Pecado original

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sábado, 13 de junho de 2026

In Memoriam – Luís Penedo

O homem que fez da cultura uma forma de servir

Há pessoas cuja passagem pelo mundo não se mede pelos cargos que ocuparam nem pelos títulos que alcançaram, mas pela marca humana e cultural que deixam nos outros. Luís Penedo foi uma dessas pessoas.

Conheci o Luís quando me apresentei na Tertúlia de Fados da Portela, espaço de encontro, amizade e cultura de que foi fundador, dinamizador e uma das suas almas mais generosas. Desde logo me impressionou a forma serena como acolhia as pessoas e criava pontes entre elas. Havia nele uma elegância discreta, própria dos homens que não precisam de protagonismo para exercer influência. Fazia parte daquela rara estirpe de pessoas que constroem comunidade sem alarde, apenas pela força do exemplo, da amizade e da dedicação.

A sua vida foi notável pela harmonia com que soube unir diferentes vocações. Oficial da Marinha de Guerra Portuguesa na juventude, engenheiro eletrotécnico formado pelo Instituto Superior Técnico, quadro superior da IBM e figura destacada do desenvolvimento da informática portuguesa, Luís Penedo construiu um percurso profissional de excelência. Foi dirigente da Associação Portuguesa de Informática e representou Portugal na Federação Internacional de Processamento da Informação, contribuindo para o desenvolvimento científico e tecnológico do país numa época de profundas transformações.

Mas se a tecnologia ocupou uma parte importante da sua vida, foi na cultura que encontrou uma das suas expressões mais profundas. A Guitarra Portuguesa acompanhou-o desde a adolescência. Primeiro como autodidata, depois como discípulo de mestres como Domingos Camarinha, Eduardo Craveiro e Carlos Gonçalves. Ao longo de décadas estudou, interpretou, ensinou e divulgou a guitarra portuguesa e o fado tradicional, tornando-se uma referência respeitada neste universo artístico.

Foi fundador da Academia da Guitarra Portuguesa e do Fado, dedicando uma parte significativa da sua vida à preservação e transmissão de um património cultural que constitui uma das mais belas expressões da alma portuguesa. Compositor sensível e criativo, deixou diversas obras para Guitarra de Lisboa e Guitarra de Coimbra, sempre fiel à identidade e à tradição do instrumento. A sua preocupação nunca foi apenas tocar ou compor, mas compreender, preservar e transmitir um legado cultural às gerações futuras.

Ao recordar a sua vida, vem-me à memória uma reflexão sobre a felicidade. Muitas vezes procuramo-la onde ela não está: no prestígio, na notoriedade ou na acumulação de bens. Contudo, a verdadeira felicidade encontra-se frequentemente na capacidade de criar, de servir e de partilhar. Luís compreendeu isso de forma exemplar. O seu percurso revela um homem que soube colocar os seus talentos ao serviço dos outros, da cultura e da comunidade.

Há quem construa edifícios. Há quem desenvolva empresas. Há quem escreva livros. Luís Penedo fez tudo isso à sua maneira: construiu pontes entre pessoas, ajudou a consolidar instituições culturais e deixou música onde antes havia silêncio. As suas composições, os seus ensinamentos e os inúmeros momentos de convívio que proporcionou continuam hoje vivos na memória daqueles que com ele privaram.

A música possui uma qualidade singular: nasce do silêncio e regressa ao silêncio, mas deixa sempre uma ressonância. Assim acontece também com certas vidas humanas. A presença física desaparece, mas permanece aquilo que foi criado, oferecido e vivido com autenticidade. Cada melodia composta, cada tertúlia organizada, cada gesto de amizade continua a ecoar muito para além do tempo de uma existência individual.

Num mundo frequentemente dominado pela pressa, pelo ruído e pelo efémero, Luís Penedo pertenceu à linhagem dos construtores discretos. Daqueles que não procuram aplausos, mas acabam por deixar obra. Homens para quem a cultura não é um ornamento, mas um serviço prestado à comunidade. Homens que compreendem que uma guitarra, uma conversa entre amigos ou uma canção partilhada podem ser formas profundas de humanização.

Por tudo isto, parece-me justo que a Tertúlia de Fados da Portela perpetue a sua memória adotando o nome Tertúlia Luís Penedo. Seria uma homenagem merecida a um dos seus fundadores e, simultaneamente, um testemunho de gratidão a um homem que dedicou mais de sete décadas da sua vida à guitarra portuguesa, ao fado e à cultura portuguesa. Alguns nomes pertencem à História; outros pertencem à memória afetiva das comunidades. Luís Penedo pertence a ambas.

