Nimitz, a política e o uso da força
Quando, em junho de 1942, Chester W. Nimitz decidiu enfrentar a força japonesa que avançava sobre Midway, tomou uma das decisões estratégicas mais importantes da Segunda Guerra Mundial. A Marinha dos Estados Unidos ainda sofria as consequências de Pearl Harbor; o Japão conservava a iniciativa no Pacífico; os porta-aviões americanos constituíam um recurso escasso e dificilmente substituível; e o Yorktown, gravemente atingido no Mar de Coral, chegara a Pearl Harbor necessitando de reparações urgentes.
A narrativa tradicional de Midway acentuou frequentemente a audácia, a surpresa, o acaso e até a ideia de «milagre». Tudo isso pertence à batalha. Mas permanece uma questão anterior e talvez mais importante: que forma de pensar permitiu a Nimitz aceitar aquele risco?
Um documento escrito vinte anos antes oferece uma pista particularmente interessante.
Em 1922, o então Commander Chester W. Nimitz apresentou no Naval War College uma tese simplesmente intitulada Policy. Não estamos perante uma obra maior de teoria estratégica. É um trabalho académico-profissional de um oficial de 37 anos. Mas, quando lido à luz daquilo que sabemos sobre o futuro comandante da Pacific Fleet, o documento adquire outro significado: permite surpreender alguns elementos de uma arquitetura intelectual que encontraremos, amadurecida pela experiência, no Nimitz de 1942.
A guerra é política pelo uso da força
Uma das afirmações fundamentais da tese é inequívoca: “War is merely an instrument of policy.”
A proximidade com Clausewitz é evidente. A guerra não possui finalidade autónoma. Permanece subordinada à política e aos fins que esta estabelece.
Mas talvez possamos levar esta afirmação um pouco mais longe: a guerra é política pelo uso da força.
Esta formulação exige, porém, uma distinção essencial. Força e violência não são necessariamente sinónimos.
É aqui que a reflexão onto-ético-política de Américo Pereira nos oferece um instrumento conceptual particularmente fecundo. Em Acto de Guerra, Pereira distingue a força necessária à realização de um ato do excesso que a perverte. Um determinado fim pode exigir força; mas apenas a força adequada e necessária. Quando esta ultrapassa a medida exigida pelo fim, transforma-se em violência. A questão não reside, portanto, simplesmente na existência da força, mas na sua adequação, finalidade e medida. (LusoSofia)
A distinção é decisiva para pensar a guerra.
A política pode recorrer à força para defender uma comunidade, impedir uma agressão ou preservar um bem ameaçado. Mas, ao fazê-lo, assume uma responsabilidade ética que não desaparece pelo simples facto de a ação passar para as mãos dos militares. A força não deixa de estar subordinada à finalidade política; e a própria finalidade política não deixa de estar sujeita a um juízo ético.
Poderíamos então reformular a relação entre política e guerra desta maneira:
a política determina o fim; a estratégia ordena os meios; a força torna possível a ação; a ética estabelece a sua medida.
É sob esta perspetiva que a tese de Nimitz se torna especialmente interessante.
O estadista e o comandante
Nimitz estabelece uma distinção clara entre as responsabilidades do poder político e as do comando militar.
Cabe ao estadista definir a política. Cabe ao militar preparar os instrumentos necessários e, quando determinado, empregá-los. Mas esta separação de responsabilidades não significa ignorância recíproca.
O estadista precisa de compreender as possibilidades e limitações do instrumento militar. O comandante, por sua vez, não pode agir adequadamente sem compreender a finalidade política para a qual a força lhe foi confiada.
Encontramos aqui uma conceção relativamente sofisticada das relações político-militares.
O comandante não determina os fins últimos da guerra. Mas também não é um mero executante mecânico. Deve compreender o propósito superior da ação para poder decidir, entre diferentes possibilidades militares, aquela que melhor serve a finalidade política.
A estratégia nasce precisamente nesse espaço.
Entre o que politicamente se pretende e aquilo que militarmente é possível.
Preparação não é militarismo
Há uma segunda ideia em Policy que merece particular atenção.
