Pecado original

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sexta-feira, 16 de outubro de 2026

Hiroshima e Nagasaki: as vidas perdidas e as vidas poupadas

O fim da guerra no Pacífico e a responsabilidade de decidir na incerteza

Em agosto de 1945, o Japão já não tinha condições para vencer a guerra. Conservava, porém, os meios e a determinação de uma parte dos seus dirigentes para continuar a travá-la. Esta diferença entre a derrota militar e a aceitação política da derrota é indispensável para compreender o emprego das bombas atómicas sobre Hiroshima e Nagasaki.

A Marinha Imperial perdera grande parte da sua capacidade operacional. O bloqueio estrangulava a economia e os bombardeamentos devastavam as cidades. Apesar disso, milhões de militares japoneses permaneciam mobilizados, no arquipélago e nos territórios ocupados. A superioridade aliada tornava a vitória previsível; não tornava a rendição imediata. (history.navy.mil⁠)

Okinawa demonstrara o que essa resistência podia significar. Entre abril e junho de 1945, os norte-americanos sofreram cerca de 49 mil baixas, incluindo aproximadamente 12 mil mortos. As perdas militares japonesas e a mortalidade da população civil foram devastadoras. Para quem sobrevivera à campanha, a perspetiva de desembarcar no Japão anunciava uma nova experiência de destruição, talvez ainda mais terrível. (nationalww2museum.org⁠)

É a partir dessa experiência que deve compreender-se o alívio de muitos combatentes perante a notícia das bombas. Para esses homens, o fim da guerra significava sobreviver, regressar à família e escapar à possibilidade de uma mutilação permanente. A ideia de que uma bomba disponível mais cedo poderia ter evitado Okinawa exprime uma interrogação humana legítima. Historicamente, permanece uma hipótese: não podemos saber se o seu emprego antecipado teria produzido a rendição.

Os planos aliados permitem, contudo, perceber a dimensão do perigo. A operação Olympic previa desembarques em Kyushu em novembro de 1945; a Coronet, uma invasão da região de Tóquio, em Honshu, na primavera de 1946. A preparação exigia uma concentração gigantesca de forças e a transferência de unidades que tinham combatido na Europa. Homens que acabavam de sobreviver à guerra contra Hitler preparavam-se para enfrentar outro teatro de operações, outro inimigo e novas perdas. Os planeadores admitiam que os combates pudessem prolongar-se até 1947. (history.navy.mil⁠)

As estimativas de baixas variavam consideravelmente. Não existe um número único que permita afirmar quantas pessoas morreriam numa invasão ou quanto tempo duraria a guerra. Além disso, baixas militares não significam apenas mortos: incluem feridos e desaparecidos. A possibilidade de uma catástrofe humana era real; a sua dimensão exata permanece impossível de demonstrar.

A guerra continuava também fora do arquipélago. Na China e noutros territórios ocupados, populações e prisioneiros permaneciam sujeitos à violência, à privação e à morte. O prolongamento do conflito tinha um custo diário que não pode ser excluído do julgamento sobre agosto de 1945. A alternativa às bombas teria de ser avaliada pelas consequências previsíveis de continuar os combates, o bloqueio e os bombardeamentos.

Isso exige rigor na utilização dos números. As cifras de 19 mil mortos por dia e de 14 milhões de vítimas em mais dois anos de guerra não devem ser tratadas como factos estabelecidos sem uma fundamentação que esclareça o que contabilizam e como foram calculadas. Do mesmo modo, as estimativas das autoridades de Hiroshima apontam para cerca de 140 mil mortos nessa cidade e 74 mil em Nagasaki até ao final de 1945. Estes valores já incluem muitas mortes posteriores às explosões, mas não encerram o sofrimento causado pelas radiações. (pref.hiroshima.lg.jp⁠)

As bombas tiveram um papel central na rendição. A entrada da União Soviética na guerra foi também um choque decisivo: destruiu a esperança japonesa de uma mediação de Moscovo e agravou a situação estratégica. Mesmo perante estes acontecimentos, a direção japonesa continuou dividida. A intervenção do imperador foi necessária para ultrapassar o impasse. Por isso, a importância relativa das bombas e da ofensiva soviética continua a ser discutida. (history.navy.mil⁠)

Existe, porém, fundamento documental para reconhecer que Hiroshima ofereceu aos partidários da paz uma oportunidade de vencer a resistência dos militaristas. Num testemunho recolhido após a guerra, o secretário do gabinete japonês descreveu a bomba como o acontecimento que permitia impulsionar a decisão de terminar o conflito. A catástrofe externa ajudava a romper uma paralisia interna. (history.state.gov⁠)

O julgamento histórico encontra aqui a ética. Quem decidia em 1945 desconhecia o futuro, mas tinha de responder pelas consequências previsíveis das suas escolhas. Continuar uma guerra perdida também era uma decisão. Sacrificava soldados, prisioneiros e populações em nome de objetivos que já não podiam ser alcançados. A responsabilidade da direção imperial japonesa por esse prolongamento deve permanecer presente quando se examina a responsabilidade norte-americana pela destruição das duas cidades.

É historicamente defensável sustentar que Hiroshima e Nagasaki contribuíram decisivamente para abreviar a guerra e provavelmente evitaram uma mortandade ainda maior. Essa conclusão não permite calcular com certeza as vidas poupadas nem transforma a morte dos habitantes das duas cidades num acontecimento moralmente simples.

O sobrevivente de Okinawa que viu na bomba a possibilidade de regressar a casa e a criança de Hiroshima que perdeu a família pertencem à mesma história. Compreender agosto de 1945 exige olhar para ambos: reconhecer o horror infligido e considerar, com a prudência que a história impõe, o horror que o fim da guerra poderá ter evitado.

Francisco Vaz

11 de outubro de 2026


PACEM IN TERRIS - Da paz de João XXIII à paz desarmada e desarmante de Leão XIV

A paz e a condição humana

A paz constitui uma das mais antigas e persistentes aspirações da humanidade. Paradoxalmente, porém, a história revela uma extraordinária capacidade para desejar a paz e, simultaneamente, criar as condições que a tornam impossível. As civilizações desenvolveram instituições, sistemas jurídicos, formas de organização política e instrumentos de cooperação, mas não conseguiram eliminar a violência, a injustiça e a guerra. Talvez porque a paz, antes de constituir um problema político, seja uma questão profundamente enraizada na própria condição humana.

O fim das hostilidades não significa necessariamente o estabelecimento da paz. Uma guerra pode terminar sem que desapareçam as causas que a provocaram. A imposição da vontade do vencedor pode produzir silêncio, submissão ou resignação, mas não necessariamente reconciliação. Do mesmo modo, a ausência de violência manifesta pode ocultar situações de injustiça que conservam intactas as sementes de futuros conflitos.

A paz exige, portanto, uma compreensão mais profunda do que aquela que a identifica com a simples ausência de guerra. Não se reduz ao equilíbrio entre forças adversárias, à eficácia dos tratados internacionais ou à capacidade dissuasora dos arsenais militares. Embora estas realidades possam desempenhar uma função na preservação da segurança, nenhuma delas, isoladamente, constitui o fundamento último de uma paz duradoura.

É precisamente esta questão que atravessa o pensamento social cristão contemporâneo, encontrando uma das suas formulações mais significativas na encíclica Pacem in Terris, publicada por São João XXIII em 11 de abril de 1963.

