A Educação de Alexandre Magno
Quando Alexandre morreu em Babilónia, em 323 a.C., tinha apenas trinta e dois anos. Em pouco mais de uma década atravessara o mundo conhecido, destruíra o Império Aqueménida, chegara à Índia, fundara ou refundara cidades e modificara de forma irreversível as relações entre o Mediterrâneo e a Ásia.
É difícil encontrar na História outra vida em que tenha cabido tanto mundo em tão pouco tempo.
Por isso, quando pensamos em Alexandre, a primeira imagem é quase inevitavelmente a do conquistador: o cavalo Bucéfalo, a falange macedónica, a cavalaria dos Companheiros, o Grânico, Isso, Gaugamela, Persépolis, a marcha interminável para Oriente.
Mas talvez a pergunta mais interessante não seja saber como Alexandre conseguiu conquistar tanto.
Filipe II explica uma parte considerável da resposta. Deixou ao filho um reino poderoso, um exército extraordinário, comandantes experientes e uma Macedónia que alcançara a hegemonia sobre grande parte do mundo grego.
A pergunta mais profunda é outra:
porque quis Alexandre ir tão longe?
A sugestiva conferência de Adolfo Domínguez Monedero, Alejandro Magno: conquistar los confines de todas las tierras, conduz-nos precisamente para esta questão. Antes de procurarmos compreender o conquistador, talvez devamos procurar compreender o jovem que foi educado para olhar para o mundo.
E isso leva-nos a Aristóteles.
Quando Alexandre tinha cerca de catorze anos, Filipe confiou a sua educação a um dos maiores espíritos da Antiguidade. Não sabemos exatamente aquilo que Aristóteles ensinou ao jovem príncipe em Mieza. Seria excessivo procurar nas futuras campanhas de Alexandre a aplicação de um qualquer programa político concebido pelo filósofo.
Mas conhecemos suficientemente Aristóteles para perceber a dimensão do horizonte intelectual que Alexandre encontrou diante de si.
Política, ética, literatura, medicina, natureza, animais, plantas, geografia, constituições, povos e costumes pertenciam ao universo aristotélico. Por detrás desta diversidade existia uma convicção fundamental: o mundo é inteligível.
Pode ser observado.
Pode ser interrogado.
Pode ser comparado.
Pode ser compreendido.
Talvez tenha sido esta uma das mais profundas influências de Aristóteles sobre Alexandre. Não uma lição concreta sobre a conquista da Pérsia, mas algo muito maior: uma determinada relação com o real.
Aristóteles deu-lhe um horizonte.
E talvez seja precisamente esta a missão mais profunda de um mestre. Um verdadeiro mestre não determina necessariamente aquilo que o discípulo irá fazer. Alarga aquilo que ele consegue imaginar como possível.
Mas Alexandre teve, simbolicamente, três mestres.
Filipe ensinou-lhe o poder.
Aristóteles ensinou-lhe o mundo.
Homero ensinou-lhe a glória.
A Ilíada acompanhou Alexandre desde a juventude e Aquiles tornou-se o seu grande modelo heroico. Quando atravessou o Helesponto em 334 a.C. e visitou Troia, Alexandre não estava apenas a iniciar uma campanha militar. Entrava numa geografia que conhecia desde criança através da poesia.
Antes de Alexandre percorrer a Ásia com os seus soldados, Homero já a fizera percorrer pela sua imaginação.
Podemos, por isso, condensar nesta extraordinária tríade uma parte importante da formação da sua personalidade:
Filipe deu-lhe um exército.
Homero deu-lhe Aquiles.
Aristóteles deu-lhe o mundo.
Alexandre acrescentaria o resto: uma vontade quase ilimitada de transformar possibilidade em ação.
Mas o mundo que Aristóteles lhe ensinara não era um mundo neutro.
Era um mundo visto a partir da Grécia.
A cultura grega estabelecia uma separação profunda entre os helenos e aqueles que designava por barbaroi. Aristóteles levou essa distinção muito longe na sua reflexão política. Gregos e bárbaros não ocupavam necessariamente o mesmo lugar na ordem humana e política.
E Alexandre iniciou a campanha ainda dentro dessa representação.
Depois da vitória no Grânico enviou para Atenas trezentas armaduras persas, apresentando simbolicamente a vitória como triunfo dos gregos sobre os bárbaros da Ásia.
