Pecado original

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sexta-feira, 1 de maio de 2026

Carta aberta à minha mulher

Da incompletude à pertença

Lembro-me, às vezes, daquela antiga história de Platão, no Banquete, onde os seres eram inteiros e foram divididos. Desde então, cada metade procura a outra, não por capricho, mas por uma espécie de memória inscrita no mais fundo do ser. Talvez não sejamos literalmente metades, mas há em nós essa nostalgia de unidade — não de fusão, mas de pertença.

Quarenta e quatro anos depois, compreendo melhor o que essa intuição quer dizer. Não se trata de encontrar alguém que nos complete de uma vez por todas, como se a vida fosse um problema com solução definitiva. Trata-se, antes, de aprender a habitar essa busca, de a reconhecer como caminho comum. Ao longo destes anos, fomos descobrindo que a unidade não é um ponto de chegada, mas um trabalho contínuo — discreto, paciente, feito de pequenos gestos que não ficam registados em lado algum.

Houve dias de luz e outros de sombra. Momentos em que tudo parecia evidente e outros em que quase nada fazia sentido. Mas, mesmo nestes momentos mais sombrios, houve algo que permaneceu — uma espécie de fio invisível que não se quebrou. Talvez seja isso o mais surpreendente: não a ausência de dificuldades, mas a persistência da relação apesar delas.

Com o tempo, deixamos de procurar no outro apenas aquilo que nos falta e começamos a reconhecer também aquilo que nos desafia. A diferença, que no início pode parecer obstáculo, torna-se lugar de crescimento. Não porque desapareça, mas porque aprendemos a escutá-la. Aquilo que em ti é silêncio ensinou-me a abrandar; aquilo que em mim é inquietude talvez te tenha lembrado que a vida é movimento.

Há uma sabedoria que só o tempo oferece: a de perceber que o amor não é feito apenas de intensidade, mas também de duração. Não vive apenas dos momentos altos, mas da capacidade de permanecer quando tudo o resto vacila. Permanecer não como hábito, mas como escolha renovada, mesmo quando não é fácil, mesmo quando não é evidente.

Ao longo destes anos, fomos mudando — inevitavelmente. Não somos hoje os mesmos que éramos no início. E, no entanto, há algo que atravessa todas essas transformações e nos mantém ligados. Não é uma identidade fixa, mas uma fidelidade que se adapta, que se reconfigura, que encontra novas formas de dizer o essencial: estamos aqui.

Talvez seja isso que significa verdadeiramente partilhar uma vida: não eliminar a distância entre dois seres, mas aprender a atravessá-la juntos. Não deixar de ser dois, mas descobrir, nesse espaço, um lugar habitável.

Se há algo que estes quarenta e quatro anos me ensinaram, é que o amor não resolve o enigma do outro — aprofunda-o. E é precisamente por isso que continua vivo. Porque há sempre mais para conhecer, mais para compreender, mais para acolher.

E, no fim, talvez tudo se resuma, não ao facto de termos caminhado sempre sem falhas, mas ao facto de termos continuado a caminhar lado a lado, apesar delas.

Termino com uma palavra de gratidão: gratidão pelo que fomos, pelo que somos e pelo que ainda podemos ser.

Francisco Vaz

1 de Maio de 2026

quinta-feira, 30 de abril de 2026

O NROTC

Formar líderes entre a universidade e o serviço naval

No início da década de 1920, num contexto em que os Estados Unidos procuravam redefinir o seu papel como potência global emergente, surgiu uma iniciativa que viria a marcar profundamente a ligação entre o ensino superior e a formação militar. Foi nesse período que o então capitão de fragata Chester W. Nimitz assumiu a tarefa de estabelecer um dos primeiros programas do Naval Reserve Officers Training Corps (NROTC) na Universidade da Califórnia, Berkeley. A criação deste curso, em 1926, inscreveu-se num movimento mais amplo de modernização das forças armadas norte-americanas, mas distinguiu-se pela sua aposta inovadora: integrar a formação de oficiais de Marinha no ambiente académico universitário.

