o Império que Tóquio Sonhou Construir
Todavia, os documentos preparados pelo Ministério da Guerra japonês em dezembro de 1941 contam uma história bastante diferente.
Poucos dias após o ataque a Pearl Harbor, enquanto as forças japonesas avançavam triunfalmente pelo Pacífico e pelo Sudeste Asiático, estrategas do Exército, da Marinha e do Ministério dos Negócios Estrangeiros concluíam um plano de reorganização geopolítica cuja dimensão rivalizava com os maiores projetos imperiais da História.
O documento, posteriormente apresentado como prova no Tribunal Militar Internacional para o Extremo Oriente, revela que os objetivos japoneses ultrapassavam largamente a criação de uma zona de influência regional. O que estava em causa era a construção de um império oceânico destinado a dominar o Pacífico e o Índico, projetando-se inclusivamente para a América do Norte e para a América Central.
A lista dos territórios previstos impressiona ainda hoje.
A Austrália seria colocada sob um Governador-Geral japonês. O mesmo aconteceria com a Nova Zelândia. O Havai passaria a constituir uma administração colonial japonesa no Pacífico Oriental. O Alasca, a Colúmbia Britânica, Alberta, o Yukon e até o Estado de Washington figuravam igualmente nos planos. Na América Central, o Japão projetava controlar uma vasta região que se estenderia do Panamá às Caraíbas.
No Oceano Índico, o projeto incluía Ceilão, as Maldivas, as Seychelles e uma parte substancial da Índia. No Sudeste Asiático surgiriam reinos formalmente independentes — Indonésia, Birmânia, Malásia, Camboja e Annam — mas inevitavelmente subordinados à influência política, económica e militar de Tóquio.
Perante esta realidade, torna-se difícil sustentar que a Grande Esfera de Co-Prosperidade fosse apenas uma iniciativa anticolonial. Na verdade, o Japão procurava substituir os impérios europeus por um império próprio.
A semelhança com a Alemanha nazi é evidente. Tal como Hitler defendia a expansão territorial alemã em nome do Lebensraum, os dirigentes japoneses justificavam a sua expansão através da alegada missão histórica do Japão como líder natural dos povos asiáticos. Em ambos os casos encontramos a mesma lógica: uma potência convencida da sua superioridade moral e civilizacional reivindica para si o direito de reorganizar o espaço político internacional.
A História demonstra, porém, que os grandes projetos imperiais tendem a sofrer de um mal recorrente: confundem ambição com capacidade.
Em dezembro de 1941, o Japão encontrava-se no auge da confiança. A rápida conquista de Hong Kong, Malásia, Singapura, Filipinas e Índias Orientais Holandesas parecia confirmar a invencibilidade das forças imperiais. Contudo, os mesmos dirigentes que planeavam governar a Austrália e o Alasca revelavam uma profunda incapacidade para avaliar os recursos industriais e militares dos Estados Unidos.
O resultado tornou-se evidente poucos meses depois.
A Batalha de Midway, iniciada em 4 de junho de 1942, destruiu quatro dos mais importantes porta-aviões japoneses e alterou irreversivelmente o equilíbrio estratégico da guerra. Mais do que uma derrota militar, Midway representou o colapso de uma visão geopolítica. A partir desse momento, a expansão japonesa foi substituída por uma luta defensiva cada vez mais desesperada.
A ironia histórica é evidente. O império que sonhava administrar o Havai, a Austrália, a Nova Zelândia e parte da América do Norte acabou, menos de quatro anos depois, por assistir à ocupação do próprio território metropolitano pelas forças aliadas.
Do ponto de vista ético e político, o documento constitui um poderoso lembrete de uma verdade frequentemente esquecida. As potências expansionistas raramente se apresentam como conquistadoras. Pelo contrário, tendem a justificar os seus projetos em nome da segurança, da prosperidade, da civilização ou da libertação dos povos. Contudo, por detrás dessas formulações idealizadas encontra-se muitas vezes a mesma realidade: a vontade de poder.
A chamada Grande Esfera de Co-Prosperidade Asiática não foi uma exceção. Sob o discurso da solidariedade asiática escondia-se um projeto de hegemonia imperial sem precedentes na região.
Talvez seja essa a principal lição deste extraordinário documento histórico. As guerras começam frequentemente com promessas de prosperidade e libertação. Terminam, quase sempre, confrontadas com os limites da realidade, da resistência dos povos e das leis implacáveis da estratégia.
O Japão Imperial descobriu essa verdade nas águas de Midway. E o mundo aprendeu, uma vez mais, que os impérios costumam ser derrotados não apenas pelos seus inimigos, mas também pela dimensão desmedida dos seus próprios sonhos.