Pecado original

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sexta-feira, 19 de junho de 2026

Melodias sax tenor 19 junho 14H30 Portela Sábios

Apresentação das Melodias

1. As Time Goes By (1931)

Começamos com uma das canções mais conhecidas da história do cinema. Embora escrita em 1931, foi o filme Casablanca que a tornou imortal. Fala-nos daquilo que permanece apesar da passagem dos anos: o amor, a amizade e as emoções humanas. Afinal, o tempo passa, mas há coisas que ficam para sempre.


2. Petite Fleur (1952)

Sidney Bechet, um dos grandes pioneiros do jazz, compôs esta melodia em memória de uma jovem amiga falecida prematuramente. Apesar da tristeza da sua origem, a música transmite ternura e delicadeza. É uma pequena flor musical oferecida à memória de alguém querido.


3. Fly Me to the Moon (1954)

Nos anos cinquenta ainda ninguém tinha pisado a Lua, mas a imaginação já lá chegava. Esta canção tornou-se um símbolo do sonho, da aventura e do amor. Quando os astronautas da missão Apollo 11 chegaram à Lua, levavam consigo gravações desta melodia. Talvez porque os grandes sonhos começam sempre na imaginação.


4. Sabor a Mí (1959)

Do México chega-nos esta canção que se tornou um clássico da música latino-americana. O título significa "sabor a mim". É uma declaração de amor serena e madura: mesmo que o tempo passe, algo de nós permanece na vida daqueles que amamos.


5. Can't Help Falling in Love (1961)

Popularizada por Elvis Presley, esta canção inspira-se numa antiga melodia francesa do século XVIII. Fala daquele momento em que percebemos que resistir ao amor é impossível. Há correntes que aprisionam; esta melodia fala daquelas que libertam.


6. You've Got a Friend (1971)

Carole King escreveu esta canção como um hino à amizade. A mensagem é simples e profunda: quando a vida se torna difícil, basta saber que existe alguém que estará presente. Num mundo cada vez mais acelerado, continua a ser uma das mais belas celebrações da amizade humana.


7. Goodbye My Love, Goodbye (1973)

A voz inconfundível de Demis Roussos tornou esta canção conhecida em todo o mundo. É uma despedida, mas não um adeus definitivo. Como tantas partidas da vida, deixa espaço para a esperança de um reencontro e para a gratidão pelos momentos vividos.


8. She (1974)

Charles Aznavour escreveu esta canção para uma série televisiva britânica. Mais do que descrever uma mulher concreta, fala do mistério da pessoa amada. Cada um de nós pode encontrar nesta melodia alguém que marcou profundamente a sua vida.


9. Feelings (1974)

Poucas canções exprimem tão diretamente aquilo que o título anuncia: sentimentos. Composta pelo brasileiro Morris Albert, tornou-se um fenómeno mundial. Recorda-nos que, por mais racional que sejamos, há momentos em que é o coração quem fala mais alto.


10. Let It Be (1970)

Terminamos com uma das canções mais emblemáticas dos Beatles. Paul McCartney contou que a inspiração lhe surgiu num sonho com a sua mãe, já falecida, que lhe disse simplesmente: "Let it be" — deixa estar, tudo ficará bem. É uma mensagem de serenidade, confiança e esperança. Talvez a melhor forma de concluir esta viagem pelas melodias da memória.

Francisco Vaz

19 de junho de 2026


quinta-feira, 18 de junho de 2026

Melodias da Memória

Uma viagem pelo tempo através da música

A música possui uma capacidade única: fazer do tempo memória e da memória presença. Uma melodia pode atravessar décadas, sobreviver às mudanças das sociedades, acompanhar diferentes gerações e continuar a emocionar como se tivesse sido criada ontem. É precisamente essa viagem que este recital propõe: um percurso por algumas das mais belas canções do século XX, unidas pela sua capacidade de falar ao coração humano.