A escolha de Berkeley não foi casual. A instituição já se afirmava como um dos centros intelectuais mais dinâmicos do país, e a decisão de aí implantar um programa de formação naval representou uma aproximação inédita entre o saber científico, a reflexão crítica e as exigências do serviço militar. Nimitz, que viria mais tarde a desempenhar um papel central na condução das forças navais dos Estados Unidos durante a Segunda Guerra Mundial, revelou aqui uma visão estratégica precoce: a de que a qualidade da liderança militar dependeria, cada vez mais, da sua base educativa e da sua capacidade de dialogar com o conhecimento produzido na universidade.

É a partir desta origem que se compreende a evolução e a relevância do NROTC enquanto instituição formativa. Ao longo do século XX, este programa consolidou-se como uma ponte singular entre o mundo académico e o serviço militar, formando oficiais que não apenas dominam competências técnicas, mas que são também expostos ao pensamento crítico, à diversidade intelectual e à complexidade social das sociedades democráticas.

Ao longo das décadas, o modelo revelou-se eficaz. Em momentos críticos da história contemporânea, muitos dos oficiais formados por este sistema estiveram na linha da frente — não apenas como executores de estratégia, mas como agentes de decisão em contextos de elevada complexidade. Mais do que competências técnicas, o NROTC procurou incutir princípios: disciplina, responsabilidade, humildade e compromisso com o bem comum.

Num mundo cada vez mais moldado pela tecnologia, este modelo ganha nova relevância. A segurança deixou de ser apenas uma questão de poder militar tradicional; envolve hoje domínios como a cibersegurança, a inteligência artificial ou o espaço. Formar líderes capazes de compreender essas áreas exige uma base académica sólida, mas também uma visão estratégica que ultrapasse o laboratório ou a sala de aula. O NROTC, ao integrar universidade e defesa, posiciona-se precisamente nesse cruzamento.

Mas talvez o contributo mais importante deste tipo de programas não seja técnico, mas ético. Num tempo marcado pela personalização do sucesso e pela valorização da visibilidade individual, a formação para o serviço público introduz um contrapeso essencial. Recorda que liderar não é apenas alcançar resultados, mas assumir responsabilidades; não é apenas decidir, mas responder pelas consequências dessas decisões.

Num mundo que tende a fragmentar competências e identidades, iniciativas como esta lembram uma verdade simples, mas exigente: as sociedades mais resilientes são aquelas que conseguem formar cidadãos capazes de pensar com rigor, agir com determinação e servir com sentido de bem comum.

Francisco Vaz

30 de Abril de 2026

O que é a ontologia?

Um ensaio sobre o sentido do ser

Há perguntas que não pedem apenas resposta — pedem transformação. “O que é a ontologia?” é uma delas. À primeira vista, parece uma questão técnica, confinada às sala de aula de filosofia. Mas, na verdade, é uma interrogação radical: diz respeito àquilo que torna qualquer coisa — inclusive nós próprios — possível.

A palavra remonta ao grego: ontos (ser) e logos (discurso, sentido, inteligibilidade). Ontologia é, assim, o discurso sobre o ser. Mas esta definição, embora correta, é insuficiente. Porque a ontologia não é apenas um discurso sobre o ser — é também a tentativa de habitar o ser com consciência, de o compreender não como algo distante, mas como aquilo que nos constitui.

1. O espanto originário

Toda a ontologia nasce de um espanto primordial: por que existe algo em vez do nada? Esta pergunta, que atravessa a história da filosofia, não é uma curiosidade abstrata. É o poro inicial que se abre ao pensamento.

Platão respondeu a esse espanto colocando no centro o Bem — não como simples valor moral, mas como princípio ontológico que ilumina tudo o que é. Aristóteles, por sua vez, procurou compreender o ser na sua multiplicidade, afirmando que “o ser diz-se de muitas maneiras”.

