Pecado original

Pecado original

sexta-feira, 17 de julho de 2026

Sigrid Undset e G. K. Chesterton

dois escritores, uma mesma procura da verdade

A decisão do Bispo de Oslo de abrir oficialmente a causa de canonização de Sigrid Undset, Prémio Nobel da Literatura de 1928, constitui uma notícia de grande significado. Não apenas para a Igreja Católica, mas para todos aqueles que continuam a acreditar que a literatura pode ser muito mais do que entretenimento: pode ser uma forma de procurar a verdade.

A propósito desta notícia, há um facto pouco conhecido que merece ser recordado. Sigrid Undset era uma apaixonada leitora de G. K. Chesterton. Possuía uma vasta coleção das suas obras, traduziu para norueguês The Everlasting Man em 1931 e, poucos meses antes de receber o Prémio Nobel, visitou Chesterton e a sua esposa Frances, na sua casa de Beaconsfield. Sabe-se pouco sobre esse encontro. Mas, na verdade, quase nada é necessário acrescentar. Basta conhecer a obra de ambos para perceber que pertenciam à mesma família espiritual.

À primeira vista, dificilmente poderiam ser mais diferentes. Chesterton escrevia com humor, paradoxo e ironia. Undset preferia a narrativa histórica, a introspeção psicológica e a construção paciente das personagens. Um parecia olhar o mundo através do brilho da inteligência; a outra através da profundidade da experiência humana.

Mas ambos partilhavam a mesma convicção essencial: a realidade possui um sentido e esse sentido pode ser conhecido.

Num século marcado pelo relativismo crescente, pelo niilismo e pelas grandes ideologias totalitárias, tanto Chesterton como Undset recusaram aceitar que o homem fosse apenas produto da história, da economia ou da biologia. Defenderam, cada um à sua maneira, a liberdade da pessoa, a objetividade do bem e a possibilidade de conhecer a verdade.

É precisamente isso que torna The Everlasting Man uma obra tão singular. Chesterton não pretende apenas defender o cristianismo. Procura mostrar que a história da humanidade só se compreende plenamente quando se reconhece a singularidade da pessoa de Cristo. Não é uma obra de apologética no sentido estreito; é uma interpretação da própria aventura humana.

Não surpreende, por isso, que tenha sido Sigrid Undset a traduzi-la para norueguês. Ela reconheceu naquele livro algo que também procurava nos seus romances: compreender quem é verdadeiramente o ser humano.

A monumental trilogia Kristin Lavransdatter é talvez o melhor exemplo dessa procura. Situada na Noruega medieval, não idealiza o passado nem apresenta personagens moralmente perfeitas. Pelo contrário. Mostra homens e mulheres profundamente livres, capazes do amor e do pecado, da fidelidade e da traição, sempre confrontados com as consequências das suas escolhas.

É exatamente aqui que a literatura de Undset se aproxima da visão antropológica de Chesterton. Ambos acreditavam que a grandeza do homem não reside na sua perfeição, mas na sua capacidade de recomeçar. O pecado existe; mas também existe o perdão. A liberdade pode destruir; mas pode igualmente reconstruir. A esperança não nasce da ingenuidade, mas da graça.

Também as suas vidas testemunham essa coerência. Ambos se converteram ao catolicismo depois de longos percursos intelectuais. Ambos enfrentaram incompreensões culturais. Ambos recusaram acomodar a sua escrita aos preconceitos dominantes do seu tempo. E ambos demonstraram que a fé não limita a inteligência; antes lhe oferece um horizonte mais vasto.

A vida de Undset conheceu ainda provas particularmente duras. Sofreu tragédias familiares, enfrentou dificuldades pessoais e viu-se obrigada a abandonar a Noruega durante a ocupação nazi. Nada nela corresponde à imagem romântica de uma escritora retirada do mundo. A sua fé foi continuamente provada pela realidade. Talvez por isso a sua obra conserve uma autenticidade que continua a impressionar o leitor contemporâneo.

A eventual canonização de Sigrid Undset encerra, por isso, um profundo significado simbólico. A Igreja não reconhecerá nela apenas uma grande romancista. Reconhecerá uma mulher que fez da inteligência uma forma de serviço, da cultura uma missão e da literatura um caminho de santidade.

Vivemos numa época em que frequentemente se opõem razão e fé, ciência e religião, cultura e espiritualidade. Chesterton e Undset lembram-nos exatamente o contrário. A inteligência encontra a sua plenitude quando procura a verdade; e a verdade não empobrece a imaginação — liberta-a.

