Pecado original

Pecado original

quinta-feira, 2 de julho de 2026

Entre o cisma e a nostalgia

quando a unidade da Igreja é posta à prova

A história da Igreja ensina que as grandes crises raramente nascem da falta de fé. Nascem, quase sempre, da dificuldade em viver a comunhão. Umas vezes porque se pretende ir demasiado depressa; outras porque se recusa caminhar. Em ambos os casos, perde-se de vista aquilo que constitui o coração da tradição católica: a unidade.

Nos últimos anos assistimos a dois fenómenos aparentemente opostos, mas que, no fundo, revelam a mesma tentação.

Por um lado, encontram-se aqueles que, em nome da renovação, entendem que determinadas decisões podem ser tomadas independentemente da comunhão com o sucessor de Pedro. A ordenação episcopal sem mandato pontifício constitui um dos atos mais graves que um bispo pode praticar. Não se trata apenas de uma questão administrativa ou disciplinar. Na tradição católica, cada bispo é sucessor dos Apóstolos precisamente porque a sua missão se insere na comunhão do colégio episcopal, cuja unidade tem como princípio visível o Bispo de Roma. Quando alguém rompe deliberadamente esse vínculo, não cria apenas uma nova estrutura; introduz uma fratura no próprio significado do episcopado. A sucessão apostólica não é uma simples cadeia histórica de imposição das mãos; é também uma sucessão na comunhão da fé e da Igreja.

Por outro lado, encontramos setores que olham para o Concílio Vaticano II como se tivesse sido um desvio lamentável da história da Igreja. Alimenta-se, por vezes, a esperança de um regresso a um passado idealizado, como se fosse possível suspender sessenta anos de reflexão, de magistério e de vida eclesial. Também aqui existe um equívoco profundo.

Nenhum concílio ecuménico pode ser simplesmente apagado. A tradição da Igreja não funciona por eliminação de capítulos da sua história. A tradição é uma continuidade viva. Desenvolve-se sem negar as suas raízes, corrige excessos sem destruir o que recebeu e permanece aberta à ação permanente do Espírito Santo.

O erro consiste em transformar um concílio num campo de batalha ideológico. Uns absolutizam o espírito do concílio esquecendo os seus textos; outros absolutizam o período anterior como se toda a verdade tivesse ficado congelada antes de 1962. Ambos acabam por reduzir um acontecimento espiritual a uma disputa política.

Existe aqui um curioso paralelismo.

Os que rompem com Roma em nome da inovação afirmam que a Igreja deve adaptar-se ao mundo, mesmo que para isso tenha de ultrapassar os limites da comunhão eclesial.

Os que recusam o Vaticano II em nome da tradição sustentam que a Igreja apenas será fiel se regressar ao passado, mesmo que isso implique colocar em causa o magistério posterior.

Uns caminham para diante sem o centro; outros permanecem imóveis enquanto a Igreja continua o seu caminho.

Mas a identidade cristã nunca foi construída sobre estas alternativas. A Igreja não é um museu onde tudo permanece imóvel nem um laboratório onde tudo pode ser reinventado. É um organismo vivo. Como acontece com qualquer ser vivo, cresce permanecendo ele próprio. Uma árvore adulta não renega a semente que lhe deu origem, mas também não regressa a ela.

O critério decisivo continua a ser o mesmo desde os primeiros séculos: a comunhão. Não uma comunhão acrítica, que dispense o debate, nem uma obediência cega que elimine a consciência, mas uma comunhão que reconhece que ninguém possui sozinho a plenitude da verdade. O Espírito Santo não inspira apenas indivíduos; conduz toda a Igreja.

Talvez por isso seja mais fecundo abandonar as categorias políticas de "progressistas" e "conservadores". Essas palavras pertencem ao vocabulário parlamentar, não ao léxico do Evangelho. A verdadeira distinção é outra: entre aqueles que procuram a verdade permanecendo na comunhão e aqueles que colocam a sua própria interpretação acima da comunhão.

A Igreja sempre viveu de tensões criativas. Os grandes santos discutiram, discordaram e, por vezes, confrontaram-se intensamente. Mas fizeram-no sem romper o vínculo que os unia ao Corpo inteiro.

A unidade nunca exige uniformidade absoluta; exige, isso sim, uma humildade comum. A humildade de reconhecer que nem o passado esgota a ação de Deus, nem o futuro nos autoriza a esquecer as raízes. Entre a nostalgia e a ruptura existe um caminho mais difícil, mas também mais autenticamente católico: o caminho da tradição viva, onde a fidelidade e a renovação deixam de ser adversárias para se tornarem duas expressões da mesma esperança.