Mas ambos partem da mesma intuição: o ser não é trivial. O simples facto de algo existir — uma pedra, um pensamento, uma pessoa — já é, em si, um acontecimento absoluto. Qualquer coisa que existe vence o nada. E isso, levado a sério, muda tudo.

2. Contra a tentação do relativismo

Vivemos num tempo que frequentemente proclama: “tudo é relativo”. A ontologia começa por desconfiar dessa afirmação. Não por dogmatismo, mas por coerência. Se tudo fosse relativo, então essa própria afirmação também o seria — e perderia valor.

O que a ontologia procura recuperar é o sentido do absoluto no interior do real. Não necessariamente um absoluto imposto de fora, mas o absoluto que se manifesta no facto de cada coisa ser aquilo que é, de modo irrepetível.

Uma pessoa não é intercambiável. Um momento vivido não se repete. Um acontecimento histórico poderia não ter sido — mas foi. Esta singularidade concreta aponta para algo mais profundo: o ser não é apenas um dado — é uma presença.

3. Pensar é “ler por dentro”

A ontologia não se limita a afirmar que o ser existe; procura compreender o seu sentido. E aqui entra o papel decisivo da inteligência.

Pensar, no sentido forte, não é acumular informação. É inteligir — ler por dentro. É deixar que o real se revele na sua estrutura íntima. Sem essa mediação da inteligência, o mundo seria apenas um conjunto caótico de estímulos.

Por isso, a ontologia afirma algo exigente: não há realidade com sentido fora da relação com a inteligência. Não porque a mente “invente” o real, mas porque é nela que o real se torna compreensível.

Immanuel Kant levou esta questão ao limite ao interrogar as condições do conhecimento. Mas mesmo quando delimita o alcance da razão, confirma algo essencial: não há acesso ao ser sem estruturas de inteligibilidade.

4. O ser como dinâmica: potência e ato

Uma das grandes contribuições da tradição ontológica — especialmente em Aristóteles — é a distinção entre potência e ato.

Nada do que existe está completamente acabado. Tudo o que é, é também possibilidade de ser mais. Uma semente é uma árvore em potência; uma decisão é um futuro em gestação.

Isto tem consequências profundas:

  • O real não é estático → é dinâmico

  • O ser não é fechado → é abertura

  • A existência não é um ponto → é um processo

Paradoxalmente, aquilo que parece mais “frágil” — a possibilidade — revela-se como o fundamento de tudo o que existe. Sem possibilidade, nada poderia vir a ser.

5. Ontologia como forma de vida

Se a ontologia fosse apenas teoria, seria estéril. A sua verdade manifesta-se quando se torna forma de vida.

Viver ontologicamente é:

  • não reduzir o real a utilidade

  • não tratar pessoas como coisas

  • não dissolver tudo em relativismo

  • reconhecer em cada ser um valor próprio

É, em última análise, uma atitude de atenção. Uma recusa da superficialidade.

Neste sentido, a ontologia toca inevitavelmente a ética. Não porque imponha regras, mas porque transforma o olhar. Quem vê o ser como absoluto dificilmente trata o outro como descartável.

6. O limite: o nada e o absoluto

A ontologia confronta-se, inevitavelmente, com os seus próprios limites. Não temos experiência direta do nada — e, no entanto, pensamos o nada. Não compreendemos plenamente o absoluto — e, ainda assim, somos atraídos por ele.

Alguns identificam esse absoluto com Deus; outros preferem manter a questão em aberto. Mas a intuição permanece: o ser aponta para além de si mesmo.

E talvez seja precisamente esse excesso — essa impossibilidade de total compreensão — que mantém viva a filosofia.

Conclusão

Perguntar “o que é a ontologia?” é, no fundo, perguntar:

  • o que significa existir

  • o que significa compreender

  • o que significa ser humano

A ontologia não oferece respostas fáceis. Mas oferece algo mais raro: um caminho de rigor e profundidade.