Hoje, ao evocarmos a sua memória, não celebramos apenas o músico, o compositor, o engenheiro ou o Oficial de Marinha. Celebramos sobretudo o homem. O amigo. O cidadão. A pessoa que soube transformar talento em generosidade, conhecimento em serviço e cultura em encontro humano.

A sua guitarra silenciou-se. Mas as melodias que compôs continuam a habitar esse lugar invisível onde vivem as memórias que o tempo não consegue apagar. E aqueles que tiveram o privilégio de o conhecer sabem que há presenças que a morte não consegue vencer.

Porque a verdadeira felicidade — aquela que Luís parece ter compreendido tão bem — não consiste em possuir a vida, mas em oferecê-la. Não consiste em acumular, mas em partilhar. Não consiste em durar para sempre, mas em deixar algo de belo que permaneça depois de nós.

Descansa em paz, Luís Penedo.

E que, quando no futuro alguém entrar na Tertúlia Luís Penedo, encontre ainda, no som de uma guitarra e no calor de uma amizade sincera, o eco da tua presença e a herança luminosa de uma vida plena de sentido.

Francisco Vaz

13 de junho de 2026

Felicidade

Entre o progresso da civilização e a realização do ser

A felicidade é uma das palavras mais usadas e, simultaneamente, uma das menos compreendidas do nosso tempo. Procuramo-la na saúde, no sucesso, no reconhecimento social, na segurança económica, no amor e até na tecnologia. Contudo, quanto mais a perseguimos como um objetivo exterior, mais parece afastar-se, como o horizonte que recua à medida que avançamos.

Esta inquietação está no centro da reflexão de Eduardo Giannetti em Felicidade: Diálogos sobre o Bem-Estar na Civilização. O autor convida-nos a interrogar um dos paradoxos mais evidentes da modernidade: nunca a humanidade dispôs de tantos recursos materiais, de tanta capacidade técnica e de tão vasto conhecimento científico, e nunca, ao mesmo tempo, se falou tanto de ansiedade, solidão, depressão e insatisfação.

O paradoxo não é difícil de compreender. A civilização resolveu inúmeros problemas que durante séculos limitaram a existência humana. Aumentou a esperança de vida, reduziu a mortalidade infantil, multiplicou as oportunidades de educação e permitiu níveis de conforto antes inimagináveis. Mas a mesma civilização que nos libertou de muitas necessidades criou também novas dependências, novas expectativas e novas formas de inquietação.

O ser humano é um ser desejante. Quando alcança um objetivo, rapidamente surge outro. A satisfação de hoje transforma-se na normalidade de amanhã. Aquilo que ontem parecia um privilégio torna-se hoje uma exigência. O progresso material melhora as condições da existência, mas não altera a estrutura fundamental do desejo humano. Por isso, a felicidade não pode ser confundida com a simples acumulação de bens, de experiências ou de conquistas.

Talvez o erro mais frequente da nossa época seja procurar a felicidade fora de nós mesmos. Vivemos numa cultura que constantemente nos sugere que falta sempre alguma coisa: um novo objeto, uma nova experiência, uma nova conquista, uma nova forma de reconhecimento. A economia prospera alimentando essa sensação de carência permanente. Contudo, uma vida inteiramente orientada para a satisfação de desejos sucessivos corre o risco de nunca encontrar repouso.

A tradição filosófica clássica já intuía esta dificuldade. Aristóteles entendia a felicidade não como um prazer momentâneo, mas como a realização plena das potencialidades humanas. Os estóicos procuravam-na na liberdade interior perante as circunstâncias externas. Santo Agostinho via nela a inquietação do coração humano em busca do Bem absoluto. Em todos estes casos, a felicidade surge menos como posse e mais como participação.

Também Louis Lavelle, cuja reflexão continua surpreendentemente atual, nos ajuda a compreender esta questão. O ser humano realiza-se não quando acumula, mas quando participa conscientemente no acto do ser. A felicidade não consiste em possuir o mundo, mas em habitar plenamente a realidade, reconhecendo o sentido da própria existência e a sua ligação aos outros.

Daqui decorre uma consequência ética e política frequentemente esquecida. A felicidade não é apenas uma experiência individual. Nenhum ser humano floresce isoladamente. A amizade, a família, a comunidade e as instituições justas são condições essenciais para uma vida boa. Quando a política se reduz à gestão de interesses ou à disputa pelo poder, esquece a sua finalidade mais nobre: criar condições para que as pessoas possam desenvolver plenamente a sua humanidade.

