ética que transcenda o próprio estado afetivo.

Lavelle compreendeu algo profundamente humano: a alma precisa de forma. E essa forma não surge espontaneamente da emoção, mas da participação disciplinada no bem. A razão, longe de ser inimiga da interioridade, é precisamente aquilo que pode ordenar a vida para que o sentimento encontre o seu lugar verdadeiro.

Isto não significa defender um racionalismo frio ou repressivo. Lavelle não propõe eliminar o sentimento, mas libertá-lo da tirania da arbitrariedade. O sentimento pleno não é o impulso bruto; é a emoção transfigurada pela verdade da ação. O amor mais profundo não é o mais instável ou intenso, mas o mais fiel ao bem do outro.

Talvez por isso este pequeno fragmento conserve hoje uma força tão atual. Num tempo dominado pela reação imediata, pela exibição emocional e pela dificuldade de perseverança, Lavelle recorda algo quase esquecido: o homem não se constrói a partir da oscilação dos seus estados interiores, mas pela fidelidade concreta ao bem que escolhe realizar.

O sentimento passa. A ação permanece. E é muitas vezes na permanência humilde da ação justa que a alma aprende finalmente a sentir de forma verdadeira.

Francisco Vaz

9 de Maio de 2026

Nota

Dedicado à minha neta Catarina no dia do seu 11º aniversário.

Fausto

ou o desassossego do homem moderno

Há obras que não pertencem apenas à literatura; pertencem à condição humana. Fausto, de Johann Wolfgang von Goethe, é uma delas. Mais do que um drama, é um espelho inquietante onde a modernidade se reconhece — e, talvez, se acusa.

A leitura ontológica desta obra revela um traço essencial: o ser humano moderno perdeu o seu lugar no cosmos. Se, outrora, a existência se organizava numa hierarquia clara — Deus, mundo, homem —, com a modernidade o “eu” passou a ocupar o centro. Este deslocamento, frequentemente associado ao gesto inaugural de René Descartes ao afirmar “penso, logo existo”, inaugura um sujeito autónomo, mas também solitário.

Fausto encarna essa condição: um homem que tudo experimentou — ciência, magia, saber — e que, ainda assim, permanece vazio. O seu drama não é a ignorância, mas o excesso sem sentido. É o homem que sabe demais para acreditar e sente de menos para viver.

Deste ponto de vista, Fausto não é apenas um indivíduo: é uma alegoria do ser moderno. Um ser que já não encontra na natureza nem na transcendência um fundamento estável e que, por isso, se lança numa busca incessante de satisfação. Mas essa busca está condenada à frustração, porque o desejo, quando centrado exclusivamente no ego, é, por definição, insaciável.

No plano ético, a obra de Goethe é ainda mais perturbadora. Fausto não é um herói moral. Pelo contrário, a sua trajetória está marcada pela culpa, pelo abandono e pela destruição — basta lembrar a tragédia de Margarida. No entanto, a obra não se limita a condená-lo. Pelo contrário, abre uma questão decisiva: o que salva o homem? As suas ações? A sua intenção? Ou algo que o transcende?

Aqui, Goethe inscreve-se num debate clássico entre duas tradições: o bem através das obras, mais próximo do catolicismo, e o bem através da graça, associado ao protestantismo. Fausto erra, falha, destrói — mas nunca deixa de procurar. E talvez seja precisamente essa inquietação, esse movimento incessante de busca, que constitui o seu âmago. Não a perfeição, mas a recusa da mediocridade. Não a pureza, mas o esforço.

A salvação final de Fausto — ambígua, quase irónica — sugere que o homem não se mede apenas pelos seus erros, mas pela intensidade da sua procura. Num mundo onde a tentação é a indiferença, Fausto é culpado, sim, mas nunca indiferente.

Politicamente, a leitura torna-se ainda mais atual. O percurso de Fausto atravessa várias formas de poder: o conhecimento, o prazer, a riqueza, a técnica. Em cada uma delas há uma promessa de realização — e, em cada uma, uma desilusão. Quando, no final, Fausto se entusiasma com a ideia de dominar a natureza através de diques e engenharia, vislumbramos o nascimento do homem técnico, o antepassado direto da nossa civilização.

