Pecado original

Pecado original

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

Criação divina sem pecado humano

Uma reflexão à luz da liberdade e do amor


«A radical incapacidade de viver no amor filial não é pecado. Pecado tem de ser um acto voluntário mau contra Deus e contra o ser humano, amado por Deus.» 


                Armindo dos Santos Vaz


Esta afirmação coloca, desde o início, um critério decisivo para a compreensão cristã do pecado: o pecado não pertence à condição humana enquanto tal, mas ao exercício concreto e livre da liberdade. A incapacidade radical de viver no amor filial — experiência real e universal — não constitui culpa moral. Ela expressa antes a fragilidade própria de um ser criado, finito, histórico, chamado ao amor, mas ainda não plenamente realizado nele.


Se o pecado exige voluntariedade, então a criação divina não pode ser pensada como portadora de culpa. Deus não cria no pecado, nem cria para o pecado. A criação é boa porque procede do amor e é orientada para o amor. Confundir limite com pecado seria negar a bondade originária da criação e transformar a finitude em falha moral.


É neste horizonte que o padre Armindo Vaz sublinha o carácter cristológico da questão. Jesus não anuncia um pecado original herdado nem se refere às origens míticas da humanidade. O seu apelo é sempre pessoal: conversão, decisão, mudança de vida. O pecado de que Jesus fala é sempre o pecado cometido, não o pecado transmitido; é o pecado de sujeitos livres e responsáveis, não de uma natureza previamente condenada.


Também os textos bíblicos fundamentais frequentemente invocados — Gn 2–3 e Rm 5,12–21 — não impõem a ideia de um pecado original no sentido clássico. O relato do Génesis não descreve uma “queda” ontológica da humanidade, mas apresenta  simbolicamente a condição humana marcada pela ambiguidade da liberdade: entre confiança e suspeita, entre acolhimento da vida como dom e apropriação autónoma. Paulo, por sua vez, ao reler Gn 2–3, fala do pecado actual, histórico e reiterado, e não de uma culpa herdada biologicamente. O seu discurso visa mostrar a universalidade do pecado vivido, não a transmissão de uma culpa de origem.


Deste modo, afirmar uma criação divina sem pecado humano não elimina a gravidade do mal, mas desloca a sua raiz: o mal nasce na história da liberdade, não no acto criador de Deus. O ser humano não nasce culpado, nasce vulnerável e chamado. A salvação cristã não consiste em apagar uma mancha original, mas em conduzir a humanidade à plenitude do amor filial que desde sempre lhe foi prometida.


A criação permanece, assim, o primeiro lugar da graça — e o pecado, longe de ser destino, permanece sempre uma possibilidade trágica, mas nunca necessária.


Francisco Vaz

1 de Fevereiro de 2026

sábado, 31 de janeiro de 2026

A invasão da Ucrânia - uma leitura Ética e Política

Causa próxima, causa remota e causa justa: uma leitura ética e política da invasão Russa da Ucrânia

A invasão russa da Ucrânia exige uma análise que ultrapasse tanto a descrição factual como a explicação meramente estratégica. Para tal, é decisivo clarificar previamente o significado de ética e política, pois a confusão entre estes domínios compromete qualquer juízo sério sobre causas, responsabilidades e legitimidade.

Entendida na sua aceção clássica, a ética remete para o êthos: o modo de ser, o caráter e a interioridade de onde brotam os atos humanos. A ética é, assim, o domínio originário da ação humana, inseparável da ontologia do ser humano enquanto agente racional e livre. Não se trata de um código externo de normas, mas da realidade interior a partir da qual o agir se torna possível. Uma ética desligada desta fundamentação ontológica não possui substância real.

A política nasce quando essa ação, originada na interioridade ética, transcende o indivíduo e entra em relação com outra entidade igualmente ética. A política é, portanto, o domínio do encontro entre éticas distintas, o espaço relacional onde ações humanas se cruzam, colidem ou cooperam. Toda a relação, enquanto relação, é essencial e substancialmente política. Neste sentido rigoroso, a política não é um campo separado da ética, mas a sua projeção relacional necessária.

É neste enquadramento que a distinção entre causa próxima, causa remota e causa justa adquire pleno significado.