Num tempo marcado pela dispersão e pelo relativismo, ela recorda-nos uma verdade exigente: cada coisa que existe é mais do que parece — e merece ser pensada até ao fim.

E talvez seja esse o seu maior contributo: não resolver o mistério do ser, mas ensinar-nos a habitá-lo com lucidez.

Francisco Vaz

30 de Abril de 2026

quarta-feira, 29 de abril de 2026

Carlos III

Entre a memória e a responsabilidade

O discurso de Carlos III, perante o Congresso dos Estados Unidos da América, não é apenas um exercício de diplomacia histórica; é uma reflexão implícita sobre o que sustenta, em última instância, a vida política. Por detrás das referências a alianças, guerras, instituições e valores partilhados, emerge uma ideia mais profunda: a política não nasce do poder, mas da relação.

Desde as primeiras palavras, há uma insistência na interligação dos destinos. Não se trata apenas de cooperação estratégica entre Estados, mas de algo mais radical: uma co-pertença histórica e moral. A relação entre nações não é acidental nem meramente utilitária; é constitutiva. Forma identidades, molda decisões, orienta o futuro. A política aparece, assim, como um tecido de vínculos que precedem e ultrapassam cada momento particular.

Esta visão aproxima-se de uma intuição clássica, que encontramos em Platão: a de que o espaço político é, antes de mais, um espaço ético. Não um campo neutro onde interesses colidem, mas um lugar onde se decide o modo como os seres humanos reconhecem — ou recusam reconhecer — a dignidade uns dos outros.

Quando no discurso afirma que atos de violência “nunca terão sucesso”, não está apenas a fazer uma declaração política. Está a afirmar um princípio ontológico: a violência rompe a relação e, ao fazê-lo, destrói o próprio fundamento da política. Onde não há reconhecimento, não há comunidade; onde não há comunidade, resta apenas a força.

Por contraste, a evocação constante da democracia, da deliberação e do Estado de direito aponta para uma política que se constrói no reconhecimento mútuo. Instituições como o Congresso ou tradições que remontam à Magna Carta não são apenas estruturas jurídicas; são formas históricas de dar corpo a essa exigência ética. Representam a tentativa — sempre imperfeita — de organizar a convivência segundo princípios que respeitem a liberdade e a dignidade de todos.

Um dos aspetos mais relevantes do discurso é a forma como integra o desacordo. A relação entre o Reino Unido e os Estados Unidos nasce, precisamente, de um conflito — a independência americana. Mas esse conflito não destruiu a possibilidade de relação; transformou-a. A partir da divergência, construiu-se uma parceria. Isto sugere uma ideia essencial: a política não elimina o conflito, mas dá-lhe forma. O desacordo não é o oposto da relação; é uma das suas condições.

Há também uma consciência clara do tempo. A história não é invocada como celebração passiva, mas como responsabilidade ativa. O passado oferece fundamentos, mas não garantias. A aliança deve ser renovada, os valores devem ser reatualizados, as instituições devem ser defendidas. A política surge, assim, como um compromisso contínuo entre memória e ação.

Particularmente significativa é a abertura do discurso a uma dimensão mais ampla — a proteção da natureza, a cooperação tecnológica, a resposta a desafios globais. Aqui, a relação ultrapassa o âmbito bilateral e projeta-se para o universal. A política deixa de ser apenas gestão de interesses nacionais para se tornar responsabilidade partilhada perante o mundo.

Neste ponto, revela-se com clareza uma antropologia implícita: o ser humano é um ser que não se esgota em si mesmo. Vive em relação, decide em relação, constrói em relação. É, por isso, simultaneamente ontológico, ético e político. A política não é uma camada superficial da vida humana; é a sua expressão mais ampla.

Num tempo marcado por fragmentação e tentação de isolamento, esta visão tem uma força particular. Recorda-nos que nenhuma nação se sustenta sozinha, que nenhuma identidade se constrói no vazio, que nenhuma liberdade subsiste sem vínculo.

