Do tempo da Criação à eternidade de Deus
A primeira audição do Quatuor pour la fin du Temps, de Olivier Messiaen, pode causar estranheza. A música parece retirar-nos os lugares onde habitualmente procuramos segurança. O ritmo nem sempre nos oferece uma pulsação reconhecível; a duração parece dilatar-se; os instrumentos seguem por vezes caminhos que parecem independentes; a repetição deixa de produzir a sensação habitual de regresso. Procuramos compreender para onde a música nos conduz e ela parece escapar às categorias com que normalmente a escutamos.
Talvez seja precisamente aí que começa a experiência espiritual do Quatuor.
Para entrar nesta música é necessário desaprender alguma coisa.
Messiaen obriga-nos progressivamente a abandonar a ideia de que o tempo musical deve comportar-se como o tempo do relógio. A estranheza inicial não constitui, portanto, um obstáculo que precisamos simplesmente de vencer. Pode tornar-se preparação interior. Antes de nos aproximar da eternidade, a música começa por abalar a nossa confiança no tempo.
É nesse sentido que escuto o Quatuor pour la fin du Temps não apenas como uma extraordinária composição musical, mas como um itinerário da consciência em direção à transcendência.
Não porque a música possa demonstrar a transcendência.
Mas porque pode preparar o espírito para admitir aquilo que ultrapassa as categorias com que habitualmente pensamos o ser.
No princípio
Embora a referência bíblica explícita de Messiaen para o Quatuor seja o capítulo 10 do Apocalipse, quando escutei pela primeira vez esta obra, experiênciei um arco bíblico muito mais vasto.
Começo quase inevitavelmente no Génesis.
Não porque Messiaen tenha pretendido representar musicalmente os sete dias da Criação. Seria excessivo impor à obra um programa que não lhe pertence. Mas porque o início do Quatuor, particularmente a Liturgie de cristal, possui algo de primordial.
Antes da história, parece existir o mundo.
Antes do homem, a Criação.
Os pássaros, tão importantes no universo musical e espiritual de Messiaen, fazem-se ouvir num espaço sonoro que parece obedecer a uma ordem diferente da nossa. As estruturas rítmicas sobrepõem-se sem se submeterem facilmente à regularidade que esperamos.
É como se entrássemos num mundo que não começou connosco.
E isso remete-me para o Génesis.
Antes do homem existe o ser criado.
Antes da história humana existe a Criação.
Mas antes da própria Criação está Deus.
É neste ponto que se torna necessária uma distinção fundamental.
O tempo pertence à Criação. Deus é eternidade.
O tempo não existe antes da Criação
Santo Agostinho compreendeu esta questão com extraordinária profundidade no Livro XI das Confissões.
Perguntar o que fazia Deus «antes» de criar o mundo contém já um erro na própria pergunta. O «antes» pertence ao tempo. E se o tempo pertence à ordem criada, não existe um tempo anterior à Criação no qual Deus estivesse simplesmente à espera de criar.
Deus não espera.
Deus não envelhece.
Deus não passa de um instante para outro.
A eternidade não significa uma quantidade infinita de tempo.
Não é um relógio que nunca para.
Não é uma sucessão interminável de momentos.
Se assim fosse, Deus continuaria submetido ao antes e ao depois.
A eternidade é de outra ordem.
É precisamente esta distinção que torna o Quatuor tão fascinante.
Porque Messiaen escolhe a mais temporal das artes para nos fazer pensar aquilo que transcende o tempo.
A música só pode existir na duração.
Uma nota começa.
Permanece.
Termina.
Outra sucede-lhe.
Sem esta sucessão não existe música.
Como pode então a música falar da eternidade?
Talvez não possa.
Mas pode conduzir-nos até à fronteira do tempo.
O homem: ser temporal
Nós não somos eternos.
Somos criaturas temporais.
Nascemos.
Crescemos.
Recordamos.
Esperamos.
Envelhecemos.
Morremos.
A nossa própria consciência está estruturada temporalmente.
Agostinho percebeu-o ao distinguir aquilo que poderíamos chamar o presente do passado, o presente do presente e o presente do futuro: memória, atenção e expectativa.