Nimitz insiste em que determinados instrumentos militares não podem ser improvisados depois de começarem as hostilidades. Navios, grandes peças de artilharia, organização logística, capacidade industrial e preparação humana necessitam de tempo.
Uma nação que espere pelo início da guerra para começar a preparar os instrumentos necessários à sua defesa poderá descobrir que perdeu antecipadamente parte da sua liberdade de ação.
A preparação militar não é, nesta perspetiva, necessariamente expressão de militarismo.
Pode ser precisamente o contrário: a condição material que permite à política conservar liberdade de decisão.
Existe aqui uma ideia fundamental para qualquer teoria do poder: uma política que não dispõe dos meios necessários para sustentar os compromissos que assume corre o risco de deixar de ser estratégia e transformar-se numa simples declaração de intenções.
O problema não consiste, portanto, em possuir força por possuir força. Consiste em dispor da força necessária para que a decisão política continue a ser efetivamente uma decisão.
Mas a leitura de Américo Pereira permite acrescentar uma condição que o texto de Nimitz não desenvolve plenamente: possuir força não legitima automaticamente o seu emprego. O poder político e militar permanece responsável pela medida desse uso. O excesso da força é precisamente aquilo que a converte em violência. (LusoSofia)
Temos assim duas exigências que não se contradizem: força suficiente para garantir liberdade de ação; medida suficiente para impedir que a força se autonomize em violência.
O Pacífico no horizonte
A tese torna-se ainda mais interessante quando Nimitz abandona as considerações gerais e olha para o Pacífico.
Em 1922, analisa a ascensão do Japão, a vitória sobre a Rússia, a expansão japonesa na Coreia e na China, a aliança anglo-japonesa e as crescentes fricções entre Tóquio e Washington.
Não há aqui qualquer previsão de Pearl Harbor. Seria anacrónico procurá-la.
Há, porém, a perceção de uma transformação estrutural do equilíbrio de poder.
O Japão emergira como grande potência e os seus interesses começavam a entrar em tensão com os dos Estados Unidos. Simultaneamente, Nimitz compreendia os limites de uma política externa que proclamasse determinados princípios sem possuir capacidade suficiente para lhes dar credibilidade.
A questão colocada implicitamente pela sua análise permanece profundamente atual:
até onde pode um Estado comprometer-se politicamente quando não dispõe dos meios necessários para sustentar esse compromisso?
Em 1922, o raciocínio de Nimitz poderia resumir-se numa sequência:
interesse nacional → política → diplomacia → poder → preparação militar.
Ainda faltava alguma coisa.
Faltava a experiência da decisão em guerra.
O elemento que faltava: a incerteza
Vinte anos depois, no Pacífico, Nimitz teria de acrescentar àquele pensamento uma dimensão que nenhum exercício académico poderia reproduzir inteiramente: decidir perante a incerteza.
Midway é incompreensível sem esta dimensão.
Nimitz não sabia tudo.
A inteligência americana fornecia-lhe uma imagem extraordinariamente valiosa das intenções japonesas, mas não eliminava a incerteza. Permaneciam dúvidas sobre forças, posições, tempos e intenções. E o comandante tinha consciência de que, se a avaliação estivesse errada, poderia perder uma parte essencial do poder aeronaval americano no Pacífico.
A decisão não resultou, portanto, de certeza.
Resultou da avaliação de probabilidades.
Ao esquema intelectual de 1922 acrescentava-se agora uma nova sequência:
intelligence → uncertainty → enemy intentions → probability → risk → decision.
É neste ponto que surge aquilo que talvez melhor caracterize o Nimitz maduro: o calculated risk.
Risco calculado não significa prudência passiva. Também não significa temeridade.
Significa determinar quanta força deve ser comprometida, em que circunstâncias e para alcançar que objetivo, sem colocar desnecessariamente em causa aquilo que é necessário preservar.
Voltamos, curiosamente, à questão da medida.
A medida da força
É precisamente aqui que a aproximação entre Nimitz e a reflexão de Américo Pereira se torna intelectualmente sugestiva, embora pertençam a universos e épocas muito diferentes.