Uma nota de rigor histórico: se estiver a referir-se ao caso recente da Suíça, posso identificar o episódio concreto e enquadrá-lo canonicamente, pois houve diferentes situações envolvendo tensões com Roma e convém distinguir os factos antes de fazer uma crítica específica.

Francisco Vaz

2 de julho de 2026

quarta-feira, 1 de julho de 2026

Oitenta Anos das Nações Unidas

Das Quatro Liberdades à esperança de uma paz fundada na dignidade humana

“In the future days, which we seek to make secure, we look forward to a world founded upon four essential human freedoms.”

— Franklin D. Roosevelt, Discurso das Quatro Liberdades, 6 de janeiro de 1941


Assinalar os oitenta anos das Nações Unidas não é apenas recordar a fundação de uma organização internacional. É revisitar uma das mais ambiciosas tentativas da humanidade de substituir a lógica da força pela força do direito, da guerra pela cooperação e do medo pela esperança.

As Nações Unidas nasceram formalmente a 24 de outubro de 1945, quando entrou em vigor a Carta assinada meses antes, na Conferência de São Francisco. Porém, a sua verdadeira génese remonta aos anos mais sombrios da Segunda Guerra Mundial. Antes de existir uma organização, existia já uma ideia; antes da instituição, havia uma visão do Homem e da sociedade internacional.

Essa visão foi apresentada por Franklin D. Roosevelt no seu célebre discurso das Quatro Liberdades, proferido perante o Congresso dos Estados Unidos a 6 de janeiro de 1941.

Enquanto grande parte do mundo permanecia mergulhada na violência, Roosevelt recusou reduzir o conflito a uma disputa entre potências. Colocou no centro da reflexão aquilo que verdadeiramente justificava o combate ao totalitarismo: a dignidade da pessoa humana. Definiu então quatro liberdades que deveriam ser garantidas a todos os seres humanos, em qualquer parte do mundo: a liberdade de expressão, a liberdade religiosa, a liberdade de viver com condições materiais suficientes e dignas, e a liberdade de viver sem medo.

Não era apenas um programa político. Era uma verdadeira antropologia. As duas primeiras liberdades protegem o espírito humano; as duas últimas garantem as condições materiais e políticas indispensáveis para que essa liberdade possa ser vivida. Liberdade, justiça, segurança e solidariedade deixavam de ser objetivos exclusivamente nacionais para se transformarem em valores universais.

Pouco depois, a 14 de agosto de 1941, Roosevelt e Winston Churchill subscreveram a Carta do Atlântico, onde aqueles princípios começaram a adquirir expressão política internacional. Em 1 de janeiro de 1942, vinte e seis países assinaram a Declaração das Nações Unidas, utilizando pela primeira vez a designação que viria a identificar a futura organização internacional. A expressão «Nações Unidas» foi sugerida pelo próprio Roosevelt.

Transformar estes ideais numa instituição exigiu um intenso trabalho diplomático. Entre agosto e outubro de 1944, representantes dos Estados Unidos, do Reino Unido, da União Soviética e da China reuniram-se em Dumbarton Oaks, em Washington, para elaborar o primeiro projeto da futura Carta das Nações Unidas. Ali foram desenhadas as estruturas fundamentais da organização: a Assembleia Geral, o Conselho de Segurança, o Tribunal Internacional de Justiça, o Conselho Económico e Social e o Secretariado.

Esse projeto seria posteriormente aperfeiçoado na Conferência de São Francisco, entre abril e junho de 1945, reunindo delegados de cinquenta países. O resultado foi a Carta das Nações Unidas, provavelmente o mais importante tratado político do século XX.

Também os símbolos possuem significado. A sede permanente das Nações Unidas ergue-se em Nova Iorque num terreno oferecido em 1946 por John D. Rockefeller Jr. A doação ultrapassou largamente o seu valor material. Representou a convicção de que a paz necessita de um lugar permanente onde o diálogo possa preceder o confronto e onde a palavra tenha sempre precedência sobre as armas.

Mas as Nações Unidas não nasceram apenas da diplomacia. Nasceram igualmente da reflexão filosófica.

Quando terminou a guerra, tornou-se evidente que a paz não poderia assentar exclusivamente em equilíbrios militares ou económicos. Era necessário encontrar um fundamento ético comum que pudesse ser reconhecido por povos de culturas, religiões e sistemas políticos profundamente diferentes.