A verdadeira felicidade talvez resida precisamente neste equilíbrio difícil entre o exterior e o interior, entre o ter e o ser, entre a liberdade individual e a pertença comunitária. Não exige a rejeição do progresso nem um regresso nostálgico a um passado idealizado. Exige, antes, que o progresso permaneça ao serviço da pessoa humana e não o contrário.

Num mundo cada vez mais acelerado, a felicidade continua a manifestar-se de forma discreta. Surge numa amizade sincera, numa obra bem realizada, numa conversa significativa, num gesto de generosidade, na contemplação da beleza ou na consciência tranquila de quem vive de acordo com aquilo que considera verdadeiro e justo.

Talvez a felicidade não seja um destino a alcançar, mas uma forma de caminhar. Não uma meta situada algures no futuro, mas uma qualidade da presença com que habitamos cada instante. Afinal, como tantas vezes sucede nas grandes questões da vida, aquilo que procuramos incessantemente pode já estar mais próximo do que imaginamos: não no que nos falta, mas na maneira como acolhemos aquilo que já nos foi dado.

Francisco Vaz

13 de junho de 2026

Do soldado de Ambrose ao ecrã de Spielberg

a guerra como memória, verdade e condição humana

A guerra nos filmes suscita uma questão interessante: será possível representá-la de forma realista sem que essa representação seja, inevitavelmente, uma denúncia da própria guerra?

Filmes como Saving Private Ryan, de Steven Spielberg, All Quiet on the Western Front, de Edward Berger, ou Napoleon, de Ridley Scott, são frequentemente classificados como "anti-guerra". O mesmo acontece com Warfare, de Alex Garland e Ray Mendoza. A razão parece evidente: quando a câmara mostra a guerra tal como ela é — sangue, medo, sofrimento, mutilação, caos e morte — o espectador sente repulsa. A guerra deixa de ser uma abstração heroica para se tornar uma experiência humana profundamente trágica.

Mas talvez esta classificação seja simplista.

A verdadeira questão não é saber se estes filmes são anti-guerra. A questão é saber se são anti-ilusão. O que eles combatem não é necessariamente a guerra enquanto fenómeno histórico ou político, mas a romantização da guerra. A distância entre a guerra real e a guerra imaginada é enorme. Na imaginação, a batalha é feita de glória, coragem e bandeiras ao vento. Na realidade, é feita de medo, confusão, dor e perda.

Esta distinção torna-se ainda mais evidente quando observamos a influência do historiador Stephen E. Ambrose na forma como o cinema e a televisão passaram a retratar os conflitos do século XX. Ambrose dedicou grande parte da sua obra a recuperar a voz dos combatentes comuns, dos homens que viveram os acontecimentos longe dos gabinetes dos políticos e dos quartéis-generais dos generais. A sua História é uma história de rostos, de memórias e de experiências humanas.

Foi precisamente esta perspetiva que inspirou Steven Spielberg e Tom Hanks na criação de algumas das mais marcantes séries de guerra da televisão contemporânea. Em Band of Brothers, baseada na obra homónima de Ambrose, acompanhamos os homens da Easy Company desde o treino inicial até à vitória final sobre a Alemanha nazi. Em The Pacific, a guerra assume contornos ainda mais brutais, revelando a violência extrema dos combates travados nas ilhas do Pacífico. Mais recentemente, Masters of the Air transporta-nos para os céus da Europa ocupada, mostrando o elevado preço pago pelas tripulações dos bombardeiros estratégicos americanos.

Nenhuma destas obras procura esconder o horror da guerra. Pelo contrário, expõe-no em toda a sua crueza. Contudo, todas elas revelam simultaneamente algo mais profundo: a coragem, a amizade, o espírito de sacrifício, a lealdade e a capacidade humana de resistir perante circunstâncias extremas. O resultado não é uma mensagem anti-guerra, mas uma mensagem profundamente humanista.

A guerra é um mal. Mas a resposta ao mal pode revelar o melhor e o pior que existe no ser humano.

Talvez por isso estas produções tenham marcado gerações de espectadores. Elas mostram que o heroísmo não consiste na procura da violência, mas na capacidade de continuar a cumprir o dever apesar do medo. Os seus protagonistas não são super-heróis. São homens comuns colocados perante desafios extraordinários.

A história demonstra, aliás, que a guerra faz parte da condição humana desde os primórdios da civilização. Desde a Ilíada de Homero até às campanhas de Alexandre, de Roma, de Napoleão ou das guerras mundiais, a humanidade recorreu frequentemente à força para defender princípios, territórios ou simplesmente para sobreviver. Negar esta realidade seria tão ingénuo como glorificá-la.

