Pecado original

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domingo, 12 de abril de 2026

Três MEF e um Erro Estratégico

A Falta de Profundidade no Combate Moderno

A ilusão da suficiência acompanha, muitas vezes, os exércitos vitoriosos. A excelência técnica, a disciplina e a experiência acumulada geram a convicção de que o modelo atual basta. O artigo Three MEFs Won’t Be Enough rompe precisamente com essa complacência: recorda que a guerra entre grandes potências não se vence apenas com qualidade — exige massa, continuidade e capacidade de regeneração.

O United States Marine Corps construiu, ao longo das últimas décadas, uma reputação de elite assente no profissionalismo. As três Marine Expeditionary Forces (MEF) existentes refletem essa lógica: forças altamente treinadas, tecnologicamente avançadas, prontas para projeção imediata. Contudo, essa arquitetura está pensada para conflitos limitados, não para guerras de desgaste prolongado.

A história, como sublinha o artigo, raramente recompensa a ilusão da guerra curta. O paralelismo com o Primeira Guerra Mundial é particularmente elucidativo. O exército britânico entrou no conflito com uma força profissional de elevada qualidade, mas numericamente reduzida. Em poucos meses, o impacto das baixas revelou o erro estrutural: não havia profundidade humana suficiente. Foi necessário recorrer à mobilização em massa — o chamado “exército de Kitchener” — para sustentar o esforço de guerra.

Hoje, o risco repete-se sob novas formas. Num cenário de confronto com potências como a China, a superioridade qualitativa norte-americana pode revelar-se insuficiente face à escala do conflito. As primeiras fases de uma guerra no Indo-Pacífico tenderiam a ser intensas e letais, com perdas significativas logo nos meses iniciais. A questão deixa então de ser “como vencer a batalha” e passa a ser “como continuar a guerra”.

É aqui que a proposta de expandir o número de MEFs — reativando divisões como a 5.ª e a 6.ª — ganha relevância estratégica. Não se trata apenas de aumentar números, mas de criar uma reserva organizada de capacidade de combate, pronta a absorver perdas e a rodar forças no terreno. Em termos conceptuais, é a passagem de um modelo de elite para um modelo de resiliência.

As experiências recentes confirmam esta necessidade. A guerra na Ucrânia e os conflitos prolongados envolvendo Israel demonstram que mesmo forças altamente treinadas se desgastam rapidamente sob pressão contínua. O fator decisivo deixa de ser apenas a qualidade do combatente individual e passa a ser a capacidade do sistema em gerar novos combatentes com rapidez e eficácia.

Contudo, esta transformação levanta um dilema clássico: como crescer sem perder identidade. O Corpo de Fuzileiros Navais construiu-se sobre um ethos exigente, onde a qualidade individual é central. A expansão acelerada pode diluir esse padrão. Mas a história do próprio Corpo — de Belleau Wood ao Pacífico na Segunda Guerra Mundial — mostra que é possível formar unidades eficazes em prazos curtos, desde que exista liderança experiente e um sistema de treino robusto.

No fundo, a reflexão conduz a uma conclusão mais ampla: a guerra moderna entre grandes potências reintroduz a lógica industrial do conflito. Não basta ter melhores soldados; é necessário ter mais soldados capazes de substituir os que caem, mantendo a coesão e a eficácia. A guerra volta a ser, como em Clausewitz, um teste de resistência nacional — não apenas de perícia tática.

Assim, “três MEF não são suficientes” não é apenas uma proposta organizacional. É um aviso estratégico. Num mundo onde os conflitos tendem a prolongar-se e a escalar, a verdadeira superioridade reside na capacidade de durar — de continuar a combater quando o choque inicial já consumiu o melhor das forças disponíveis.

Se o século XXI confirmar esta tendência, os exércitos que sobreviverão não serão apenas os mais avançados, mas os mais preparados para o desgaste. E isso exige algo que a modernidade tentou esquecer: profundidade humana, organização prévia e a aceitação de que, na guerra, a continuidade vale tanto quanto a vitória inicial.