Mas Goethe não celebra ingenuamente esse progresso. Pelo contrário, introduz uma crítica subtil, quase profética. A técnica pode transformar o mundo, mas não preenche o vazio do homem. Pode criar riqueza, mas também alienação. Pode prometer domínio, mas frequentemente resulta em perda de sentido. A cena do papel-moeda — uma riqueza fundada sobre o nada — antecipa, de forma surpreendente, as fragilidades de um capitalismo que vive de abstrações.

Assim, Fausto torna-se também o homem que acredita poder construir o paraíso na terra, mas que, ao fazê-lo, corre o risco de perder a sua própria humanidade.

No fim, o que resta? Talvez uma intuição simples, mas exigente: o homem moderno, entregue a si mesmo, dificilmente encontrará repouso. A sua grandeza — a liberdade, a autonomia, a capacidade de criar — é também a sua condenação. Porque, sem um horizonte que o transcenda, o desejo transforma-se em vertigem.

E, no entanto, Goethe não termina na desesperança. Ao salvar Fausto, apesar de tudo, sugere que há ainda uma possibilidade de redenção. Não na perfeição, nem no sucesso, mas na própria busca. No esforço contínuo de ir além de si mesmo. Na abertura ao outro — simbolizada, talvez, na figura de Margarida ou no enigmático “eterno feminino” que encerra a obra.

Num tempo como o nosso, marcado pela aceleração, pelo consumo e pela permanente insatisfação, Fausto permanece desconfortavelmente atual. Porque nos lembra que o problema não é apenas o mundo que construímos, mas o vazio que transportamos connosco.

E talvez essa seja a sua lição mais exigente: não basta ter mais. É preciso saber para quê.

Francisco Vaz
9 de Maio de 2026

domingo, 3 de maio de 2026

Ser Mãe

O ato radical de dizer ‘Sim’ à Vida

Num tempo em que o “não” parece ter ganho prestígio — como sinal de inteligência crítica, de distanciamento ou até de poder —, talvez valha a pena recuperar o valor esquecido do “sim”. Não o “sim” ingénuo ou acrítico, mas aquele que afirma, que cria, que sustenta. Um “sim” que, mais do que uma palavra, é um gesto fundador.

A reflexão torna-se particularmente pertinente no Dia da Mãe. Num plano mais profundo do que o meramente biológico ou emocional, a maternidade pode ser entendida como uma das formas mais radicais de mediação: acolher o outro, dar-lhe corpo, permitir que a vida aconteça. Nesse sentido, cada mãe participa, à sua escala, de um gesto originário — o gesto de dizer “sim” à possibilidade de que o bem exista.

Vivemos, porém, num ambiente cultural onde a negação ganhou centralidade. A crítica constante, a suspeita generalizada e a recusa tornaram-se, muitas vezes, mais valorizadas do que a capacidade de afirmar. Esta inversão não é neutra. Quando o “não” se torna dominante, arrisca a transformar-se num instrumento de esterilidade: nega-se, mas não se cria; recusa-se, mas não se constrói.

É neste contexto que o “sim” assume uma dimensão quase subversiva. Afirmar o bem, acolher a vida, aceitar a responsabilidade de cuidar — tudo isto exige mais coragem do que simplesmente negar. E é precisamente isso que a maternidade, no seu sentido mais profundo, representa. Não apenas dar à luz, mas sustentar, proteger, educar, formar. Não apenas iniciar a vida, mas acompanhá-la na sua fragilidade e potencial.

O “sim” materno não é um ato isolado. É uma decisão que se renova todos os dias, muitas vezes em silêncio, longe do reconhecimento público. Está presente nos gestos pequenos, repetidos, aparentemente banais, mas que sustentam o tecido invisível da sociedade. É um “sim” que não se impõe, mas que resiste; que não domina, mas que transforma.

Num mundo onde o mal não se vence pela simples negação — porque o “não” ao mal pode facilmente tornar-se mais uma forma de negação estéril —, é a afirmação do bem que se revela decisiva. O verdadeiro contrário do mal não é o “não”, mas um “sim” mais forte, mais consistente, mais enraizado.

Celebrar o Dia da Mãe é, assim, mais do que um gesto simbólico ou afetivo. É reconhecer a importância desse “sim” fundamental que permite que a vida — e o bem — continuem a ter lugar. É reconhecer que, sem esse “sim”, o mundo se torna não apenas mais pobre, mas ontologicamente mais frágil.