A viagem começa com As Time Goes By (1931), de Herman Hupfeld imortalizada pelo filme Casablanca. O próprio título — "À medida que o tempo passa" — introduz o tema central deste programa. O tempo corre, os anos sucedem-se, as circunstâncias mudam, mas permanecem os grandes sentimentos que definem a condição humana. É uma canção sobre aquilo que resiste à erosão dos dias.

De seguida surge Petite Fleur (1952) de Sidney Bechet. Esta "pequena flor" nasceu da memória de uma amizade perdida. A delicadeza da melodia recorda-nos que a verdadeira memória não é um peso, mas uma forma de presença. Aqueles que amámos continuam a viver em nós através da recordação.

Com Fly Me to the Moon (1954) de Bart Howard, a música transforma-se em sonho. Muito antes de o ser humano chegar à Lua, esta canção já exprimia o desejo de ultrapassar limites e alcançar o impossível. É um hino à imaginação humana, essa força que nos permite transcender a realidade imediata e abrir caminho ao futuro.

Sabor a Mí (1959) de Alvaro Carrillo, transporta-nos para o universo da música latino-americana. A sua mensagem é simples e profunda: quando existe amor verdadeiro, algo de nós permanece na vida do outro. É uma reflexão poética sobre a marca que deixamos naqueles que encontramos ao longo da existência.

Em Can't Help Falling in Love (1961) de Hugo Peretti, Luigi Creatore e George David Weiss, popularizada por Elvis Presley, encontramos uma das experiências humanas mais universais: o amor que surge sem aviso e sem explicação. Há decisões que resultam da razão; outras nascem de uma evidência interior que simplesmente reconhecemos. Esta canção fala dessa entrega serena ao mistério do amor.

A amizade ocupa o centro do programa através de You've Got a Friend (1971) de Carol King. Carole King escreveu uma das mais belas declarações de confiança entre seres humanos. Num mundo frequentemente marcado pelo individualismo, a canção recorda-nos que a amizade é uma das formas mais elevadas da solidariedade humana.

Com Goodbye My Love, Goodbye (1973) de Leo Leandros, Klaus Munro e Harald Weindorf, e popularizado por Demis Roussos, surge a experiência da despedida. Toda a vida humana é feita de encontros e separações. Contudo, esta melodia não é um canto de desespero. É antes o reconhecimento de que aquilo que foi verdadeiramente vivido permanece connosco, mesmo quando os caminhos se separam.

She (1974)de Charles Aznavour e Herbert Kretzner, fala do mistério da pessoa amada. Nenhum ser humano pode ser totalmente reduzido a palavras ou conceitos. Existe sempre uma profundidade que escapa à descrição. Talvez seja precisamente essa riqueza insondável que torna possível o amor e o encantamento.

Em Feelings (1974) de Morris Albert, o título diz praticamente tudo. A canção convida-nos a reconhecer a importância da dimensão afetiva da existência. O ser humano não é apenas razão ou vontade; é também emoção, sensibilidade e capacidade de ser tocado pelo mundo e pelos outros.

Finalmente, o recital encerra com Let It Be (1970) de John Lennon e Paul McCartney, uma das mensagens mais luminosas da música contemporânea. Inspirada numa recordação da mãe de Paul McCartney, a canção fala de serenidade perante as dificuldades da vida. Não é um convite à passividade, mas à confiança. Há momentos em que a sabedoria consiste não em controlar tudo, mas em aceitar que nem tudo depende de nós.

Vistas em conjunto, estas canções formam uma espécie de retrato musical da condição humana. Encontramos nelas a memória e a esperança, o amor e a amizade, o sonho e a despedida, a emoção e a serenidade. São temas que atravessam culturas, gerações e épocas porque pertencem à própria estrutura do humano.

Talvez seja essa a razão pela qual continuam a emocionar-nos. O tempo passa, mas aquilo que estas melodias exprimem permanece. E, enquanto permanecerem o amor, a amizade, a esperança e a memória, estas canções continuarão a encontrar eco no coração de quem as escuta.