Talvez seja essa a maior lição destes dois gigantes da literatura. Escreveram livros extraordinários porque procuraram fazer da existência um permanente exercício ontológico: tornar-se, em cada momento, o melhor que cada um podia ser. A beleza das suas obras nasce da coerência das suas vidas.

Num tempo saturado de informação e de opinião, a sua voz continua a recordar-nos algo de essencial: a verdadeira cultura não consiste em saber muitas coisas, mas em aprender a olhar o mundo à luz da verdade. E quando a inteligência se coloca humildemente ao serviço dessa verdade, pode tornar-se, ela própria, um caminho de santidade.

Francisco Vaz

17 de julho de 2026

quinta-feira, 16 de julho de 2026

Dez Anos Depois: O Entendimento Global Continua a Passar pelas Periferias

Uma reflexão sobre a atualidade de uma intuição que o tempo confirmou.

«O bem-comum de todas as pessoas, sem exceção, em cada momento, sempre. Não se trata de uma utopia, mas da intuição da possibilidade de uma existência política, de base ética, em que todos os seres humanos possam, e, de facto, sejam o melhor que podem ontologicamente ser, em universal e total harmonia. É este o entendimento como padrão de possibilidade.»

Américo Pereira
Introdução a Entendimento Global e Compromisso com as Periferias

Há dez anos, a Universidade Católica Portuguesa dedicava uma Summer School ao tema «Entendimento Global e Compromisso com as Periferias». O encontro, coordenado por Américo Pereira, partia de uma convicção simples: não haverá verdadeira globalização enquanto parte da humanidade permanecer na periferia das nossas preocupações.

Uma década depois, é difícil não reconhecer o carácter quase profético dessa reflexão.

Em 2016 acreditava-se que a globalização aproximaria povos, culturas e sociedades. A tecnologia prometia reduzir distâncias, o conhecimento parecia cada vez mais acessível e o diálogo surgia como uma possibilidade real.

A realidade revelou-se mais complexa.

Nunca estivemos tão ligados e, paradoxalmente, nunca foi tão evidente a fragmentação do mundo. As redes sociais multiplicaram a comunicação, mas também a polarização. A pandemia expôs fragilidades comuns. As guerras regressaram ao coração da Europa e persistem no Médio Oriente. A rivalidade entre grandes potências voltou a marcar a política internacional. A inteligência artificial abre horizontes extraordinários, mas levanta novas questões sobre a verdade, a liberdade e a responsabilidade.

Hoje percebemos que a tecnologia, por si só, não produz entendimento.

O entendimento é sempre uma conquista ética.

Também as periferias mudaram. Continuam a existir as da pobreza e da exclusão, mas surgiram outras: a solidão dos idosos, a exclusão digital, a marginalização cultural, os migrantes sem voz, os jovens sem horizonte, as vítimas das alterações climáticas e todos aqueles que, mesmo vivendo no centro das cidades, permanecem invisíveis.

Foi precisamente esta capacidade de olhar para as periferias que o Papa Francisco colocou no centro do seu pontificado. Ir às periferias não significa apenas prestar assistência; significa aprender a olhar o mundo a partir daqueles que normalmente não contam. É uma mudança de perspetiva antes de ser uma mudança geográfica.

Neste ponto, a reflexão da Summer School encontra uma notável convergência com o pensamento social cristão. Bento XVI, na encíclica Caritas in Veritate, recordava que a globalização só é verdadeiramente humana quando é acompanhada pela solidariedade e pelo desenvolvimento integral da pessoa. Francisco, em Fratelli Tutti, aprofundou essa mesma intuição ao defender que nenhuma paz será duradoura sem fraternidade e nenhuma fraternidade existirá enquanto houver descartados.

Talvez devamos, por isso, inverter a lógica do próprio título.

Há dez anos pensávamos que o entendimento global conduziria naturalmente ao compromisso com as periferias.

Hoje percebemos que será precisamente o contrário: só um compromisso efetivo com os mais vulneráveis poderá reconstruir um verdadeiro entendimento global.

É aí que se decide a qualidade das nossas democracias, das nossas economias e da nossa cultura. Uma sociedade mede-se menos pela riqueza que produz do que pela dignidade que reconhece em cada pessoa.