A causa próxima da guerra na Ucrânia é clara: a decisão consciente da liderança russa de ordenar a invasão militar de um Estado soberano. Trata-se de um ato humano concreto, oriundo de uma interioridade ética específica e traduzido numa ação política efetiva. Sem essa decisão, nenhuma circunstância histórica teria produzido a guerra naquele momento. A causa próxima é, assim, simultaneamente ética na sua origem e política no seu efeito.

A causa remota corresponde ao conjunto de condições antecedentes que moldam o contexto da ação: heranças históricas, rearranjos geopolíticos, perceções de ameaça, disputas identitárias e estruturas institucionais. Estas causas não são irrelevantes, mas a sua função é limitada. Elas configuram o campo do possível, sugerem fins, orientam expectativas — aproximando-se do papel de causas formais ou finais —, mas não determinam a ação. Nenhuma causa remota é causa eficiente. A transformação da possibilidade em ato exige sempre uma decisão humana concreta.

A tendência moderna para explicar conflitos quase exclusivamente por “causas profundas” ou “estruturais” acaba por obscurecer este ponto decisivo: não são as estruturas que agem, mas os homens. Atribuir a guerra a abstrações impessoais é dissolver a responsabilidade ética na linguagem do inevitável. Tal operação é intelectualmente sedutora, mas filosoficamente falaciosa.

A causa justa situa-se no mesmo domínio ético de onde provém a causa próxima, mas introduz um critério adicional: o da retidão moral da ação. Uma ação pode ter causas próximas e remotas perfeitamente inteligíveis e, ainda assim, ser eticamente injustificável. A causa justa não nasce da eficácia política nem da coerência estratégica, mas da conformidade da decisão com a razão moral, com a proporcionalidade dos meios e com o respeito pela dignidade humana.

As justificações apresentadas pela Federação Russa — autodefesa preventiva, proteção de populações ou correção de alegadas injustiças históricas — falham neste ponto essencial. Mesmo admitindo a existência de causas remotas relevantes, a decisão de recorrer à violência armada em larga escala, violando a soberania de outro Estado e infligindo sofrimento massivo a populações civis, não encontra fundamento ético legítimo.

Em síntese, a distinção entre causa próxima, causa remota e causa justa só é plenamente compreensível quando se reconhece que toda a ação política tem origem ética. A política é o espaço relacional das ações humanas; a ética é a sua fonte ontológica.

Explicar um conflito é um exercício político necessário; justificá-lo é um juízo ético exigente. Confundir estes planos — ou reduzir a ética a um produto das circunstâncias políticas — conduz à normalização da violência e à erosão da responsabilidade humana.

A guerra, longe de ser um destino imposto pelas estruturas, é sempre o resultado de uma escolha. Escolha humana, o mesmo é dizer, ética.