No fundo, o discurso aponta para uma verdade simples, mas exigente: a política só é verdadeiramente humana quando reconhece que o seu fundamento não está no domínio, mas no encontro. E que é nesse encontro — sempre imperfeito, sempre em construção — que se decide não apenas o destino das nações, mas o próprio sentido de sermos humanos.

Francisco Vaz

29 de Abril de 2026

segunda-feira, 27 de abril de 2026

Índia

Potência subvalorizada?

A ideia de que a Índia é uma potência subvalorizada não resiste muito tempo a uma leitura atenta da sua história e da sua trajetória recente. O problema não está tanto na falta de poder da Índia, mas na forma como ela foi — e ainda é — percebida. Durante muito tempo, o olhar ocidental reduziu o país a um espaço de espiritualidade intemporal, quase imóvel, uma espécie de contraponto místico à racionalidade europeia. Esse enquadramento, que ecoa autores como Max Weber, diz mais sobre quem observa do que sobre a própria Índia.

A reflexão de Amartya Sen desmonta esse equívoco ao lembrar que a Índia nunca foi apenas contemplação: foi também debate, ceticismo e inovação. Desde a civilização do Indo até à formulação do sistema decimal, passando por tradições antigas de tolerância religiosa, a Índia participou ativamente na construção do mundo intelectual e científico. Ou seja, não é uma civilização “adormecida” que desperta em 1947 com Jawaharlal Nehru; é uma civilização que muda de ritmo e de forma, mas nunca deixa de estar em movimento.

O verdadeiro paradoxo está no presente. A Índia reúne características que, segundo muitas teorias políticas e económicas, seriam incompatíveis com sucesso: pobreza significativa, diversidade extrema, tensões sociais profundas e uma burocracia pesada. Ainda assim, sustenta a maior democracia do mundo e uma economia em ascensão. Isto obriga a questionar modelos tradicionais: talvez a democracia não exija homogeneidade cultural, nem níveis elevados de riqueza inicial. A Índia prova que pode existir uma democracia funcional num contexto de fragmentação linguística, religiosa e social quase sem paralelo.

Ao mesmo tempo, o seu crescimento económico seguiu um caminho pouco convencional. Ao contrário de outras potências asiáticas, não se baseou principalmente na industrialização exportadora, mas sim nos serviços, no mercado interno e numa elite altamente qualificada. Essa especificidade tornou-a mais resiliente a choques externos e reforçou o papel do setor privado — muitas vezes em tensão com o próprio Estado. Há aqui uma lição implícita: o desenvolvimento não segue um único modelo.

Mas chamar a Índia de “subvalorizada” também pode ser enganador se ignorar as suas fragilidades. A desigualdade social, o peso das castas, a discriminação de minorias e a erosão recente de liberdades sob o governo de Narendra Modi revelam que o seu percurso está longe de ser linear. A vitalidade democrática convive com tendências iliberais; o dinamismo económico com ineficiências estruturais.

No plano geopolítico, a Índia deixou definitivamente de ser um ator periférico. A sua posição entre o mundo islâmico e a esfera chinesa, a sua presença no Movimento dos Não Alinhados e, mais recentemente, o seu papel no chamado Quad (com Estados Unidos, Japão e Austrália) mostram que se tornou um elemento central no equilíbrio global. A aposta militar e nuclear, bem como a entrada na corrida espacial, indicam uma transformação profunda: do imaginário gandhiano para uma lógica de poder duro.

Assim, a Índia não é apenas uma potência subvalorizada — é uma potência mal compreendida. A dificuldade em avaliá-la decorre do facto de ela escapar às categorias habituais: não é totalmente ocidental nem oriental, não segue o modelo chinês nem o europeu, não é homogénea nem facilmente previsível. É precisamente essa complexidade que a torna decisiva.