Mas as periferias não são apenas um problema da política, da economia ou das instituições. São também uma questão de consciência. Todos construímos periferias quando ignoramos quem pensa de forma diferente, quando desistimos do diálogo ou quando nos habituamos ao sofrimento dos outros. E todos contribuímos para um verdadeiro entendimento global quando fazemos do encontro, da escuta e da solidariedade uma forma quotidiana de viver.

Os grandes temas não envelhecem; amadurecem. O que em 2016 parecia um programa académico revela-se, dez anos depois, uma necessidade civilizacional. A globalização mostrou-nos que é possível ligar economias e tecnologias. Falta ainda aprender a ligar consciências.

Dez anos depois, as palavras de Américo Pereira não perderam atualidade; ganharam urgência. Perante um mundo marcado por guerras, polarização, migrações forçadas, desigualdades persistentes e desafios tecnológicos sem precedentes, compreendemos melhor que o entendimento global não é um luxo intelectual nem um ideal ingénuo. É uma condição para a sobrevivência da própria humanidade.

Talvez seja esta a principal lição daquela Summer School. O entendimento global não começa nas cimeiras internacionais, nem nos tratados diplomáticos, nem sequer nas redes que ligam o planeta. Começa quando reconhecemos que o bem comum só é verdadeiramente comum quando é verdadeiramente de todos.

Porque, afinal, as periferias não são apenas um lugar do mundo. São o lugar onde se decide a humanidade do próprio mundo.

Francisco Vaz
16 de julho de 2026


quarta-feira, 15 de julho de 2026

A Pequena Soberania do Papa

Quando o Papa fala da guerra, fala como chefe de Estado ou como consciência da humanidade?

Uma recente entrevista do embaixador dos Estados Unidos junto da Santa Sé suscitou uma questão antiga, mas sempre actual. Referindo-se às intervenções do Papa Leão XIV sobre a guerra, afirmou que o Papa fala "como chefe de Estado" e não apenas como líder espiritual.

A observação merece reflexão. Não porque seja inteiramente falsa, mas porque corre o risco de não compreender a singularidade da missão do Bispo de Roma.

A melhor resposta talvez tenha sido dada há mais de sessenta anos por São Paulo VI, na sua histórica intervenção na Assembleia Geral das Nações Unidas, em 4 de Outubro de 1965.

As suas palavras permanecem de uma extraordinária actualidade:

"Aquele que está a falar convosco é um homem como vós. É vosso irmão e até um dos mais pequenos entre vós, que representais Estados soberanos, pois possui apenas uma soberania temporal mínima e quase simbólica: apenas a indispensável para garantir a liberdade da sua missão espiritual e assegurar a todos aqueles que com ele se relacionam a sua independência perante qualquer soberania deste mundo."

Poucas vezes se definiu, com tanta clareza, a natureza da Santa Sé.

A menor das soberanias

O Estado da Cidade do Vaticano possui apenas quarenta e quatro hectares. Não dispõe de recursos naturais, de poder económico significativo nem de capacidade militar comparável à dos restantes Estados. A sua soberania é quase simbólica.

Mas essa pequenez não constitui uma limitação; é uma escolha.

O Vaticano não existe para aumentar o poder temporal do Papa. Existe precisamente para garantir que nenhum poder temporal possa condicionar a sua liberdade.

Ao longo da História, imperadores, reis e governos procuraram submeter a Igreja aos seus interesses. A existência de um Estado soberano, ainda que diminuto, assegura ao Papa a independência necessária para exercer uma missão que transcende fronteiras, alianças políticas e interesses nacionais.

A soberania não é, portanto, um fim.

É apenas o instrumento que protege a liberdade da palavra.

Potestas e auctoritas

A tradição política romana distinguia dois conceitos fundamentais: potestas e auctoritas.

A potestas era o poder formal de mandar, impor, decretar e sancionar. A auctoritas, pelo contrário, era uma forma de influência fundada no reconhecimento, na experiência, no prestígio e na autoridade moral.

Esta distinção ajuda a compreender a singularidade do Papado.

O Papa possui uma pequena parcela de potestas, inerente à sua condição de chefe de um Estado soberano. Mas a verdadeira força da sua palavra não nasce daí.

Nasce da auctoritas.

Não é a capacidade de obrigar que lhe confere influência. É a possibilidade de interpelar as consciências.

Os grandes Estados podem impor sanções, mobilizar exércitos, controlar fronteiras ou condicionar economias. O Papa não dispõe de nenhum desses instrumentos. A sua presença na ordem internacional é de outra natureza.

Não dá ordens às nações.

Procura recordar-lhes aquilo que elas, frequentemente, preferem esquecer.