Foi neste contexto que a UNESCO promoveu um amplo inquérito internacional junto de filósofos, juristas e pensadores de diversas civilizações sobre os fundamentos dos direitos humanos. Coube a Jacques Maritain coordenar intelectualmente esse diálogo. O seu extraordinário mérito consistiu em demonstrar que era possível alcançar um consenso prático sobre os direitos fundamentais da pessoa, mesmo permanecendo divergências quanto aos seus fundamentos filosóficos. Daí a sua célebre afirmação: «Estamos de acordo acerca destes direitos, desde que ninguém nos pergunte porquê.»

Longe de representar um relativismo moral, esta observação revelava uma profunda sabedoria política. Antes de discutir as razões últimas da dignidade humana, importava garantir que nenhuma pessoa voltaria a ser privada dela por causa da sua raça, religião, nacionalidade ou condição social. A experiência dramática do Holocausto e dos restantes totalitarismos tornara essa evidência irrecusável.

Este ambiente intelectual influenciou profundamente os trabalhos da Comissão dos Direitos Humanos das Nações Unidas, presidida por Eleanor Roosevelt, da qual fizeram parte René Cassin, Charles Malik, Peng-chun Chang e John Humphrey. Daí nasceu, em 10 de dezembro de 1948, a Declaração Universal dos Direitos Humanos, talvez o documento mais importante da história contemporânea.

Também a tradição cristã reconheceu rapidamente a importância deste caminho. Em 1963, São João XXIII publicou a encíclica Pacem in Terris, onde propôs uma visão da paz construída sobre quatro pilares inseparáveis: a verdade, a justiça, o amor e a liberdade. Pela primeira vez, um documento do magistério pontifício reconhecia explicitamente o papel das Nações Unidas e da Declaração Universal dos Direitos Humanos como instrumentos privilegiados para a construção do bem comum universal.

É difícil não reconhecer a convergência destas três grandes figuras do século XX. Roosevelt recordou que a paz só pode existir onde existem liberdades fundamentais. Maritain demonstrou que diferentes culturas podem encontrar-se na sua comum humanidade. João XXIII mostrou que a paz não é apenas um equilíbrio político, mas uma exigência moral fundada na dignidade da pessoa. Política, filosofia e teologia encontraram-se, assim, numa mesma visão humanista.

Naturalmente, oitenta anos depois, o balanço das Nações Unidas permanece ambivalente. A organização falhou em impedir numerosas guerras, revelou limitações perante genocídios, sofreu bloqueios impostos pelos interesses das grandes potências e enfrenta hoje desafios que os seus fundadores dificilmente poderiam imaginar.

Contudo, seria injusto ignorar a outra face da sua história. As Nações Unidas acompanharam a descolonização de dezenas de países, consolidaram o direito internacional, promoveram os direitos humanos, impulsionaram o direito do mar, organizaram centenas de missões de manutenção da paz, combateram epidemias, protegeram milhões de refugiados e criaram uma cultura de cooperação internacional sem precedentes na história da humanidade.

Talvez o maior risco do nosso tempo não seja apenas o regresso da guerra. É o esquecimento das ideias que estiveram na origem da própria organização. Quando as liberdades deixam de ser universais; quando a dignidade humana passa a depender da nacionalidade, da religião, da etnia, da ideologia ou da condição económica; quando a força pretende novamente substituir o direito, regressamos exatamente ao mundo que as Nações Unidas quiseram impedir.

As Nações Unidas nunca foram chamadas a instaurar um paraíso na Terra. A sua missão sempre foi mais modesta, mas também mais realista: impedir que a humanidade volte a construir o seu próprio inferno.

Oitenta anos depois, permanece atual a pergunta colocada, implicitamente, por Roosevelt em 1941: que mundo queremos legar às gerações futuras?

Enquanto a resposta continuar a passar pela liberdade, pela dignidade da pessoa, pela justiça e pela paz, o espírito das Quatro Liberdades permanecerá vivo. As instituições podem envelhecer e necessitar de reforma. Os princípios que exprimem a verdade sobre o ser humano, esses, permanecem.

Talvez seja este, afinal, o maior legado das Nações Unidas ao fim de oito décadas: recordar que a paz não nasce do equilíbrio do medo nem da hegemonia dos poderosos. Nasce do reconhecimento de que cada ser humano, simplesmente por o ser, possui uma dignidade inviolável. Enquanto esta verdade permanecer viva na consciência dos povos, permanecerá igualmente viva a esperança que inspirou os fundadores das Nações Unidas.

Francisco Vaz

1 de julho de 2026


Do Génesis à Divina Comédia

Uma alegoria sobre o humor divino, a liberdade humana e as eternas azelhices da criatura.

Há uma hipótese que, naturalmente, não consta em qualquer tratado de teologia, mas que merece, pelo menos, um sorriso filosófico: talvez a história da humanidade possa ser lida como a mais longa comédia alguma vez representada.