O mundo parecia ainda claramente dividido.
Nós e eles.
Ocidente e Oriente.
Gregos e bárbaros.
Alexandre atravessara geograficamente o Helesponto.
Intelectualmente, ainda não o tinha atravessado.
Depois aconteceu aquilo que nenhuma escola consegue antecipar completamente.
Alexandre encontrou o mundo real.
Encontrou egípcios, persas, medos, bactrianos, sogdianos e indianos. Encontrou civilizações antigas, administrações sofisticadas, religiões, elites políticas, cidades, riquezas e formas de organização que dificilmente poderiam continuar a ser reduzidas à simples categoria de “bárbaros”.
E quanto mais avançava, mais o mundo se tornava complexo.
É então que ocorre uma transformação extraordinária.
Alexandre começa a mudar.
Mantém estruturas administrativas persas. Recorre às elites locais. Incorpora asiáticos no exército. Casa com Roxana da Báctria. Adota elementos do vestuário e do cerimonial persas. Manda formar milhares de jovens iranianos segundo práticas militares macedónicas. Em Susa promove casamentos entre macedónios e mulheres das elites asiáticas.
Nada disto transforma Alexandre num defensor moderno da igualdade entre culturas. Seria absurdo projetar sobre um homem do século IV a.C. categorias políticas do nosso tempo. Alexandre continuava a ser um conquistador, um monarca absoluto e um homem capaz de extrema violência.
Mas alguma coisa fundamental tinha mudado.
A diferença entre vencedor e vencido começava a deixar de coincidir inteiramente com a diferença entre grego e bárbaro.
E talvez encontremos aqui o momento filosoficamente mais fascinante da relação entre Aristóteles e Alexandre.
O mundo começou a corrigir o mestre.
Aristóteles ensinara Alexandre a observar a realidade. Mas quem observa verdadeiramente a realidade corre sempre um risco: descobrir que ela é maior do que as categorias através das quais aprendeu a compreendê-la.
É uma das experiências fundamentais do conhecimento.
Recebemos dos nossos mestres conceitos, distinções, sistemas e explicações. Precisamos deles para começar a compreender.
Depois encontramos o real.
E o real resiste.
É sempre mais rico do que o conceito.
O verdadeiro discípulo encontra então uma escolha: proteger o sistema contra a realidade ou permitir que a realidade transforme aquilo que aprendeu.
Alexandre parece ter escolhido, pelo menos parcialmente, a segunda possibilidade.
A Ásia não foi apenas conquistada por Alexandre.
Alexandre foi também conquistado pela Ásia.
Os macedónios perceberam-no. E muitos não gostaram.
Começaram a olhar com desconfiança para aquele rei que vestia parcialmente como os persas, adotava costumes da corte aqueménida e colocava asiáticos ao lado dos antigos companheiros macedónios.
A tensão chegou a momentos dramáticos.
Por detrás deles escondia-se uma pergunta fundamental:
Quem era agora Alexandre?
Rei da Macedónia?
Chefe dos gregos?
Sucessor dos reis persas?
Rei da Ásia?
Ou estava a tentar tornar-se algo para o qual o mundo antigo ainda não possuía sequer um nome adequado?
Talvez parte da solidão crescente de Alexandre tenha resultado precisamente desta transformação.
O homem que saíra da Macedónia já não existia inteiramente.
E o homem em que se estava a transformar ainda não tinha encontrado o seu lugar.
Entretanto, continuava a avançar.
A queda do Império Aqueménida não lhe bastou.
Dario estava morto. Persépolis tinha caído. O grande inimigo estava vencido. A finalidade política inicial da campanha encontrava-se essencialmente realizada.
Alexandre podia ter regressado.
Não regressou.
É aqui que a leitura proposta por Domínguez Monedero se torna particularmente estimulante.
A conquista transforma-se também numa procura dos limites da oikoumene, o mundo habitado.
Onde terminava a Ásia?
Onde começava o grande Oceano?
Como se relacionavam os rios e os mares?
O que existia para além das terras conhecidas?
Alexandre não queria apenas possuir o mundo.
Queria chegar ao fim dele.
O conquistador tornava-se também explorador.
A espada continuava a avançar, mas o olhar avançava com ela.
E talvez reaparecesse aqui, de maneira inesperada, o adolescente de Mieza.