Para Pereira, a questão fundamental não é a eliminação abstrata de toda a força. Há atos cuja realização exige força. O problema começa quando se ultrapassa a força necessária: é nesse excesso que se instala a violência. A virtude surge precisamente como capacidade de encontrar a medida adequada do ato. (LusoSofia)
Também o calculated risk é, num plano diferente, uma procura de medida.
Que força empregar?
Quanto arriscar?
O que preservar?
Que objetivo justifica esse risco?
Até onde pode ir o comandante sem comprometer o objetivo estratégico superior?
Esta não é apenas uma questão técnica. É uma questão de responsabilidade.
O comandante dispõe de navios, aviões e armas, mas dispõe sobretudo de vidas humanas que lhe foram confiadas. Não pode recusá-las sistematicamente ao risco, porque nesse caso deixaria de cumprir a missão; mas também não pode sacrificá-las inutilmente.
Entre a inação e a temeridade encontra-se o espaço próprio do comando.
É nesse espaço que se decide.
Midway não foi um milagre
A imagem de Midway como «milagre» é sedutora.
Quatro porta-aviões japoneses perdidos contra um americano; esquadrilhas que encontram o inimigo em momentos decisivos; aviões americanos que chegam sobre os porta-aviões japoneses numa sequência de acontecimentos dificilmente repetível.
O acaso desempenhou indiscutivelmente um papel.
Mas o acaso não explica por que razão os porta-aviões americanos estavam ali.
Não explica por que Nimitz decidiu concentrar as suas forças a nordeste de Midway.
Não explica por que aceitou comprometer recursos que os Estados Unidos dificilmente poderiam substituir no curto prazo.
E, sobretudo, não explica a decisão anterior à batalha.
A sorte pode ajudar a compreender o resultado de determinados momentos do combate. Não explica a arquitetura estratégica que tornou o combate possível.
É aqui que Policy, escrito vinte anos antes, ganha inesperada relevância.
O jovem Nimitz já compreendia que a guerra permanecia subordinada à política; que a política necessitava de meios; que esses meios tinham de ser preparados antes da crise; e que o comandante tinha a responsabilidade de transformar os recursos disponíveis numa ação coerente com o objetivo superior.
O Nimitz de 1942 acrescentaria o elemento decisivo:
a capacidade de medir o risco quando a incerteza não pode ser eliminada.
De Newport a Midway
Policy não deve ser transformada numa profecia de Midway.
Seria igualmente errado procurar no jovem oficial de 1922 todas as qualidades do comandante-em-chefe de 1942. Entre ambos existem vinte anos de experiência, estudo, comando, responsabilidade e transformação tecnológica.
Algumas páginas da tese envelheceram também profundamente. A análise das Filipinas contém um paternalismo colonial evidente e categorias civilizacionais próprias do pensamento político americano da época. Devem ser lidas criticamente, não desculpadas nem apagadas.
Mas talvez seja precisamente essa leitura não hagiográfica que permita perceber o verdadeiro valor do documento.
Policy deixa-nos observar um oficial ainda relativamente jovem a organizar intelectualmente problemas que, duas décadas depois, teria de enfrentar em circunstâncias extremas.
Política.
Poder.
Preparação.
Responsabilidade.
Força.
Risco.
Decisão.
Existe, portanto, uma continuidade entre Newport, em 1922, e Midway, em 1942. Não uma relação linear de causa e efeito, mas algo intelectualmente mais interessante: a formação progressiva de um hábito estratégico de pensar.
E talvez possamos resumir esse percurso numa fórmula:
Policy → Power → Preparedness → Calculated Risk.
Mas a esta sequência deve acrescentar-se uma última exigência: medida.
Porque a estratégia não consiste simplesmente em aplicar o máximo de força disponível. Consiste em aplicar a força necessária, no lugar necessário, no momento necessário e em função de um fim que a transcende.
É nesse sentido que a reflexão de Nimitz pode ser lida para além de Nimitz.
A guerra é política pelo uso da força. A estratégia é a inteligência que subordina essa força ao fim político. E a ética é aquilo que impede que a força, perdendo a medida, se transforme em violência.
Midway foi também uma decisão sobre essa medida.
E talvez seja essa uma das razões pelas quais, vinte anos depois de escrever Policy, Chester W. Nimitz estava preparado para decidir.