As duas cidades

Santo Agostinho, em A Cidade de Deus, distinguiu simbolicamente duas cidades: a cidade terrena, construída sobre o amor de si levado até ao desprezo do outro, e a cidade de Deus, fundada no amor que se abre à transcendência e ao próximo.

Não se trata de duas cidades geográficas nem de uma separação simples entre Igreja e mundo. Trata-se de duas orientações fundamentais do coração humano.

Também os Estados, as sociedades e as instituições podem deixar-se conduzir por uma ou por outra.

A cidade terrena vive da vontade de poder, da competição, da glória e do domínio.

A cidade de Deus lembra que nenhum poder é absoluto, que toda a autoridade deve servir e que a dignidade humana precede a razão de Estado.

Quando o Papa fala da guerra, é precisamente esta tensão que introduz no debate internacional.

Recorda aos governantes que a política não pode limitar-se à gestão dos interesses.

Recorda aos Estados que a soberania não é uma licença moral ilimitada.

Recorda às potências que, acima das fronteiras, dos tratados e das alianças, existem pessoas humanas.

Uma autoridade diferente

É verdade que o Papa é um chefe de Estado. A Santa Sé mantém relações diplomáticas com quase todos os países do mundo, participa nas organizações internacionais e intervém frequentemente nas grandes questões da ordem internacional.

Mas seria um erro colocar essa dimensão no centro da sua identidade.

Ao contrário dos restantes chefes de Estado, o Papa não dispõe de exércitos, não controla mercados financeiros, não impõe sanções nem decide alianças militares.

A sua influência assenta quase exclusivamente na autoridade moral.

A sua força é a palavra.

E precisamente porque essa palavra não está subordinada aos interesses estratégicos de qualquer potência, conserva uma credibilidade singular.

A guerra vista pela consciência

Quando o Papa fala da guerra, não o faz como um estratega militar nem como representante dos interesses de um Estado.

Fala a partir da tradição moral da Igreja.

Uma tradição que nunca foi pacifista num sentido ingénuo. Desde Santo Agostinho e São Tomás de Aquino, a Igreja reconhece que, em circunstâncias extremas, o recurso à força pode ser moralmente legítimo para proteger os inocentes e restaurar a justiça.

Mas, exactamente por reconhecer essa legitimidade limitada, insiste permanentemente na primazia da paz.

A doutrina da guerra justa nunca pretendeu tornar a guerra moralmente desejável. Procurou, antes, limitar a violência, submeter a força à justiça e impedir que a necessidade militar se transformasse numa justificação sem limites.

A guerra pode, em certas circunstâncias, ser considerada inevitável.

Nunca deixa, porém, de ser uma tragédia.

Cada guerra representa uma derrota da política, da justiça e, sobretudo, da fraternidade humana.

Quando o Papa condena uma guerra ou apela ao diálogo, não apresenta um plano estratégico para resolver conflitos.

Recorda algo mais profundo: por detrás das estratégias militares existem pessoas, famílias, crianças, cidades destruídas e um sofrimento que nenhuma vitória consegue apagar.

O poder que renuncia ao poder

Há algo de profundamente paradoxal na soberania pontifícia.

Ela existe para que o Papa possa não depender politicamente de nenhum Estado, mas não existe para que possa competir com os Estados.

É um poder que se justifica pela renúncia ao poder.

Uma soberania que não pretende expandir-se.

Uma independência que não procura dominar.

Esta ideia aproxima-se da visão cristã da autoridade. No Evangelho, governar não significa colocar-se acima dos outros, mas fazer-se servidor.

O poder, quando se torna cristão, deixa de ser simples capacidade de mandar. Torna-se responsabilidade perante os mais frágeis.

Foi também esta a linha de pensamento que Bento XVI desenvolveu ao insistir na diferença entre a missão da Igreja e a acção propriamente política.

A Igreja não pretende substituir-se ao Estado nem governar tecnicamente a sociedade. A sua missão é contribuir para a formação das consciências, iluminar a razão moral e recordar à política que a justiça não pode ser reduzida ao equilíbrio de forças.

A Igreja não apresenta soluções técnicas para todos os conflitos.

Mas deve perguntar se essas soluções respeitam a dignidade humana.

A consciência da comunidade internacional

Talvez o embaixador americano tenha razão num aspecto: o Papa fala, efectivamente, como chefe de Estado.

Mas como chefe de um Estado cuja única razão de existir é permitir-lhe falar livremente como Pastor da Igreja Universal.

