De Santo Ireneu a Isidro Lamelas: a recusa do mundo e a redescoberta da Criação
Há ideias que desaparecem dos livros sem desaparecerem verdadeiramente da história. O gnosticismo pertence talvez a essa categoria. As grandes escolas gnósticas dos primeiros séculos extinguiram-se, mas a tentação que lhes estava subjacente — considerar o mundo uma realidade da qual importa libertar-se — regressa, sob formas diferentes, ao longo da cultura ocidental.
É precisamente esta permanência que torna particularmente sugestiva a reflexão do Padre Isidro Pereira Lamelas. Especialista em Patrística, Lamelas não olha para o gnosticismo apenas como arqueologia das heresias cristãs. Procura compreender a estrutura espiritual que lhe está subjacente e interrogar a possibilidade da sua sobrevivência na cultura contemporânea.[1]
O homem estrangeiro no mundo
No coração de muitas correntes gnósticas encontra-se uma fratura. O espírito pertence ao alto; a matéria, ao mundo inferior. A existência humana transforma-se assim numa espécie de exílio: alguma coisa de divino estaria aprisionada num corpo e num mundo que lhe são estranhos.
A salvação consistiria, consequentemente, em escapar. A gnosis, o conhecimento reservado àquele que descobre a sua verdadeira origem, permitiria libertar a centelha espiritual da prisão da matéria.
Não estamos apenas perante uma doutrina religiosa antiga. Estamos perante uma determinada maneira de compreender a existência: sou verdadeiramente eu quando conseguir libertar-me daquilo que recebi.
Do corpo. Da natureza. Da história. Dos limites. Da condição de criatura.
É aqui que a antiga questão gnóstica adquire uma inesperada atualidade.
A resposta de Ireneu: o mundo é criação
Contra esta visão levantou-se, no século II, Santo Ireneu de Lião. A sua resposta possui uma extraordinária simplicidade: o Deus que salva é o mesmo Deus que cria.[2]
Não existem dois deuses, um responsável pela matéria e outro pelo espírito. Existe um único Deus, e aquilo que Ele cria não pode ser ontologicamente mau.
O cristianismo introduz, por isso, uma lógica radicalmente diferente da fuga gnóstica:
Criação — Encarnação — Redenção — Ressurreição.
Cada uma destas palavras afirma o valor da realidade criada.
Deus cria o mundo. Deus entra no mundo. Deus assume um corpo. Cristo ressuscita corporalmente. A esperança cristã não consiste na destruição da criação, mas na sua transfiguração.
A Encarnação constitui, neste sentido, talvez a mais radical refutação do gnosticismo: o Verbo fez-se carne.
Santo Agostinho e a experiência do dualismo
Séculos depois, Santo Agostinho conheceria por dentro outra grande expressão do dualismo: o maniqueísmo.
Durante anos procurou explicar a existência do mal através da oposição entre dois princípios. O mal parecia possuir uma realidade própria, quase equivalente à do bem.
A descoberta cristã obrigou-o a inverter o problema. O mal não é uma substância. É privação, desordem, afastamento do bem. Tudo aquilo que existe, enquanto existe, conserva alguma bondade porque recebeu o ser de Deus.[3]
A conversão intelectual de Agostinho é, portanto, também uma reconciliação com a criação.
O mundo deixa de ser o campo de batalha entre duas substâncias eternas. Torna-se criação ferida, certamente, mas essencialmente boa.
E o homem deixa de procurar um inimigo metafísico exterior para descobrir o drama da liberdade dentro de si próprio.
Lamelas e o anticosmismo
É neste horizonte patrístico que se compreende melhor a investigação do Padre Isidro Lamelas.
Ao estudar aquilo que designa por dualismo anticósmico, Lamelas chama a atenção para uma consequência profunda da visão gnóstica: a rutura entre o homem e o cosmos. O gnóstico sente-se estrangeiro neste mundo, como alguém que vive numa terra que não é verdadeiramente a sua casa.[4]
Se o mundo não é casa, mas prisão, o homem deixa de se compreender como participante numa ordem que o precede. Torna-se estrangeiro perante a natureza.
A questão ganha aqui uma dimensão contemporânea. Não porque seja legítimo chamar «gnóstico» a tudo aquilo de que discordamos, mas porque permanece na modernidade uma tentação semelhante: transformar a realidade recebida numa realidade inteiramente disponível para a vontade humana.
A natureza deixa então de ser criação para se tornar apenas matéria. O corpo deixa de ser recebido para se tornar exclusivamente objeto. A técnica deixa de ser instrumento e corre o risco de se transformar numa promessa de redenção.
A antiga gnosis prometia libertar o espírito da matéria. Algumas utopias modernas parecem sonhar com a libertação do homem da própria condição humana.
A tentação de nos criarmos a nós próprios
Talvez seja aqui que se encontre uma das formas mais profundas da tentação gnóstica contemporânea: a dificuldade em aceitar que não somos a nossa própria origem.
Recebemos o corpo. Recebemos o mundo. Recebemos os outros. Recebemos o tempo. Recebemos a própria existência.
A liberdade humana é imensa, mas não começa do nada.
Quando a liberdade deixa de reconhecer qualquer realidade anterior a si própria, corre o risco de deixar de ser liberdade criadora para se tornar vontade de domínio.
A pergunta decisiva passa então a ser: somos autores absolutos de nós mesmos ou participantes de uma realidade que nos precede e ultrapassa?
