Uma reflexão sobre a pobreza, a liberdade e a dignidade humana
Há frases que, retiradas do seu contexto, parecem dizer exatamente o contrário daquilo que significam. Poucas terão sido tão mal compreendidas como esta de Jesus: «Pobres, sempre os tereis convosco.»
Ao longo dos séculos, não faltaram aqueles que a interpretaram como uma espécie de fatalismo cristão: haverá sempre pobres, logo pouco há a fazer. Mas basta ler atentamente o Evangelho para perceber que Cristo nunca legitimou a resignação perante a injustiça. Pelo contrário, toda a sua vida constitui um permanente desafio à indiferença.
Na realidade, Jesus cita quase literalmente o Livro do Deuteronómio: «Nunca deixarão de existir pobres na terra; por isso ordeno-te: abre generosamente a mão ao teu irmão.» A permanência da pobreza não elimina a obrigação moral; torna-a permanente.
A questão é, então, outra. Porque continuará sempre a existir pobreza?
A resposta talvez resida na própria natureza da liberdade humana.
Enquanto existir liberdade haverá sempre possibilidade de egoísmo, de desigualdade, de exclusão e de injustiça. A pobreza não nasce apenas da escassez de recursos; nasce, muitas vezes, da forma como as sociedades organizam a distribuição das oportunidades, do poder e da riqueza. Não é um fenómeno exclusivamente económico. É também político, cultural, moral e espiritual.
Foi precisamente esta visão ampla que vários pensadores portugueses procuraram desenvolver.
Alfredo Bruto da Costa ensinou-nos que a pobreza é essencialmente exclusão. Não basta medir rendimentos; é necessário perguntar quem ficou impedido de participar plenamente na vida da comunidade. O pobre não é apenas quem possui menos. É frequentemente quem conta menos.
Manuela Silva acrescentou uma dimensão decisiva: a pobreza resulta também das escolhas coletivas. Uma economia só merece esse nome quando coloca a pessoa humana no centro do desenvolvimento. O crescimento económico, por si só, não elimina a pobreza se não produzir justiça social.
Eugénio Fonseca, durante muitos anos à frente da Cáritas Portuguesa, recorda que nenhuma política social substitui a proximidade humana. O combate à pobreza exige instituições eficazes, mas exige igualmente relações de fraternidade. A solidariedade não é um sentimento vago; é uma forma concreta de reconhecer no outro alguém com igual dignidade.
Acácio Catarino insistia que o trabalho digno continua a ser uma das mais importantes formas de libertação. A assistência pode aliviar necessidades; o trabalho devolve autonomia, participação e autoestima.
Mas talvez seja Amartya Sen quem tenha oferecido uma das formulações mais fecundas do nosso tempo. Para o Nobel da Economia, ser pobre não significa apenas possuir poucos recursos; significa não dispor das capacidades necessárias para escolher livremente o próprio projeto de vida. A verdadeira riqueza mede-se pelas possibilidades reais de cada pessoa florescer.
Esta perspetiva aproxima-se surpreendentemente da tradição cristã.
Muito antes de existirem indicadores económicos, Santo Ambrósio afirmava que os bens da criação possuem um destino universal. Quando o rico socorre o pobre, dizia ele, não pratica um gesto de magnanimidade; restitui-lhe aquilo que, em certo sentido, já lhe pertence pelo simples facto de ambos partilharem a mesma humanidade.
Séculos mais tarde, Bento XVI, na encíclica Caritas in Veritate, recuperaria esta intuição ao afirmar que o desenvolvimento só é verdadeiramente humano quando integra a justiça, a verdade e a caridade. E Francisco, em Fratelli Tutti, denuncia aquilo que talvez seja a maior pobreza contemporânea: a cultura do descarte, que transforma pessoas em objetos úteis enquanto servem e descartáveis quando deixam de servir.
No entanto, talvez a forma mais subtil de pobreza seja aquela que não aparece nas estatísticas.
Existe a pobreza de quem nunca foi amado.
A pobreza de quem vive rodeado de pessoas mas profundamente só.
A pobreza de quem perdeu qualquer horizonte de esperança.
A pobreza cultural que impede o acesso ao conhecimento.
A pobreza espiritual de sociedades materialmente ricas mas incapazes de responder à pergunta fundamental sobre o sentido da existência.
É por isso que combater a pobreza não pode limitar-se à redistribuição de riqueza. É necessário construir relações, fortalecer famílias, promover educação, criar trabalho digno, cultivar cultura, alimentar esperança. Em suma, promover a pessoa inteira.
A frase de Jesus permanece, assim, extraordinariamente atual.
Os pobres estarão sempre entre nós não porque Deus tenha desistido da humanidade, mas porque a liberdade humana continuará sempre capaz de produzir novas formas de exclusão. Essa permanência não justifica a resignação; impede precisamente que alguma geração imagine ter concluído definitivamente a obra da justiça.
Talvez seja este o verdadeiro significado daquelas palavras.
Os pobres não existem para testar a nossa generosidade.
Existem para recordar permanentemente a nossa responsabilidade.
Porque uma civilização não se mede pelo número dos seus milionários, nem sequer pelo crescimento do seu produto interno bruto. Mede-se pela forma como olha para aqueles que nada têm para oferecer senão a sua própria dignidade.
E talvez seja precisamente aí que reside a maior atualidade do Evangelho: enquanto houver um pobre, haverá ainda trabalho por fazer. Não apenas para os governos ou para as instituições, mas para cada um de nós. Afinal, como recordava Santo Ambrósio, a justiça começa quando deixamos de considerar a solidariedade uma concessão e passamos a reconhecê-la como um dever decorrente da comum dignidade humana.
Francisco Vaz
11 de julho de 2026