O paradoxo é que muitos dos filmes considerados anti-guerra são também filmes que exaltam virtudes profundamente humanas. Em Saving Private Ryan, encontramos a coragem, a camaradagem, o sacrifício e o sentido de dever. Em Band of Brothers, vemos jovens cidadãos transformados em soldados e soldados transformados em irmãos. Em The Pacific, percebemos como a guerra pode ferir o corpo e a alma, mas também como o ser humano conserva a capacidade de manter a sua dignidade no meio do sofrimento. Em Warfare, os Navy SEALs não lutam por prazer ou por ódio; lutam para proteger os seus companheiros e regressar vivos.

A guerra surge como um inferno, mas a dignidade humana emerge precisamente no meio desse inferno.

Talvez por isso Chester W. Nimitz tenha compreendido que a paz não é um estado natural, mas uma conquista permanente. A história demonstra que, por vezes, para preservar a liberdade e a dignidade humana, foi necessário enfrentar a tirania pela força. A derrota do nazismo e do militarismo japonês não foi alcançada por discursos ou boas intenções, mas pelo sacrifício de milhões de homens e mulheres que aceitaram suportar o peso da guerra para impedir um mal ainda maior.

É aqui que o cinema de guerra encontra a sua mais elevada função ética. Não glorifica a violência. Não celebra a destruição. Não transforma a guerra em espetáculo. Antes preserva a memória. Recorda-nos simultaneamente duas verdades que a humanidade tende a esquecer: que a guerra é uma tragédia e que, em certas circunstâncias, a recusa de enfrentar a tirania pode conduzir a tragédias ainda maiores.

Existe, assim, uma linha contínua que une Saving Private Ryan, Band of Brothers, The Pacific, Masters of the Air e Warfare. Todas estas obras partem da mesma convicção: a guerra deve ser mostrada tal como foi vivida. Não para glorificar a violência, mas para honrar a verdade.

Porque esquecer o horror da guerra pode conduzir à sua repetição. Mas esquecer a coragem daqueles que lutaram pela liberdade seria uma injustiça histórica igualmente grave.

Os melhores filmes e séries de guerra não são, afinal, nem pró-guerra nem anti-guerra. São pró-verdade. E é precisamente nessa procura da verdade que reside a sua maior grandeza.

Francisco Vaz

12 de junho de 2026

quinta-feira, 11 de junho de 2026

Poiesis

o Ser Humano como Criador de Mundos

A palavra grega poiesis significa literalmente «fazer», «produzir», «trazer à existência». Contudo, o seu significado filosófico é muito mais profundo do que a simples fabricação de objetos. Em sentido pleno, poiesis designa o ato pelo qual algo que antes não existia passa a existir pela mediação da inteligência, da vontade e da ação humanas.

A modernidade habituou-nos a associar a criação poética quase exclusivamente à arte. Pensamos no poeta que compõe um soneto, no pintor que cria uma tela ou no músico que escreve uma sinfonia. Todavia, para os gregos, a esfera da poiesis era muito mais ampla. O pastor que fabrica um cajado, o carpinteiro que constrói uma mesa, o arquiteto que ergue uma casa ou o engenheiro que projeta uma máquina participam igualmente desse movimento criador que faz emergir algo novo no mundo.

Esta compreensão revela uma verdade antropológica fundamental: o ser humano não é apenas um habitante do mundo; é também um criador de mundos. Entre a natureza recebida e a cultura produzida existe um espaço de liberdade onde a inteligência humana imprime forma à matéria e significado à existência. Cada objeto criado é mais do que um simples instrumento; é a materialização de uma intenção, de um desejo, de uma necessidade ou de uma esperança.

Mesmo os objetos aparentemente mais utilitários possuem uma dimensão simbólica. Um cajado não é apenas madeira trabalhada; é também proteção, autoridade e orientação. Uma ponte não é apenas uma estrutura de engenharia; é a expressão do desejo humano de unir margens separadas. Da mesma forma, uma arma não é apenas um mecanismo de destruição; representa igualmente o medo, a defesa, a segurança ou o exercício do poder. O objeto criado transporta sempre consigo algo da alma do seu criador.

A técnica contemporânea tende, porém, a ocultar esta dimensão. Os objetos surgem diante de nós como meros produtos funcionais, avaliados pela sua eficiência ou utilidade económica. Esquecemos que toda a produção humana é também uma narrativa sobre aquilo que somos. Até mesmo as criações mais inquietantes da modernidade, como as armas nucleares, podem ser interpretadas como manifestações extremas de uma mesma dinâmica poética: a tentativa humana de dominar a vulnerabilidade, controlar o futuro e afastar o espectro da própria destruição.