É significativo que a investigação mais recente de Isidro Lamelas prolongue explicitamente a questão até ao presente. O título da sua obra de 2026 é, por si só, revelador: Gnosis. O Conhecimento que salva. Do gnosticismo antigo à neognose contemporânea.[5]
A velha questão não terminou, portanto, com Basílides, Valentim ou Marcião. Mudaram as linguagens e os contextos, mas permanece a tentação de imaginar uma salvação conquistada pelo conhecimento e pela superação da própria condição recebida.
Louis Lavelle: existir é participar
É precisamente neste ponto que a filosofia de Louis Lavelle oferece uma ponte particularmente fecunda.
Para Lavelle, o ser humano não possui o Ser como propriedade. Participa nele.[6]
Existir significa receber continuamente a possibilidade de ser e responder-lhe através da liberdade. A existência não é, portanto, uma prisão da qual devamos escapar, mas uma vocação que devemos realizar.
Esta filosofia da participação encontra uma surpreendente consonância com a resposta cristã ao gnosticismo.
O mundo não me separa necessariamente do Absoluto. Pode conduzir-me até Ele.
O corpo não é simplesmente obstáculo ao espírito. É o lugar concreto onde amo, sofro, trabalho e encontro os outros.
O tempo não é apenas aquilo que me afasta da eternidade. Pode ser o lugar onde a eternidade começa a manifestar-se.
Participar é precisamente o contrário de possuir.
Francisco de Assis: a reconciliação com as criaturas
Talvez ninguém tenha exprimido existencialmente esta resposta de forma tão luminosa como São Francisco de Assis.
Francisco não procura Deus fugindo das criaturas. Encontra nas criaturas uma fraternidade que nasce da origem comum.
O sol é irmão. A lua é irmã. A água é irmã. A terra é mãe.
Não porque a natureza seja divina, mas precisamente porque não é Deus: é criatura de Deus.
Esta distinção permite a comunhão.
O mundo deixa então de ser prisão e transforma-se em sinal.
É também por isso que Olivier Messiaen pôde transformar o canto dos pássaros numa espécie de teologia musical da criação. Na sua ópera Saint François d’Assise, as aves não constituem mero ornamento sonoro. Cada criatura parece possuir uma voz própria dentro da grande polifonia do ser.
O homem que aprende verdadeiramente a escutar o mundo começa talvez a perceber que não está sozinho nele.
Da fuga à participação
Chegamos assim ao ponto essencial.
A questão do gnosticismo ultrapassa largamente a história das heresias antigas. Coloca uma pergunta que continua dirigida ao homem contemporâneo:
o mundo é algo de que devemos libertar-nos ou uma realidade que somos chamados a transfigurar?
A resposta cristã atravessa os séculos.
Ireneu responde com a bondade da criação.
Agostinho responde mostrando que o mal não constitui um princípio rival de Deus.
Francisco responde chamando irmãos às criaturas.
Lavelle responde através da participação no Ser.
Messiaen responde fazendo cantar a criação.
E Isidro Lamelas ajuda-nos a perceber por que razão a antiga tentação gnóstica continua intelectualmente relevante.
Talvez o verdadeiro contrário da gnose não seja a ignorância.
Talvez seja a participação.
Porque o cristianismo não anuncia uma salvação do mundo, como se a criação fosse um erro do qual fosse necessário escapar.
Anuncia a salvação no mundo e, finalmente, a redenção do próprio mundo.
Não nos pede que deixemos de ser criaturas.
Convida-nos a descobrir que ser criatura pode ser precisamente a primeira forma de participar no eterno.
Francisco Vaz
5 de agosto de 2026
Notas
[1] Isidro Lamelas, «Acerca das origens do Gnosticismo», CADMO: Journal for Ancient History, 2023, pp. 283-303. Lamelas sublinha a complexidade das origens do fenómeno gnóstico e a sua profunda e ambígua relação com o cristianismo antigo.
[2] Ireneu de Lião, Adversus Haereses, especialmente livros II-V. A unidade entre criação e redenção constitui um dos grandes eixos da resposta de Ireneu às doutrinas gnósticas: o Deus Criador é o mesmo Deus que conduz a criação à sua plenitude em Cristo.
[3] Agostinho de Hipona, Confissões, sobretudo livros VII e VIII; cf. também De moribus Ecclesiae catholicae et de moribus Manichaeorum. A crítica do maniqueísmo conduz Agostinho à compreensão do mal não como substância rival do bem, mas como privação e corrupção de um bem.
[4] Isidro Lamelas, «Gnosticismo e dualismo anticósmico: génese remota de uma crise», Ephata, 2022. Lamelas relaciona o dualismo entre espírito e matéria com uma conceção do mundo como lugar estranho ao homem e procura identificar as suas consequências remotas na relação moderna entre o ser humano, o cosmos e a natureza.
[5] Isidro Lamelas et al., Gnosis. O Conhecimento que salva. Do gnosticismo antigo à neognose contemporânea, 2026. A própria formulação do título exprime a continuidade da investigação entre o fenómeno histórico do gnosticismo e as formas contemporâneas de neognose.
[6] Louis Lavelle, De l'Acte, Paris, Aubier, 1937; cf. também La Présence totale, Paris, Aubier, 1934. A noção de participação ocupa um lugar central na metafísica de Lavelle: o ser particular não é proprietário do Ser, mas realiza-se participando ativamente nele.