É exatamente assim que ouvimos música.
Quando uma nota soa, a anterior já desapareceu. Contudo, permanece na memória. E enquanto escutamos a nota presente antecipamos, mesmo sem o sabermos, aquilo que poderá acontecer depois.
Sem memória não existe melodia.
Sem expectativa não existe tensão musical.
Sem atenção não existe escuta.
A música reproduz assim, de uma maneira extraordinariamente concentrada, a própria estrutura temporal da existência humana.
Somos seres distendidos entre aquilo que já não é e aquilo que ainda não é.
Carregamos o passado.
Habitamos precariamente o presente.
Projetamo-nos para o futuro.
E é dentro desta condição que procuramos aquilo que permanece.
A Bíblia como história no tempo
É aqui que a minha leitura do Quatuor se abre para toda a narrativa bíblica.
Depois da Criação surge o homem.
E com o homem surge a história.
O Génesis não permanece no jardim.
Há a liberdade.
Há a queda.
Há Caim.
Há o dilúvio.
Há Babel.
Depois vêm Abraão, Isaac e Jacob.
Vêm Moisés e o Êxodo.
O deserto.
A promessa.
Os reis.
Os profetas.
O exílio.
O regresso.
Job.
Os Salmos.
A espera.
Toda a Bíblia pode ser lida como uma história de relações entre Deus e uma humanidade que existe inevitavelmente no tempo.
O homem cai e levanta-se.
Promete e esquece.
Sofre e interroga.
Afasta-se e regressa.
Espera.
E Deus parece por vezes próximo e outras vezes incompreensivelmente silencioso.
Há algo desta tensão no Quatuor.
Violência e serenidade.
Fragmentação e unidade.
Movimento e imobilidade.
Som e silêncio.
A transcendência não aparece como fuga fácil da condição humana.
É necessário atravessá-la.
Job: quando compreender deixa de ser dominar
É talvez Job quem melhor representa esta passagem.
Job quer compreender.
Quer saber por que sofre.
Quer uma resposta proporcional à sua pergunta.
Mas quando Deus finalmente lhe responde, não lhe oferece uma teoria do sofrimento.
Confronta-o com a Criação.
A resposta não elimina a inteligência. Mas altera a posição do homem perante aquilo que pretende compreender.
Algo semelhante pode acontecer na escuta de Messiaen.
Inicialmente procuramos organizar a música segundo as nossas categorias.
Onde está a pulsação?
Para onde vai esta frase?
Quando chega a resolução?
Qual é a estrutura que me permitirá dominar intelectualmente aquilo que estou a ouvir?
Mas talvez chegue um momento em que a pergunta se transforma.
Deixamos de perguntar:
«Como posso fazer esta música caber nas minhas categorias?»
e começamos a perguntar:
«Que categorias preciso de ultrapassar para verdadeiramente a escutar?»
Esta passagem é filosófica.
Mas pode também tornar-se espiritual.
A transcendência começa talvez precisamente quando aceitamos que o ser não tem de caber integralmente dentro das categorias que construímos para o compreender.
Cristo: a eternidade entra no tempo
Entre o Génesis e o Apocalipse encontra-se então o acontecimento central do cristianismo.
A Encarnação.
E aqui acontece algo ontologicamente extraordinário.
A eternidade entra no tempo.
O Verbo faz-se carne.
Aquele que é eterno aceita a temporalidade da existência humana.
Nasce.
Cresce.
Espera.
Sofre.
Morre.
A transcendência não permanece exterior à condição humana.
Entra nela.
É por isso que a Louange à l'Éternité de Jésus ocupa, para mim, um lugar central na experiência do Quatuor.
O violoncelo avança numa lentidão extrema. O piano sustenta-o numa regularidade quase imóvel.
A música move-se.
Mas parece não querer chegar.
O relógio continua necessariamente a avançar, mas a consciência da duração começa a transformar-se.
Não saímos do tempo.
Experimentamo-lo de outra maneira.
E talvez seja esta uma das imagens musicais mais poderosas do mistério da Encarnação:
a eternidade presente no tempo sem se reduzir ao tempo.
O sofrimento não é apagado
Mas o cristianismo não passa diretamente da Criação para a eternidade.