Desde então, os sucessivos pontífices aprofundaram uma reflexão que, sem abandonar os fundamentos estabelecidos por João XXIII, procurou responder às transformações políticas, sociais e culturais do mundo contemporâneo. Da justiça ao desenvolvimento, da solidariedade ao perdão, da fraternidade à proposta de uma paz desarmada e desarmante, desenha-se um percurso de notável continuidade doutrinal.

Mais do que uma sucessão de ensinamentos pontifícios, este percurso constitui uma verdadeira antropologia da paz: uma reflexão sobre o homem, a sua dignidade, a sua liberdade e a sua responsabilidade perante os outros.

João XXIII: a paz fundada numa ordem moral

Quando João XXIII publicou a Pacem in Terris, a humanidade vivia sob a ameaça permanente de uma guerra nuclear. A crise dos mísseis de Cuba, em outubro de 1962, demonstrara como decisões políticas tomadas num contexto de confronto ideológico podiam colocar em risco a sobrevivência de milhões de pessoas.

O desenvolvimento tecnológico proporcionara à humanidade uma capacidade de destruição sem precedentes. A inteligência humana, capaz de desvendar os segredos da natureza, parecia incapaz de assegurar uma convivência pacífica entre os povos.

É neste contexto que João XXIII introduz uma perspetiva decisiva. A paz não depende apenas da organização do poder ou da contenção dos conflitos. Depende, antes de tudo, do reconhecimento de uma ordem moral que precede e fundamenta a própria organização política.

A encíclica começa com uma afirmação que contém o núcleo essencial do seu pensamento:

«A paz na terra, anseio profundo de todos os homens de todos os tempos, não se pode estabelecer nem consolidar senão no pleno respeito da ordem instituída por Deus.»¹

João XXIII parte da observação de que o universo manifesta uma ordem inteligível, que a razão humana procura compreender. Mas também a convivência entre as pessoas exige uma ordem, fundada na natureza e na dignidade do ser humano.

A paz não pode, por conseguinte, resultar exclusivamente da imposição da força. Uma ordem sustentada apenas pelo medo permanece vulnerável, porque não transforma as razões que conduzem ao conflito.

A verdadeira paz deve assentar em quatro fundamentos inseparáveis: verdade, justiça, amor e liberdade.

A verdade exige o reconhecimento da dignidade de cada pessoa, impedindo que o outro seja reduzido a instrumento dos nossos interesses. A justiça traduz esse reconhecimento em direitos e deveres concretos. O amor impede que a convivência humana se limite ao cumprimento formal das obrigações jurídicas. A liberdade torna possível a responsabilidade moral, sem a qual nenhuma ordem social pode considerar-se autenticamente humana.

Estes quatro princípios constituem a arquitetura moral da Pacem in Terris.

Mas João XXIII acrescenta uma dimensão particularmente importante: a reciprocidade entre direitos e deveres. O direito à vida implica o dever de respeitar a vida alheia; o direito à liberdade pressupõe o reconhecimento da liberdade dos outros.

A dignidade humana não constitui, assim, uma prerrogativa individual desligada da comunidade. É simultaneamente fundamento de direitos e origem de responsabilidades.

O Papa transfere depois estes princípios das relações interpessoais para as relações entre os Estados. Também as nações devem orientar a sua convivência pela verdade, pela justiça, pela solidariedade e pela liberdade.

Nenhum Estado pode procurar legitimamente o seu próprio bem ignorando o bem dos outros. A soberania política não elimina a pertença a uma comunidade humana mais vasta.

Surge, deste modo, o conceito de bem comum universal, particularmente relevante num mundo em que os problemas fundamentais ultrapassam as fronteiras nacionais.

A proteção dos direitos humanos, a segurança internacional, o desenvolvimento económico e a prevenção da guerra exigem instituições e mecanismos de cooperação que correspondam à crescente interdependência da humanidade.

A Pacem in Terris representa, por isso, um momento decisivo na evolução da Doutrina Social da Igreja. A questão social, inicialmente desenvolvida por Leão XIII na Rerum Novarum, de 1891, sobretudo perante os problemas do trabalho e da industrialização, alcança agora plenamente a dimensão das relações internacionais.

A paz deixa de ser apenas uma questão entre Estados. Torna-se uma responsabilidade da própria família humana.

O Concílio Vaticano II: a paz como obra da justiça

A reflexão de João XXIII seria retomada e aprofundada pelo Concílio Vaticano II na Constituição Pastoral Gaudium et Spes, promulgada em 1965.

O Concílio rejeita expressamente uma compreensão negativa da paz, entendida como mera ausência de guerra, equilíbrio entre forças adversárias ou consequência da dominação de uns povos sobre outros.

Retomando a tradição profética de Isaías, afirma que a paz é obra da justiça.²

Esta definição possui consequências profundas. A paz não constitui simplesmente uma situação política favorável, mas o resultado de relações humanas organizadas segundo a justiça e orientadas para o bem comum.

Contudo, o Concílio acrescenta uma observação igualmente decisiva: a paz nunca se alcança de uma vez para sempre.

É uma construção permanente.

A ordem justa exige atenção constante às transformações históricas, às necessidades das pessoas e às condições concretas da convivência social. Cada geração recebe a paz como uma responsabilidade, não como uma herança definitivamente assegurada.

A Gaudium et Spes reconhece que a dissuasão militar pode impedir temporariamente o desencadeamento de uma guerra, mas recusa identificar o equilíbrio do medo com uma paz verdadeira.

A corrida aos armamentos, longe de resolver as causas dos conflitos, pode agravá-las, desviando recursos indispensáveis ao desenvolvimento humano e perpetuando relações internacionais dominadas pela desconfiança.

Importa, todavia, evitar uma interpretação ingénua desta doutrina.

O Concílio reconhece a responsabilidade das autoridades políticas na defesa das populações e admite, sob condições rigorosas, o exercício da legítima defesa enquanto não existir uma autoridade internacional eficaz capaz de garantir a segurança comum.

A paz cristã não significa indiferença perante o mal, nem renúncia à proteção dos inocentes. Significa que a força, quando moralmente admissível, deve permanecer subordinada ao direito, à justiça e à dignidade humana.

A paz não se confunde com a passividade. Mas também não pode ser construída sobre a absolutização da força.

É nesta tensão entre a necessidade de proteger e a obrigação de reconciliar que se manifesta uma das exigências mais difíceis da responsabilidade política.

O Concílio acrescenta ainda que a justiça, embora indispensável, não basta por si só. A paz exige também o amor, porque a convivência humana não se esgota no reconhecimento jurídico dos direitos.

A justiça estabelece as condições da paz. O amor abre a possibilidade de ultrapassar as divisões que a justiça, isoladamente, nem sempre consegue superar.

Paulo VI: o desenvolvimento como condição da paz

Em 1967, Paulo VI publica a encíclica Populorum Progressio, introduzindo uma dimensão que se tornaria fundamental no pensamento social cristão: a relação entre paz e desenvolvimento.

O Papa reconhece que as desigualdades económicas e sociais entre os povos não constituem apenas problemas de distribuição da riqueza. Podem transformar-se em causas profundas de instabilidade, ressentimento e violência.

Um mundo dividido entre sociedades que dispõem de abundantes recursos e populações privadas do essencial não pode considerar-se verdadeiramente pacificado.

Mesmo quando não existe guerra declarada, a injustiça estrutural compromete as condições de uma convivência duradoura.

É neste contexto que Paulo VI formula uma das expressões mais conhecidas da Doutrina Social da Igreja:

**«O desenvolvimento é o novo nome da paz.»**³

O desenvolvimento, porém, não se reduz ao crescimento económico.