Nota final

Reflexão baseada no artigo “Three MEFs Won’t Be Enough”, de Richard Sweeney III, publicado em abril de 2026 na revista U.S. Naval Institute Proceedings.


Francisco Vaz

12 de Abril de 2026

Hugo Grotius

Mare Liberum e Mare Clausum

A reflexão sobre a liberdade de navegação remete inevitavelmente para o pensamento de Hugo Grotius, cuja obra Mare Liberum (1609) constitui um dos pilares fundacionais do direito internacional moderno. Nela, Grotius sustenta que o mar, pela sua natureza, não pode ser apropriado por nenhum Estado, devendo permanecer aberto à circulação de todos — uma extensão lógica da liberdade humana e do comércio entre os povos. Esta visão opunha-se diretamente às pretensões exclusivistas das potências marítimas da época e afirmava um princípio que, séculos depois, viria a ser consagrado no direito internacional: o da liberdade dos mares.

Hoje, este princípio encontra-se formalizado em instrumentos como a Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar, que estabelece o direito de passagem inocente e a liberdade de navegação em estreitos utilizados para o trânsito internacional. No entanto, a tensão entre norma jurídica e realidade política permanece evidente, sobretudo em regiões estrategicamente sensíveis como o Estreito de Ormuz.

O estreito, uma das principais artérias energéticas do mundo, tem sido palco de sucessivos episódios de intimidação e controlo por parte do Irão. A ameaça de condicionar a passagem de navios — ou mesmo de impor “portagens” — não é apenas uma questão regional: representa um desafio direto à arquitetura jurídica internacional construída desde Grotius. Ao tentar transformar um estreito internacional num espaço de soberania quase absoluta, o Irão reabre, em pleno século XXI, o debate entre mare liberum e mare clausum.

Do ponto de vista jurídico, a imposição unilateral de taxas ou restrições arbitrárias à navegação em Ormuz violaria princípios fundamentais do direito do mar. Mas a questão essencial não é apenas jurídica — é política e civilizacional. O direito internacional, como Grotius bem compreendeu, não se sustenta apenas em normas escritas, mas na aceitação comum de que certos espaços devem permanecer fora da lógica da apropriação exclusiva. Quando essa aceitação se esvai, o direito torna-se vulnerável à força.

Se a prática de restringir a navegação em estreitos internacionais se consolidar, o precedente será perigoso. Outros Estados poderiam reivindicar direitos semelhantes sobre pontos nevrálgicos como o Estreito de Malaca ou o Bab El-Mandeb fragmentando o sistema global de comércio marítimo. O resultado seria uma espécie de “balcanização” dos mares, onde a liberdade de navegação dependeria menos do direito e mais da capacidade de projeção de poder de cada Estado.

As consequências seriam profundas: aumento dos custos do comércio internacional, maior instabilidade geopolítica e, sobretudo, a erosão de um dos princípios mais duradouros da ordem internacional. A liberdade dos mares não é apenas uma questão técnica; é um pressuposto da interdependência global.

Em última análise, a crise no Golfo Pérsico coloca uma questão decisiva: o direito internacional continuará a ser uma ordem normativa partilhada ou regressará a uma lógica de força e controlo territorial? Se prevalecer a “tirania” do controlo arbitrário, como sugere o cenário em análise, o futuro do direito marítimo poderá afastar-se do ideal grotiano e aproximar-se de uma nova era de mare clausum, onde o mar deixa de ser ponte entre nações para se tornar fronteira disputada.

A resposta dependerá da capacidade da comunidade internacional de afirmar, não apenas em palavras mas em ação, que os mares — como queria Grotius — pertencem a todos e a ninguém.

Francisco Vaz

12 de Abril de 2026

sábado, 11 de abril de 2026

Licurgo, guerra e direito

Quando a lei se torna destino

A figura de Licurgo permanece envolta numa névoa onde mito e história se confundem. Pouco importa, porém, a exatidão biográfica. O que verdadeiramente perdura é a força de uma ideia: a de que o direito pode ser mais do que um conjunto de normas — pode ser um instrumento total de formação da comunidade.

