ou a inquitude do ser
Há uma intuição que atravessa toda a história do pensamento ocidental: nada existe verdadeiramente sem um princípio de dinamismo interior. O ser não é mera imobilidade; é tensão, impulso, desejo, abertura. Os gregos chamaram-lhe muitos nomes — physis, logos, eros — mas todos procuravam compreender a mesma realidade fundamental: o que faz mover o mundo e o ser humano?
Em Heraclito de Éfeso encontramos talvez a formulação mais radical desta questão. O filósofo do devir afirmava que tudo flui (panta rhei) e que a realidade é constituída por uma tensão permanente entre contrários. O cosmos não é um mecanismo estático, mas um fogo vivo que se transforma incessantemente. O movimento não é um acidente do ser; é a própria condição da existência.
Mas que força sustenta esse movimento?
Embora Heraclito não utilize o conceito de eros no sentido que Platão lhe dará posteriormente, toda a sua filosofia sugere uma realidade animada por uma tensão criadora. O arco e a lira produzem harmonia precisamente porque os seus extremos se encontram em oposição. O mundo vive dessa tensão fecunda.
Platão aprofundará esta intuição. No Banquete, através da voz de Diotima, apresenta Eros não apenas como desejo amoroso, mas como força mediadora entre a carência e a plenitude, entre o humano e o divino. O ser humano deseja porque é incompleto. Ama porque lhe falta algo. Conhece porque ignora. E justamente nessa falta reside a possibilidade da sua realização.
Eros torna-se, assim, o motor da ascensão humana.
Não se trata apenas do amor entre pessoas. Trata-se da força que impele o espírito para a verdade, a beleza e o bem. Todo o conhecimento é, no fundo, uma forma de amor. Toda a busca intelectual nasce de um desejo.
Aristóteles, embora seguindo um caminho distinto, conserva essa estrutura dinâmica. O seu Primeiro Motor Imóvel move todas as coisas não pela força, mas pela atração. O universo dirige-se para a perfeição como o amante para o amado. O movimento cósmico possui uma dimensão teleológica: tudo tende para aquilo que considera melhor.
Nos filósofos helenísticos e neoplatónicos esta visão adquire novas tonalidades. Os estoicos identificam o princípio animador do universo com o Logos, razão cósmica que atravessa todas as coisas. O ser humano realiza-se quando harmoniza a sua vontade com essa ordem universal. Também aqui encontramos uma forma de Eros: o desejo de concordância entre o indivíduo e o cosmos.
Já Plotino elevará esta dinâmica a um nível metafísico extraordinário. Toda a realidade procede do Uno e procura regressar a ele. O universo inteiro é uma nostalgia do absoluto. O movimento fundamental do ser é um movimento de retorno. Amar é regressar à fonte.
Esta herança atravessará a Idade Média cristã. Em Santo Agostinho, o coração humano permanece inquieto enquanto não repousa em Deus. Em São Tomás de Aquino, o desejo natural de conhecer conduz o homem para a causa última de todas as coisas. O Eros platónico é reinterpretado à luz da caridade cristã, mas mantém a sua estrutura fundamental: o ser humano é um ser de transcendência.
O Renascimento recuperará esta tradição com renovado entusiasmo. Nenhuma figura simboliza melhor esse momento do que Giovanni Pico della Mirandola. Na célebre Oração sobre a Dignidade do Homem, Pico apresenta o ser humano como uma criatura inacabada. Deus não lhe atribuiu uma natureza fixa. Colocou-o no centro do mundo para que se construísse a si próprio.
A dignidade humana reside precisamente nessa liberdade criadora.
O homem pode degradar-se até ao nível dos animais ou elevar-se até à contemplação divina. A sua essência não é um ponto de chegada, mas uma possibilidade. O Eros transforma-se aqui em projeto de autoconstrução.
Com o Iluminismo, a confiança desloca-se progressivamente da transcendência para a razão humana. Em Kant, a dinâmica do desejo é submetida à autonomia da razão moral. Em Hegel, a própria história se torna movimento do Espírito em busca de autoconsciência. O eros reaparece sob a forma de reconhecimento: a consciência procura realizar-se através do encontro com outras consciências.