Porque o tempo passa. Mas a música permanece.

Francisco Vaz

18 de junho de 2026


Ciência, Arte e Religião

Três Caminhos para o Mistério do Ser

Há afirmações que, pela sua simplicidade, encerram uma profundidade rara. Quando Félix de Azúa afirma que «a ciência, a arte e a religião são os sistemas que explicam o mundo e o próprio ser humano», toca numa verdade fundamental da condição humana: a nossa necessidade permanente de compreender a realidade e de encontrar sentido para a existência.

Vivemos numa época em que frequentemente se procura reduzir o conhecimento a uma única forma de explicação. Uns depositam toda a confiança na ciência; outros procuram na arte uma resposta suficiente para os dramas da existência; outros ainda entendem a religião como a única via legítima de acesso à verdade. Contudo, a experiência humana revela-nos algo diferente: o real é demasiado vasto para ser apreendido por uma única linguagem.

O ser humano é um ser complexo. É razão que procura compreender, imaginação que cria e espírito que se abre ao transcendente. Por isso, necessita da ciência, da arte e da religião para habitar plenamente o mundo.

A ciência constitui uma das maiores conquistas da inteligência humana. Graças a ela conhecemos a estrutura do universo, os mecanismos da vida, as leis da natureza e os processos que moldam a realidade física. A ciência ensina-nos a observar, a questionar, a verificar e a compreender. Ela responde com notável eficácia à pergunta «como?».

Mas a ciência, por mais extraordinária que seja, não responde à totalidade das interrogações humanas. Pode explicar como funciona o cérebro, mas não esgota o mistério da consciência. Pode descrever a evolução da vida, mas não determina o significado da existência. Pode revelar a idade das estrelas, mas não responde à questão de saber porque existe algo em vez de nada.

Não se trata de uma limitação da ciência, mas da fidelidade ao seu próprio método. O seu domínio é o do funcionamento do real, não o do seu significado último.

É precisamente nesse espaço que emerge a arte.

Desde as pinturas rupestres até às grandes obras da literatura, da música, da arquitetura ou da escultura, a arte acompanha a humanidade como uma forma singular de conhecimento. Um poema de Camões, uma ópera de Verdi ou uma catedral como a Sagrada Família não explicam o mundo como uma equação matemática. Fazem algo diferente: revelam-no.

Os gregos chamavam poiesis ao ato criador que traz à presença aquilo que permanecia oculto. A arte é essa capacidade de revelar dimensões da realidade que escapam à análise conceptual. Ela fala do amor, da dor, da esperança, da beleza e da morte numa linguagem que não pretende demonstrar, mas iluminar.

Através da arte, o ser humano não apenas compreende o mundo; reconhece-se a si próprio.

Todavia, mesmo a arte encontra um limite quando o ser humano se confronta com as questões últimas da existência. Porque existimos? Qual a origem do bem? O que significa a morte? Existe um fundamento para tudo aquilo que é?

É neste horizonte que surge a religião.

Ao contrário do que frequentemente se afirma, a religião não nasce da ignorância, mas da consciência dos limites. Ela emerge quando o ser humano descobre que a realidade aponta para além de si própria. Não procura explicar apenas os fenómenos, mas o fundamento dos fenómenos; não procura apenas compreender o mundo, mas interrogar-se sobre a origem do próprio ser.

A tradição filosófica e teológica ocidental procurou expressar esta realidade de múltiplas formas. Platão falou do Bem como princípio supremo. Aristóteles do Primeiro Motor. Santo Agostinho da Verdade eterna que ilumina toda a inteligência humana. São Tomás de Aquino do Ser subsistente que sustenta todos os seres.

Por detrás destas formulações permanece uma mesma intuição: a realidade possui um fundamento que a transcende e simultaneamente a sustenta.