O discípulo do homem que lhe ensinara que o mundo podia ser interrogado queria agora confrontar aquilo que aprendera com aquilo que existia.
Até que chegou à Índia.
Alexandre queria continuar.
Os soldados disseram não.
No Hífasis aconteceu talvez uma das cenas mais profundamente humanas de toda esta extraordinária epopeia.
Alexandre vencera exércitos, reis e impérios.
Não conseguiu vencer o cansaço dos seus próprios homens.
O homem que procurava os limites geográficos da Terra encontrou primeiro um limite que nenhum mapa podia representar:
a vontade do outro.
Há sempre um Hífasis à espera de qualquer projeto humano que se imagine ilimitado.
Alexandre teve de regressar.
Não porque tivesse encontrado o fim do mundo, mas porque encontrou algo mais fundamental: a finitude humana.
E, enquanto avançava e regressava, ficavam para trás as cidades.
As muitas Alexandrias não devem ser romantizadas. Eram instrumentos de conquista, administração, comunicação e controlo territorial.
Mas a História tem frequentemente consequências muito maiores do que as intenções daqueles que a fazem.
Nessas cidades começaram a encontrar-se homens que anteriormente pertenciam a mundos separados.
Soldados e comerciantes, administradores e sacerdotes, artistas e aventureiros.
Com eles viajaram as palavras, os deuses, as imagens e as ideias.
O grego expandiu-se como língua de comunicação. A arte helénica encontrou tradições orientais. Conhecimentos circularam. Divindades foram aproximadas umas das outras. Novas formas culturais nasceram do encontro.
Alexandria do Egito viria a tornar-se a expressão mais extraordinária desse fenómeno.
Alexandre não conheceu a sua grande Biblioteca nem o Museu dos Ptolemeus.
Mas ajudara a criar o espaço histórico onde ambos se tornariam possíveis.
O império político de Alexandre praticamente não lhe sobreviveu.
O mundo cultural que as suas conquistas tornaram possível sobreviveu durante séculos.
E talvez seja este o maior paradoxo da sua vida.
Alexandre partiu para a Ásia como conquistador grego.
A Ásia transformou-o num soberano que já não cabia inteiramente dentro da velha oposição entre Grécia e Oriente.
Levou Homero consigo.
Levou Aristóteles dentro de si.
Levou o exército de Filipe atrás de si.
Mas encontrou povos que nenhum dos três podia reduzir inteiramente às categorias com que Alexandre iniciara a viagem.
Por isso, talvez possamos acrescentar uma última linha àquela tríade inicial:
Filipe deu-lhe um exército.
Homero deu-lhe Aquiles.
Aristóteles deu-lhe o mundo.
A Ásia ensinou-lhe que esse mundo era maior do que Aristóteles imaginara.
Não há nisto uma derrota do mestre.
Talvez seja precisamente o contrário.
A grandeza de uma educação não se mede pela fidelidade com que o discípulo repete aquilo que lhe ensinaram.
Mede-se pela capacidade que lhe proporciona para enfrentar aquilo que o mestre não pôde conhecer.
Aristóteles ensinou Alexandre a pensar o mundo.
Alexandre foi ao encontro dele.
E o mundo obrigou-o a pensar de novo.
Talvez seja esta a verdadeira grandeza — e também a tragédia — de Alexandre.
Procurou os confins da Terra e não os encontrou.
Encontrou povos.
Encontrou culturas.
Encontrou outras formas de organizar a existência humana.
Encontrou finalmente o limite da sua própria vontade.
E morreu em Babilónia, aos trinta e dois anos, deixando inacabado um império que nenhum sucessor conseguiria conservar unido.
Contudo, alguma coisa permanecera.
A Grécia já não podia olhar para a Ásia exatamente como antes.
E a Ásia já não seria inteiramente a mesma depois do encontro com o mundo helénico.
Da violência da conquista nasceu, paradoxalmente, um vastíssimo espaço de contacto cultural.
Era o início do mundo helenístico.
Alexandre não encontrou o fim do mundo que procurava.
Fez algo historicamente talvez mais importante.
Alargou-o.
Partiu para Oriente para conquistar o mundo que conhecia.
E acabou por contribuir para criar um mundo que ainda não existia.
Francisco Vaz
6 de outubro de 2026