Mais tarde, Schopenhauer verá no desejo uma vontade insaciável que atravessa toda a realidade, enquanto Nietzsche transformará essa energia em vontade de potência, impulso criador que conduz o ser humano à superação de si mesmo.
A contemporaneidade continua a debater-se com esta questão fundamental.
Num mundo marcado pelo consumo, pela aceleração tecnológica e pela fragmentação cultural, o Eros corre frequentemente o risco de ser reduzido ao desejo imediato ou ao prazer efémero. Contudo, essa redução empobrece profundamente a experiência humana.
O ser humano continua a mover-se por algo mais profundo do que a mera satisfação de necessidades. Continua a procurar sentido, reconhecimento, comunhão, beleza e verdade. Continua a desejar o infinito, mesmo quando o desconhece.
É precisamente neste ponto que o pensamento de Louis Lavelle oferece uma contribuição particularmente fecunda. Para Lavelle, a realidade não é uma coleção de coisas acabadas, mas a manifestação permanente do Acto. Existir significa participar nesse Acto originário que sustenta todo o ser. A pessoa humana não é um objeto entre objetos; é um centro de participação, chamado incessantemente a realizar as potencialidades inscritas na sua própria existência.
Nesta perspetiva, o Eros pode ser entendido como a expressão existencial dessa participação. Não apenas desejo de possuir algo que falta, mas impulso para uma presença mais plena ao ser. O amor, o conhecimento, a criação artística, a ação moral e a própria vida política surgem como modalidades de participação crescente numa realidade que transcende o indivíduo sem o anular.
A política, entendida como o encontro das diferentes entidades éticas no espaço comum da ação, nasce precisamente quando este dinamismo interior ultrapassa a esfera da consciência individual e se projeta na convivência humana. O Eros deixa então de ser apenas uma força íntima para se tornar princípio de comunidade e de civilização.
Talvez possamos concluir que, desde Heraclito até aos nossos dias, passando por Platão, Aristóteles, Plotino, Agostinho, Pico della Mirandola, Hegel e Lavelle, permanece uma mesma intuição fundamental: o ser não é uma realidade imóvel, mas um acto em permanente realização. O ser humano não é definido apenas pelo que é, mas sobretudo pelo que é chamado a ser.
Somos seres em movimento porque participamos de um Acto que nos excede. Eros não é apenas uma dimensão da existência humana. É a própria manifestação dessa vocação para a plenitude. É a força que transforma a ignorância em conhecimento, a dispersão em unidade, a solidão em comunhão e a simples sobrevivência em vida verdadeiramente humana.
Enquanto houver seres humanos, haverá Eros. E enquanto houver eros, haverá movimento. Talvez porque existir seja, em última análise, participar conscientemente numa plenitude que nos atrai sem cessar e que, justamente por ser infinita, nunca se deixa possuir inteiramente.
Não é por acaso que, no termo da sua monumental Divina Comédia, Dante Alighieri encontra uma expressão capaz de condensar séculos de reflexão filosófica e espiritual numa única imagem. Após a longa travessia do Inferno, do Purgatório e do Paraíso, o poeta conclui a sua jornada contemplando a realidade última como Amor:
«L'amor che move il sole e l'altre stelle.»
«O amor que move o sol e as outras estrelas.»
Nesta visão culmina uma das mais fecundas intuições da civilização ocidental. O que move os astros, anima a história, desperta a inteligência, funda a comunidade política e impele cada ser humano para além de si mesmo não é apenas a força, a necessidade ou o acaso, mas uma atração originária para a plenitude do ser. Heraclito chamou-lhe harmonia dos contrários; Platão chamou-lhe Eros; Plotino viu nela o regresso ao Uno; Agostinho reconheceu-a como inquietação do coração; Pico della Mirandola como vocação para a autoconstrução; Lavelle como participação no Acto. Mudam as palavras, permanece a intuição: existir é responder a um apelo de transcendência.
O Eros surge assim não como uma simples paixão entre outras, mas como o nome filosófico da própria inquietação do ser humano perante o infinito. É ele que nos impede de permanecer encerrados em nós mesmos, que nos convoca para o conhecimento, para a criação, para a amizade, para a justiça e para o amor. Em última análise, é ele que faz da existência uma aventura inacabada e da humanidade uma permanente peregrinação em direção à plenitude.
Francisco Vaz
11 de junho de 2026