o Logos e os Três Planos da Existência
A expressão “advogado do diabo” costuma designar aquele que questiona uma ideia geralmente aceite, procurando objeções e fragilidades nos argumentos apresentados. Porém, numa leitura mais profunda, a sua função não consiste em defender o erro, mas em servir o Logos, isto é, a inteligibilidade do real e a possibilidade de discernir a verdade das aparências.
O primeiro plano é o ontológico. Antes de qualquer pensamento, decisão ou ação, existe o ser. O ser é a condição de possibilidade de tudo o que existe. O Logos manifesta-se precisamente como a inteligibilidade desse ser, como a luz que permite à inteligência humana reconhecer a realidade. O maior perigo ontológico consiste em substituir a realidade pela opinião, o ser pela sua representação, a verdade por aquilo que desejamos que seja verdade.
É aqui que surge a utilidade do chamado advogado do diabo. A sua interrogação permanente impede que a inteligência se acomode às suas próprias construções. Obriga-a a regressar continuamente ao real. Não é um inimigo da verdade; é um aliado da sua procura.
Mas o ser humano não é apenas inteligência contemplativa. É também liberdade. Entre aquilo que conhece e aquilo que faz existe um espaço interior onde se processa o discernimento e onde se tomam as decisões. Esse espaço é a ética.
A ética não é, antes de mais, um código de normas exteriores. É a interioridade do ser humano enquanto lugar de decisão. É o espaço onde a inteligência confronta o bem e o mal, a verdade e o erro, o justo e o injusto, decidindo qual a ação que irá realizar. A ética é o ato pelo qual o ser humano transforma conhecimento em ação.
Por isso, a função crítica do advogado do diabo possui igualmente uma dimensão ética. Ao questionar certezas apressadas, obriga a consciência a examinar melhor os fundamentos das suas escolhas. Ajuda a evitar que a decisão seja fruto do impulso, da paixão ou do preconceito. A crítica torna-se, assim, uma forma de purificação da consciência.
Contudo, nenhuma decisão permanece isolada. Cada ser humano vive com outros seres humanos. Cada escolha individual produz consequências que ultrapassam a esfera privada. É neste ponto que surge a política.
A política é o encontro das várias entidades éticas. Não é, primordialmente, uma luta pelo poder nem uma técnica de administração. É o espaço relacional onde as múltiplas liberdades humanas se encontram, cooperam, entram em tensão e procuram uma ordem comum. A política nasce quando as decisões individuais deixam de dizer respeito apenas ao indivíduo e passam a influenciar a vida da comunidade.
Neste sentido, a qualidade da política depende da qualidade ética dos seus membros. Uma comunidade formada por consciências incapazes de discernimento dificilmente produzirá uma boa ordem política. Da mesma forma, uma política que impeça o exercício livre da consciência degrada-se inevitavelmente em tirania.
O advogado do diabo desempenha então uma função política essencial. Recorda à comunidade que nenhuma decisão coletiva está acima da crítica. O consenso não substitui a verdade. A maioria não substitui a justiça. A autoridade não substitui a realidade. A sua missão consiste em impedir que a comunidade transforme opiniões circunstanciais em dogmas absolutos.
A sequência torna-se assim clara: o ser constitui o fundamento ontológico; a ética é a interioridade onde o ser humano decide em conformidade — ou não — com o ser; a política é o encontro dessas decisões no interior da comunidade.
Quando o Logos ilumina estes três níveis, a realidade, a consciência e a cidade permanecem ordenadas. Quando o Logos é abandonado, a ontologia é substituída pela ideologia, a ética pelo desejo e a política pela mera disputa de poder.
Por isso, o verdadeiro advogado do diabo não é aquele que combate a verdade, mas aquele que ajuda a libertá-la das ilusões do ego. A sua tarefa é recordar constantemente que a realidade precede a opinião, que a consciência deve procurar o bem antes de agir e que a cidade só floresce quando as decisões dos seus membros permanecem orientadas pela verdade do ser.