Não porque Deus tenha criado o homem para dele troçar, mas porque só um infinito sentido de humor poderia acompanhar, sem desistir da obra, a sucessão interminável de equívocos produzidos pela criatura dotada de liberdade.

Tudo começa no Génesis. O cenário é perfeito. O jardim é paradisíaco. A criação termina com uma exclamação de satisfação: «E Deus viu que tudo era muito bom.» A peça parecia destinada ao género da contemplação. Mas bastaram poucas páginas para surgir o primeiro ato cómico. Deus diz: «De toda a árvore podes comer, menos desta.» O ser humano, com a criatividade que o acompanhará para sempre, conclui imediatamente que a única árvore realmente interessante só pode ser precisamente essa.

É o primeiro grande momento da comédia humana: transformar a única exceção na única prioridade.

Segue-se o célebre interrogatório. «Adão, onde estás?» Como se Deus ignorasse a resposta. A pergunta não procura informação; procura consciência. Mas Adão responde como responderão milhões dos seus descendentes: não assume a responsabilidade, procura um culpado: «A mulher que me deste…». Eva, por sua vez, remete a culpa para a serpente. A serpente, infelizmente, não dispõe de advogado.

Desde então, a humanidade aperfeiçoou o método. Descobrimos a política, onde a culpa pertence sempre ao governo anterior; a economia, onde a responsabilidade é dos mercados; a meteorologia, onde tudo se explica pelas alterações climáticas; e as redes sociais, onde cada um possui a verdade absoluta durante quinze minutos.

Entretanto, Deus continua, por assim dizer, a assistir à representação. Não como um espectador que se diverte com o sofrimento das personagens, mas como um autor paciente que sabe que a liberdade implica a possibilidade permanente do disparate. Um criador de marionetas controla os fios; um criador de pessoas aceita o risco da improvisação.

Talvez seja precisamente aí que reside o humor divino: conceder inteligência suficiente para descobrir as leis do universo e, ao mesmo tempo, observar os mesmos seres humanos discutirem por um pedaço de terra, uma herança ou um lugar de honra à mesa.

Construímos telescópios capazes de observar galáxias a milhares de milhões de anos-luz e, logo a seguir, perdemos meia hora à procura dos óculos que temos pousados na cabeça. Inventamos a penicilina e a inteligência artificial, mas continuamos incapazes de ler as instruções e montar uma simples estante sem sobrarem meia dúzia de parafusos.

A história torna-se assim uma sucessão de atos em que convivem o sublime e o ridículo. A mesma humanidade que ergue catedrais, compõe sinfonias, escreve Shakespeare, pinta Miguel Ângelo ou descobre a estrutura do ADN é também capaz de iniciar guerras por vaidade, destruir o que levou séculos a construir e repetir, geração após geração, os mesmos erros com uma surpreendente convicção de originalidade.

Talvez por isso a expressão Divina Comédia encerre uma intuição mais profunda do que parece. Não porque a criação seja uma piada, mas porque o drama humano é frequentemente atravessado por um humor involuntário. Somos simultaneamente heróis e trapalhões, sábios e distraídos, criados à imagem do Logos e continuamente tentados pelo absurdo.

O Génesis pode, assim, ser entendido como o prólogo desta imensa representação. Não uma comédia destinada a ridicularizar o homem, mas uma comédia onde a liberdade humana revela, a cada passo, a distância entre aquilo que somos e aquilo que poderíamos ser.

E talvez o riso de Deus — se é legítimo imaginá-lo — não seja um riso de escárnio, mas de infinita ternura. O mesmo sorriso de um pai que vê o filho cair pela centésima vez enquanto aprende a caminhar. Sabe que a queda faz parte do caminho. E continua, pacientemente, a estender-lhe a mão.

No fim, a verdadeira graça da história não está nas nossas azelhices, mas no facto de, apesar delas, a criação continuar aberta à esperança. Afinal, se o Génesis inaugura a grande comédia da liberdade, é porque o Autor nunca deixou de acreditar que a última palavra não pertencerá ao ridículo, mas ao amor.

Francisco Vaz

1 de julho de 2026


terça-feira, 30 de junho de 2026

Verona cidade de Romeu e Julieta

O génio de Shakespeare e o milagre da palavra

Muito antes de William Shakespeare escrever Romeu e Julieta, a história já existia. O escritor italiano Luigi da Porto dera-lhe forma no século XVI, situando-a em Verona, atribuindo aos amantes os nomes de Romeu Montecchi e Giulietta Cappelletti e narrando o drama de duas famílias consumidas pelo ódio. Outros autores retomaram a narrativa e acrescentaram-lhe novos elementos. A matéria-prima estava criada.