Francisco Vaz

13 de Janeiro de 2026

sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

Churchill e Roosevelt

Uma amizade que salvou o mundo

Poucas relações pessoais entre líderes políticos tiveram um impacto tão profundo na história contemporânea como a amizade entre Winston Churchill e Franklin D. Roosevelt. Mais do que uma aliança circunstancial, a relação entre o primeiro-ministro britânico e o presidente americano foi um verdadeiro eixo moral, político e estratégico que permitiu às democracias sobreviver e, finalmente, derrotar dois poderes tirânicos que ameaçavam o mundo.
Esses poderes eram o nazismo hitleriano e o nacionalismo autocrático da ditadura militar japonesa. Embora distintos nas suas formas, partilhavam traços fundamentais: ideologias racistas, projetos expansionistas e a convicção de pertencerem a raças superiores destinadas a dominar vastos espaços geográficos. Hitler aspirava à hegemonia da Eurásia; Hirohito e a sua entourage militar pretendiam submeter o continente asiático sob a chamada Esfera de Co-Prosperidade da Grande Ásia Oriental.
Ambos acreditavam que a força legitimava o direito e que a guerra era um instrumento natural de organização do mundo. Se tivessem prevalecido, o resultado último teria sido não a ordem, mas a aniquilação mútua e generalizada.
Churchill destacou-se como a figura da resistência. O seu carisma, a sua retórica e, sobretudo, a sua obstinação permitiram ao Reino Unido resistir quando tudo parecia perdido. Em 1940, a Grã-Bretanha esteve à beira do colapso económico, militar e psicológico. Ainda assim, Churchill recusou qualquer compromisso com a tirania, mantendo o país em guerra o tempo suficiente na esperança de que o equilíbrio estratégico pudesse mudar.
Esse tempo revelou-se decisivo. Do outro lado do Atlântico, Roosevelt compreendeu precocemente o perigo das ideologias totalitárias. Percebeu que, se o Reino Unido sossobrasse, os Estados Unidos seriam a próxima preza de Hitler e de Hirohito: seriam atacados e pressionados em ambos os oceanos. Antes mesmo da entrada formal dos EUA na guerra, Roosevelt colocou ao serviço dos Aliados a imensa capacidade industrial americana. O programa Lend-Lease transformou os Estados Unidos no verdadeiro arsenal, não só das democracias, mas também da União Soviética e da China de Chiang Kai-shek.
A indústria de guerra americana tornou-se, de facto, um dos principais fatores da vitória, complementada mais tarde pelo enorme número de homens mobilizados para todos os teatros de operações. A Segunda Guerra Mundial revelou-se, acima de tudo, uma guerra industrial, de logística e de coordenação — domínios onde a cooperação anglo-americana foi decisiva.
Churchill e Roosevelt encontraram-se repetidamente ao longo do conflito, acompanhados pelos respetivos estados-maiores, o Combined Chiefs of Staff. Apesar de tensões, rivalidades e diferenças estratégicas, conseguiram manter a unidade essencial. As decisões eram difíceis, os recursos limitados e as prioridades nem sempre coincidentes, mas prevaleceu a consciência de um objetivo comum.
Uma das figuras mais controversas nesse processo foi o almirante Ernest King, Comandante da Marinha dos EUA. O seu temperamento áspero e direto levava-o a questionar constantemente as prioridades estratégicas, sobretudo quando confrontado com os seus homólogos britânicos, que defendiam um maior esforço no Atlântico e na Europa, enquanto King insistia na necessidade de reforçar o teatro do Pacífico. Ainda assim, mesmo essas fricções contribuíram para decisões mais ponderadas, sem nunca romper a aliança fundamental.
A amizade entre Churchill e Roosevelt recorda-nos que as democracias não vencem sozinhas nem apenas pela força. Vencem quando confiam umas nas outras, quando partilham uma visão estratégica e quando sabem ceder sem abdicar do essencial. Hoje, num contexto de desconfiança crescente entre europeus e americanos, esta lição é inescapável: a liberdade nunca saiu fortalecida da divisão. Foi a cooperação entre as democracias, mesmo que imperfeita, que preservou a liberdade nos momentos decisivos.

Francisco Vaz
29 de Janeiro de 2026

quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

Os EUA e a expanção territorial

Entre Resistência Indígena e Políticas Migratórias

Contemporâneas

A história dos Estados Unidos é marcada por tensões entre expansão territorial e diversidade cultural. Líderes indígenas como Geronimo, dos Apaches, e Sitting Bull, dos Sioux, simbolizam a resistência contra a invasão das suas terras. Geronimo escapou por décadas do Exército americano, utilizando estratégias de guerrilha e profundo conhecimento do território. Sitting Bull, por sua vez, liderou os Sioux na Batalha de Little Bighorn (1876), derrotando temporariamente as forças do general Custer. As suas histórias expõem as contradições de um país construído sobre a colonização e o deslocamento forçado de povos originários.

Essa ironia histórica ressurge nos dias atuais, quando líderes americanos promovem políticas rígidas de imigração. As medidas severas de expulsão de migrantes da atual Administração Americana tornaram-se símbolos de proteção da segurança nacional e do emprego para cidadãos americanos. No entanto, Trump, ele próprio, é descendente de emigrantes — os seus antepassados vieram da Alemanha e da Escócia em busca de oportunidades. Sob uma lógica estrita de expulsão baseada na origem, ele poderia simbolicamente ser alvo das mesmas medidas que defende, revelando uma contradição histórica significativa.

A comparação entre a resistência indígena e a política migratória contemporânea evidencia padrões recorrentes de exclusão e centralização de poder. Enquanto Geronimo e Sitting Bull lutavam para proteger as suas terras e as suas culturas, os Estados Unidos, agora governados por descendentes de imigrantes, erguem barreiras para novos migrantes que buscam oportunidades no mesmo território. Isso evidencia uma liderança que frequentemente ignora as lições do passado, escolhendo seletivamente quais histórias e direitos respeitar.