Sob uma perspetiva antropológica, esta convergência entre ciência, arte e religião revela algo essencial sobre o próprio ser humano. Somos seres que conhecem, criam e procuram sentido. Somos simultaneamente observadores do mundo, criadores de cultura e buscadores do absoluto.

A ciência corresponde à nossa vocação para a verdade.

A arte corresponde à nossa vocação para a beleza.

A religião corresponde à nossa vocação para o sentido e para o bem.

Quando uma destas dimensões procura eliminar as outras, o humano empobrece. O cientismo reduz a realidade ao mensurável. O esteticismo transforma a beleza num fim sem fundamento. O fundamentalismo religioso fecha o mistério em fórmulas rígidas.

Mas quando estas três vias dialogam, revelam-se não como rivais, mas como companheiras de viagem.

Louis Lavelle afirmava que a existência humana consiste numa participação crescente no ser. Essa participação realiza-se precisamente através destas três grandes formas de relação com a realidade: conhecer, criar e contemplar.

Conhecemos através da ciência.

Criamos através da arte.

Contemplamos através da religião.

Talvez seja esta a grande lição contida na afirmação de Félix de Azúa. O ser humano procura a verdade, a beleza e o bem por caminhos distintos, mas todos convergem para a mesma procura fundamental: compreender o mistério do ser e encontrar o seu lugar no universo.

No fundo, ciência, arte e religião são três janelas abertas sobre a mesma realidade. Nenhuma oferece uma visão completa. Mas juntas permitem-nos contemplar, ainda que imperfeitamente, a extraordinária profundidade do mundo e da condição humana.

E talvez seja precisamente nessa busca incessante que reside a grandeza da nossa humanidade. Não na posse definitiva da verdade, mas na humilde e permanente procura dela. Conhecer, criar e transcender: três caminhos diferentes, uma única aventura humana.

Francisco Vaz

18 de junho de 2026

Nota

Félix de Azúa (Barcelona, 1944) é um escritor, filósofo, ensaísta e poeta espanhol, membro da Real Academia Española. Professor de Estética durante várias décadas, dedicou grande parte da sua obra à reflexão sobre a arte, a cultura, a religião e a condição humana. Considerado uma das vozes mais influentes do pensamento humanista contemporâneo em Espanha, defende uma visão integradora da realidade, na qual a ciência, a arte e a religião constituem formas complementares de compreensão do mundo e do ser humano.

quarta-feira, 17 de junho de 2026

O combate do USS Wyoming

 O Incidente do Estreito de Shimonoseki (1863–1864)

O Incidente do Estreito de Shimonoseki ocorreu nos últimos anos do xogunato Tokugawa, numa fase de forte instabilidade política no Japão. Após a abertura forçada do país ao Ocidente pelo Comodoro norte-americano Matthew Perry em 1853-1854, cresceram movimentos nacionalistas que defendiam a expulsão dos estrangeiros sob o lema Sonnō jōi (“Reverenciar o Imperador, expulsar os bárbaros”).

O principal foco dessa resistência foi o poderoso clã Chōshū, sediado no sudoeste do Japão. Em 1863, obedecendo a um édito imperial que apelava à expulsão dos estrangeiros, o clã começou a disparar contra navios ocidentais que transitavam pelo estreito de Shimonoseki, passagem estratégica entre o Mar Interior de Seto e o Mar do Japão.

Julho de 1863: o combate do USS Wyoming

Em 16 de julho de 1863, o navio de guerra norte-americano USS Wyoming entrou no estreito para proteger a liberdade de navegação e retaliar ataques anteriores contra navios mercantes dos Estados Unidos.

Comandado pelo Capitão David McDougal, o Wyoming enfrentou sozinho baterias costeiras e vários navios do clã Chōshū. Apesar de sofrer danos e baixas, afundou ou inutilizou embarcações japonesas e retirou-se após cerca de duas horas de combate.

Este confronto constituiu o primeiro combate naval da história entre forças norte-americanas e japonesas.