Mas uma grande obra não nasce apenas da originalidade do enredo. Nasce, sobretudo, da forma como esse enredo é transfigurado pelo génio criador.

Foi isso que Shakespeare realizou.

Há quem pense que o génio consiste em inventar histórias nunca antes contadas. É uma ideia sedutora, mas incompleta. A experiência humana é relativamente constante: o amor, a morte, a amizade, a traição, a esperança, o medo e o perdão atravessam todas as épocas. O verdadeiro génio manifesta-se quando alguém encontra a forma perfeita de dizer aquilo que todos sentem, mas ninguém conseguira ainda exprimir.

Costuma dizer-se que Shakespeare possuía uma qualidade rara: sabia qual era a palavra mais adequada para colocar a seguir a qualquer outra palavra. Esta observação, aparentemente simples, encerra uma profunda verdade sobre a natureza da criação artística.

As palavras não são meros instrumentos de comunicação. São a matéria com que se constrói o pensamento e se revela a realidade. Entre possibilidades quase infinitas, existe por vezes uma única palavra capaz de dar à frase o seu ritmo, a sua beleza, a sua verdade e a sua força emocional. Encontrá-la exige muito mais do que técnica. Exige uma inteligência que escuta a própria música da linguagem e uma sensibilidade capaz de reconhecer a ordem escondida das coisas.

É por isso que Shakespeare não apenas contou uma história de amor. Fez dela um espelho da condição humana.

Em Romeu e Julieta, a paixão confronta-se com o ódio, a juventude com a tradição, a liberdade com o destino, a esperança com a morte. O drama dos dois amantes ultrapassa a sua época porque revela uma verdade permanente: os maiores conflitos da humanidade raramente nascem da falta de amor, mas da incapacidade de vencer preconceitos, rivalidades e paixões herdadas.

Talvez seja essa a maior lição da obra.

Cada geração continua a construir os seus próprios Montecchi e Cappelletti. Mudam os nomes, mudam as ideologias, mudam as bandeiras e as causas, mas permanece a tendência para dividir o mundo entre “nós” e “eles”. E, enquanto isso acontece, continuam a morrer muitos “Romeus” e muitas “Julietas”: pessoas sacrificadas em nome de conflitos que nunca escolheram.

Verona conserva a memória dessa história. Shakespeare concedeu-lhe a eternidade.

A grande literatura realiza precisamente este milagre: parte do particular para alcançar o universal, transforma um episódio numa parábola da existência e faz com que, séculos depois, continuemos a reconhecer-nos nas suas personagens.

É essa a marca dos verdadeiros génios. Não são apenas criadores de histórias. São reveladores da condição humana. E fazem-no através do mais humilde e, simultaneamente, do mais poderoso dos instrumentos: a palavra certa, colocada exatamente no lugar onde nenhuma outra poderia estar.

Francisco Vaz

30 de junho de 2026


domingo, 28 de junho de 2026

As Duas Humanidades

A ficção das duas humanidades e a verdade da única condição humana

Uma das maiores ilusões políticas, religiosas e ideológicas da história consiste em acreditar que existem duas humanidades: a dos bons e a dos maus.

Curiosamente, quem traça essa fronteira nunca se coloca do lado errado. O bem coincide sempre consigo próprio; o mal coincide invariavelmente com o outro. É uma tentação tão antiga como o Homem e tão persistente quanto as guerras, as revoluções e os fanatismos.

Cada época muda apenas os nomes. Uns falam de crentes e infiéis; outros de revolucionários e reacionários; de patriotas e traidores; de progressistas e conservadores; de oprimidos e opressores. A linguagem altera-se, mas a estrutura permanece: primeiro divide-se a humanidade em duas espécies; depois deixa de se reconhecer plenamente a humanidade daqueles que ficaram do outro lado.

É precisamente aqui que a ironia de Cervantes permanece atual. Em Don Quixote, de Miguel de Cervantes, não existem duas humanidades. Existem dois modos de olhar o mundo que habitam a mesma condição humana. Dom Quixote e Sancho Pança não são o bem e o mal. São duas dimensões inseparáveis do Homem: idealismo e realismo, sonho e prudência, entusiasmo e sensatez. Um aprende com o outro porque nenhum possui toda a verdade.

O maniqueísmo, pelo contrário, impede qualquer aprendizagem. Se o outro pertence à "outra humanidade", deixa de ser interlocutor para se tornar obstáculo. Já não é alguém a compreender, mas alguém a corrigir, converter, derrotar ou eliminar.