No fundo, a história americana mostra que liderança eficaz exige equilíbrio entre poder, justiça e memória histórica. A resistência indígena lembra-nos que direitos, cultura e dignidade não podem ser subestimados. A política migratória contemporânea, por outro lado, revela como a exclusão e a seletividade histórica podem contradizer os princípios que o país afirma defender. A ironia é clara: um país construído por imigrantes decide, por vezes, expulsar os imigrantes, repetindo — em nova forma — padrões de exclusão que seus próprios povos originários sofreram.


Francisco Vaz

28/01/2026

Descer para subir

Descer para subir: o Jordão de Cristo e o Pireu de Sócrates

Há gestos fundadores que não se impõem pela subida, mas pela descida. Antes de qualquer elevação espiritual ou intelectual, há um movimento prévio, quase paradoxal: descer. Tanto no relato evangélico do baptismo de Jesus no rio Jordão como na abertura da República de Platão, quando Sócrates desce ao porto do Pireu, encontramos esse mesmo gesto simbólico inaugural. Em ambos os casos, a verdade não começa no cume, mas no ponto mais baixo.

O Jordão, onde Jesus é baptizado, corre muitos metros abaixo do nível médio do mar. Geograficamente, é um dos lugares mais baixos da Terra; simbolicamente, é o lugar da humilhação, da exposição e da mistura com a multidão. Jesus, segundo a narrativa evangélica, não se coloca acima dos outros, mas entra na fila dos pecadores, submetendo-se a um rito de conversão que, em rigor, não lhe era necessário. Antes de ensinar, curar ou revelar, ele desce. A sua missão começa não com um discurso, mas com um gesto de abaixamento.

Algo análogo ocorre com Sócrates. A República inicia-se com uma frase muitas vezes negligenciada: “Desci ontem ao Pireu”. O Pireu não é a Atenas elevada, ordenada e política; é o porto, lugar de comércio, mistura de povos, interesses, ruído e opiniões. É o espaço da doxa, da multiplicidade e da confusão. Sócrates não começa a sua investigação sobre a justiça recolhido num espaço puro ou académico; ele desce ao mundo comum, ao espaço onde as ideias ainda não foram depuradas. A filosofia nasce, assim, de uma descida ao concreto.

Em ambos os casos, a descida não é um acidente narrativo, mas uma condição de possibilidade. Cristo só se eleva — na revelação da sua identidade, na transfiguração, na ressurreição — porque primeiro se esvazia. Sócrates só pode conduzir os seus interlocutores à contemplação da ideia do Bem porque começa no terreno instável das opiniões, das definições insuficientes e dos erros humanos. A elevação sem descida seria ilusão; o alto sem contacto com o baixo seria arrogância.

Há ainda um ponto decisivo de convergência: a descida implica risco. Jesus, ao entrarnas águas do Jordão, expõe-se à incompreensão, ao escândalo e, mais tarde, à rejeição. Sócrates, ao frequentar o Pireu e dialogar com todos, expõe-se à hostilidade da cidade, à acusação de corromper os jovens e, finalmente, à morte. A verdade que nasce da descida não é neutra, ela desestabiliza, incomoda e tem um preço.

Contudo, a analogia não elimina as diferenças. A descida de Cristo é ontológica e redentora: Deus entra no mais baixo da condição humana para a transformar desde dentro. A descida de Sócrates é metodológica e pedagógica: o filósofo entra no mundo das opiniões para conduzir a alma à luz do inteligível. Mas ambas convergem num mesmo princípio: não se salva nem se ilumina o humano a partir de fora, mas a partir de dentro.

O Jordão abaixo do nível do mar e o Pireu abaixo da Acrópole dizem a mesma coisa em linguagens diferentes. A verdade não se impõe no distanciamento, mas na proximidade. A verdadeira elevação não despreza o que é baixo: nasce dele. Descer não é negar a elevação, mas torná-la possível. Num tempo em que se confunde grandeza com exibição e altura com superioridade, Cristo e Sócrates recordam que o verdadeiro começo está no gesto humilde de descer. Só quem aceita tocar o fundo — geográfico, existencial ou intelectual — pode, com legitimidade, falar de elevação.