A prosperidade material, embora necessária, não assegura por si só a realização humana. Uma sociedade pode tornar-se economicamente poderosa e permanecer moralmente empobrecida.

O verdadeiro desenvolvimento deve ser integral, abrangendo todas as dimensões da pessoa: material, social, cultural, moral e espiritual.

Deve promover todos os homens e o homem todo.

A paz passa, assim, a exigir condições concretas que permitam a cada pessoa realizar a sua dignidade e participar responsavelmente na vida da comunidade.

Esta reflexão conduz Paulo VI a uma iniciativa de grande alcance pastoral: a instituição do Dia Mundial da Paz, celebrado pela primeira vez em 1 de janeiro de 1968.

A partir desse momento, a paz torna-se objeto de uma pedagogia anual dirigida à Igreja e ao mundo.

As mensagens pontifícias procuram interpretar os desafios de cada época à luz dos princípios permanentes da Doutrina Social da Igreja.

A paz deixa de ser apenas o tema de grandes documentos doutrinais. Passa a constituir uma exigência continuada de formação das consciências.

João Paulo II: liberdade, solidariedade e perdão

Durante o longo pontificado de João Paulo II, a reflexão sobre a paz adquiriu uma amplitude particularmente significativa.

As mensagens anuais para o Dia Mundial da Paz abordaram sucessivamente a educação, a liberdade, a solidariedade, os direitos das minorias, a liberdade religiosa, a pobreza, a responsabilidade perante a criação e o perdão.

Esta diversidade temática revela uma convicção fundamental: a paz não pode ser compreendida exclusivamente no âmbito das relações internacionais.

A sua possibilidade depende da conceção que temos da pessoa humana e da forma como organizamos a vida em sociedade.

Não existe paz verdadeira onde a liberdade religiosa é negada, onde as minorias são perseguidas ou onde os pobres são privados das condições necessárias a uma existência digna.

Também não existe paz duradoura quando as sociedades permanecem prisioneiras da humilhação, do ressentimento e da vingança.

Na encíclica Sollicitudo Rei Socialis, de 1987, João Paulo II aprofunda o conceito de solidariedade, recusando reduzi-lo a um sentimento passageiro de compaixão.

A solidariedade constitui uma determinação firme e perseverante de procurar o bem comum, fundada na consciência de que todos somos responsáveis por todos.⁴

Esta conceção introduz uma exigência que ultrapassa a simples coexistência pacífica.

Não basta tolerar a presença do outro. É necessário reconhecer que o seu destino não nos é indiferente.

A paz torna-se, deste modo, uma responsabilidade partilhada.

Mas João Paulo II levaria esta reflexão ainda mais longe, introduzindo uma dimensão particularmente exigente: o perdão.

Na mensagem para o Dia Mundial da Paz de 2002, publicada poucos meses depois dos atentados de 11 de Setembro, escolheu como tema:

**«Não há paz sem justiça, não há justiça sem perdão.»**⁵

A afirmação não pretende substituir a justiça pelo perdão.

O perdão não elimina a responsabilidade, não apaga o mal cometido nem dispensa a reparação devida às vítimas.

O perdão opõe-se à vingança, não à justiça.

A distinção é essencial.

A justiça procura reconhecer a verdade dos acontecimentos, estabelecer responsabilidades e restaurar os direitos violados. Mas nem sempre consegue, por si só, interromper a reprodução da violência.

O ressentimento pode sobreviver à punição. A memória da ofensa pode transmitir-se de geração em geração. O desejo de vingança pode transformar as vítimas de ontem nos agressores de amanhã.

O perdão introduz então uma possibilidade radicalmente nova: libertar o futuro da repetição indefinida do passado.

Não significa esquecer a injustiça, mas recusar que ela determine para sempre as relações humanas.

A paz encontra aqui uma das suas dimensões mais profundas: a capacidade de transformar a memória do sofrimento sem a converter em fundamento de nova violência.

Assis: o encontro como caminho de paz

Entre os acontecimentos mais significativos do pontificado de João Paulo II encontra-se a jornada de oração pela paz realizada em Assis, em 27 de outubro de 1986.

Num mundo ainda dividido pela Guerra Fria, representantes de diferentes Igrejas e tradições religiosas reuniram-se para testemunhar uma responsabilidade comum perante a paz.⁶

O encontro não pretendia apagar as diferenças doutrinais, estabelecer uma religião universal ou relativizar a identidade das diversas tradições.

Tratava-se de reconhecer que a diversidade religiosa não precisava de constituir um obstáculo à convivência e que a procura da paz exigia uma disposição comum para o encontro.

Os participantes rezaram segundo as respetivas tradições, jejuaram, caminharam e fizeram silêncio.

Assis revelou uma dimensão da paz frequentemente esquecida nas análises políticas: a importância da escuta.

A violência começa muitas vezes quando deixamos de escutar o outro, quando o reduzimos a uma categoria ou quando substituímos o reconhecimento da sua humanidade por uma imagem construída a partir dos nossos medos e preconceitos.

O encontro não elimina automaticamente as divergências.

Mas permite que a diferença deixe de ser interpretada como ameaça.

Antes de procurar vencer o outro, importa compreendê-lo. Antes de transformar as estruturas da sociedade, é necessário reconhecer a responsabilidade da própria consciência.

A paz exige instituições justas, mas exige também homens capazes de habitar essas instituições sem reproduzir continuamente a lógica da hostilidade.

Bento XVI e Francisco: da verdade à fraternidade

Bento XVI aprofundaria esta reflexão na encíclica Caritas in Veritate, publicada em 2009.

Retomando a questão do desenvolvimento humano integral, o Papa coloca no centro a relação inseparável entre caridade e verdade.⁷

A caridade sem verdade corre o risco de se transformar em sentimentalismo, perdendo a capacidade de orientar racionalmente a ação humana.

A verdade sem caridade, por sua vez, pode converter-se numa abstração incapaz de transformar as relações concretas entre as pessoas.

A paz exige ambas.

Não basta desejar o bem. É necessário procurar compreendê-lo e realizá-lo segundo critérios que respeitem a dignidade humana.

Com o Papa Francisco, a reflexão sobre a paz encontra uma expressão particularmente significativa no conceito de fraternidade.

Na encíclica Fratelli Tutti, de 2020, a parábola do Bom Samaritano torna-se uma chave de interpretação da convivência humana.⁸

Um homem encontra-se caído à beira da estrada. Outros passam, observam e prosseguem o seu caminho. Apenas um se aproxima e assume a responsabilidade de cuidar daquele desconhecido.

A questão decisiva não consiste em saber a que grupo pertence o homem ferido, qual a sua origem ou quais as suas convicções.

Consiste em reconhecer que a sua vulnerabilidade interpela a nossa humanidade.

A fraternidade deixa, assim, de ser apenas uma disposição afetiva. Torna-se uma categoria moral, social e política.

A guerra começa muito antes do primeiro disparo.

Começa quando deixamos de reconhecer humanidade no outro. Quando o reduzimos a inimigo absoluto. Quando o sofrimento daqueles que se encontram do outro lado de uma fronteira, de uma religião ou de uma divergência política deixa de nos interpelar.

A fraternidade procura contrariar precisamente esta desumanização.

Não elimina os conflitos de interesses, as divergências políticas ou as responsabilidades históricas.

Mas impede que essas diferenças justifiquem a negação da dignidade do outro.