Talvez por isso as maiores tragédias da história tenham começado sempre pela mesma operação intelectual: deixar de falar em pessoas para falar em categorias. A partir desse momento, a consciência adormece. O indivíduo desaparece atrás do rótulo e a dignidade cede lugar à abstração. Foi assim que tantos totalitarismos e fanatismos conseguiram justificar o injustificável: antes de eliminar pessoas, eliminaram a sua humanidade.

A realidade é bem menos confortável do que as narrativas maniqueístas. Em cada ser humano coexistem generosidade e egoísmo, coragem e medo, lucidez e ilusão. Não somos Dom Quixote ou Sancho Pança; somos ambos. A condição humana não é uma mistura de contrários, mas uma simbiose de dimensões inseparáveis, cuja unidade torna possível o discernimento, a ação e o aperfeiçoamento moral.

É precisamente por isso que se torna insustentável a pretensão de dividir a humanidade entre "os bons" e "os maus". O maniqueísmo simplifica aquilo que a realidade humana revela ser irredutivelmente complexo. Cada pessoa traz em si a possibilidade do melhor e do pior; é a liberdade, exercida na responsabilidade, que determina o rumo da sua existência. A ética não é um privilégio de uma suposta humanidade dos justos, mas uma tarefa permanente de todos os seres humanos.

Talvez seja essa a mais subtil ironia de Cervantes. Dom Quixote e Sancho Pança não representam duas humanidades, nem dois mundos inconciliáveis. Representam a unidade profunda da condição humana. Quem insiste em dividir o mundo entre puros e impuros, justos e injustos, acaba por esquecer que aquilo que verdadeiramente nos une não é a perfeição, mas a comum fragilidade e a comum capacidade de nos elevarmos acima dela.

Existe apenas uma humanidade: imperfeita, livre e sempre chamada a escolher entre o bem e o mal. É precisamente essa possibilidade de escolha que fundamenta a dignidade de cada pessoa e torna impossível reduzir qualquer ser humano à caricatura de "bom" ou de "mau". A verdadeira fronteira ética nunca passa entre "nós" e "eles"; atravessa silenciosamente o coração de cada homem e de cada mulher. É nessa interioridade que se decide, a cada instante, qual das possibilidades humanas será atualizada. Não existem, pois, duas humanidades. Existe uma única humanidade, chamada incessantemente a transformar a sua fragilidade em virtude e a reconhecer no outro, mesmo quando pensa de modo diferente, um semelhante em dignidade e em destino.

Francisco Vaz

28 de junho de 2026

sábado, 27 de junho de 2026

Verona: um jardim, quatro símbolos

 e uma lição de humanidade

Há lugares que se visitam. Outros, porém, contemplam-se. Não apenas com os olhos, mas com a inteligência e a memória. O Jardim Vittorio Emanuele II, situado no lado poente da Arena de Verona, é um desses lugares.

Os mais distraídos talvez passem por ele sem reparar. No entanto, em poucas dezenas de metros, encontram-se reunidos quatro símbolos que parecem condensar toda a condição humana: um memorial aos mártires dos campos de extermínio nazis; um monumento aos soldados que tombaram pela liberdade; a majestosa Arena de Verona; e os cinco anéis olímpicos, símbolo da fraternidade entre os povos através do desporto.

Não creio que seja apenas uma coincidência urbanística. É como se a cidade tivesse inscrito, neste espaço, uma verdadeira pedagogia da humanidade.

A pedra que evoca Auschwitz, Dachau, Mauthausen, Bergen-Belsen, Ravensbrück ou Sachsenhausen recorda até onde pode descer uma civilização quando deixa de reconhecer, em cada pessoa, uma dignidade absoluta e inviolável. O mal manifesta-se precisamente quando o outro deixa de ser visto como um fim em si mesmo para passar a ser reduzido a um instrumento, um obstáculo ou, no limite, um inimigo a eliminar.

O memorial dedicado aos que morreram pela liberdade lembra-nos, por sua vez, que esta nunca foi uma conquista gratuita. Cada geração recebeu-a porque outras, antes dela, aceitaram pagar o seu preço mais elevado. A liberdade não é apenas um direito; é também uma responsabilidade moral que exige coragem para ser preservada.

E, contudo, mesmo no coração da barbárie, o mal nunca conseguiu alcançar uma vitória absoluta. Nos campos de concentração houve quem escrevesse poemas, quem desenhasse, quem tocasse música, quem rezasse e quem repartisse o último pedaço de pão. Gestos aparentemente insignificantes, mas que preservavam aquilo que nenhum carrasco podia destruir: a liberdade interior. A arte deixou então de ser apenas expressão da beleza para se tornar resistência da própria humanidade.