É esta a originalidade da Santa Sé.

A sua soberania foi reduzida ao mínimo para que a sua independência fosse máxima.

É provavelmente o único Estado cuja autoridade cresce na proporção inversa do seu poder material.

Num tempo em que quase todas as vozes internacionais representam interesses nacionais, económicos ou geopolíticos, a voz do Papa procura representar algo diferente: a dignidade da pessoa humana, a primazia da consciência e a exigência ética da paz.

Pode nem sempre convencer.

Pode até ser criticada.

As suas palavras podem ser consideradas inoportunas, excessivamente prudentes ou insuficientemente alinhadas com uma determinada leitura política dos conflitos.

Mas não devem ser confundidas com a voz de mais um actor geopolítico.

O Papa não fala para defender uma fronteira.

Fala para defender um princípio.

Não procura proteger um interesse nacional.

Procura recordar uma obrigação universal.

Uma pequena soberania ao serviço de uma grande missão

Foi isto que Paulo VI quis transmitir às Nações Unidas.

A pequena soberania do Vaticano não existe para conferir poder ao Papa.

Existe para garantir que ele permaneça livre perante todos os poderes.

Livre para dizer aos fortes aquilo que poucos ousam dizer.

Livre para recordar que nenhuma razão de Estado pode justificar a perda da humanidade.

Livre para denunciar a guerra sem precisar de calcular os seus dividendos políticos.

Talvez seja esta a maior originalidade da Santa Sé na ordem internacional: possuir o mínimo de poder temporal para preservar o máximo de liberdade espiritual.

É essa liberdade que faz com que, quando um Papa fala da guerra, a sua voz não seja apenas a de um chefe de Estado.

Seja, antes de mais, a voz de uma consciência que interpela os Estados e recorda à humanidade que a paz nunca é sinal de fraqueza.

É, pelo contrário, a expressão mais exigente da justiça, a forma mais elevada da política e uma das maiores conquistas da civilização.

Francisco Vaz

15 de julho de 2026

Calígula, Trump e a Tentação do Espetáculo

Uma sátira sobre o poder, a vaidade e a eterna comédia da política

Quando se pergunta quem foi o imperador mais louco de Roma, muitos respondem instintivamente: Nero. A imagem do imperador que toca lira enquanto Roma arde tornou-se um dos símbolos universais da irresponsabilidade política.

A História, porém, sugere outro candidato. Se existe um imperador que personifica o delírio do poder absoluto, esse é provavelmente Calígula.

As fontes antigas — sobretudo Suetónio e Cássio Dião — descrevem um homem que se julgava divino, governava ao sabor dos caprichos, humilhava sistematicamente os senadores e protagonizava episódios tão extravagantes que ainda hoje parecem saídos de uma peça de teatro. Mesmo admitindo que os seus adversários tenham exagerado alguns relatos, permanece a imagem de um governante convencido de que a realidade existia para confirmar a sua própria grandeza.

Dois mil anos passaram.

Mudaram os palácios, desapareceram as legiões e o Senado romano é hoje apenas uma memória arqueológica. Mas uma tentação permanece extraordinariamente atual: a de confundir liderança com protagonismo.

É aqui que a comparação satírica com Donald Trump se torna sugestiva.

Não porque Trump seja um novo Calígula. As diferenças são demasiado importantes para permitir essa equivalência. Calígula governava um império absoluto; Trump foi eleito numa democracia constitucional, sujeito ao escrutínio dos tribunais, do Congresso, da comunicação social e, acima de tudo, dos eleitores.

Mas ambos compreenderam algo essencial sobre o exercício do poder: a atenção pública tornou-se uma forma de autoridade.

Calígula precisava de surpreender diariamente Roma para manter viva a aura da sua figura.

Trump domina como poucos a capacidade de ocupar permanentemente o espaço mediático. Cada declaração, cada conferência de imprensa, cada publicação nas redes sociais parece concebida para produzir exatamente o mesmo efeito: obrigar o mundo inteiro a olhar para ele.

No fundo, ambos perceberam que, muitas vezes, quem controla o espetáculo acaba por condicionar a própria realidade.

Na Roma antiga, o povo recebia panem et circenses.

Hoje recebe notificações.

A arena foi substituída pelos ecrãs. Os gladiadores deram lugar aos comentadores televisivos. O aplauso transformou-se em partilhas, gostos e visualizações. A lógica, porém, continua surpreendentemente semelhante.