Talvez o maior erro seja tentar encaixá-la num rótulo. A Índia não está “a emergir” no sentido clássico; está a reafirmar-se. E, ao fazê-lo, obriga o mundo a rever as suas próprias ideias sobre desenvolvimento, democracia e poder.

Francisco Vaz

27 de Abril de 2026

quinta-feira, 23 de abril de 2026

A orquestra feminina de Auschwitz

Ou a presença do ser

Há histórias que resistem a uma abordagem simplista. A Orquestra Feminina de Auschwitz é uma delas: um lugar onde a música — tantas vezes associada à elevação do espírito — foi posta ao serviço da desumanização e, paradoxalmente, da sobrevivência.

No coração do Holocausto, em Auschwitz-Birkenau, surgiu em 1943 uma formação singular: uma orquestra composta exclusivamente por mulheres prisioneiras. A iniciativa partiu das SS, não por apreço artístico, mas por cálculo disciplinar e propaganda. A música marcava o passo das colunas de trabalho, suavizava a rotina dos guardas e ajudava a encenar uma aparência de ordem no meio do horror.

Mas reduzir esta orquestra à função que lhe foi imposta seria ignorar a densidade humana que nela persistia. Cerca de cinquenta mulheres, oriundas de onze países, encontraram na música uma linha frágil entre a vida e a morte. Ser escolhida para tocar significava escapar — ainda que provisoriamente — ao trabalho forçado, à fome extrema e, muitas vezes, às câmaras de gás. A arte tornava-se, assim, um refúgio ambíguo: salvação individual dentro de um sistema de aniquilação coletiva.

No centro desta história está Alma Rosé, sobrinha de Gustav Mahler. Antes da guerra, era já uma violinista de renome. Em Auschwitz, assumiu a direção da orquestra com uma exigência absoluta. O rigor técnico, a disciplina e a coesão deixaram de ser apenas critérios artísticos — tornaram-se condições de sobrevivência. A qualidade musical podia proteger; um erro podia custar a vida.

Entre as jovens instrumentistas, destaca-se Anita Lasker-Wallfisch, cuja memória nos permite hoje compreender o paradoxo vivido: tocar enquanto outros marchavam para a morte; produzir beleza no epicentro do mal; sentir, ao mesmo tempo, gratidão por sobreviver e o peso dessa sobrevivência.

A questão que emerge — e que Anne Sebba explora com profundidade — não é apenas histórica, mas ética e existencial: o que significa fazer música nestas circunstâncias? A resposta não é simples. A música não redimia o sistema, nem o tornava menos cruel. Mas, para aquelas mulheres, podia preservar algo essencial: uma centelha de identidade, uma disciplina interior, uma memória de humanidade que o campo procurava apagar.

Há aqui uma tensão que não se resolve. A mesma música que servia para ordenar a opressão era, ao mesmo tempo, o último espaço de liberdade interior. Não uma liberdade exterior — essa estava anulada —, mas a possibilidade de ainda agir, ainda interpretar, ainda escolher, mesmo dentro de limites extremos. Cada nota transportava essa ambiguidade: submissão e resistência, instrumento do poder e afirmação do ser.

Talvez seja esse o verdadeiro legado da Orquestra Feminina de Auschwitz. Não uma redenção pela arte, mas um testemunho da complexidade humana em condições-limite. Mostra-nos que, mesmo quando tudo parece perdido, subsiste uma dimensão irreprimível do humano — não pura, não heroica no sentido clássico, mas resistente, contraditória, profundamente real.

É por isso que esta história continua a interpelar-nos. Obriga-nos a abandonar juízos fáceis e a encarar uma verdade exigente: a dignidade humana não desaparece, mas pode coexistir com a dor, com a ambiguidade e com escolhas impossíveis. A música, em Auschwitz, não salvou o mundo. Mas, para algumas pessoas, salvou o suficiente para que hoje ainda possamos escutar — através da memória — aquilo que persistiu de humano no meio do inumano.