A poucos metros destes memoriais ergue-se a Arena de Verona. Durante séculos foi palco de combates e espetáculos onde a violência era entretenimento. Hoje é um dos maiores templos mundiais da música e da cultura. Ontem, ao escutar Va, pensiero, de Giuseppe Verdi, senti milhares de pessoas unidas pela mesma emoção. A Arena tornou-se símbolo da capacidade humana de transformar lugares outrora associados à violência em espaços de beleza, comunhão e esperança. Talvez seja essa uma das mais profundas vitórias da civilização.

Como se este percurso simbólico não estivesse ainda completo, surgem os cinco anéis olímpicos. Não representam apenas um evento desportivo. Representam uma ideia de humanidade. Depois da memória do mal absoluto, da memória daqueles que deram a vida pela liberdade e da celebração da arte, aparece a esperança de uma paz construída pelo encontro entre os povos.

O ideal olímpico recorda-nos que o outro não tem de ser um inimigo a destruir, mas um adversário cuja excelência nos desafia a sermos melhores. A competição deixa de significar hostilidade para se tornar reconhecimento mútuo. Vencer já não consiste em aniquilar o outro, mas em superar-se a si mesmo. A força deixa de servir a dominação para se colocar ao serviço da realização da pessoa humana.

Também por isso, o desporto, quando vivido segundo o seu espírito mais autêntico, constitui uma verdadeira escola de paz. Educa para a disciplina, para o respeito pelas regras, para a justiça, para a amizade entre os povos e para a compreensão de que o bem comum vale mais do que qualquer triunfo individual. Onde a guerra procura eliminar o adversário, o desporto procura elevá-lo, porque só um adversário digno torna possível uma vitória digna.

A tradição filosófica ensina-nos que o mal não possui substância própria. Não é um princípio do ser, mas uma privação do bem. Todavia, essa privação torna-se tragicamente real quando se traduz em escolhas humanas que recusam a verdade, a justiça e o amor. Auschwitz não foi uma fatalidade da história; foi o resultado de decisões concretas que negaram a humanidade do outro.

Por isso, o mal nunca poderá ser vencido por outro mal. Só o bem possui verdadeira capacidade criadora. Só a verdade desfaz a mentira. Só a justiça derrota a opressão. Só a beleza resiste à destruição. Só o amor restaura aquilo que o ódio procura destruir.

Talvez esta seja a mais profunda lição que Verona oferece a quem sabe parar para contemplar. Num único jardim encontram-se reunidos quatro dos mais elevados caminhos da humanidade: a memória, que impede o esquecimento; o sacrifício, que torna possível a liberdade; a arte, que eleva o espírito; e o desporto, que transforma a rivalidade em fraternidade.

Que nunca nos esqueçamos. A memória não ressuscita os mortos, mas pode salvar os vivos. E enquanto houver quem escolha a verdade, a justiça, a beleza, a amizade entre os povos e o amor, o mal jamais terá a última palavra.

Francisco Vaz

27 de junho de 2026

Uma noite na Arena

quando a música toca a eternidade

Há experiências que se podem descrever. Há outras que apenas se podem viver. A récita de Nabucco, de Giuseppe Verdi, na Arena de Verona pertence a esta segunda categoria. Ontem, ao assistir ao vivo àquela que foi a ópera que lançou definitivamente Verdi para a história da música, cumpri dois sonhos antigos: conhecer um dos mais emblemáticos teatros do mundo ao ar livre e ouvir, naquele espaço único, uma das obras maiores do repertório operático.

A produção reuniu um elenco de grande qualidade, capaz de dar vida às intensas personagens criadas por Verdi. O protagonista encarnou um Nabucco simultaneamente poderoso e vulnerável; Abigaille impressionou pela extraordinária exigência vocal e dramática do papel; Zaccaria conferiu profundidade espiritual à narrativa; Fenena e Ismaele completaram um conjunto de elevado nível artístico, apoiado por um coro magnífico e por uma orquestra que soube revelar toda a riqueza da escrita verdiana sob a direção de um maestro de excecional sensibilidade.

Mas a verdadeira protagonista da noite foi, uma vez mais, a Arena de Verona. Entrar naquele anfiteatro romano é entrar em mais de dois mil anos de história. As pedras parecem guardar a memória de sucessivas gerações que ali procuraram beleza, emoção e sentido. Quando o sol se desvanece e a noite envolve lentamente as arquibancadas, cria-se uma atmosfera difícil de traduzir por palavras. A música deixa de ser apenas som para se transformar numa experiência coletiva. Cerca de dez mil pessoas respiram ao mesmo ritmo, partilhando o mesmo silêncio, a mesma expectativa e a mesma emoção. Durante algumas horas, desaparecem as diferenças de língua, de nacionalidade ou de cultura. Todos são simplesmente seres humanos unidos pela arte.

