Aristóteles e Alexandre: a formação do homem entre o conhecimento, o carácter e a ação
A educação não é uma invenção da modernidade, nem um problema que tenha surgido com a escola pública, com a industrialização ou com as novas tecnologias. É uma questão tão antiga como a própria vida em comunidade. Desde que o ser humano compreendeu que não bastava gerar biologicamente os seus descendentes, mas que era necessário introduzi-los num mundo de princípios, conhecimentos, símbolos, deveres e responsabilidades, a educação tornou-se uma das tarefas fundamentais de cada sociedade.
Educar significa, antes de mais, transmitir uma determinada ideia de humanidade. Cada civilização educa segundo a imagem de homem que considera desejável. Por isso, toda a educação contém, mesmo quando não o reconhece, uma filosofia, uma ética e uma visão política. Perguntar «como devemos educar?» equivale sempre a perguntar: «Que espécie de ser humano queremos formar?» e «Que comunidade desejamos construir?».
É neste horizonte que a paideia grega e a relação entre Aristóteles e Alexandre continuam a interpelar-nos.
A paideia: formar o homem inteiro
Para os Gregos, a educação não se reduzia à aquisição de conhecimentos nem à preparação para uma profissão. A paideia era a formação integral do ser humano: inteligência, carácter, corpo, sensibilidade estética, capacidade de expressão e consciência cívica. O homem educado não era apenas aquele que sabia muitas coisas, mas aquele que aprendera a viver de acordo com uma determinada ideia de excelência — a aretê.
Na tradição homérica, esta excelência estava ligada à coragem, à honra e à capacidade de realizar grandes feitos. Com o desenvolvimento da polis, passou também a incluir a participação na vida pública, o domínio da palavra, a obediência às leis e a responsabilidade perante a comunidade. A educação deixou de visar apenas a formação do guerreiro ou do aristocrata e passou a procurar formar o cidadão.
A música educava a sensibilidade; a poesia transmitia modelos de conduta; a ginástica disciplinava o corpo; a filosofia ensinava a interrogar; a retórica preparava para a vida pública; a história preservava a memória das ações humanas. Não se tratava de acumular matérias independentes, mas de harmonizar as diferentes dimensões da pessoa.
Esta conceção contém uma verdade que a educação contemporânea frequentemente esquece: o conhecimento sem carácter pode produzir indivíduos competentes, mas não necessariamente pessoas justas; a técnica sem sabedoria aumenta o poder humano, mas não ensina a utilizá-lo; a informação sem critério multiplica as respostas, mas pode destruir a capacidade de formular as perguntas essenciais.
Aristóteles, educador de Alexandre
Quando Filipe II da Macedónia confiou a Aristóteles a educação do jovem Alexandre, não procurava apenas um professor. Procurava alguém capaz de preparar o futuro rei para compreender o mundo que um dia teria de governar.
Em Mieza, Alexandre e os seus companheiros receberam uma formação ampla. Estudaram poesia, filosofia, ética, política, medicina, geografia, ciências naturais e literatura. A leitura de Homero ocupava um lugar central. Segundo a tradição, Alexandre conservava consigo uma cópia da Ilíada, que lhe servia simultaneamente de inspiração heroica e de espelho moral. Aquiles oferecia-lhe um modelo de coragem e de procura da glória, embora também encerrasse uma advertência sobre os perigos da cólera, do orgulho e da desmedida.
Aristóteles terá procurado ensinar ao príncipe que governar não significava apenas exercer força. Exigia compreender a natureza humana, distinguir formas de governo, conhecer os costumes dos povos, deliberar perante circunstâncias incertas e subordinar as decisões a uma ideia de bem.
Na filosofia aristotélica, a virtude não nasce apenas do conhecimento abstrato. Forma-se pelo hábito. Tornamo-nos justos praticando atos justos, corajosos exercitando a coragem e moderados aprendendo a dominar os desejos. A educação é, portanto, uma construção gradual do carácter. Não basta explicar o bem; é necessário criar condições para que o bem se transforme numa disposição interior e numa prática continuada.
A prudência — a phronesis — assume aqui particular importância. Ela não é simples cautela, mas a capacidade de decidir corretamente em situações concretas, nas quais nenhuma regra pode substituir por inteiro o discernimento. Um governante pode possuir conhecimentos militares, riqueza e poder; se lhe faltar prudência, esses recursos tornam-se perigosos.
Alexandre: resultado e limite da educação
A educação recebida por Alexandre contribuiu certamente para ampliar a sua visão do mundo. A sua campanha na Ásia não foi apenas uma sucessão de conquistas militares. Foi também acompanhada por geógrafos, naturalistas, médicos e homens de cultura. As cidades por ele fundadas tornaram-se centros de circulação de pessoas, línguas, conhecimentos e costumes. A expansão macedónica favoreceu a difusão da cultura helénica e abriu o vasto espaço histórico a que chamamos mundo helenístico.