A paz exige, portanto, mais do que tolerância. Exige a consciência de uma pertença humana comum.

Leão XIV: uma paz desarmada e desarmante

Quando Leão XIV apareceu pela primeira vez na varanda central da Basílica de São Pedro, em 8 de maio de 2025, dirigiu ao mundo a saudação do Cristo ressuscitado:

«A paz esteja com todos vós.»

E acrescentou uma expressão que viria a marcar a orientação do seu pontificado: uma paz desarmada, uma paz que desarma, humilde e perseverante.⁹

Esta formulação encontraria desenvolvimento na mensagem para o Dia Mundial da Paz de 2026, intitulada A paz esteja com todos vós. Rumo a uma paz desarmada e desarmante.¹⁰

A expressão possui uma densidade que merece ser considerada.

Uma paz desarmada é, antes de tudo, uma paz que não procura afirmar-se através da ameaça, da humilhação ou da imposição.

Não significa necessariamente a ausência de todos os instrumentos de defesa, nem a renúncia à responsabilidade de proteger os inocentes.

Significa reconhecer que a força, mesmo quando legitimamente utilizada, não possui capacidade suficiente para produzir uma reconciliação verdadeira.

Pode conter uma agressão, impedir uma injustiça ou restabelecer condições mínimas de segurança. Mas não consegue, por si só, transformar a hostilidade em confiança.

A paz exige mais do que a cessação da violência.

É precisamente aqui que a segunda palavra adquire especial significado.

Uma paz desarmante.

O adjetivo desloca a reflexão do instrumento para a intenção, da arma para a consciência, da violência manifesta para as disposições interiores que a tornam possível.

Desarmar não significa apenas retirar as armas das mãos.

Significa procurar desarmar o medo, o ódio, a mentira, a humilhação, o ressentimento e a vontade de domínio que frequentemente conduzem os homens a empunhá-las.

A distinção é fundamental.

Uma paz desarmada descreve uma forma de agir.

Uma paz desarmante exprime uma capacidade de transformar.

A primeira recusa fazer da violência o fundamento das relações humanas. A segunda procura interromper os mecanismos morais e psicológicos que perpetuam a violência.

Não se trata, porém, de uma transformação exclusivamente interior.

A paz começa na consciência, mas não termina nela.

Tem de encontrar expressão na justiça, no direito, nas instituições, na solidariedade, no diálogo e na reconciliação.

Uma paz apenas interior seria insuficiente perante a realidade das injustiças sociais e políticas. Mas uma paz exclusivamente institucional, sem transformação moral, permaneceria sempre vulnerável à reaparição dos mesmos conflitos.

Esta continuidade não resulta apenas de uma aproximação interpretativa entre dois pontificados separados por mais de seis décadas. Na sua mensagem para o Dia Mundial da Paz de 2026, Leão XIV regressa expressamente à Pacem in Terris, convocando o ensinamento de João XXIII para refletir sobre o desarmamento, a confiança entre os povos e a superação da lógica da ameaça.

O percurso iniciado em 1963 encontra, assim, uma nova expressão num mundo profundamente transformado, mas ainda confrontado com a mesma contradição fundamental: a capacidade humana de produzir instrumentos cada vez mais sofisticados de destruição não tem sido acompanhada por idêntico progresso na construção de uma ordem internacional verdadeiramente justa.

A paz desarmada e desarmante não representa, por isso, uma alternativa aos fundamentos da Pacem in Terris, mas um apelo renovado à sua realização histórica.

João XXIII afirmara que a paz exige uma ordem fundada na verdade, na justiça, no amor e na liberdade.

Leão XIV recorda que essa ordem dificilmente poderá consolidar-se enquanto as relações humanas permanecerem dominadas pela lógica da hostilidade.

Entre os dois pontífices não existe uma rutura doutrinal, mas um aprofundamento da mesma exigência.

A paz é simultaneamente uma ordem moral e uma transformação das relações humanas.

A paz entre a responsabilidade política e a exigência moral

A reflexão cristã sobre a paz coloca-nos perante uma tensão que não deve ser ignorada.

Se a paz constitui um bem moral fundamental, como compreender a necessidade de recorrer à força para impedir uma agressão ou proteger populações indefesas?

A tradição cristã nunca resolveu esta questão através de uma identificação simplista entre paz e ausência de resistência.

Reconheceu, pelo contrário, que a responsabilidade perante os outros pode exigir decisões difíceis, especialmente quando estão em causa a vida, a liberdade e a segurança de pessoas inocentes.

A legítima defesa, submetida a condições morais rigorosas, não contradiz necessariamente a procura da paz.¹¹

Mas a possibilidade de recorrer legitimamente à força não transforma a guerra num bem, nem permite ignorar os limites morais da ação militar.

A força pode ser necessária para impedir um mal maior. Não pode, contudo, converter-se no princípio organizador da convivência internacional.

O verdadeiro problema não consiste apenas em determinar quando é legítimo combater, mas também em compreender como impedir que a necessidade de combater destrua as condições de uma paz futura.

A vitória militar e a paz política não são realidades equivalentes.

A história oferece numerosos exemplos de guerras terminadas no campo de batalha cujas consequências permaneceram abertas durante gerações.

A humilhação dos vencidos, a ausência de justiça, a destruição das instituições e a incapacidade de reconstruir relações de confiança podem transformar o fim de uma guerra no início de outro conflito.

A paz exige, portanto, prudência política e responsabilidade moral.

Exige a capacidade de distinguir entre a necessidade de conter a violência e a tentação de fazer da violência um instrumento permanente de domínio.

Neste sentido, a paz desarmada e desarmante não representa uma fuga à realidade histórica.

Representa antes uma exigência crítica dirigida ao exercício do poder.

Recorda que a legitimidade dos meios não pode ser separada da moralidade dos fins e que a proteção da dignidade humana deve permanecer como critério último da ação política.

A paz como dom e como tarefa

O percurso que vai de João XXIII a Leão XIV permite reconhecer uma notável continuidade no pensamento social cristão.

A Pacem in Terris estabeleceu os fundamentos morais da paz: verdade, justiça, amor e liberdade.

O Concílio Vaticano II apresentou-a como obra permanente da justiça, recusando identificá-la com o simples equilíbrio do medo.

Paulo VI demonstrou que não existe paz duradoura sem desenvolvimento humano integral.

João Paulo II aprofundou a relação entre paz, liberdade, solidariedade e perdão, mostrando que a reconciliação exige mais do que a reparação jurídica das injustiças.

Bento XVI recordou a inseparabilidade entre caridade e verdade.

Francisco colocou a fraternidade no centro da convivência humana.

Leão XIV convida agora a compreender a paz como uma realidade simultaneamente desarmada e desarmante.

Não se trata de uma sucessão de conceitos independentes, mas de diferentes dimensões de uma mesma compreensão da pessoa humana.

A paz não começa quando termina a guerra.

Começa muito antes, quando reconhecemos no outro uma pessoa cuja dignidade não depende da sua nacionalidade, religião, condição social ou posição política.

Começa quando compreendemos que aos nossos direitos correspondem deveres.

Quando a justiça se abre à solidariedade.

Quando a liberdade se torna responsabilidade.

Quando o perdão permite interromper a transmissão do ressentimento.

E quando a fraternidade impede que as diferenças se transformem em justificação para a desumanização.

Contudo, a perspetiva cristã introduz uma dimensão que ultrapassa a ordem política e social.

A paz é também um dom.