Reações internacionais

Poucos dias depois, navios franceses atacaram posições do clã Chōshū. Em seguida, navios britânicos e holandeses também realizaram ações de represália.

Apesar destes ataques, o clã continuou a desafiar a navegação internacional, mantendo as suas baterias no estreito.

Setembro de 1864: a expedição multinacional

Perante a persistência da ameaça, foi organizada uma força multinacional sem precedentes para a época, reunindo navios do Reino Unido, França, Países Baixos e Estados Unidos.

Entre 5 e 8 de setembro de 1864, cerca de dezassete navios de guerra bombardearam e desembarcaram forças que destruíram sistematicamente as baterias costeiras de Shimonoseki.

A operação foi um sucesso militar completo. O clã Chōshū foi obrigado a cessar os ataques e o estreito foi reaberto à navegação internacional.

Consequências históricas

Paradoxalmente, a derrota teve efeitos profundos no próprio Japão. O clã Chōshū concluiu que a resistência ao Ocidente exigia modernização militar e tecnológica. Em vez de persistir no isolamento, passou a adquirir armamento moderno e a reformar as suas forças.

Poucos anos depois, Chōshū aliou-se ao clã Satsuma e desempenhou um papel decisivo na Restauração Meiji, que derrubou o xogunato Tokugawa e lançou o Japão no caminho da modernização.

Assim, o Incidente de Shimonoseki foi muito mais do que um episódio naval local. Representou o choque entre o Japão tradicional e a ordem marítima global do século XIX. De certa forma, foi um prenúncio da ascensão do Japão como potência naval moderna, culminando décadas mais tarde nas vitórias sobre a China (1894-95) e a Rússia (1904-05), e, finalmente, no grande confronto do Pacífico com os Estados Unidos durante a Segunda Guerra Mundial.

Shimonoseki demonstra como um estreito aparentemente secundário pode tornar-se um ponto de inflexão da história: um lugar onde se cruzam geografia, poder marítimo, comércio internacional e transformação civilizacional.

Francisco Vaz

17 de junho de 2026


O amor da dádiva e não da dívida

Criação, amor e gratuidade à luz da tradição cristã

Vivemos numa civilização profundamente marcada pela lógica da troca. Uma das expressões mais conhecidas dessa mentalidade é a afirmação de que “não há almoços gratuitos”. A frase, geralmente atribuída ao pensamento económico liberal, pretende lembrar que tudo tem um custo e que alguém acaba sempre por pagar a conta.

No plano da economia, a observação possui alguma validade. Os recursos são limitados e os bens materiais exigem trabalho, energia e meios para serem produzidos. O problema surge quando esta lógica é elevada a princípio universal e aplicada a toda a realidade humana. Nesse momento, a própria possibilidade da dádiva torna-se incompreensível.

Se não existisse verdadeira gratuidade, então o amor seria apenas uma forma sofisticada de interesse. A amizade seria um contrato implícito. A solidariedade uma troca diferida. A maternidade e a paternidade um investimento. E a própria ética reduzir-se-ia a uma contabilidade de vantagens e desvantagens.

Mas a experiência humana mostra precisamente o contrário. Os momentos mais decisivos da nossa existência são recebidos gratuitamente. Ninguém paga pelo dom da vida. Ninguém merece nascer. Ninguém compra o amor autêntico de uma mãe, a amizade sincera ou a beleza de um pôr do sol. O essencial é-nos dado antes de qualquer mérito ou retribuição.

A questão atinge a sua maior profundidade no plano teológico. Se fosse verdade, em sentido absoluto, que não existem almoços gratuitos, então a própria criação seria um absurdo metafísico. Deus não teria criado por amor, mas por interesse. Necessitaria de algo que lhe faltasse. Procuraria uma compensação, um benefício ou uma vantagem. Contudo, um Deus que precisasse de algo deixaria de ser Deus, pois seria imperfeito e carente.