Na Esparta que lhe é atribuída, a lei não se limitava a organizar a convivência; estruturava a própria vida. Desde a infância até à morte, o cidadão era integrado num sistema que visava, acima de tudo, a coesão e a sobrevivência da pólis. Não se tratava apenas de obedecer à lei, mas de se tornar, pela lei, um certo tipo de homem. O direito, aqui, não aparece como limite do poder, mas como a sua forma mais profunda de realização.

Este modelo só se compreende à luz de uma realidade marcada pela guerra. Não a guerra episódica, mas a guerra como horizonte permanente. Esparta vive sob tensão constante e responde a essa condição com uma solução radical: transformar a sociedade inteira numa estrutura de resistência. A educação é controlada, o luxo combatido, a propriedade regulada, a vida privada reduzida ao essencial. Tudo converge para um único fim — garantir a força coletiva.

Neste contexto, o direito assume uma função que hoje nos pode parecer estranha: não proteger o indivíduo, mas moldá-lo. A lei torna-se pedagógica, quase antropológica. Forma hábitos, disciplina corpos, orienta consciências. E, ao fazê-lo, dissolve a fronteira entre o jurídico e o moral. Cumprir a lei não é apenas obedecer — é ser virtuoso.

É precisamente aqui que o pensamento atribuído a Licurgo ganha relevância duradoura para a filosofia do direito. Ele coloca, de forma extrema, uma questão que atravessa os séculos: deve o direito limitar-se a regular comportamentos ou deve também formar o caráter dos cidadãos? A tradição ocidental, influenciada pelo Direito Romano, tenderá a separar estas esferas, privilegiando uma conceção mais pragmática e flexível da lei. Roma constrói um direito orientado para a resolução de conflitos, para a adaptação e para a integração de diferenças — um direito que, progressivamente, reconhece o indivíduo como sujeito jurídico.

Mas essa evolução não elimina o problema que Esparta encarnou. Antes o torna mais subtil. Porque, sempre que a segurança coletiva é colocada em causa, ressurge a tentação de reforçar o poder da lei sobre a vida dos cidadãos. Em contextos de crise, a pergunta regressa: até onde pode ir o direito na organização da sociedade? E a resposta nunca é simples.

Licurgo, neste sentido, não é apenas uma figura do passado. É um espelho. A sua Esparta revela o poder do direito enquanto força de coesão, mas também o risco da sua absolutização. Ao procurar criar uma comunidade perfeita, disciplinada e invulnerável, acabou por reduzir o espaço da liberdade individual a um mínimo quase simbólico.

O legado que nos deixa é, por isso, ambivalente e profundamente atual. Mostra-nos que a lei pode ser instrumento de ordem, mas também de uniformização; pode proteger, mas também submeter. E lembra-nos que o equilíbrio entre comunidade e indivíduo, entre segurança e liberdade, não é um dado adquirido — é uma conquista sempre provisória.

Num tempo em que o direito continua a ser chamado a responder a desafios complexos e globais, a lição de Esparta mantém-se viva: quando a lei deixa de ser medida e se torna destino, o risco não é apenas político — é, acima de tudo, humano.

Francisco Vaz

11 de Abril de 2026


sexta-feira, 10 de abril de 2026

Ormuz

A razão estratrégica ou o impulso da força

Há lugares no mundo onde a geografia deixa de ser apenas mapa e se torna destino. O Estreito de Ormuz é um desses pontos: estreito no espaço, vasto nas consequências. Ali, a história recente parece condensar-se numa equação inquietante — energia, poder e risco — em que cada decisão tática pode desencadear efeitos estratégicos de longo alcance.

O texto de Michael Baucum¹ expõe com clareza essa tensão: a proximidade de forças navais dos Estados Unidos face a um Irão disposto a transformar a sua vulnerabilidade geográfica numa vantagem assimétrica. O estreito, por onde passa uma parte vital do petróleo mundial, deixa de ser apenas um corredor marítimo para se tornar um instrumento de pressão global. Quando o fluxo abranda, não é apenas o Golfo que se inquieta — é o mundo inteiro que sente o abalo.