Alexandre revelou curiosidade pelos povos que encontrou e, progressivamente, procurou aproximar Macedónios, Gregos e Persas. Adotou práticas orientais, integrou estrangeiros no exército e na administração e promoveu uniões entre diferentes elites. Podemos discutir as motivações políticas destas medidas, mas elas mostram que a conquista o obrigou a ultrapassar algumas das fronteiras culturais do mundo em que fora educado.
Contudo, Alexandre não deve ser apresentado como o produto perfeito de um sistema educativo perfeito. A sua vida revela igualmente os limites da educação. O discípulo de Aristóteles foi capaz de atos de grande inteligência e magnanimidade, mas também de violência, impulsividade e desmedida. A destruição de Tebas, o incêndio de Persépolis, a morte de Clito e a execução de Parménion mostram como a paixão, a suspeita e o poder podem vencer os ensinamentos recebidos.
É precisamente por isso que a relação entre Aristóteles e Alexandre permanece exemplar. Não porque demonstre que uma boa educação produz automaticamente um homem bom, mas porque revela a grandeza e a fragilidade do ato educativo. O mestre pode oferecer conhecimentos, referências, hábitos e critérios; não pode substituir a liberdade do discípulo. Educar não é fabricar uma pessoa segundo um projeto previamente definido. É preparar uma liberdade para escolher e responder pelos seus atos.
Alexandre levou consigo Homero, a filosofia e a curiosidade científica ensinada por Aristóteles. Mas levou também a ambição, a sede de glória e a consciência de possuir um destino excecional. A educação ampliou-lhe o horizonte; não eliminou as contradições da sua natureza.
Os modelos educativos ao longo da História
A História da educação pode ser entendida como uma sucessão de respostas à mesma pergunta: que homem deve ser formado?
Em Esparta, predominava uma educação comunitária, militar e disciplinar. O indivíduo era preparado para servir a cidade, suportar a adversidade e combater. Em Atenas, apesar das diferenças sociais e das exclusões próprias da época, procurava-se uma formação mais ampla do cidadão, conjugando corpo, palavra, cultura e participação política.
Sócrates introduziu uma dimensão decisiva: educar não é depositar respostas no espírito do aluno, mas despertá-lo através da pergunta. O mestre não transmite apenas conteúdos; ajuda o discípulo a reconhecer a própria ignorância e a procurar racionalmente a verdade. Platão subordinou a educação à ascensão da alma em direção ao bem e à formação dos governantes. Aristóteles conferiu-lhe uma base mais concreta: hábitos, virtudes, experiência, razão prática e vida comunitária.
Em Roma, a educação orientou-se para a formação do cidadão, do jurista, do orador e do servidor da res publica. Cícero e Quintiliano insistiram na união entre eloquência e moralidade. Um bom orador não deveria ser apenas alguém capaz de persuadir, mas uma pessoa de bem dotada da arte da palavra.
O cristianismo introduziu uma transformação profunda. A educação passou a dirigir-se a uma pessoa dotada de dignidade própria, independentemente da sua origem ou condição. À herança greco-romana juntaram-se a interioridade, a consciência, a responsabilidade moral e a abertura à transcendência. Santo Agostinho mostrou que o verdadeiro mestre não se limita a falar exteriormente: ajuda a despertar no interior do discípulo a procura da verdade. Na Idade Média, os mosteiros preservaram textos e saberes, enquanto as escolas catedrais e as universidades organizaram o conhecimento através do diálogo entre fé e razão.
O humanismo renascentista recuperou os clássicos e colocou no centro a formação literária, moral e cívica. Erasmo defendeu uma educação assente na razão, na moderação e na paz. A Reforma acentuou a leitura individual e a alfabetização; a Reforma Católica reforçou a organização escolar e a formação intelectual, com particular expressão nos colégios da Companhia de Jesus.
Na modernidade, Coménio defendeu uma educação ordenada e progressiva, destinada, em princípio, a todos. Locke valorizou a experiência e a formação de hábitos. Rousseau chamou a atenção para a natureza e para as etapas do desenvolvimento da criança. Pestalozzi procurou educar a cabeça, o coração e as mãos. Herbart tentou sistematizar cientificamente o ensino.
Nos séculos XIX e XX, a industrialização e a construção dos Estados nacionais conduziram à escolarização em massa. A escola tornou-se instrumento de alfabetização, integração social e preparação profissional, mas também de disciplina e uniformização. Contra um ensino excessivamente verbal e passivo, surgiram vários movimentos renovadores. Montessori valorizou a autonomia da criança e o ambiente preparado; Dewey aproximou educação, experiência e democracia; Piaget estudou as etapas do desenvolvimento cognitivo; Vygotsky mostrou a importância da linguagem e da interação social; Paulo Freire apresentou a educação como formação da consciência crítica e rejeitou a ideia do aluno como simples recipiente.
Mais recentemente, apareceram modelos centrados em competências, projetos, interdisciplinaridade, aprendizagem cooperativa, inteligência emocional, personalização e tecnologias digitais. Muitos são apresentados como ruturas revolucionárias. Contudo, quando observados com atenção, retomam questões antigas: aprender fazendo, como já se encontrava na valorização grega do hábito; ensinar pela pergunta, como em Sócrates; respeitar o desenvolvimento do aluno, como em Rousseau; relacionar conhecimento e experiência, como em Aristóteles e Dewey; educar para a comunidade, como na tradição cívica antiga.