Num tempo de tantas incertezas e fragmentações, talvez seja esse o ensinamento mais urgente: reaprender a dizer “sim”. E, nesse caminho, reconhecer nas mães não apenas figuras de afeto, mas verdadeiras guardiãs da possibilidade de que o bem se torne realidade.

Francisco Vaz

3 de Maio de 2026

sábado, 2 de maio de 2026

Liderança e tecnologia

Lições da história 

A história oferece, por vezes, momentos de tal intensidade que funcionam como laboratório para pensar o presente. A Segunda Guerra Mundial foi um desses momentos. Quando Chester W. Nimitz assumiu o comando das forças navais no Pacífico, enfrentou não apenas um inimigo poderoso, mas um desafio estrutural: como expandir, organizar e comandar uma força em crescimento explosivo. A partir de meados de 1943, os Estados Unidos passaram a colocar em serviço, em média, um porta-aviões por mês. Cada novo navio não era apenas uma plataforma tecnológica avançada — era um sistema humano complexo que exigia comandantes preparados, oficiais competentes e guarnições treinadas.

Este dado é decisivo para compreender a relação entre liderança e tecnologia. O aumento do poder material — mais navios, mais aviões, mais capacidade de projeção — só se tornou efetivo porque foi acompanhado por uma preparação rigorosa de pessoas. A passagem de Nimitz pelo Bureau of Navigation (BUNAV), antes de assumir o comando no Pacífico, revelou-se crucial. Ali, compreendeu que a guerra moderna não se ganha apenas com meios, mas com organização e talento humano: seleção, formação, distribuição e rotação de pessoal.

Nesse esforço, programas como o NROTC foram determinantes. Num país cuja marinha contava com pouco mais de 300 mil efetivos no início da guerra e que chegaria perto dos 3 milhões no final, era imperativo formar rapidamente oficiais capazes de assumir responsabilidades. O NROTC funcionou como uma reserva estratégica de liderança, garantindo que a expansão material da esquadra não colapsava por falta de quadros qualificados. Cada novo porta-aviões precisava de uma cadeia de comando pronta — e essa prontidão não nasce no momento da necessidade, mas de um investimento prévio e contínuo na formação.

Nimitz compreendeu também outro princípio essencial: a experiência não se improvisa, constrói-se. Por isso, valorizava a rotatividade entre funções em terra e no mar. Oficiais que alternavam entre planeamento, formação e operação adquiriam uma visão mais completa e uma maior capacidade de adaptação. Essa circulação aumentava não só a competência individual, mas também a eficácia coletiva. Num sistema em rápida expansão, a flexibilidade humana tornou-se tão importante quanto a inovação tecnológica.

Este episódio histórico ilumina um problema contemporâneo. Hoje, tal como então, vive-se uma aceleração tecnológica — inteligência artificial, sistemas autónomos, guerra em múltiplos domínios. A tentação é semelhante: acreditar que a superioridade técnica garante, por si só, vantagem estratégica. Mas a experiência de Nimitz sugere o contrário. A tecnologia amplia capacidades; não substitui liderança.

Tal como os porta-aviões dos anos 1940 exigiam comandantes à altura, também os sistemas atuais — muito mais complexos — exigem líderes capazes de compreender, integrar e decidir. E, tal como então, a formação não pode ser reativa. Tem de antecipar necessidades, criar reservas de talento e promover experiências diversificadas. A rotatividade, hoje, pode assumir novas formas — entre domínios operacionais, tecnológicos e estratégicos — mas o princípio mantém-se: a liderança constrói-se na diversidade de experiências.

A lição é clara. A relação entre liderança e tecnologia não é automática nem garantida; é uma relação que exige cuidado, equilíbrio e visão. Quando a tecnologia avança mais depressa do que a formação dos líderes, o risco não é apenas ineficiência — é desorientação estratégica. Mas quando ambas evoluem em conjunto, o resultado pode ser decisivo.

Nimitz compreendeu isso num dos momentos mais críticos da história. A questão que se coloca hoje é se teremos a mesma lucidez num tempo diferente, mas igualmente exigente.

Francisco Vaz

2 de Maio de 2026