Mas o que verdadeiramente atravessa esta análise não é apenas o risco militar; é o dilema político e moral que ele encerra. A tentação de uma ação decisiva — como o controlo da Ilha de Kharg — surge como promessa de eficácia: cortar a fonte económica do adversário e forçá-lo à negociação. Contudo, essa mesma ação pode abrir a porta a uma escalada que já não se controla. A história contemporânea está repleta destes momentos em que a clareza operacional se dissolve na ambiguidade estratégica.

Há aqui um paradoxo central: quanto mais sofisticados são os meios militares, mais incertas se tornam as consequências do seu uso. Um míssil, um drone, uma mina — instrumentos relativamente simples — podem alterar o curso de uma operação e, com ela, a perceção pública, a legitimidade política e a própria duração do conflito. A guerra deixa de ser apenas um confronto de forças para se tornar um confronto de narrativas e resistências.

Neste cenário, o tempo político e o tempo estratégico raramente coincidem. A pressão interna — económica, eleitoral, social — empurra para soluções rápidas. Mas o teatro de operações responde com lentidão, fricção e imprevisibilidade. A decisão de avançar ou recuar não é apenas militar; é uma escolha sobre o tipo de guerra que se está disposto a travar e, mais profundamente, sobre o tipo de paz que se pretende alcançar.

Outro elemento inquietante reside na divergência de objetivos entre aliados. Quando diferentes atores veem na mesma crise oportunidades distintas — uns procurando contenção, outros transformação radical — a unidade estratégica fragiliza-se. E, nesse espaço de desalinhamento, o risco de escalada aumenta.

O Estreito de Ormuz revela, assim, uma verdade mais ampla sobre o mundo contemporâneo: a interdependência global transformou certos pontos geográficos em nervos vitais do sistema internacional. Interrompê-los é atingir não apenas um adversário, mas a própria ordem económica mundial. E é por isso que qualquer decisão ali tomada ressoa muito para além das águas estreitas que o definem.

No fim, permanece a questão essencial: o que significa “vencer” num contexto destes? Garantir a passagem de navios? Neutralizar uma ameaça? Forçar um regime? Ou evitar uma guerra mais ampla? Cada resposta implica custos diferentes — humanos, políticos, morais.

Talvez a maior lição deste momento seja a de que o poder, por mais vasto que seja, não elimina a tragédia da escolha. No estreito de Ormuz, como tantas vezes na história, não há opções limpas — apenas caminhos cujas consequências se prolongam muito para além da decisão inicial.

E enquanto os navios avançam e os relógios políticos contam os dias, o mundo observa, consciente de que, naquele espaço estreito de mar, se joga algo muito maior do que uma operação militar: joga-se o equilíbrio frágil entre contenção e conflito, entre prudência e precipitação — em suma, entre a razão estratégica e o impulso da força.


Nota

1. Michael Baucum, “The Perilous Options in the Strait of Hormuz”, Proceedings, Vol. 152/4/1,478, abril de 2026.

Francisco Vaz

10 de Abril de 2026

Europa

Entre declínio e reinvenção

A articulação entre a análise de Carmen Claudín sobre a guerra na Ucrânia e a leitura estrutural de Emilio Lamo de Espinosa sobre o “pós-Ocidente” permite compreender que o conflito atual não é um acidente da história, mas um sintoma de uma transformação mais profunda do sistema internacional.

Estamos, como sugere Lamo de Espinosa, num momento de inflexão histórica: não o fim de uma civilização, mas o fim de uma centralidade — a da Europa e, mais amplamente, do Ocidente. Durante séculos, o mundo organizou-se a partir da expansão europeia; hoje, essa ordem dissolve-se num sistema mais amplo, mais complexo e mais incerto. A emergência de novas potências, a aceleração da globalização e a deslocação do eixo económico para a Ásia criam um mundo que já não é “nosso” no sentido histórico do termo.

É neste contexto que a guerra na Ucrânia deve ser entendida.