No Evangelho de São João, Cristo ressuscitado aparece aos discípulos reunidos no Cenáculo. Estão fechados, dominados pelo medo, com as portas trancadas.

Jesus apresenta-se no meio deles, mostra-lhes as mãos e o lado, e dirige-lhes a saudação:

«A paz esteja convosco.»¹²

A cena possui um significado extraordinário.

Cristo ressuscitado conserva as marcas da Paixão.

As feridas não desapareceram.

Mas já não produzem novas feridas.

A violência sofrida não se transforma em desejo de vingança. O sofrimento não conduz à reprodução do mal. A injustiça não recebe como resposta uma nova injustiça.

A Ressurreição revela, deste modo, uma possibilidade radicalmente nova para a existência humana: a de superar a violência sem negar a realidade do sofrimento.

Talvez resida aqui a dimensão mais profunda da paz cristã.

A verdadeira paz não nasce da ausência de sofrimento, mas da possibilidade de impedir que o sofrimento continue a alimentar a violência.

Não nasce do esquecimento da injustiça, mas da capacidade de a superar sem reproduzir o mal.

Não nasce da destruição do inimigo, mas da recusa de transformar definitivamente o outro em inimigo.

A paz é, por isso, simultaneamente dom e tarefa.

É dom porque a reconciliação plena ultrapassa as capacidades humanas e encontra em Cristo o seu fundamento último.

É tarefa porque exige decisões concretas, responsabilidade moral, compromisso social e perseverança histórica.

Não podemos limitar-nos a pedir a paz sem assumir a responsabilidade de a construir.

Mas também não podemos acreditar que a sua construção depende exclusivamente da eficácia das nossas instituições ou da capacidade dos nossos instrumentos políticos.

Entre a graça e a liberdade, entre a oração e a ação, entre a esperança e a responsabilidade, desenvolve-se a vocação cristã para a paz.

É esta tensão fecunda que atravessa o pensamento social da Igreja, desde a Pacem in Terris até ao apelo de Leão XIV.

E talvez possamos encontrar a sua expressão mais simples na antiga súplica que a música de Marco Frisina transforma numa oração coletiva:

Dona nobis pacem in terris.

Dá-nos a paz na Terra.

Não uma paz fundada na indiferença, no medo ou na submissão, mas uma paz construída sobre a verdade, a justiça, o amor e a liberdade.

Uma paz que proteja os inocentes sem perpetuar o ódio.

Que reconheça as feridas da história sem as transformar em condenação do futuro.

Que seja suficientemente firme para resistir ao mal e suficientemente generosa para abrir caminho à reconciliação.

Uma paz desarmada e desarmante.

Porque, em última análise, a paz não é apenas aquilo que os homens desejam receber.

É também aquilo que são chamados a oferecer.

«Felizes os que promovem a paz, porque serão chamados filhos de Deus.» (Mt 5,9)


Francisco Vaz

15 de outubro de 2026


Notas

1. João XXIII, Carta encíclica Pacem in Terris, 11 de abril de 1963, n.os 1, 28–38 e 80–85. O documento estabelece os fundamentos da convivência humana na verdade, na justiça, no amor e na liberdade, estendendo-os às relações entre as comunidades políticas. Disponível em: https://www.vatican.va/content/john-xxiii/pt/encyclicals/documents/hf_j-xxiii_enc_11041963_pacem.html.

2. Concílio Vaticano II, Constituição Pastoral Gaudium et Spes, 7 de dezembro de 1965, n.os 77–82, especialmente n.º 78, sobre a paz como obra da justiça, n.º 79, relativo à responsabilidade de defesa, e n.º 81, sobre a corrida aos armamentos. Disponível em: https://www.vatican.va/archive/hist_councils/ii_vatican_council/documents/vat-ii_const_19651207_gaudium-et-spes_po.html.

3. Paulo VI, Carta encíclica Populorum Progressio, 26 de março de 1967, n.os 14, 42 e 76–80. A expressão «O desenvolvimento é o novo nome da paz» corresponde ao título da secção iniciada no n.º 76. Ver também Paulo VI, Mensagem para o I Dia Mundial da Paz, 1 de janeiro de 1968. Disponível em: https://www.vatican.va/content/paul-vi/pt/encyclicals/documents/hf_p-vi_enc_26031967_populorum.html.

4. João Paulo II, Carta encíclica Sollicitudo Rei Socialis, 30 de dezembro de 1987, n.os 38–40, especialmente n.º 38, onde a solidariedade é definida como determinação firme e perseverante de procurar o bem comum. Disponível em: https://www.vatican.va/content/john-paul-ii/pt/encyclicals/documents/hf_jp-ii_enc_30121987_sollicitudo-rei-socialis.html.

5. João Paulo II, Mensagem para o XXXV Dia Mundial da Paz, Não há paz sem justiça, não há justiça sem perdão, 1 de janeiro de 2002, especialmente n.os 8–10 e 15. O Papa distingue expressamente o perdão da impunidade e da renúncia à justiça. Disponível em: https://www.vatican.va/content/john-paul-ii/pt/messages/peace/documents/hf_jp-ii_mes_20011211_xxxv-world-day-for-peace.html.

6. João Paulo II, discursos proferidos durante a Jornada Mundial de Oração pela Paz, Assis, 27 de outubro de 1986. Ver, em particular, a intervenção conclusiva na Basílica de São Francisco, relativa à responsabilidade comum das religiões na promoção da paz, sem apagamento das respetivas diferenças doutrinais.

7. Bento XVI, Carta encíclica Caritas in Veritate, 29 de junho de 2009, n.os 1–7 e 11. O documento desenvolve a inseparabilidade entre caridade, verdade, justiça e desenvolvimento humano integral. Disponível em: https://www.vatican.va/content/benedict-xvi/pt/encyclicals/documents/hf_ben-xvi_enc_20090629_caritas-in-veritate.html.

8. Francisco, Carta encíclica Fratelli Tutti, 3 de outubro de 2020, n.os 56–86, sobre a parábola do Bom Samaritano; 128–153, sobre a fraternidade na vida social e política; e 225–245, sobre os percursos de reconciliação e paz. Disponível em: https://www.vatican.va/content/francesco/pt/encyclicals/documents/papa-francesco_20201003_enciclica-fratelli-tutti.html.

9. Leão XIV, Primeira Bênção Urbi et Orbi, 8 de maio de 2025. O Papa inicia a sua intervenção com a saudação do Cristo ressuscitado e apresenta a paz como desarmada, capaz de desarmar, humilde e perseverante. Disponível em: https://www.vatican.va/content/leo-xiv/pt/messages/urbi/documents/20250508-prima-benedizione-urbietorbi.html.

10. Leão XIV, Mensagem para o LIX Dia Mundial da Paz, A paz esteja com todos vós. Rumo a uma paz desarmada e desarmante, 8 de dezembro de 2025, para a celebração de 1 de janeiro de 2026. O documento retoma explicitamente a Pacem in Terris e desenvolve a relação entre desarmamento, confiança, educação para a paz e transformação das consciências. Disponível em: https://www.vatican.va/content/leo-xiv/pt/messages/peace/documents/20251208-messaggio-pace.html.

11. Concílio Vaticano II, Gaudium et Spes, n.os 79–82; Catecismo da Igreja Católica, n.os 2302–2317, especialmente n.º 2309, sobre as condições morais rigorosas da legítima defesa mediante a força militar. Ver igualmente Francisco, Fratelli Tutti, n.os 256–262, para uma apreciação contemporânea das dificuldades de aplicação dos critérios tradicionais da guerra justa.