A tradição teológica judaico-cristã afirma precisamente o contrário: Deus cria porque é plenitude de ser e plenitude de amor. A criação não resulta de uma necessidade, mas de uma superabundância. O universo surge como dádiva. Não porque Deus precise do mundo, mas porque o Bem, sendo pleno, tende a comunicar-se. Como diria Platão, o Bem é difusivo; como diria Santo Agostinho, o amor tende naturalmente para a partilha.

Por isso, a criação é o maior desmentido da tese segundo a qual toda a realidade se reduz à troca. Antes de qualquer dívida existe uma dádiva originária. Antes de qualquer obrigação existe um dom. O ser humano encontra-se lançado numa existência que não conquistou nem comprou. Vive porque recebeu.

Daqui decorre uma consequência antropológica decisiva. A gratidão é mais fundamental do que a dívida. A dívida prende-nos a uma obrigação; a gratidão desperta-nos para o reconhecimento do bem recebido. Quem vive apenas na lógica da dívida torna-se contabilista da existência. Quem descobre a lógica da dádiva compreende que a vida é, antes de tudo, um dom a acolher e a transmitir.

Por isso, a frase “o amor da dádiva não da dívida” exprime uma verdade profunda. A dádiva autêntica não cria devedores; cria agradecidos. Não estabelece relações de dependência; funda comunhão. E é precisamente porque existe esta gratuidade originária — inscrita na criação, no amor e no próprio ser — que o humano pode transcender a mera lógica económica e abrir-se àquilo que verdadeiramente o realiza.

Afinal, se tudo fosse troca, o mundo seria um mercado. Mas porque existe dádiva, o mundo pode ser também um lugar de amor, de beleza e de esperança.

Francisco Vaz

17 de junho de 2026

O Desporto como Escola de Fraternidade

Da competição ao encontro: o desporto como realização da pessoa humana

Que o desporto seja sempre escola de fraternidade e não de rivalidade vazia, espaço de encontro e não de exclusão, caminho de paz e não de violência. 

                    Leão XIV

A afirmação de Leão XIV encerra uma profunda visão antropológica do desporto. Numa época em que a competição tende frequentemente a sobrepor-se à pessoa, o Papa recorda que o verdadeiro sentido da prática desportiva não reside na vitória em si mesma, mas naquilo que ela pode revelar e construir no ser humano.

O desporto nasce do movimento natural do homem. Desde a infância, correr, saltar, lançar ou nadar são manifestações da alegria de existir. O corpo não é um mero instrumento ao serviço da vontade; é uma dimensão constitutiva da pessoa. Assim, quando o ser humano pratica desporto, não está apenas a exercitar músculos ou a aperfeiçoar técnicas: está a desenvolver capacidades físicas, intelectuais, emocionais e relacionais que contribuem para a sua realização integral.

A fraternidade de que fala Leão XIV encontra-se precisamente neste reconhecimento do outro como companheiro de caminho. O adversário não é um inimigo a destruir, mas alguém que torna possível a superação de ambos. Sem o outro não existe competição; sem competição não existe aperfeiçoamento; sem aperfeiçoamento não existe crescimento humano. O adversário é, paradoxalmente, um colaborador do nosso próprio desenvolvimento.

Por isso, a rivalidade só tem sentido quando está subordinada a um bem maior. Quando a vitória se transforma num absoluto, o desporto degrada-se. Surge então a rivalidade vazia: aquela que reduz o outro a obstáculo, que alimenta a arrogância na vitória e a humilhação na derrota. É a lógica do ego que procura afirmar-se através da negação do próximo. Nessa circunstância, o desporto deixa de ser uma escola de humanidade para se tornar um palco de vaidades.

A história oferece inúmeros exemplos da dimensão unificadora do desporto. Desde os Jogos Olímpicos da Grécia antiga, que suspendiam conflitos armados para permitir a celebração atlética, até aos grandes eventos internacionais contemporâneos, o desporto possui uma extraordinária capacidade de aproximar povos, culturas e religiões. Homens e mulheres de origens diversas descobrem-se iguais no esforço, na disciplina, no sofrimento e na alegria.

