a civilização do amor perante a cultura do poder
Ao ler a primeira encíclica de Leão XIV, Magnifica Humanitas, torna-se evidente a razão profunda da escolha do seu nome pontifício. Ao escolher o nome de Leão XIV, Robert Francis Prevost parece evocar deliberadamente a figura de Vincenzo Gioacchino Pecci, o Papa Leão XIII, que enfrentou os desafios sociais e humanos da Revolução Industrial através da histórica encíclica Rerum Novarum (1891).
No final do século XIX, a humanidade encontrava-se mergulhada numa profunda transformação provocada pela Revolução Industrial. As novas máquinas multiplicavam a produção, criavam riqueza e inauguravam um mundo de possibilidades inéditas. Porém, o progresso técnico não era acompanhado por um progresso equivalente na ordem moral e social. Milhões de trabalhadores viviam em condições indignas, submetidos a jornadas extenuantes, salários miseráveis e ausência de proteção social. O capitalismo industrial, entregue a si próprio, tendia a transformar o trabalhador num simples instrumento de produção.
Foi nesse contexto que Leão XIII ergueu a sua voz. A Rerum Novarum não constituiu apenas uma denúncia das injustiças do seu tempo; representou uma afirmação vigorosa da dignidade da pessoa humana contra todas as formas de redução do homem a objeto económico. Ao fazê-lo, inaugurou aquilo que viria a ser conhecido como Doutrina Social da Igreja, hoje mais frequentemente designado por Pensamento Social Cristão.
Mais de um século depois, Leão XIV parece reconhecer um paralelismo histórico. A revolução industrial deu lugar à revolução digital. Os motores a vapor foram substituídos pelos algoritmos, pela inteligência artificial, pelas plataformas digitais e pelas redes globais de comunicação. Tal como no século XIX, as novas tecnologias prometem benefícios extraordinários. Contudo, também hoje emergem novas formas de desigualdade, de controlo e de alienação.
A grande questão já não é apenas a exploração do corpo humano, mas também a colonização da consciência, da atenção e da própria identidade. O ser humano corre o risco de ser reduzido a dados, perfis estatísticos, consumidor previsível ou recurso manipulável por sistemas tecnológicos cada vez mais poderosos. A desumanização assume novas formas, mas conserva a mesma raiz: esquecer que a pessoa humana possui uma dignidade que não pode ser medida pela utilidade, pela eficiência ou pelo poder.
É precisamente nesta perspetiva que ganha especial significado o primeiro número da encíclica. Leão XIV apresenta a humanidade diante de uma escolha decisiva: construir uma nova Babel ou edificar uma cidade onde Deus e a humanidade habitem juntos.
A referência à Torre de Babel é particularmente sugestiva. Na narrativa bíblica, Babel simboliza a tentação permanente do ser humano de alcançar o poder absoluto através das suas próprias capacidades, dispensando qualquer referência a uma verdade superior ou a uma ordem moral transcendente. O problema não era a construção em si, mas a pretensão de domínio que a inspirava.
Também a nossa época conhece essa tentação. A tecnologia oferece ao homem um poder sem precedentes sobre a natureza, sobre a informação e até sobre a própria vida humana. Nunca houve tantos meios para controlar, vigiar, influenciar ou destruir. O risco consiste em confundir poder com sabedoria, capacidade técnica com legitimidade moral, progresso científico com progresso humano.
Esta lógica manifesta-se igualmente na persistência da guerra como instrumento de afirmação política. Apesar dos avanços científicos e tecnológicos, continuamos a assistir a conflitos devastadores, à corrida armamentista e à utilização crescente da tecnologia para fins militares. A inteligência artificial, concebida para ampliar as capacidades humanas, pode também ser utilizada para aperfeiçoar mecanismos de vigilância, manipulação e destruição.
A cultura do poder funda-se precisamente nesta convicção: a segurança nasce da força, a ordem nasce da dominação e o futuro pertence aos mais fortes. É uma visão da história construída sobre a competição permanente, sobre a lógica do vencedor e do vencido, sobre a instrumentalização do outro.
Em contraste, a encíclica propõe aquilo que a tradição cristã designa como civilização do amor. Expressão particularmente desenvolvida por João XXIII e Paulo VI, os papas do Concílio, e pelos papas que os sucederam, ela não representa uma utopia sentimental, mas uma verdadeira alternativa antropológica e política.
A civilização do amor assenta na convicção de que a pessoa humana é sempre um fim e nunca um meio. O seu fundamento não é o domínio, mas a relação; não é a imposição, mas o encontro; não é a força, mas a dignidade. Nela, o desenvolvimento tecnológico encontra o seu sentido ao serviço da pessoa; a economia orienta-se para o bem comum; a política torna-se espaço de construção da justiça; e a cultura promove o reconhecimento mútuo entre seres humanos.
A afirmação central da encíclica — “o mistério do homem só no mistério do Verbo encarnado se esclarece verdadeiramente” — aponta precisamente para esta visão. Em Cristo, Deus não se apresenta como poder que domina, mas como amor que se oferece. A encarnação constitui a negação radical de toda a lógica de desumanização. Deus não salva a humanidade através da força, mas através da proximidade; não através da imposição, mas através da comunhão.
A verdadeira alternativa do nosso tempo talvez não seja entre tecnologia e tradição, nem entre progresso e conservação. A escolha decisiva é outra: colocar o poder ao serviço da pessoa ou sacrificar a pessoa ao poder. É esta a nova questão social que Leão XIV parece identificar.
Tal como Leão XIII falou à humanidade industrial, Leão XIV procura falar à humanidade digital. Ambos recordam a mesma verdade fundamental: nenhuma sociedade será verdadeiramente justa se esquecer que cada ser humano possui uma dignidade inviolável. E nenhuma civilização sobreviverá se trocar a cultura do amor pela cultura do poder.
Perante a nova Babel tecnológica, a Magnifica Humanitas apresenta-se assim como um convite a reconstruir o humano, não contra o progresso, mas orientando-o para aquilo que verdadeiramente o justifica: a promoção da dignidade, da justiça, da fraternidade e da paz.
Francisco Vaz
30 de Maio de 2026