A guerra como reação ao declínio relativo

A leitura de Claudín revela que a ação russa não é apenas estratégica, mas também identitária. A Rússia reage à perda de estatuto e de controlo sobre o espaço pós-soviético através de uma narrativa que procura restaurar uma centralidade perdida. Os mitos sobre a unidade histórica com a Ucrânia, a missão civilizadora russa ou a necessidade de uma esfera de influência são, nesse sentido, respostas políticas a uma transformação estrutural mais vasta.

Aqui cruzam-se os dois planos: o estrutural e o ideológico.

Lamo de Espinosa mostra-nos um mundo em convergência — demográfica, tecnológica e económica — onde antigas periferias ganham peso e o Ocidente perde a sua hegemonia. Claudín mostra-nos como essa perda pode gerar reações de fechamento, revisionismo e agressão. A Rússia surge, assim, como um ator que, incapaz de competir plenamente no novo sistema global, procura compensar essa limitação através do poder militar e da reconfiguração do seu “estrangeiro próximo”.

Globalização e fragmentação

Há um paradoxo central que ambos os autores ajudam a iluminar: quanto mais o mundo se globaliza, mais se fragmenta politicamente.

A globalização económica foi, em larga medida, um jogo de soma positiva, permitindo crescimento e redução da pobreza em muitas regiões. Mas, como sublinha Lamo de Espinosa, a política continua a operar como um jogo de soma zero: o poder que uns ganham, outros perdem. É nesta tensão que emergem os conflitos contemporâneos.

A guerra na Ucrânia é um exemplo claro desta transição. Não é apenas uma disputa territorial, mas uma luta pela definição das regras do sistema internacional: soberania versus esferas de influência, direito internacional versus poder de facto.

Ao mesmo tempo, a própria globalização gera clivagens internas — entre os “globalizados” e os “territorializados” — que alimentam populismos, nacionalismos e desconfiança nas instituições. Este fenómeno, descrito por Lamo de Espinosa, encontra eco na análise de Claudín sobre a instrumentalização de narrativas identitárias por parte do Kremlin.

Europa entre dois mundos

Neste cenário, a União Europeia ocupa uma posição particularmente ambígua. É, como ambos reconhecem implicitamente, um sucesso histórico sem precedentes em termos de paz, prosperidade e integração. Mas é também um ator incompleto, com limitada capacidade de projeção estratégica.

A guerra na Ucrânia expôs essa fragilidade. A Europa hesitou, reagiu de forma gradual e, em muitos casos, dependente dos Estados Unidos. Isto confirma a tese de Lamo de Espinosa: a Europa perdeu, em grande medida, a capacidade de determinar autonomamente o seu destino geopolítico.

Ao mesmo tempo, enfrenta um desafio interno: a tensão entre abertura e retração, entre projeção externa e introspeção identitária. A tendência para revisitar o passado, para reforçar identidades defensivas, pode ser lida como uma resposta ao sentimento de perda de centralidade.

Um mundo de fluxos e incerteza

Outro ponto de convergência entre as duas análises é a necessidade de repensar o mundo para além das categorias tradicionais. Lamo de Espinosa insiste na importância de olhar para os fluxos — de pessoas, capital, informação — mais do que para os Estados. Claudín mostra como, apesar disso, os Estados continuam a ser atores centrais na gestão da violência e do poder.

Vivemos, assim, numa tensão entre uma realidade globalizada e uma política ainda enraizada na soberania estatal. Esta desadequação gera um défice de governação global, visível tanto na incapacidade de prevenir conflitos como na dificuldade em responder a crises.

A própria imprevisibilidade do sistema — marcada por “cisnes negros” e mudanças não lineares — reforça a sensação de um mundo “comatoso”, como refere Lamo de Espinosa: não parado, mas desorientado.

Entre declínio e reinvenção

A questão que emerge desta dupla reflexão é, em última análise, existencial: como pode o Ocidente — e em particular a Europa — posicionar-se num mundo que já não domina?

A resposta não parece residir no regresso ao passado nem na afirmação de identidades fechadas. Como mostra o caso russo, essa via tende a gerar conflito e isolamento. Também não basta confiar na inércia das instituições existentes.