Num plano ético, o desporto educa para virtudes fundamentais. A prudência ensina a avaliar os limites e as oportunidades. A coragem permite enfrentar a adversidade e a derrota. A temperança disciplina os impulsos e os desejos imediatos. A justiça leva ao respeito pelas regras e pelos adversários. Estas virtudes não pertencem apenas ao campo desportivo; são pilares da vida humana e da convivência social.

Também politicamente, no sentido mais elevado do termo — como o entendiam Platão e Aristóteles — o desporto possui uma função insubstituível. Ele contribui para a construção da comunidade, gera pertença, promove a cooperação e ensina que o bem comum é superior ao interesse individual. Uma equipa vence não porque cada elemento procure apenas o seu sucesso, mas porque todos colocam os seus talentos ao serviço de um objetivo comum.

A violência, pelo contrário, representa a negação desta dimensão política e comunitária. Sempre que o desporto se converte em pretexto para o ódio, para a agressão ou para a exclusão, trai a sua própria natureza. O mesmo sucede quando discrimina os mais frágeis, os deficientes, os idosos ou aqueles que não possuem os mesmos recursos. O desporto verdadeiramente humano é inclusivo porque reconhece a dignidade de cada pessoa independentemente da sua capacidade competitiva.

Talvez por isso algumas das mais belas histórias do desporto não sejam as das medalhas ou dos recordes. São as histórias de solidariedade entre adversários, de atletas que ajudam um concorrente caído, de equipas que acolhem os mais frágeis, de homens e mulheres que encontram no desporto um caminho de integração e de dignidade. Nesses momentos, a vitória deixa de ser apenas individual e transforma-se numa vitória do humano.

Leão XIV recorda-nos, assim, uma verdade essencial: o desporto atinge a sua plenitude quando se torna uma forma de amizade cívica. Não existe para separar, mas para unir; não existe para exaltar os mais fortes, mas para permitir que todos cresçam; não existe para alimentar conflitos, mas para criar pontes.

Quando isso acontece, o estádio, a piscina, o pavilhão ou o campo de futebol deixam de ser apenas locais de competição. Tornam-se lugares onde se aprende uma das lições mais importantes da existência: que o ser humano se realiza não contra os outros, mas com os outros. E é por isso que o desporto pode ser, verdadeiramente, uma escola de fraternidade, um espaço de encontro e um caminho de paz.

Francisco Vaz

17 de junho de 2026

O Apocalipse de João e a Formação do Cânone Bíblico

Como o livro mais controverso da Bíblia acabou por ser o epílogo da Escritura Cristã

Entre todos os livros do Novo Testamento, nenhum teve um percurso tão complexo até à sua aceitação definitiva no cânone cristão como o Apocalipse de João. Hoje parece natural encontrá-lo no final da Bíblia, mas durante os primeiros séculos do Cristianismo a sua inclusão esteve longe de ser consensual.

Paradoxalmente, o livro que hoje encerra a revelação cristã foi também um dos últimos a alcançar aceitação universal.

Um livro nascido da perseguição

O Apocalipse foi provavelmente escrito no final do século I, durante o reinado do imperador romano Domiciano, por volta dos anos 95-96 d.C.

O seu autor apresenta-se simplesmente como João, exilado na ilha de Patmos. Desde cedo a tradição cristã identificou-o com João Evangelista, embora a questão da autoria continue a ser debatida pelos estudiosos.

O contexto era dramático. As comunidades cristãs enfrentavam a pressão do poder imperial e a exigência do culto ao imperador. O Apocalipse surge como uma mensagem de resistência e esperança dirigida às Igrejas da Ásia Menor, afirmando que nenhum poder terreno pode ocupar o lugar de Deus.