Nota: 

Anne Seba, A Orquestra Feminina de Auschwitz, St Martin's Press, 2025.

Francisco Vaz

23 de Abril de 2026

quarta-feira, 22 de abril de 2026

Leão XIV

Autoridade moral global

O tempo que nos é dado viver em muito se assemelha com a Idade Média, em que reis e imperadores se insurgiam contra o pontífice romano e, sob o risco de excomunhão, fomentavam a ascensão de antipapas.

O ataque de Donald Trump a Robert Francis Prevost tem algo de tão desmedido que parece deslocar as relações internacionais para um plano quase irreal, próximo de uma Gotham City. Peter Thiel, o poderoso tecnocrata libertário embriagado pela pós-democracia, agora precisa decidir: ou o Papa é o Anticristo ou Trump é o Anticristo. 

A tensão atingiu tal grau que as soluções diplomáticas clássicas se tornam difíceis de imaginar. As imagens que surgem são deliberadamente excessivas: Trump em penitência pública às portas de Roma, ou, no extremo oposto, um Papa alvo de uma operação clandestina. Hipérboles, certamente — mas reveladoras da degradação do discurso e da crescente incapacidade de mediação racional.

Importa, por isso, ir além do ruído e fixar três ideias essenciais.

A primeira prende-se com o Conclave. Frequentemente descrito como um colégio envelhecido e distante do mundo contemporâneo, voltou a revelar uma notável lucidez geopolítica. Nas últimas décadas, com exceção da eleição de Joseph Ratzinger — menos vocacionado para a arena internacional —, os cardeais escolheram figuras com clara projeção global: Karol Wojtyła, no contexto da Guerra Fria; Jorge Mario Bergoglio, primeiro pontífice oriundo do Sul Global; e agora Leão XIV, um papa norte-americano com profundas ligações ao Peru. A sua eleição representa mais um passo na internacionalização da Igreja, impulsionada por um colégio cardinalício cada vez mais marcado pelo Sul Global — que, de forma significativa, escolheu um nome vindo da própria superpotência americana.

A segunda ideia diz respeito ao presidente dos Estados Unidos. As suas declarações, classificando o Papa como “fraco” ou “incompetente”, não são apenas desproporcionadas — são, para usar a célebre expressão de Charles-Maurice de Talleyrand, piores do que um erro: são uma imprudência. Ao atacar o chefe da Igreja Católica, Trump arrisca afastar não só setores progressistas, mas também parte do eleitorado conservador católico, já desconfortável com algumas das suas posições.

O efeito mais visível desse ataque é, aliás, paradoxal: acabou por transformar Leão XIV numa referência moral de oposição ao trumpismo. Não por escolha própria. O Papa procurou inicialmente manter a tradição diplomática da Santa Sé, evitando confrontos diretos. Mas a escalada retórica — incluindo ameaças de guerra — acabou por o obrigar a uma posição mais clara. As suas palavras, evocando o profeta Isaías ou apelando à rejeição de conflitos injustos, assinalam essa inflexão.

Quando confrontado diretamente com Trump, Leão XIV respondeu com sobriedade: não pretende entrar num confronto político, mas reafirma princípios que considera inegociáveis — a paz, a dignidade humana e a fidelidade à mensagem evangélica.

Resta uma última nota, talvez a mais significativa. Num mundo em rápida transformação, onde normas e equilíbrios se fragmentam, a Igreja Católica — com todas as suas imperfeições históricas — reaparece como um dos poucos atores com autoridade moral global. Sob a liderança de Leão XIV, afirma-se como voz de diálogo, de contenção e de defesa dos mais vulneráveis.

Num tempo marcado pelo ruído e pela radicalização, essa voz não é apenas relevante. É, talvez, indispensável.

Nota:

Reflexão inspirada no artigo de Marco Politi, publicado por Il Fatto Quotidiano em 13-04-2026.

Francisco Vaz

22 de Abril de 2026