O desafio é outro: aceitar a perda de centralidade como condição para uma nova forma de presença no mundo. Isso implica reforçar a unidade europeia, investir em autonomia estratégica e, sobretudo, compreender que o futuro se joga numa escala global.

A guerra na Ucrânia é, nesse sentido, mais do que um conflito regional. É um espelho das tensões de um mundo em transição — entre um passado que resiste e um futuro que ainda não tem forma definida.

E talvez a lição mais exigente seja esta: num mundo pós-ocidental, a relevância não é herdada — é construída.

Francisco Vaz

10 de Abril de 2026

Nota
Conferência “Europa: entre declínio e reinvenção”, com Carmen Claudín e Emilio Lamo de Espinosa, promovida pela Fundación Juan March, dedicada à análise da guerra na Ucrânia e ao conceito de “pós-Ocidente”, enquanto chave interpretativa das transformações estruturais do sistema internacional contemporâneo.

Guerra e paz

O poder de resistir e a ilusão de dominar

Um dos traços mais marcantes das guerras contemporâneas reside no desfasamento crescente entre o êxito tático no terreno e a verdadeira eficácia estratégica. No confronto direto entre os Estados Unidos e o Irão, essa fratura revela-se com particular nitidez no Golfo Pérsico, sobretudo na disputa pelo controlo do Estreito de Ormuz.

À primeira vista, a ocupação de ilhas como Abu Musa, Larak ou Kharg parece corresponder a uma lógica clássica de poder: dominar pontos-chave para condicionar fluxos económicos e militares. No entanto, essa leitura pertence mais ao século XX do que ao XXI. Mesmo que essas operações fossem bem-sucedidas do ponto de vista militar, dificilmente produziriam o efeito político desejado: forçar o Irão a recuar ou a negociar em termos favoráveis.

A razão é profunda e estrutural. O poder iraniano não reside apenas em posições fixas — ilhas, bases ou infraestruturas — mas numa capacidade difusa, móvel e resiliente. Mísseis, drones e plataformas improvisadas ao longo de uma vasta linha costeira tornam impossível neutralizar a ameaça através de golpes cirúrgicos. A geografia, aliada à assimetria tecnológica, transforma o espaço num campo de incerteza permanente. O controlo do Estreito de Ormuz não depende de quem ocupa uma ilha, mas de quem consegue manter a capacidade de perturbar — mesmo que de forma intermitente — o fluxo global.

Neste contexto, a proposta de operações terrestres limitadas revela uma tentação recorrente das grandes potências: a de traduzir problemas estratégicos complexos em soluções militares tangíveis. Mas a guerra contemporânea, sobretudo contra atores como o Irão, não se resolve pela ocupação de território, mas pela gestão de equilíbrios instáveis. O risco, como sublinha o texto, é que tais operações não encurtem o conflito, mas o prolonguem — e, mais ainda, o ampliem.

Há também uma dimensão geopolítica mais vasta que não pode ser ignorada. O envolvimento crescente de meios militares norte-americanos no Golfo implica uma redistribuição de recursos que pode fragilizar outras áreas críticas, nomeadamente o Indo-Pacífico. Assim, uma guerra que não produz ganhos claros num teatro regional pode ter custos sistémicos à escala global.

Mas talvez o ponto mais inquietante seja outro: a ilusão de controlo. A captura da ilha de Kharg, por exemplo, poderia parecer um golpe decisivo ao atingir o coração das exportações petrolíferas iranianas. No entanto, tal ação poderia desencadear efeitos contrários — escalada regional, ataques a infraestruturas civis, aumento dos preços da energia — atingindo mais duramente aqueles que a promovem do que o próprio alvo.

Estamos, portanto, perante uma guerra onde o poder não se mede apenas pela capacidade de destruir, mas pela capacidade de resistir. O Irão demonstra uma elevada tolerância ao sofrimento económico e militar, enquanto os seus adversários permanecem mais vulneráveis a choques sistémicos, como o aumento dos preços da energia ou a instabilidade dos mercados.

Neste sentido, o conflito entre os Estados Unidos e o Irão ilustra uma transformação mais ampla da guerra: a passagem de confrontos decisivos para impasses prolongados; de vitórias claras para equilíbrios precários; de estratégias de domínio para estratégias de desgaste.