O momento culminante chegou com o célebre «Va, pensiero, sull'ali dorate», o coro dos escravos hebreus exilados na Babilónia. Poucas páginas da história da música conseguiram condensar tão profundamente a nostalgia da pátria, o sofrimento do exílio e a esperança da liberdade. O coro tornou-se, desde o século XIX, um símbolo da identidade italiana durante o Risorgimento, exprimindo o desejo de um povo que aspirava à unidade e à libertação. Mas a sua força ultrapassa largamente esse contexto histórico.

Na Arena, a emoção foi tão intensa que os aplausos pareciam não ter fim. Durante longos minutos, cerca de dez mil espectadores levantaram-se para agradecer aquele momento irrepetível. O maestro compreendeu que a música ainda não terminara no coração do público. E aconteceu aquilo que apenas sucede em ocasiões verdadeiramente excecionais: o «Va, pensiero» foi repetido. Não como um simples bis, mas como um gesto de comunhão entre intérpretes e espectadores. A segunda execução já não foi apenas música; foi memória, gratidão e esperança transformadas em som.

Compreendi, então, porque razão esta página continua a emocionar homens e mulheres de todas as épocas. Todos conhecemos alguma forma de exílio. Nem sempre é geográfico. Há exílios interiores, perdas, separações, sonhos adiados, saudades de pessoas, lugares ou tempos que nunca regressarão. O «Va, pensiero» fala dessa condição universal. Recorda-nos que o ser humano vive sempre entre a memória do que perdeu e a esperança do que ainda pode alcançar. É precisamente por isso que permanece atual.

Essa capacidade de tocar o universal distingue a obra de Giuseppe Verdi. A sua música não procura apenas deslumbrar pela beleza melódica ou pela perfeição dramática. Procura compreender o Homem. Em Nabucco, como em RigolettoLa TraviataDon CarloAida ou Otello, encontramos personagens confrontadas com o poder, o amor, a culpa, o perdão, a liberdade e a morte. As suas óperas são verdadeiras reflexões sobre a condição humana, onde cada nota serve a verdade dramática e cada silêncio possui significado.

O legado de Verdi ultrapassa, por isso, o domínio da música. É um legado cultural, porque ajudou a moldar a identidade italiana e europeia. É um legado artístico, porque elevou a ópera a uma das mais completas expressões da criação humana. Mas é, acima de tudo, um legado profundamente humano. Verdi acreditava que a arte devia falar ao coração de todos e não apenas a uma elite. As suas melodias tornaram-se património comum porque exprimem sentimentos que pertencem à humanidade inteira.

Quando terminou a récita e as luzes da Arena se começaram lentamente a apagar, permaneci durante alguns instantes em silêncio. Não havia pressa em regressar. Sentia que saía daquele lugar um pouco diferente daquele que nele entrara. A verdadeira arte possui esta capacidade discreta de nos transformar sem violência, apenas pela contemplação da beleza.

Ontem não assisti apenas a uma representação de Nabucco. Vivi uma experiência profundamente humana, espiritual e estética. Levo comigo a memória daquela noite, das vozes, da orquestra, do coro, das pedras milenares da Arena e dos aplausos intermináveis de milhares de pessoas unidas pela mesma emoção.

A Giuseppe Verdi, cujo génio continua a falar ao mundo quase cento e vinte e cinco anos após a sua morte, deixo a minha homenagem e a minha mais profunda gratidão. Porque há obras que não terminam quando cai o pano. Continuam a ecoar dentro de nós, lembrando-nos que a beleza é uma das formas mais elevadas da verdade e que, enquanto houver música capaz de tocar a alma humana, haverá sempre esperança para a humanidade.

Francisco Vaz

27 de junho de 2026

Nota

A  representação de Nabucco a que assisti contou com um elenco de elevado nível artístico: Amartuvshin Enkhbat no papel de Nabucco, Maria José Siri como Abigaille, Annalisa Stroppa (Fenena), Roberto Tagliavini (Zaccaria), Galeano Salas (Ismaele), Nicolò Ceriani (Grande Sacerdote de Belo), Carlo Bosi (Abdallo) e Elisabetta Zizzo (Anna), sob a direção musical do maestro Michele Spotti. A encenação, assinada por Stefano Poda, revelou uma notável coerência estética, conjugando monumentalidade com uma leitura simbólica da obra de Verdi.