Há a Cruz.
E este facto é ainda mais perturbador quando recordamos as circunstâncias em que o Quatuor foi composto.
Messiaen era prisioneiro de guerra.
A Europa destruía-se.
Homens matavam outros homens numa escala que parecia negar séculos de civilização.
O Quatuor nasce num campo de prisioneiros.
A primeira audição ocorre em janeiro de 1941, no Stalag VIII-A.
Não podemos separar inteiramente esta circunstância da experiência da obra.
À volta existem arame farpado, frio, fome, medo e guerra.
E Messiaen escreve sobre a eternidade.
Mas não escreve para negar o sofrimento.
A transcendência cristã não consiste em fingir que o mal não existe.
A Cruz impede essa facilidade.
O sofrimento é atravessado.
A morte é atravessada.
O silêncio de Deus é atravessado.
Só depois pode falar-se de Ressurreição.
Romper com o relógio
É aqui que a própria linguagem musical de Messiaen adquire uma dimensão quase ascética.
Os ritmos não retrogradáveis, as durações inesperadas, as estruturas que recusam certas previsibilidades métricas e a lentidão extrema de alguns movimentos perturbam a nossa submissão ao relógio.
O tempo físico continua.
Mas alguma coisa acontece ao tempo interior.
Deixamos progressivamente de contar.
Esperamos sem saber exatamente aquilo que esperamos.
A duração deixa de ser apenas quantidade.
Transforma-se em experiência.
Messiaen não elimina o tempo.
Liberta momentaneamente a consciência da tirania da sua medida.
E isso prepara-nos para uma ideia que racionalmente compreendemos com dificuldade:
a eternidade não é muito tempo.
É aquilo que não pertence à ordem temporal.
Apocalipse
Chegamos então ao verdadeiro horizonte do Quatuor.
O Apocalipse.
A palavra adquiriu no uso corrente um significado quase exclusivamente catastrófico. Apocalipse tornou-se sinónimo de destruição.
Mas apokálypsis significa revelação, desvelamento.
Aquilo que estava oculto manifesta-se.
E esta diferença muda tudo.
O fim do tempo não é simplesmente a destruição da existência.
É a revelação de que o tempo não constitui o horizonte último do ser.
Aquilo que para nós parecia absoluto — nascer, viver, envelhecer, morrer — deixa de possuir a última palavra.
Por isso, o último livro da Bíblia não termina simplesmente com ruínas.
Termina com uma nova Criação.
Um novo céu.
Uma nova terra.
A Jerusalém celeste.
O fim torna-se começo.
Do jardim à cidade celeste
É então que o arco bíblico se fecha.
A Bíblia começa com um jardim.
Termina com uma cidade.
Começa com o paraíso terrestre.
Termina com a Jerusalém celeste.
Mas o fim não é simplesmente um regresso ao princípio.
E isto parece-me fundamental.
Entre o Génesis e o Apocalipse aconteceu a história.
Aconteceu a liberdade.
Aconteceu a queda.
Aconteceram Abraão e Moisés.
Aconteceram os profetas e Job.
Aconteceram a fidelidade e a traição.
Aconteceram o sofrimento e a esperança.
Aconteceram a Encarnação, a Cruz e a Ressurreição.
Aconteceu toda a condição humana.
Por isso, o paraíso celeste não é simplesmente a reposição do Éden perdido.
O percurso não é circular.
É escatológico.
A Criação caminha para uma plenitude que ainda não conheceu.
E é desta maneira que o Quatuor começa a adquirir, na minha escuta, uma dimensão que ultrapassa largamente a música.
Parece percorrer uma história do ser humano diante da eternidade:
Criação → tempo → liberdade → sofrimento → esperança → Encarnação → Cruz → Ressurreição → Apocalipse → eternidade.
A ascensão
É então que chegamos à Louange à l'Immortalité de Jésus.
O violino sobe.
Lentamente.
Quase dolorosamente.
Parece libertar-se progressivamente do peso.
Mas Messiaen não escolhe o triunfo fácil.
Não há uma explosão destinada a representar uma vitória exterior.
Há uma ascensão.