12. Bíblia Sagrada, Jo 20,19–23; Jo 14,27; Ef 2,14–18; Mt 5,9. A interpretação das feridas do Ressuscitado como expressão de uma violência que deixa de gerar nova violência constitui uma reflexão teológica do autor, inspirada no significado pascal da reconciliação.


domingo, 11 de outubro de 2026

A dimensão simbólica e a aritmética

Uma reflexão 

I. O homem como ser simbólico

O ser humano não se limita a existir no mundo. Interroga-o, representa-o, interpreta-o e procura descobrir-lhe um sentido. A realidade não se apresenta à consciência humana como uma simples sucessão de objetos e acontecimentos, mas como um universo de relações que desafiam permanentemente a inteligência.

É nesta capacidade de ultrapassar a experiência imediata que encontramos uma das características mais singulares da condição humana: a dimensão simbólica da existência.

José María Merino, ao associar quatro manifestações da atividade simbólica — a música, a pintura, a ficção e a aritmética —, oferece-nos uma sugestiva perspetiva antropológica. Aparentemente, trata-se de atividades muito diferentes. As três primeiras parecem pertencer ao domínio da sensibilidade e da imaginação; a última, ao domínio da razão abstrata e da demonstração.

Todavia, todas pressupõem uma capacidade comum: representar uma realidade através de algo que não se confunde com ela.

Uma partitura não é a música. Uma pintura não é a paisagem representada. Uma narrativa não é o acontecimento narrado. E o número não é o objeto numerado.

Em todos estes casos, o homem constrói uma mediação simbólica entre a experiência e a compreensão.

Ernst Cassirer encontrou nesta capacidade o fundamento de uma definição antropológica particularmente fecunda: o homem como animal symbolicum. Mais do que um ser exclusivamente racional, o homem seria aquele que constrói sistemas simbólicos através dos quais organiza e interpreta a realidade.

A linguagem, o mito, a religião, a arte e a ciência são manifestações desta condição.

Mas a proposta de Merino contém uma intuição especialmente interessante: a inclusão da aritmética entre as expressões da capacidade simbólica humana.

Com efeito, se a música, a pintura e a ficção parecem nascer da imaginação, a aritmética parece pertencer a uma ordem inteiramente distinta, marcada pela necessidade e pelo rigor.

Será, contudo, tão radical essa separação?

A resposta exige compreender melhor a própria natureza da imaginação.

II. Olavo de Carvalho: a imaginação como mediação do conhecimento

Uma das contribuições filosoficamente mais sugestivas de Olavo de Carvalho encontra-se na importância que atribui à imaginação enquanto faculdade cognitiva.

A imaginação não deve ser confundida com a fantasia arbitrária ou com a produção de imagens desligadas da realidade. Constitui uma capacidade de conservar, combinar e representar experiências, permitindo ao pensamento trabalhar sobre objetos que não se encontram imediatamente presentes.

Esta conceção aproxima-se, em determinados aspetos, da tradição aristotélica.

Na reflexão de Aristóteles sobre a phantasía, a imagem desempenha uma função relevante na atividade do pensamento. O intelecto humano não opera num vazio absoluto, completamente desligado da experiência sensível.

A imaginação permite representar aquilo que os sentidos já não percebem diretamente.

Quando pensamos numa árvore que vimos anteriormente, não necessitamos de a ter diante dos olhos. Quando imaginamos uma cidade antiga, podemos reconstruir mentalmente espaços que desapareceram. Quando concebemos uma situação futura, organizamos possibilidades que ainda não se realizaram.

A imaginação constitui, portanto, uma mediação entre a experiência e o pensamento.

No horizonte filosófico de Olavo de Carvalho, esta faculdade adquire particular importância porque o conhecimento humano não se reduz à manipulação de conceitos abstratos. O pensamento desenvolve-se também através de imagens, analogias, símbolos e representações que permitem apreender relações nem sempre imediatamente acessíveis à formulação lógica.

Mas importa estabelecer uma distinção essencial.

A imaginação pode tornar uma realidade pensável sem, por isso, demonstrar que essa realidade existe.

O facto de conseguirmos imaginar uma situação não significa que ela corresponda à verdade.

É precisamente aqui que intervém a razão crítica.

A imaginação oferece possibilidades de representação; o intelecto procura estabelecer a sua coerência, o seu fundamento e a sua correspondência com o real.

A relação entre ambas não é, portanto, de oposição, mas de complementaridade.

E é nesta complementaridade que a aritmética encontra o seu lugar.

III. A aritmética: quando a representação se torna medida

Consideremos uma experiência elementar.

Uma criança observa três pedras colocadas sobre uma mesa.

Num primeiro momento, vê objetos concretos, dotados de forma, peso, dimensão e cor. Mas, quando reconhece que existem três pedras, realiza uma operação intelectual extraordinária.

Abstrai das características particulares dos objetos e reconhece uma relação quantitativa.

O número três não tem a cor das pedras, não possui o seu peso nem depende da sua natureza material.

Três pedras, três árvores, três navios ou três estrelas podem ser representados pelo mesmo número.

A aritmética nasce desta capacidade de abstração.

O número é um símbolo que permite representar uma quantidade independentemente dos objetos concretos em que essa quantidade se manifesta.

Mas há algo ainda mais significativo.

Através dos números, o homem pode operar sobre realidades ausentes.

Pode calcular a distância entre dois lugares que nunca visitou, determinar a duração de acontecimentos que não presenciou ou estabelecer relações entre quantidades que apenas existem como possibilidades.

A imaginação permite-lhe representar aquilo que não está presente. A aritmética permite-lhe estabelecer relações necessárias entre determinadas representações.

Contudo, enquanto a ficção admite uma liberdade criadora praticamente ilimitada dentro da coerência narrativa, a aritmética submete-se a regras que não dependem da vontade individual.

O romancista pode imaginar um mundo em que determinados acontecimentos históricos se desenrolam de maneira diferente. O matemático não pode decidir arbitrariamente que dois mais dois são cinco, conservando o significado habitual dos números e da adição.

A aritmética constitui, assim, uma manifestação singular da dimensão simbólica: uma linguagem elaborada pelo homem através da qual se exprimem relações dotadas de necessidade lógica.

E daqui emerge uma interrogação filosófica fundamental.

Os números são uma invenção do espírito humano ou a descoberta de uma ordem inteligível que existe independentemente dele?

É esta pergunta que nos conduz de Merino e Olavo de Carvalho a Santo Agostinho.

IV. Santo Agostinho: o número, a ordem e a verdade

Santo Agostinho atribui ao número um significado filosófico que ultrapassa largamente a sua função instrumental.

Em obras como De libero arbitrio e De musica, encontramos uma reflexão sobre a natureza das verdades matemáticas, a ordem e a relação entre a experiência sensível e a inteligência.

O ponto de partida é particularmente sugestivo.

As coisas materiais são mutáveis. Nascem, transformam-se e desaparecem. Os objetos que contamos podem deixar de existir.

Mas as relações matemáticas não parecem sofrer a mesma transformação.

Duas unidades acrescentadas a outras duas constituem quatro unidades, independentemente da época, do lugar ou da pessoa que realiza a operação.

A verdade aritmética não depende da vontade daquele que a reconhece.

O homem pode enganar-se ao contar, mas o erro não altera a relação matemática.

Para Agostinho, esta estabilidade das verdades numéricas constitui um indício de uma ordem inteligível que ultrapassa a mutabilidade da experiência sensível.