A lição é, por isso, mais política do que militar. Quando a guerra deixa de ser instrumento eficaz para alcançar objetivos estratégicos, a sua continuação torna-se não apenas inútil, mas perigosa. E talvez o verdadeiro risco não esteja na dificuldade de vencer, mas na incapacidade de reconhecer que já não é possível fazê-lo nos termos tradicionais.

Francisco Vaz

10 de Abril de 2026

quinta-feira, 9 de abril de 2026

Quando o mal se torna método

O segundo livro de Adolf Hitler

Num tempo em que se proclama o fim das grandes ideologias, permanece um paradoxo inquietante: nunca se falou tanto do mal — e raramente se pensou tão pouco sobre ele. A persistente evocação de Adolf Hitler como símbolo absoluto do horror revela menos uma compreensão histórica do que uma necessidade contemporânea: a de fixar um ponto de referência negativo que organize o nosso olhar sobre o mundo.

É neste contexto que ganha relevância um texto durante muito tempo marginal: Hitler’s Second Book, manuscrito ditado em 1928 e publicado apenas décadas depois. Frequentemente ofuscado por Mein Kampf, este “segundo livro” revela, no entanto, uma formulação mais sistemática e depurada do pensamento hitleriano — sobretudo no que diz respeito à política internacional e à visão global da história.

Ao contrário da imagem de improvisação ou oportunismo que por vezes se associa ao nazismo, o texto mostra uma inquietante coerência. A política surge aí como extensão de uma lógica mais profunda: a da vida entendida como luta. Influenciado por correntes próximas da chamada Lebensphilosophie, Hitler constrói uma visão onde povos e nações não são comunidades éticas, mas organismos em competição permanente. A história deixa de ser espaço de liberdade para se tornar campo de sobrevivência.

É neste quadro que emerge o conceito de Lebensraum — o “espaço vital” — não como simples ambição territorial, mas como necessidade quase biológica. A expansão não é apresentada como escolha, mas como destino. A guerra, por sua vez, não é fim em si mesma: é instrumento. Um meio para assegurar a continuidade de um povo concebido como entidade orgânica e hierarquizada.

Tal visão implica inevitavelmente a definição de inimigos absolutos. O antissemitismo, já central em Mein Kampf, reaparece aqui reforçado, integrado numa estrutura conceptual onde a exclusão não é acidente, mas condição de possibilidade da identidade. Curiosamente, o livro introduz também uma novidade geopolítica significativa: a perceção dos Estados Unidos como futuro adversário estratégico, antecipando conflitos que ultrapassam o quadro europeu.

Apesar da sua importância, este texto permaneceu relativamente ignorado. Historiadores como Ian Kershaw ou Neil Gregor reconheceram o seu valor, mas figuras maiores do pensamento político, como Hannah Arendt, praticamente não o integraram nas suas análises. Talvez porque a sua clareza perturbe: nele, Hitler diz com nitidez aquilo que muitos prefeririam ver como ambiguidade ou improviso.

Hoje, num mundo descrito por Slavoj Žižek como “pós-ideológico”, a figura de Hitler tende a ser usada como metáfora do “mal absoluto”. Mas essa utilização levanta uma questão decisiva: ao transformar o nazismo num símbolo abstrato, não estaremos a afastá-lo da história — e, com isso, a perder a capacidade de reconhecer os seus mecanismos quando reaparecem sob novas formas?

Compreender textos como Hitler’s Second Book não significa legitimar, mas precisamente o contrário: desmontar. Obriga-nos a entrar na lógica interna de um discurso que fez da morte um princípio absoluto e da política uma arte de exclusão. Só assim se evita a tentação confortável de reduzir o mal a uma exceção inexplicável.

Porque talvez o mais perturbador não seja que Hitler tenha existido, mas que tenha pensado — e que esse pensamento, longe de ser caos, tenha obedecido a uma ordem. É essa ordem, e não apenas os seus crimes, que importa compreender.

Francisco Vaz

9 de Abril de 2026