Neste sentido, a poiesis aproxima-se da ontologia. Criar é participar, ainda que de forma limitada, no mistério do próprio ser. Cada ato criador reproduz simbolicamente aquilo que as grandes tradições filosóficas e religiosas atribuíram ao princípio originário da realidade: fazer surgir o que antes não era. O homem não cria a partir do nada, mas transforma o que recebe, tornando-se colaborador da obra incessante da existência.

Talvez seja por isso que a poiesis permaneça uma das mais nobres expressões da condição humana. Não apenas porque produz objetos ou obras de arte, mas porque manifesta a capacidade singular do ser humano de conferir forma ao mundo e sentido à vida. Criar é, em última análise, participar do próprio movimento pelo qual o ser se revela e se torna presença.

Francisco Vaz

11 de junho de 2026

Sócrates de Atenas:

o guardião da cidade e da alma

Poucas figuras da história ocidental alcançaram uma estatura moral tão elevada como Sócrates. Mais do que um pensador, Sócrates foi um cidadão profundamente comprometido com o destino da sua cidade. A sua vida mostra-nos que a filosofia não nasceu para alimentar discussões académicas estéreis, mas para servir o bem comum e ajudar a comunidade humana a encontrar o seu melhor caminho. 

Antes de ser filósofo, Sócrates foi soldado. Combateu pela sua pólis, enfrentou os perigos da guerra e demonstrou coragem física e moral. Essa experiência não é um detalhe biográfico secundário: ajuda-nos a compreender porque a sua filosofia nunca se afastou da realidade concreta da cidade. Para ele, pensar era uma forma de combater. A arma já não era a lança do hoplita, mas o logos; o campo de batalha já não eram as muralhas de Atenas, mas a consciência dos seus concidadãos.

A sua missão consistia em salvar Atenas de um perigo mais subtil do que qualquer exército estrangeiro: a decadência interior. Enquanto muitos julgavam saber, Sócrates procurava mostrar-lhes os limites do seu conhecimento. A célebre máxima «conhece-te a ti mesmo» não era apenas um convite à introspecção individual; era também um apelo à cidade para reconhecer as suas próprias insuficiências, os seus vícios e as suas ilusões. Uma cidade incapaz de se conhecer a si mesma torna-se presa fácil dos demagogos, dos tiranos e das paixões colectivas.

Neste sentido, a ironia socrática não era um exercício de humilhação intelectual. Era uma forma de purificação. Sócrates desmontava falsas certezas para abrir espaço à verdade. A sua ironia era catártica; a sua maiêutica, construtiva. Tal como a sua mãe ajudava as mulheres a dar à luz, ele ajudava os espíritos a fazer nascer o pensamento. O filósofo não impunha ideias; ajudava cada pessoa a descobrir em si mesma o logos que transportava.

Esta concepção da filosofia permanece extraordinariamente actual. Num mundo saturado de opiniões instantâneas, onde muitos confundem informação com sabedoria e convicção com verdade, a atitude socrática continua a ser uma das formas mais elevadas de resistência. O verdadeiro sábio não é aquele que acredita possuir todas as respostas, mas aquele que conserva a inteligência da sua própria ignorância. Só quem sabe que não sabe está verdadeiramente disponível para aprender.

A condenação de Sócrates constitui uma das maiores tragédias políticas da história. Atenas matou precisamente o homem que procurava salvá-la. Não foi apenas um erro judicial; foi um sintoma de uma doença mais profunda. Quando uma comunidade elimina aqueles que a desafiam a ser melhor, começa a destruir as condições da sua própria sobrevivência moral. Como compreendeu Platão, a morte de Sócrates simboliza a morte espiritual da própria cidade que o condenou.

Há aqui uma lição que atravessa os séculos. As sociedades não são destruídas apenas por inimigos externos. Muitas vezes sucumbem quando deixam de escutar aqueles que, por amor à verdade e ao bem comum, ousam questionar os consensos estabelecidos. Os tiranos raramente chegam sem aviso; chegam normalmente depois de uma longa erosão do espírito crítico, da responsabilidade cívica e da procura da verdade.

Por isso, a herança de Sócrates não reside apenas na fundação da filosofia ocidental. Reside sobretudo no testemunho de uma vida inteiramente coerente. Poderia ter fugido da prisão. Poderia ter renegado os seus ensinamentos. Poderia ter escolhido viver. Mas compreendeu que uma vida salva à custa da verdade deixaria de ser digna de ser vivida. Ao aceitar a cicuta, transformou a sua própria morte na última e mais poderosa lição filosófica.