O verdadeiro perigo para uma democracia nunca reside apenas na personalidade exuberante de um líder. Reside sobretudo na disponibilidade dos cidadãos para preferirem o espetáculo às instituições, a emoção à razão e a popularidade à competência.

Calígula morreu assassinado pelos seus próprios guardas. Roma sobreviveu-lhe.

As democracias modernas dispõem de mecanismos muito mais civilizados para limitar os excessos do poder. Essa é, afinal, uma das maiores conquistas da civilização política: substituir o punhal pelo voto, a conspiração pela Constituição e a arbitrariedade pela separação de poderes.

Talvez seja esta a maior lição que Roma ainda tem para nos oferecer.

Os regimes políticos mudam. As tecnologias evoluem. Os meios de comunicação multiplicam-se. Mas a natureza humana permanece notavelmente constante.

Continuamos fascinados por figuras maiores do que a vida. Continuamos vulneráveis ao brilho da personalidade. Continuamos a confundir notoriedade com grandeza.

No fim, a História lembra-nos uma verdade simples: os grandes líderes constroem instituições; os pequenos procuram construir apenas a própria imagem.

É por isso que Calígula continua a interessar-nos.

Não pelo que foi.

Mas pelo que continua a revelar sobre nós.

Francisco Vaz

15 de julho de 2026

O Teatro que o Tibre Levou

Il Trovatore, Roma e a memória da beleza

No dia 19 de janeiro de 1853, Roma encontrava-se parcialmente submersa pelas águas do Tibre. As cheias eram então um acontecimento recorrente, moldando a vida quotidiana da cidade muito antes da construção dos grandes muros do Lungotevere. Seria natural imaginar que uma noite assim afastasse o público de qualquer espetáculo. Aconteceu precisamente o contrário.

Nessa noite estreava-se Il Trovatore, de Giuseppe Verdi, no Teatro Apollo, e os romanos acorreram em grande número. A arte revelou-se mais forte do que a intempérie.

O Teatro Apollo, conhecido anteriormente por Teatro Tordinona, erguia-se praticamente sobre o leito do rio. Construído num terreno pertencente à poderosa família Orsini, parecia desafiar permanentemente as águas do Tibre, convivendo durante décadas com as suas frequentes inundações. A sua própria existência era um exercício de equilíbrio entre a fragilidade humana e a persistência da cultura.

Décadas mais tarde, quando Roma decidiu finalmente dominar o rio através da construção dos imponentes muros do Lungotevere, o velho teatro foi sacrificado. A cidade ganhou segurança, mas perdeu um dos palcos mais importantes da história da ópera italiana.

Contudo, os lugares verdadeiramente importantes raramente desaparecem por completo. Permanecem na memória coletiva.

Hoje, quem passa pela antiga zona do teatro encontra a Fontana di Tordinona. As máscaras da comédia e da tragédia recordam a vocação teatral daquele espaço, enquanto a figura de Apolo, empunhando a sua lira, continua simbolicamente a guardar o local onde tantas vozes fizeram vibrar Roma. A pedra substituiu o edifício, mas a memória permanece.

Também Verdi cultivava essa memória de uma forma muito própria. Em Sant'Agata, na sua quinta, mandava plantar uma árvore por cada grande sucesso artístico. Era uma forma silenciosa de transformar a efemeridade de uma estreia em algo destinado a crescer durante gerações. Entre essas árvores encontra-se o carvalho dedicado a Il Trovatore.

O simbolismo é particularmente feliz. Enquanto o teatro onde a obra nasceu acabou demolido pelas transformações urbanas, o carvalho continua vivo. A madeira sobreviveu à pedra. A natureza prolongou aquilo que a arquitetura não conseguiu conservar.

Talvez seja essa uma das grandes lições da cultura: as obras de arte pertencem menos aos edifícios onde nasceram do que à memória daqueles que as recebem. Os teatros podem desaparecer; os compositores morrem; as cidades transformam-se. Mas a beleza encontra sempre novas formas de permanecer.

É por isso que visitar Roma é também aprender a olhar para aquilo que já não existe. Debaixo das ruas atuais escondem-se cidades antigas; por trás das fachadas modernas sobrevivem histórias esquecidas; junto ao Tibre continua a ecoar, para quem souber escutar, a noite em que uma cidade inundada decidiu que a música era mais importante do que a chuva.