No livro II de De libero arbitrio, o filósofo relaciona a verdade dos números com a questão mais ampla da existência de verdades que se impõem à inteligência humana sem dependerem dela.

Não se trata simplesmente de afirmar que Deus é um número ou que as operações aritméticas constituem demonstrações imediatas da existência divina.

O argumento é mais subtil.

A inteligência humana reconhece verdades necessárias que não cria por um ato de vontade. Essas verdades possuem uma universalidade que contrasta com a contingência e a mutabilidade do sujeito que as conhece.

No quadro do pensamento agostiniano, esta experiência intelectual remete para o problema do fundamento último da verdade.

A aritmética converte-se, deste modo, numa via de reflexão metafísica.

O homem descobre relações quantitativas, mas, ao interrogar-se sobre a necessidade dessas relações, confronta-se com a própria natureza da verdade.

A pergunta deixa de ser apenas «quanto?» e transforma-se em «porquê?».

É esta passagem da medida para o fundamento que confere à aritmética uma dimensão ontológica.

V. A música e o número: a harmonia do sensível e do inteligível

A relação entre a música e a aritmética adquire particular relevância no pensamento de Santo Agostinho.

Em De musica, a reflexão sobre o ritmo, a proporção e a medida constitui um caminho para compreender a relação entre a experiência sensível e a ordem inteligível.

A música apresenta-se inicialmente como uma realidade temporal.

Os sons sucedem-se, as notas aparecem e desaparecem, os ritmos desenvolvem-se no tempo.

Contudo, essa sucessão não é inteiramente arbitrária.

Determinadas relações de duração, proporção e repetição permitem reconhecer estruturas organizadas.

A experiência musical pressupõe, assim, uma relação entre o tempo vivido e a medida.

A tradição pitagórica já reconhecera a existência de proporções numéricas associadas aos intervalos musicais.

A oitava, por exemplo, corresponde a uma relação de frequências de dois para um.

Aquilo que o ouvido reconhece como uma relação musical pode ser descrito matematicamente.

Mas a experiência estética não se esgota nessa descrição.

A aritmética permite compreender determinadas estruturas da música; não explica, por si só, a emoção que uma composição suscita, a experiência da beleza ou o significado espiritual que lhe atribuímos.

Esta distinção é essencial.

A proporção matemática constitui uma condição estrutural de certas relações musicais, mas não é equivalente à experiência estética.

Santo Agostinho permite-nos compreender esta diferença ao relacionar a medida sensível com uma ordem que a inteligência procura reconhecer.

A música torna-se, deste modo, um exemplo privilegiado da passagem do sensível ao inteligível.

O ouvido percebe sons.

A memória conserva a sua sucessão.

A imaginação permite antecipar ou reconstruir a melodia.

A inteligência reconhece proporções e relações.

E a consciência interroga-se sobre a beleza e o sentido daquilo que escuta.

A música reúne, numa única experiência, sensibilidade, imaginação, memória, medida e contemplação.

É por isso que a sua aproximação à aritmética não representa uma redução da arte à matemática.

Pelo contrário, revela a extraordinária diversidade de níveis em que uma mesma realidade pode ser conhecida.

VI. Medida, número e ordem: a inteligibilidade da criação

A tradição cristã encontra uma expressão particularmente significativa desta relação no Livro da Sabedoria:

«Tudo dispuseste com medida, número e peso.»— Sabedoria 11,20

A afirmação possui um alcance que ultrapassa a simples descrição quantitativa do universo.

A medida, o número e o peso surgem como expressões de uma criação ordenada, cuja inteligibilidade não depende exclusivamente da interpretação humana.

O mundo apresenta relações que a inteligência pode reconhecer.

A natureza não constitui uma sucessão absolutamente caótica de acontecimentos.

Existem regularidades, proporções, estruturas e relações que tornam possível o conhecimento.

No horizonte teológico cristão, esta inteligibilidade encontra o seu fundamento último no Logos criador.

A criação não é apenas uma realidade existente; é também uma realidade suscetível de ser conhecida.

E o homem, enquanto ser racional, participa dessa possibilidade de conhecimento.

Contudo, importa evitar uma conclusão excessiva.

O facto de a natureza apresentar regularidades matemáticas não constitui, por si só, uma demonstração científica da existência de Deus.

A interpretação teológica da ordem do mundo pertence a um nível de reflexão distinto daquele em que se desenvolve a investigação matemática ou científica.

Mas também seria redutor afirmar que a inteligibilidade matemática do universo não possui qualquer relevância filosófica.

A extraordinária adequação de estruturas matemáticas à descrição de fenómenos naturais continua a suscitar interrogações sobre a relação entre pensamento e realidade.

Por que razão uma construção abstrata da inteligência humana consegue descrever com tanta precisão determinados comportamentos do mundo físico?

A questão não possui uma resposta filosófica única.

Mas revela que a matemática não é apenas um instrumento de cálculo.

É também uma ocasião privilegiada para refletir sobre a relação entre o ser e o conhecer.

Neste ponto, a tradição agostiniana permite uma formulação particularmente fecunda: a inteligibilidade do mundo não se esgota naquilo que o homem consegue medir, mas a possibilidade da medida constitui uma manifestação dessa inteligibilidade.

VII. A imaginação e a ordem do ser

Regressemos agora à reflexão de Olavo de Carvalho.

Se a imaginação desempenha uma função mediadora na atividade cognitiva, a sua importância não reside simplesmente na capacidade de produzir representações.

Reside também na possibilidade de organizar a experiência de maneira a torná-la intelectualmente acessível.

A imaginação permite representar aquilo que não está presente; a inteligência procura reconhecer a estrutura daquilo que é representado.

Contudo, esta relação não pode ser confundida com uma identificação entre a imaginação e a verdade.

A imaginação pode construir mundos coerentes que nunca existiram.

Pode representar acontecimentos impossíveis.

Pode produzir narrativas cuja força expressiva não corresponde necessariamente à realidade dos factos.

A razão crítica é indispensável para distinguir a possibilidade imaginada da realidade demonstrada.

É precisamente nesta distinção que a aritmética desempenha uma função exemplar.

O número, enquanto representação simbólica, pressupõe a capacidade de abstrair da experiência concreta.

Mas a validade das relações aritméticas não depende da liberdade imaginativa.

A imaginação permite conceber uma quantidade ausente; a razão matemática determina as relações que podem ser legitimamente estabelecidas entre quantidades.

No pensamento agostiniano, esta capacidade racional abre uma interrogação ainda mais profunda.

Se a inteligência humana reconhece verdades que não dependem da sua vontade, então o conhecimento não pode ser reduzido a uma simples projeção subjetiva.

A verdade apresenta-se como algo que o sujeito procura alcançar, não como algo que pode produzir arbitrariamente.

Esta perspetiva permite estabelecer uma relação entre a imaginação, a razão e a ordem do ser.

A imaginação amplia o horizonte das representações possíveis.

A razão procura distinguir o verdadeiro do falso.

A reflexão ontológica interroga-se sobre o fundamento daquilo que existe e daquilo que pode ser conhecido.

As três dimensões não se confundem, mas participam numa mesma atividade humana de procura de sentido.

VIII. Da aritmética à ontologia: os limites da quantificação

A civilização contemporânea atribui à quantificação uma importância extraordinária.

Medimos a produção económica, calculamos probabilidades, avaliamos desempenhos, construímos modelos matemáticos e procuramos traduzir fenómenos complexos em indicadores numéricos.