O som torna-se progressivamente mais agudo.
Mais distante.
Mais difícil de possuir.
Até se aproximar do silêncio.
Durante toda a obra procurámos compreender o tempo.
Agora parece que temos de abandonar até o próprio som.
E talvez seja aqui que a música atinge o seu limite.
Para falar da eternidade, a música teria de deixar de ser temporal.
Mas, se deixasse de ser temporal, deixaria de ser música.
Messiaen só pode, portanto, conduzir-nos até à fronteira.
Depois tem de nos deixar.
O silêncio depois da última nota
Chega então a última nota.
E desaparece.
O Quatuor terminou.
O tempo musical acabou.
Resta o silêncio.
Mas não é o mesmo silêncio que existia antes da primeira nota.
Nós atravessámos alguma coisa.
No início, a estranheza perturbava-nos porque a música não obedecia às nossas expectativas.
Agora talvez compreendamos que essa perturbação era necessária.
Messiaen começou por retirar-nos as referências habituais.
Obrigou-nos a esperar.
Ensinou-nos a permanecer dentro de uma duração que não controlávamos.
Fez-nos atravessar violência, beleza, contemplação, inquietação e silêncio.
E conduziu-nos progressivamente até ao limite das nossas próprias categorias.
É por isso que vejo no Quatuor pour la fin du Temps uma relação tão profunda com a transcendência.
Messiaen não representa a transcendência.
Prepara a consciência para ela.
Não nos mostra Deus.
Retira-nos algumas das falsas imagens através das quais pretendemos encerrá-Lo.
Não explica a eternidade.
Liberta-nos da ideia de que eternidade significa simplesmente tempo sem fim.
Não elimina o mistério.
Ensina-nos a permanecer diante dele.
O tempo é da Criação; a eternidade é de Deus
Talvez seja esta, finalmente, a transformação interior que o Quatuor pode provocar.
Começamos por ouvir música.
Depois começamos a ouvir o tempo.
Depois percebemos que estamos a ouvir a nossa própria condição.
Somos seres temporais.
Vivemos entre memória e expectativa.
Sabemos que vamos morrer.
E, contudo, somos capazes de conceber aquilo que não morre.
Somos finitos e pensamos o infinito.
Existimos no tempo e interrogamos a eternidade.
Talvez seja essa uma das marcas mais profundas da condição humana.
O Quatuor não resolve esse paradoxo.
Leva-o até ao extremo.
E é precisamente aí que o Génesis e o Apocalipse se encontram.
No Génesis, entramos no tempo.
No Apocalipse, o tempo encontra o seu cumprimento.
Entre ambos decorre toda a história humana.
E no centro dessa história encontra-se, para o cristão, Cristo: a eternidade que entra no tempo para abrir o tempo à eternidade.
Talvez seja por isso que esta música, inicialmente tão estranha, acaba por se tornar tão profundamente íntima.
Ela não nos retira do mundo.
Faz-nos regressar a ele conscientes de que o mundo não contém em si mesmo a explicação última do ser.
Não nos retira da condição humana.
Aprofunda-a até descobrirmos nela uma abertura para aquilo que a transcende.
Não nos explica Deus.
Conduz-nos até ao lugar onde as explicações começam a tornar-se insuficientes.
A última nota desaparece.
O tempo musical terminou.
Mas aquilo para que ela apontava não termina com ela.
Fica o silêncio.
E esse silêncio já não é ausência.
É abertura.
Talvez seja esse o verdadeiro sentido espiritual do Quatuor pour la fin du Temps: começar pela estranheza do som para nos conduzir ao mistério do ser; começar no tempo para nos fazer pressentir a eternidade; começar, na minha escuta, no Génesis e atravessar a condição humana até chegar ao Apocalipse — não entendido como destruição final, mas como revelação e passagem para uma realidade nova.
Do jardim à Jerusalém celeste.
Da Criação à nova Criação.
Do tempo à eternidade.
E então a música cala-se.
Não porque já nada tenha para dizer.
Mas porque chegou ao ponto em que talvez só o silêncio possa falar.
O tempo pertence à Criação. A eternidade pertence a Deus.
Francisco Vaz
24 de setembro de 2026
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