Talvez seja esta a razão pela qual Sócrates continua vivo vinte e quatro séculos depois. Não apenas como filósofo, mas como símbolo permanente da liberdade do espírito. Ele recorda-nos que a verdadeira grandeza humana não consiste em dominar os outros, acumular riqueza ou conquistar poder, mas em dedicar a própria existência à busca da verdade e ao serviço do bem comum.

Num tempo em que proliferam novas formas de tirania — políticas, ideológicas, tecnológicas ou mediáticas —, a figura de Sócrates permanece como um farol. O seu legado pode resumir-se numa única exigência: nunca abdicar do logos. Porque uma cidade sem filósofos pode continuar a existir fisicamente, mas já começou a perder a sua alma.

Francisco Vaz

11 de junho de 2026

Eros

ou a inquitude do ser 

Há uma intuição que atravessa toda a história do pensamento ocidental: nada existe verdadeiramente sem um princípio de dinamismo interior. O ser não é mera imobilidade; é tensão, impulso, desejo, abertura. Os gregos chamaram-lhe muitos nomes — physislogoseros — mas todos procuravam compreender a mesma realidade fundamental: o que faz mover o mundo e o ser humano?

Em Heraclito de Éfeso encontramos talvez a formulação mais radical desta questão. O filósofo do devir afirmava que tudo flui (panta rhei) e que a realidade é constituída por uma tensão permanente entre contrários. O cosmos não é um mecanismo estático, mas um fogo vivo que se transforma incessantemente. O movimento não é um acidente do ser; é a própria condição da existência.

Mas que força sustenta esse movimento?

Embora Heraclito não utilize o conceito de eros no sentido que Platão lhe dará posteriormente, toda a sua filosofia sugere uma realidade animada por uma tensão criadora. O arco e a lira produzem harmonia precisamente porque os seus extremos se encontram em oposição. O mundo vive dessa tensão fecunda.

Platão aprofundará esta intuição. No Banquete, através da voz de Diotima, apresenta Eros não apenas como desejo amoroso, mas como força mediadora entre a carência e a plenitude, entre o humano e o divino. O ser humano deseja porque é incompleto. Ama porque lhe falta algo. Conhece porque ignora. E justamente nessa falta reside a possibilidade da sua realização.

Eros torna-se, assim, o motor da ascensão humana.

Não se trata apenas do amor entre pessoas. Trata-se da força que impele o espírito para a verdade, a beleza e o bem. Todo o conhecimento é, no fundo, uma forma de amor. Toda a busca intelectual nasce de um desejo.

Aristóteles, embora seguindo um caminho distinto, conserva essa estrutura dinâmica. O seu Primeiro Motor Imóvel move todas as coisas não pela força, mas pela atração. O universo dirige-se para a perfeição como o amante para o amado. O movimento cósmico possui uma dimensão teleológica: tudo tende para aquilo que considera melhor.

Nos filósofos helenísticos e neoplatónicos esta visão adquire novas tonalidades. Os estoicos identificam o princípio animador do universo com o Logos, razão cósmica que atravessa todas as coisas. O ser humano realiza-se quando harmoniza a sua vontade com essa ordem universal. Também aqui encontramos uma forma de Eros: o desejo de concordância entre o indivíduo e o cosmos.

Já Plotino elevará esta dinâmica a um nível metafísico extraordinário. Toda a realidade procede do Uno e procura regressar a ele. O universo inteiro é uma nostalgia do absoluto. O movimento fundamental do ser é um movimento de retorno. Amar é regressar à fonte.

Esta herança atravessará a Idade Média cristã. Em Santo Agostinho, o coração humano permanece inquieto enquanto não repousa em Deus. Em São Tomás de Aquino, o desejo natural de conhecer conduz o homem para a causa última de todas as coisas. O Eros platónico é reinterpretado à luz da caridade cristã, mas mantém a sua estrutura fundamental: o ser humano é um ser de transcendência.

O Renascimento recuperará esta tradição com renovado entusiasmo. Nenhuma figura simboliza melhor esse momento do que Giovanni Pico della Mirandola. Na célebre Oração sobre a Dignidade do Homem, Pico apresenta o ser humano como uma criatura inacabada. Deus não lhe atribuiu uma natureza fixa. Colocou-o no centro do mundo para que se construísse a si próprio.

A dignidade humana reside precisamente nessa liberdade criadora.

O homem pode degradar-se até ao nível dos animais ou elevar-se até à contemplação divina. A sua essência não é um ponto de chegada, mas uma possibilidade. O Eros transforma-se aqui em projeto de autoconstrução.