A verdadeira vitória de Il Trovatore não foi apenas o sucesso da estreia. Foi ter demonstrado, uma vez mais, que a arte possui uma extraordinária capacidade de resistir ao tempo. Os rios mudam de curso, os edifícios desaparecem e as gerações sucedem-se. A beleza, porém, continua sempre a encontrar um palco onde renascer.

Francisco Vaz

15 de julho de 2026

terça-feira, 14 de julho de 2026

O Dó de Peito da Vida

Há notas que se cantam. E há notas que se conquistam

O célebre dó de peito é muito mais do que uma nota aguda da história da ópera. É um símbolo da própria condição humana.

Até ao início do século XIX, os tenores recorriam ao falsetone para alcançar os registos mais altos. A sonoridade era elegante, mas relativamente leve. Em 1831, porém, Gilbert Duprez surpreendeu o mundo ao cantar um dó agudo em voz plena — o célebre ut de poitrine. Não foi apenas uma inovação técnica. Foi uma revolução estética.

O tenor deixou de ser um virtuoso da elegância para se transformar no herói romântico: alguém disposto a arriscar tudo por amor, pela honra ou por um ideal. A própria voz passou a refletir esse risco. Um dó de peito nunca é uma nota completamente segura. Exige anos de preparação, mas chega sempre um instante em que a técnica já não basta. É preciso coragem.

Talvez seja por isso que o público continua, quase dois séculos depois, a prender a respiração nesses momentos. Todos intuem que não estão apenas perante uma dificuldade vocal. Estão perante alguém que aceita expor a sua vulnerabilidade em nome da beleza.

É precisamente aqui que a música encontra a filosofia.

Aristóteles ensinava que a coragem não consiste na ausência de medo, mas na capacidade de agir apesar dele. O homem virtuoso conhece o risco, mede-o e, ainda assim, avança porque existe um bem maior que justifica esse passo.

Não será isso que acontece também nas grandes decisões da vida?

Amar. Educar um filho. Assumir uma responsabilidade. Defender uma convicção. Permanecer fiel quando seria mais fácil desistir. Nenhuma destas decisões oferece garantias absolutas. Todas exigem um pequeno "dó de peito".

Também a tradição cristã aponta na mesma direção. Jesus resume esse paradoxo numa frase desconcertante: «Quem quiser salvar a sua vida há de perdê-la; mas quem perder a sua vida por minha causa encontrá-la-á.» A plenitude não nasce da autopreservação, mas da entrega.

É essa lógica que distingue a grande arte da simples habilidade.

A habilidade procura aplausos.

A beleza oferece-se.

Talvez seja esta a razão pela qual obras como Lucia di Lammermoor continuam a emocionar. Donizetti não escreveu apenas uma ópera. Mostrou que existem emoções para as quais as palavras já não chegam e que só a música consegue dizer.

No fundo, todos somos chamados a encontrar o nosso próprio dó de peito. Não num palco, mas na vida.

Porque a excelência humana nasce quando a competência técnica, a coragem moral e a disponibilidade para nos entregarmos aos outros deixam de caminhar separadas e passam a formar uma só voz.

Talvez seja essa a mais bela lição escondida numa única nota da história da música.

Francisco Vaz

14 de julho de 2026

sábado, 11 de julho de 2026

Pobres sempre os tereis convosco

Uma reflexão sobre a pobreza, a liberdade e a dignidade humana

Há frases que, retiradas do seu contexto, parecem dizer exatamente o contrário daquilo que significam. Poucas terão sido tão mal compreendidas como esta de Jesus: «Pobres, sempre os tereis convosco.»

Ao longo dos séculos, não faltaram aqueles que a interpretaram como uma espécie de fatalismo cristão: haverá sempre pobres, logo pouco há a fazer. Mas basta ler atentamente o Evangelho para perceber que Cristo nunca legitimou a resignação perante a injustiça. Pelo contrário, toda a sua vida constitui um permanente desafio à indiferença.

Na realidade, Jesus cita quase literalmente o Livro do Deuteronómio: «Nunca deixarão de existir pobres na terra; por isso ordeno-te: abre generosamente a mão ao teu irmão.» A permanência da pobreza não elimina a obrigação moral; torna-a permanente.

A questão é, então, outra. Porque continuará sempre a existir pobreza?

A resposta talvez resida na própria natureza da liberdade humana.

Enquanto existir liberdade haverá sempre possibilidade de egoísmo, de desigualdade, de exclusão e de injustiça. A pobreza não nasce apenas da escassez de recursos; nasce, muitas vezes, da forma como as sociedades organizam a distribuição das oportunidades, do poder e da riqueza. Não é um fenómeno exclusivamente económico. É também político, cultural, moral e espiritual.