Esta capacidade representa uma das grandes conquistas da inteligência humana.

Sem a matemática, seria impossível compreender grande parte dos fenómenos físicos ou desenvolver numerosos instrumentos da ciência e da tecnologia.

Contudo, o sucesso da quantificação pode conduzir a uma ilusão epistemológica: a convicção de que conhecer verdadeiramente uma realidade significa conseguir medi-la.

Ora, nem tudo aquilo que existe pode ser integralmente compreendido através de relações quantitativas.

Podemos contar os anos de uma vida, mas não medir matematicamente o seu significado.

Podemos determinar a duração de uma composição musical, mas não traduzir integralmente em números a experiência estética que suscita.

Podemos calcular as perdas humanas de uma batalha, mas o significado moral e histórico dessas perdas exige uma reflexão que ultrapassa a aritmética.

Podemos contar as palavras de um romance, mas a sua verdade literária não depende da quantidade de palavras utilizadas.

O número permite conhecer determinados aspetos da realidade.

Não permite, por si só, compreender a totalidade do ser.

Esta distinção não diminui a importância da aritmética. Pelo contrário, permite reconhecer com maior rigor a natureza e os limites do conhecimento matemático.

A medida é uma forma de inteligibilidade, não a totalidade da inteligibilidade.

Santo Agostinho ajuda-nos a compreender esta diferença ao inserir o número numa reflexão mais ampla sobre a verdade, a ordem e o fundamento da existência.

A aritmética revela relações necessárias.

A ontologia interroga-se sobre a natureza da realidade em que essas relações podem ser reconhecidas.

E a teologia, no horizonte da fé, procura compreender essa realidade enquanto criação.

São níveis distintos de reflexão, que não devem ser confundidos nem artificialmente separados.

IX. A dimensão simbólica como expressão da condição humana

Podemos agora regressar à proposta inicial de José María Merino.

A música, a pintura, a ficção e a aritmética constituem quatro manifestações de uma capacidade humana fundamental: representar a realidade para além da sua presença imediata.

Mas a reflexão desenvolvida permite reconhecer algo mais profundo.

Estas quatro manifestações não exprimem apenas a capacidade de construir símbolos.

Revelam diferentes modalidades da relação humana com a verdade.

A música permite experimentar a ordem através do tempo e do som.

A pintura permite reconhecer relações espaciais, formas e significados que ultrapassam a simples reprodução visual.

A ficção permite explorar possibilidades da existência humana que não dependem de terem acontecido efetivamente.

A aritmética permite descobrir relações quantitativas dotadas de rigor e necessidade.

Cada uma destas atividades constitui uma maneira particular de tornar o mundo inteligível.

A aproximação a Olavo de Carvalho permite reconhecer a importância da imaginação enquanto faculdade mediadora da experiência e do pensamento.

A reflexão de Santo Agostinho acrescenta uma interrogação sobre o fundamento da verdade e da ordem que a inteligência reconhece.

Deste cruzamento emerge uma perspetiva antropológica particularmente sugestiva.

O homem não é apenas um ser que produz símbolos.

É um ser que, através dos símbolos, procura ultrapassar a aparência imediata das coisas para compreender a realidade.

Mas essa procura nunca se encontra definitivamente concluída.

O símbolo remete para algo que o ultrapassa.

O número representa uma quantidade, mas suscita a interrogação sobre a natureza da verdade matemática.

A música organiza sons, mas desperta a pergunta sobre a beleza.

A ficção constrói mundos possíveis, mas confronta-nos com o significado da existência.

A pintura representa formas, mas pode revelar dimensões da experiência humana que ultrapassam aquilo que os olhos percebem.

A atividade simbólica constitui, assim, não apenas uma expressão da inteligência, mas também uma manifestação da abertura humana ao sentido.

Conclusão — Contar o mundo e interrogar o ser

A inclusão da aritmética entre as dimensões simbólicas da existência humana constitui uma intuição de particular alcance filosófico.

À primeira vista, o número parece pertencer a um universo distante da imaginação artística e literária.

Contudo, a aritmética pressupõe a mesma capacidade fundamental que torna possíveis a música, a pintura e a ficção: a capacidade de representar uma realidade que ultrapassa a experiência sensível imediata.

A imaginação permite ao homem conceber aquilo que não está presente.

A razão permite-lhe reconhecer relações, estabelecer distinções e formular juízos.

A aritmética demonstra como a representação simbólica pode conduzir a conhecimentos rigorosos e necessários.

Mas a reflexão filosófica não termina na demonstração.

Quando o homem se interroga sobre a natureza dos números, sobre a universalidade das relações matemáticas ou sobre a inteligibilidade do universo, ultrapassa o domínio da operação quantitativa e entra no campo da ontologia.

Santo Agostinho oferece-nos uma perspetiva particularmente fecunda para compreender esta passagem.

A estabilidade das verdades matemáticas, em contraste com a mutabilidade da experiência humana, convida a inteligência a interrogar-se sobre o fundamento da verdade.

No horizonte da tradição cristã, esta interrogação encontra uma resposta metafísica e teológica na relação entre a criação, a ordem e o Logos.

Contudo, mesmo independentemente dessa resposta, permanece uma questão filosófica incontornável: por que razão o mundo é inteligível e por que razão a inteligência humana possui a capacidade de reconhecer essa inteligibilidade?

Talvez seja nesta pergunta que se encontre o ponto mais profundo de convergência entre as diferentes dimensões simbólicas evocadas por Merino.

A música, a pintura, a ficção e a aritmética são modos diferentes de estabelecer uma relação entre o homem e o mundo.

Nenhuma delas esgota a realidade.

Mas todas revelam a capacidade humana de procurar uma ordem, uma verdade ou um sentido que ultrapassa a experiência imediata.

O homem conta porque reconhece quantidades.

Mede porque descobre relações.

Imagina porque consegue representar o ausente e conceber o possível.

E interroga-se porque nenhuma representação, nenhuma medida e nenhuma explicação parecem esgotar definitivamente o mistério da existência.

A grandeza da aritmética não reside apenas em permitir ao homem contar as coisas, mas em revelar que o mundo possui relações inteligíveis. A grandeza da filosofia começa quando o homem, depois de contar as coisas, se interroga sobre o significado daquilo que contou.

E talvez seja precisamente nesta passagem do número ao sentido, da medida à verdade e da representação à contemplação que a dimensão simbólica se revela como uma das expressões mais profundas da condição humana.

Nota bibliográfica

  • José María Merino: a formulação das quatro dimensões simbólicas — música, pintura, ficção e aritmética — deverá ser acompanhada da identificação exata da obra ou intervenção em que surge.
  • Olavo de Carvalho: Aristóteles em Nova Perspectiva e O Jardim das Aflições, enquanto pontos de partida para aprofundar a sua reflexão sobre imaginação, conhecimento e representação. A correspondência com os argumentos do ensaio requer confirmação textual.
  • Santo Agostinho: De libero arbitrio, livro II, particularmente a reflexão sobre a verdade dos números; De musica, livros I e VI, sobre ritmo, número e ordem.
  • Aristóteles: De anima, livro III, sobre a imaginação e o intelecto; Poética, capítulo 9, sobre a distinção entre história e poesia.
  • Ernst Cassirer: An Essay on Man (1944), sobre a natureza simbólica da existência humana.
  • Livro da Sabedoria: 11,20, sobre medida, número e peso na ordem da criação.

Francisco Vaz

11 de outubro de 2026