Com o Iluminismo, a confiança desloca-se progressivamente da transcendência para a razão humana. Em Kant, a dinâmica do desejo é submetida à autonomia da razão moral. Em Hegel, a própria história se torna movimento do Espírito em busca de autoconsciência. O eros reaparece sob a forma de reconhecimento: a consciência procura realizar-se através do encontro com outras consciências.

Mais tarde, Schopenhauer verá no desejo uma vontade insaciável que atravessa toda a realidade, enquanto Nietzsche transformará essa energia em vontade de potência, impulso criador que conduz o ser humano à superação de si mesmo.

A contemporaneidade continua a debater-se com esta questão fundamental.

Num mundo marcado pelo consumo, pela aceleração tecnológica e pela fragmentação cultural, o Eros corre frequentemente o risco de ser reduzido ao desejo imediato ou ao prazer efémero. Contudo, essa redução empobrece profundamente a experiência humana.

O ser humano continua a mover-se por algo mais profundo do que a mera satisfação de necessidades. Continua a procurar sentido, reconhecimento, comunhão, beleza e verdade. Continua a desejar o infinito, mesmo quando o desconhece.

É precisamente neste ponto que o pensamento de Louis Lavelle oferece uma contribuição particularmente fecunda. Para Lavelle, a realidade não é uma coleção de coisas acabadas, mas a manifestação permanente do Acto. Existir significa participar nesse Acto originário que sustenta todo o ser. A pessoa humana não é um objeto entre objetos; é um centro de participação, chamado incessantemente a realizar as potencialidades inscritas na sua própria existência.

Nesta perspetiva, o Eros pode ser entendido como a expressão existencial dessa participação. Não apenas desejo de possuir algo que falta, mas impulso para uma presença mais plena ao ser. O amor, o conhecimento, a criação artística, a ação moral e a própria vida política surgem como modalidades de participação crescente numa realidade que transcende o indivíduo sem o anular.

A política, entendida como o encontro das diferentes entidades éticas no espaço comum da ação, nasce precisamente quando este dinamismo interior ultrapassa a esfera da consciência individual e se projeta na convivência humana. O Eros deixa então de ser apenas uma força íntima para se tornar princípio de comunidade e de civilização.

Talvez possamos concluir que, desde Heraclito até aos nossos dias, passando por Platão, Aristóteles, Plotino, Agostinho, Pico della Mirandola, Hegel e Lavelle, permanece uma mesma intuição fundamental: o ser não é uma realidade imóvel, mas um acto em permanente realização. O ser humano não é definido apenas pelo que é, mas sobretudo pelo que é chamado a ser.

Somos seres em movimento porque participamos de um Acto que nos excede. Eros não é apenas uma dimensão da existência humana. É a própria manifestação dessa vocação para a plenitude. É a força que transforma a ignorância em conhecimento, a dispersão em unidade, a solidão em comunhão e a simples sobrevivência em vida verdadeiramente humana.

Enquanto houver seres humanos, haverá Eros. E enquanto houver eros, haverá movimento. Talvez porque existir seja, em última análise, participar conscientemente numa plenitude que nos atrai sem cessar e que, justamente por ser infinita, nunca se deixa possuir inteiramente.

Não é por acaso que, no termo da sua monumental Divina Comédia, Dante Alighieri encontra uma expressão capaz de condensar séculos de reflexão filosófica e espiritual numa única imagem. Após a longa travessia do Inferno, do Purgatório e do Paraíso, o poeta conclui a sua jornada contemplando a realidade última como Amor:

«L'amor che move il sole e l'altre stelle.»

«O amor que move o sol e as outras estrelas.»

Nesta visão culmina uma das mais fecundas intuições da civilização ocidental. O que move os astros, anima a história, desperta a inteligência, funda a comunidade política e impele cada ser humano para além de si mesmo não é apenas a força, a necessidade ou o acaso, mas uma atração originária para a plenitude do ser. Heraclito chamou-lhe harmonia dos contrários; Platão chamou-lhe Eros; Plotino viu nela o regresso ao Uno; Agostinho reconheceu-a como inquietação do coração; Pico della Mirandola como vocação para a autoconstrução; Lavelle como participação no Acto. Mudam as palavras, permanece a intuição: existir é responder a um apelo de transcendência.

O Eros surge assim não como uma simples paixão entre outras, mas como o nome filosófico da própria inquietação do ser humano perante o infinito. É ele que nos impede de permanecer encerrados em nós mesmos, que nos convoca para o conhecimento, para a criação, para a amizade, para a justiça e para o amor. Em última análise, é ele que faz da existência uma aventura inacabada e da humanidade uma permanente peregrinação em direção à plenitude.