Francisco Vaz

27 de Janeiro de 2026

Manifesto

Manifesto contra a normalização da barbárie

Nojo e raiva são reações humanas primárias diante da injustiça nua e crua. As imagens de um homem baleado, indefeso, caído no chão em Minneapolis não me provocam apenas repugnância moral. Elas confirmam uma convicção mais profunda: a de que certas formas de barbárie não ficaram definitivamente enterradas no século XX.

A barbárie não regressou. Na verdade, nunca partiu. O nazismo não foi derrotadoenquanto lógica, mas apenas enquanto regime. Sobreviveu na hierarquização das vidas, na desumanização administrada, na violência justificada como necessidade. Como advertiu Hannah Arendt, o mal moderno não grita — executa procedimentos.

A série O Homem do Castelo Alto — uma distopia que imagina um mundo em que o nazismo triunfou — não descreve algo que aconteceu, mas algo que podia ter acontecido. É precisamente essa a função da distopia: revelar, por exagero ou deslocamento, as fragilidades morais, políticas e institucionais do presente. Quando eventos reais começam a ecoar esses cenários fictícios, a ficção deixa de ser apenas um exercício imaginativo e transforma-se num espelho perturbador.

A distopia não é um futuro imaginário, é o nome filosófico do presente quando a exceção se torna regra. O que chamamos segurança substituiu a dignidade, o medo tornou-se método, a força passou a ser argumento. Auschwitz, como escreveu Adorno, não pertence ao passado — é a possibilidade sempre presente de uma razão desligada da ética.

Acreditámos que o século XXI estaria imunizado pela memória da catástrofe. Enganámo-nos. As democracias não morrem apenas por golpes, mas também por habituação: quando a violência deixa de escandalizar e passa a integrar o quotidiano. Este manifesto não propõe esperança fácil. Propõe vigilância. Enquanto o nojo e a raiva persistirem, ainda há resistência. Quando desaparecerem, a distopia deixará de ser advertência — e passará a ser o nosso modo de existência.


Francisco Vaz

26/01/2026

Amor e música

Amor, harmonia e contraponto

Uma relação amorosa pode ser comparada a uma composição musical, onde duas vozes distintas coexistem no mesmo espaço sonoro. Tal como na música, o amor não se constrói apenas a partir da perfeita harmonia, mas também do contraponto — da convivência entre diferenças que, longe de se anularem, se enriquecem mutuamente.

Na harmonia, as notas soam em concordância, criando estabilidade, repouso e sensação de unidade. Do mesmo modo, num casal, há momentos de concordância: valores partilhados, afetos comuns, gestos de cuidado e cumplicidade. São esses momentos que criam segurança emocional e permitem reconhecer o “tom” da relação, ou seja, o seu centro.

No entanto, uma relação feita apenas de harmonia absoluta tornar-se-ia previsível e estática. É aqui que entra o contraponto. Na música, o contraponto permite que vozes independentes sigam caminhos próprios, por vezes criando tensões momentâneas, dissonâncias que desafiam o ouvido. No amor, essas dissonâncias manifestam-se nas diferenças de personalidade, nas discordâncias, nos conflitos e nas falhas de comunicação. À semelhança da música, estas tensões não são erros em si mesmas, são oportunidades de movimento e crescimento.

As dissonâncias existem — tanto na música como nas relações humanas. Uma palavra mal dita, um silêncio prolongado, uma expectativa frustrada pode soar como nota fora do tom. Mas, tal como numa boa composição, o essencial não é evitar completamente a dissonância, mas saber resolvê-la. A escuta atenta, o ajuste mútuo e o respeito pelo tempo do outro permitem reencontrar o equilíbrio.

Ao contrário de duas notas que se fundem numa só, as pessoas são seres ontologicamente incomunicáveis. O contraponto lembra-nos que uma relação não exige uniformidade, mas cooperação, que cada voz, ao manter a sua identidade, contribui para um todo mais rico e expressivo.

Assim, tal como numa obra musical bem construída, uma relação amorosa bem-sucedida não é aquela onde nunca há tensão, mas aquela onde harmonia e contraponto coexistem, transformando concordâncias, discordâncias e até, por vezes, desafinações num percurso partilhado em direção a um bem maior.

Francisco Vaz

24/01/202