A rápida aceitação no Ocidente

Nos séculos II e III, o livro gozou de grande prestígio em numerosas comunidades cristãs.

Figuras como Justino Mártir, Irineu de Lião e Tertuliano citaram-no como Escritura inspirada.

Particularmente importante foi Irineu, que, vivendo apenas uma geração após os apóstolos, testemunhou a ampla aceitação do Apocalipse nas Igrejas do seu tempo.

Para muitos cristãos perseguidos pelo Império Romano, o livro representava uma poderosa fonte de consolação e esperança.

As resistências no Oriente

No entanto, a situação era muito diferente em diversas Igrejas orientais.

A linguagem simbólica do Apocalipse dava origem a interpretações excessivamente literais e milenaristas. Alguns grupos defendiam que Cristo regressaria para instaurar um reino terreno de mil anos, interpretação que gerava tensões e expectativas difíceis de conciliar com a reflexão teológica emergente.

Por esta razão, teólogos influentes como Dionísio de Alexandria levantaram dúvidas sobre a autoria apostólica do livro.

Enquanto os Evangelhos e as Cartas de Paulo eram universalmente reconhecidos, o Apocalipse permanecia objeto de debate.

Durante séculos, algumas Igrejas do Oriente utilizaram o livro com reservas ou mesmo o excluíram da leitura litúrgica.

O critério da canonicidade

A Igreja antiga utilizava vários critérios para reconhecer um livro como inspirado:

  • Origem apostólica ou ligação direta aos apóstolos;

  • Conformidade doutrinal com a fé recebida;

  • Uso litúrgico generalizado;

  • Reconhecimento pelas diversas comunidades cristãs.

O Apocalipse satisfazia claramente o segundo e o terceiro critérios. A principal dificuldade residia na questão da autoria.

Apesar das dúvidas, o peso da tradição recebida acabou por prevalecer.

A consolidação do cânone

No século IV, a situação começou a estabilizar.

A célebre Carta Festal de Atanásio de Alexandria, escrita em 367, apresenta pela primeira vez exatamente os vinte e sete livros que hoje compõem o Novo Testamento, incluindo o Apocalipse.

Pouco depois, os sínodos regionais de Concílio de Hipona e Concílio de Cartago confirmaram a mesma lista.

Embora alguns setores orientais mantivessem reservas durante mais algum tempo, o consenso foi progressivamente alcançado.

Porque encerra a Bíblia?

A colocação do Apocalipse no final da Bíblia não resulta apenas de ter sido um dos últimos textos escritos.

Existe uma profunda lógica teológica nessa escolha.

O Génesis inicia a Escritura com a criação do mundo.

O Apocalipse conclui-a com a renovação da criação.

O Génesis apresenta o primeiro jardim.

O Apocalipse apresenta a Jerusalém Celeste.

No Génesis surge a entrada da morte na experiência humana.

No Apocalipse proclama-se a sua derrota definitiva.

No Génesis o homem afasta-se de Deus.

No Apocalipse Deus habita para sempre com os homens.

A Bíblia forma assim um grande arco narrativo que vai da criação à consumação, da promessa ao cumprimento, da origem à plenitude.

Um livro para encerrar com a esperança

A inclusão do Apocalipse no cânone não foi um acidente histórico nem uma simples decisão administrativa da Igreja. Foi o reconhecimento de que este livro exprime algo essencial à fé cristã: a convicção de que a história possui sentido e finalidade.

Por isso, o último livro da Bíblia não termina com uma descrição do fim do mundo, mas com uma visão de comunhão.

A revelação cristã encerra-se com uma promessa e não com uma ameaça.

Talvez seja essa a razão mais profunda da sua presença no cânone. Depois da criação, da aliança, dos profetas, da encarnação, da cruz e da ressurreição, faltava ainda uma última palavra.

Essa palavra é esperança.

E é por isso que o Apocalipse permanece, até hoje, o grande livro da esperança cristã.

Francisco Vaz
17 de junho de 2026