Francisco Vaz

11 de junho de 2026


Verdi, Nimitz e Bem Comum

Quando a beleza e a coragem convergem

À primeira vista, pouco parece aproximar Chester W. Nimitz e Giuseppe Verdi. Um foi militar, estratega naval e comandante das forças do Pacífico durante a Segunda Guerra Mundial; o outro foi compositor, génio da ópera e um dos maiores nomes da cultura europeia. Um moveu-se no universo da guerra; o outro no universo da arte. Contudo, observados mais atentamente, ambos convergem num ponto essencial: fizeram da sua vida um serviço ao bem comum.

A juventude de ambos foi marcada pela experiência da perda. Nimitz sofreu profundamente com a morte do seu cunhado, que seguia para a Europa a caminho de um emprego numa companhia mineira na Sibéria quando pereceu no afundamento do Lusitania por um submarino alemão. Verdi conheceu uma dor ainda mais devastadora: perdeu os seus dois filhos, Virginia e Icilio, em 1838 e 1839, e viu falecer a sua esposa, Margherita Barezzi, em 1840. Em ambos os casos, a experiência do sofrimento poderia ter conduzido ao desespero ou ao ressentimento. Não conduziu. Pelo contrário, tornou-se ocasião de amadurecimento humano.

Os caminhos que seguiram foram distintos, mas orientados por uma mesma finalidade. Verdi serviu a humanidade através da beleza. A sua música elevou consciências, despertou emoções e ajudou um povo a reconhecer-se como comunidade histórica e cultural. O coro Va, pensiero de Nabucco tornou-se símbolo da esperança e da liberdade de uma Itália ainda fragmentada. A sua arte não foi mero entretenimento: foi uma forma de dignificação humana.

Nimitz, por sua vez, serviu a humanidade através da arte da estratégia. Num século marcado por tiranias particularmente destrutivas, assumiu a responsabilidade de combater regimes que ameaçavam a liberdade e a dignidade de milhões de pessoas. Não procurou a guerra por si mesma. Como tantos homens da sua geração, compreendeu que havia momentos em que a força se tornava necessária para impedir males ainda maiores. A sua liderança prudente, serena e profundamente humana contribuiu decisivamente para derrotar o militarismo japonês e para restaurar uma ordem internacional mais justa.

Há, porém, uma convergência ainda mais profunda. Nem Verdi nem Nimitz se deixaram aprisionar pelo sucesso pessoal. Ambos compreenderam que o valor de uma vida não se mede apenas pelas realizações individuais, mas pelo legado deixado aos outros.

Verdi investiu uma parte significativa da sua fortuna na construção da Casa di Riposo per Musicisti, em Milão. Considerava-a a sua obra mais importante. Quis assegurar que músicos idosos e sem recursos encontrassem ali um lar digno. Era uma forma de gratidão para com aqueles que, como ele, tinham dedicado a vida à música.

Também Nimitz, após a guerra, recusou transformar a vitória em instrumento de vingança. Participou ativamente nos esforços de reconciliação e reconstrução. Compreendia que a paz duradoura exige justiça, mas também generosidade. A verdadeira vitória não consiste em humilhar o adversário, mas em criar condições para que antigos inimigos possam voltar a viver em comunidade.

Sob perspetivas diferentes, ambos contribuíram para aumentar a humanidade da própria humanidade. Um através da força colocada ao serviço da paz; o outro através da beleza colocada ao serviço da elevação do espírito. Um combateu a tirania pela estratégia; o outro combateu a pobreza espiritual pela música. Ambos procuraram, cada um à sua maneira, ampliar o espaço da liberdade, da dignidade e do bem.

Hoje, quando o tempo já os colocou para além das contingências da história, Verdi e Nimitz permanecem unidos na mesma galeria dos que serviram algo maior do que si próprios. Um elevou os corações pela beleza; o outro protegeu a liberdade pela coragem e pela prudência. Ambos souberam transformar o sofrimento em serviço, o talento em dádiva e a vida em legado. Por isso, a sua memória não se extingue. Continua a ecoar, como uma melodia que atravessa os séculos ou como uma estrela que guia os navegantes na noite.

Enquanto houver homens e mulheres que procurem a justiça, a dignidade, a beleza e o bem comum, a voz de Verdi e o exemplo de Nimitz continuarão a recordar-nos que a mais nobre das vitórias é sempre aquela que faz crescer a humanidade da própria humanidade.

Francisco Vaz

11 de junho de 2026