Foi precisamente esta visão ampla que vários pensadores portugueses procuraram desenvolver.

Alfredo Bruto da Costa ensinou-nos que a pobreza é essencialmente exclusão. Não basta medir rendimentos; é necessário perguntar quem ficou impedido de participar plenamente na vida da comunidade. O pobre não é apenas quem possui menos. É frequentemente quem conta menos.

Manuela Silva acrescentou uma dimensão decisiva: a pobreza resulta também das escolhas coletivas. Uma economia só merece esse nome quando coloca a pessoa humana no centro do desenvolvimento. O crescimento económico, por si só, não elimina a pobreza se não produzir justiça social.

Eugénio Fonseca, durante muitos anos à frente da Cáritas Portuguesa, recorda que nenhuma política social substitui a proximidade humana. O combate à pobreza exige instituições eficazes, mas exige igualmente relações de fraternidade. A solidariedade não é um sentimento vago; é uma forma concreta de reconhecer no outro alguém com igual dignidade.

Acácio Catarino insistia que o trabalho digno continua a ser uma das mais importantes formas de libertação. A assistência pode aliviar necessidades; o trabalho devolve autonomia, participação e autoestima.

Mas talvez seja Amartya Sen quem tenha oferecido uma das formulações mais fecundas do nosso tempo. Para o Nobel da Economia, ser pobre não significa apenas possuir poucos recursos; significa não dispor das capacidades necessárias para escolher livremente o próprio projeto de vida. A verdadeira riqueza mede-se pelas possibilidades reais de cada pessoa florescer.

Esta perspetiva aproxima-se surpreendentemente da tradição cristã.

Muito antes de existirem indicadores económicos, Santo Ambrósio afirmava que os bens da criação possuem um destino universal. Quando o rico socorre o pobre, dizia ele, não pratica um gesto de magnanimidade; restitui-lhe aquilo que, em certo sentido, já lhe pertence pelo simples facto de ambos partilharem a mesma humanidade.

Séculos mais tarde, Bento XVI, na encíclica Caritas in Veritate, recuperaria esta intuição ao afirmar que o desenvolvimento só é verdadeiramente humano quando integra a justiça, a verdade e a caridade. E Francisco, em Fratelli Tutti, denuncia aquilo que talvez seja a maior pobreza contemporânea: a cultura do descarte, que transforma pessoas em objetos úteis enquanto servem e descartáveis quando deixam de servir.

No entanto, talvez a forma mais subtil de pobreza seja aquela que não aparece nas estatísticas.

Existe a pobreza de quem nunca foi amado.

A pobreza de quem vive rodeado de pessoas mas profundamente só.

A pobreza de quem perdeu qualquer horizonte de esperança.

A pobreza cultural que impede o acesso ao conhecimento.

A pobreza espiritual de sociedades materialmente ricas mas incapazes de responder à pergunta fundamental sobre o sentido da existência.

É por isso que combater a pobreza não pode limitar-se à redistribuição de riqueza. É necessário construir relações, fortalecer famílias, promover educação, criar trabalho digno, cultivar cultura, alimentar esperança. Em suma, promover a pessoa inteira.

A frase de Jesus permanece, assim, extraordinariamente atual.

Os pobres estarão sempre entre nós não porque Deus tenha desistido da humanidade, mas porque a liberdade humana continuará sempre capaz de produzir novas formas de exclusão. Essa permanência não justifica a resignação; impede precisamente que alguma geração imagine ter concluído definitivamente a obra da justiça.

Talvez seja este o verdadeiro significado daquelas palavras.

Os pobres não existem para testar a nossa generosidade.

Existem para recordar permanentemente a nossa responsabilidade.

Porque uma civilização não se mede pelo número dos seus milionários, nem sequer pelo crescimento do seu produto interno bruto. Mede-se pela forma como olha para aqueles que nada têm para oferecer senão a sua própria dignidade.

E talvez seja precisamente aí que reside a maior atualidade do Evangelho: enquanto houver um pobre, haverá ainda trabalho por fazer. Não apenas para os governos ou para as instituições, mas para cada um de nós. Afinal, como recordava Santo Ambrósio, a justiça começa quando deixamos de considerar a solidariedade uma concessão e passamos a reconhecê-la como um dever decorrente da comum dignidade humana.

Francisco Vaz

11 de julho de 2026