As metodologias mudam, os instrumentos aperfeiçoam-se e o conhecimento científico sobre a aprendizagem aumenta. Mas os grandes dilemas permanecem.
A ilusão da novidade permanente
A educação contemporânea sofre frequentemente da tentação de se considerar inteiramente nova. Cada reforma anuncia um novo paradigma, uma nova metodologia ou uma nova linguagem pedagógica. Contudo, poucas ideias educativas são absolutamente inéditas. Quase todas possuem antecedentes históricos e quase todas já conheceram aplicações com maior ou menor sucesso.
Isto não significa que devamos recusar a inovação. Significa que devemos recebê-la com memória e espírito crítico. Uma sociedade sem memória pedagógica corre o risco de repetir experiências antigas, apresentando-as como descobertas, e de recuperar também os erros que as acompanharam.
Nenhum método, isoladamente, resolve o problema da educação. A memorização pode tornar-se mecânica, mas sem memória não existe cultura. A autoridade pode degenerar em autoritarismo, mas sem autoridade responsável não há transmissão nem orientação. A liberdade pode favorecer a autonomia, mas, sem exigência, pode transformar-se em abandono. A tecnologia pode ampliar extraordinariamente o acesso ao conhecimento, mas também pode dispersar a atenção e enfraquecer a reflexão. A aprendizagem por projetos pode aproximar o saber da experiência, mas não substitui o estudo sistemático. A espontaneidade é valiosa, mas não dispensa esforço, disciplina e perseverança.
A História ensina-nos, assim, a desconfiar tanto do tradicionalismo rígido como da obsessão pela novidade. Educar exige equilíbrio — precisamente aquela procura do justo meio que Aristóteles colocou no centro da vida virtuosa.
O que pode ensinar-nos o exemplo de Alexandre?
O modelo de educação associado a Aristóteles e Alexandre continua atual se não o reduzirmos à imagem fascinante de um filósofo que formou um conquistador. O seu significado mais profundo reside na tentativa de preparar alguém para agir num mundo complexo, imprevisível e culturalmente diverso.
Desse exemplo podemos retirar alguns princípios.
Em primeiro lugar, a educação deve ser integral. Deve formar a inteligência, mas também o carácter, a sensibilidade, o corpo, a capacidade de relação e o sentido de responsabilidade.
Em segundo lugar, deve transmitir conhecimento sólido. Não há pensamento crítico no vazio. Só pode relacionar, comparar e julgar quem possui referências históricas, literárias, científicas e filosóficas.
Em terceiro lugar, deve ensinar a decidir. A vida não apresenta problemas organizados como os de um manual. Obriga a agir na incerteza, a ponderar consequências e a assumir responsabilidades. A educação deve, por isso, cultivar prudência e julgamento.
Em quarto lugar, deve ensinar a lidar com o poder. Todos exercemos alguma forma de poder: pela palavra, pelo conhecimento, pela posição social, pela profissão ou pela tecnologia. Alexandre mostra-nos que a inteligência sem domínio de si pode ser vencida pela desmedida.
Em quinto lugar, deve abrir o espírito ao encontro com o diferente. A educação não pode limitar-se a confirmar identidades fechadas. Deve permitir compreender outras culturas sem dissolver a capacidade de julgamento.
Finalmente, deve reconhecer os seus próprios limites. Nenhum educador controla inteiramente o resultado da sua ação. A educação é uma sementeira, não uma fabricação. O discípulo poderá aprofundar, transformar, rejeitar ou até trair aquilo que recebeu.
Educar é entregar um mundo e preparar a sua renovação
A verdadeira educação situa-se entre duas responsabilidades: transmitir o mundo recebido e preparar os mais novos para o renovar. Se existir apenas transmissão, a educação transforma-se em repetição; se existir apenas desejo de novidade, perde-se a continuidade sem a qual nenhuma cultura sobrevive.
Aristóteles ensinou Alexandre a olhar o mundo com a razão, a poesia, a ciência e a política. Alexandre levou essa formação para além dos limites da Grécia, transformando o espaço histórico do seu tempo. Porém, a sua trajetória mostrou também que nenhum conhecimento dispensa a educação permanente do carácter.
Talvez seja esta a principal lição da paideia: a educação não termina quando acaba a escola. O ser humano nunca está definitivamente formado. Tem de continuar a aprender a governar os seus desejos, a rever os seus juízos, a corrigir os seus erros e a responder pelas consequências das suas decisões.
A questão educativa é, por isso, intemporal. Os instrumentos mudam, as instituições reformam-se e os vocabulários sucedem-se, mas a tarefa permanece: formar pessoas capazes de conhecer a verdade, procurar o bem, reconhecer a beleza, viver com os outros e exercer responsavelmente a liberdade.
Educar não é apenas preparar alguém para ocupar um lugar na sociedade. É prepará-lo para compreender o mundo, agir nele e, sobretudo, não se perder quando adquirir o poder de o transformar.
Francisco Vaz
17 de setembro de 2026