Pecado original

Pecado original

sexta-feira, 17 de abril de 2026

Ser e relação

Cooperação e competição

A oposição entre competição e cooperação é, em grande medida, uma falsa antinomia quando observada à luz da condição humana. O ser humano não é apenas um agente que disputa ou colabora: é, antes de tudo, um ser relacional, cuja própria existência ontológica se constitui no encontro com o outro.

Desde logo, no plano ontológico, o homem é um ser-em-relação. Como sublinha Aristóteles, o ser humano é um “animal político” (*zoon politikon*), o que significa que a sua realização não se dá no isolamento, mas na vida em comunidade. A identidade humana forma-se no reconhecimento mútuo, como mais tarde aprofundará Georg Wilhelm Friedrich Hegel: o “eu” só se torna plenamente consciente de si através do “outro”. Assim, tanto a competição como a cooperação são expressões dessa relacionalidade fundamental — duas formas distintas de nos situarmos perante os outros.

No plano ético, a questão torna-se mais exigente. A cooperação parece, à primeira vista, superior: ela promove o bem comum, a solidariedade e a justiça. Contudo, a competição não é, por si mesma, um mal. Em certas condições, pode ser uma forma de reconhecimento recíproco, um estímulo à excelência, uma maneira de cada um dar o melhor de si. Thomas Hobbes via na competição uma das causas do conflito humano, mas também reconhecia que é precisamente a necessidade de superar essa condição que leva à construção de ordem e de pactos. Já Adam Smith mostrou como a competição, quando enquadrada por regras justas, pode gerar benefícios coletivos.

Mas é aqui que surge o ponto decisivo: a competição humana só é verdadeiramente humana quando é atravessada pela ética, isto é, quando reconhece o outro não como inimigo a eliminar, mas como parceiro numa ordem comum. Uma competição sem regras, sem reconhecimento e sem limites degrada-se em violência; uma cooperação sem liberdade individual transforma-se em conformismo ou tirania.

No plano político, esta tensão é ainda mais evidente. As sociedades humanas organizam-se precisamente para equilibrar estas duas dimensões. A democracia, por exemplo, é um sistema que institucionaliza a competição (entre partidos, ideias, lideranças), mas dentro de um quadro cooperativo — regras partilhadas, respeito mútuo, aceitação de resultados. Sem cooperação, a competição política leva à guerra civil; sem competição, a cooperação política degenera em autoritarismo.

Assim, à pergunta inicial — o que devemos privilegiar? — a resposta não pode ser unilateral. O que deve ser privilegiado é a primazia da cooperação como horizonte normativo, isto é, como finalidade ética e política. A competição deve ser integrada, disciplinada e orientada por esse horizonte.

E, sim, mesmo na competição pode — e deve — haver cooperação. Pense-se no desporto: adversários competem, mas cooperam ao aceitar regras, árbitros e limites. Sem essa cooperação implícita, não há jogo — apenas confronto. O mesmo se aplica à ciência, à economia, à política: competimos dentro de estruturas que exigem confiança, normas comuns e reconhecimento recíproco.

Em última análise, o ser humano é o único ser que pode transformar a competição em cooperação indireta — isto é, em contributo para um bem comum mais vasto. Essa capacidade não é automática: exige cultura, instituições e virtude.

Talvez possamos concluir assim: não é a competição que deve ser eliminada, mas a sua absolutização; não é a cooperação que deve ser imposta, mas cultivada. Entre ambas, joga-se a própria dignidade humana — porque só um ser ontologicamente relacional, eticamente responsável e politicamente organizado pode fazer da tensão entre competir e cooperar uma forma de construção do mundo, e não de destruição do outro.

Francisco Vaz

17 de Abril de 2026


Fernão de Magalhães

Contextualização histórica da viagem

“Aos primeiros alvores do dia 21 de Setembro de 1519 aproveitando a brisa que soprava de terra, com a Concepcion e a Santiago à frente, o navio-almirante Trinidad ao centro, seguidos pela San António e pela Victoria, a armada faz-se ao mar com rumo Sudoeste. Os pavilhões flutuam acariciados pela brisa e em terra ouvem-se salvas de canhão desejando boa viagem. No castelo de popa da Trinidad, Fernão de Magalhães endireita-se e caminha de um bordo ao outro para contemplar a sua esquadra”¹.

Começa assim a odisseia de Fernão de Magalhães e dos que o acompanharam numa viagem repleta de provações e de dramas que duraria cerca de três anos. Pelo caminho quase tudo aconteceu: a fome, o escorbuto, a amotinação, os combates, as vagas alterosas, o vento desesperante e até a falta dele e, acima de tudo, a descoberta do estreito que liga o Atlântico Sul ao Pacífico.

O objetivo de Magalhães não era realizar a circum-navegação da Terra, mas alcançar as Molucas e mostrar que poderiam estar no hemisfério castelhano decorrente do Tratado de Tordesilhas assinado em 1494. Ficou acordado neste tratado que todo o mundo desconhecido a leste de uma linha imaginária traçada a 370 léguas a oeste das Ilhas de Cabo Verde pertenceria a Portugal. Todo o espaço a Oeste dessa linha pertenceria a Espanha². No que diz respeito aos Oceanos Atlântico e Índico, não havia problema; mas e o outro lado do mundo? Magalhães acreditava que as Molucas estavam no hemisfério castelhano e queria prová-lo com a sua viagem. Carlos V gostou do que ouviu e resolveu apoiar a expedição, como uma empresa da coroa castelhana.

De facto, cerca de três décadas depois da assinatura do Tratado de Tordesilhas, os portugueses tinham conquistado Malaca e alcançado as Molucas. Colocava-se, portanto, o problema de, à semelhança do que fora feito no Atlântico, saber e confirmar onde passava o semimeridiano oriental de Tordesilhas para delimitar no Extremo Oriente as áreas pertencentes a cada país³.

Quando em 1522, a nau Victoria, a única sobrevivente, chegava a S. Lucar de Barrameda no Guadiana, com um carregamento de cravo, noz-moscada e sândalo, o novo soberano português, D. João III, apresentou os seus protestos a Carlos V. Em resposta Carlos V invocou o facto de que as ilhas onde tinham estado os navios espanhóis, que incluíam as Molucas, não podiam ser reclamadas pelos portugueses, porque, de acordo com o Tratado de Tordesilhas, estariam no hemisfério castelhano⁴.

A questão não era fácil de resolver uma vez que ainda não era possível nessa altura determinar de forma rigorosa os 180º de longitude terrestre. Esta coordenada apenas se podia estimar, em função do andamento dos navios, ajustando (e ajustando-se) os dados tradicionais dos cosmógrafos antigos. Assim, era tecnicamente impossível na proximidade dos limites, quando dois ou três graus podiam fazer a diferença determinar com rigor a longitude. Desta forma, restava, com maior ou menor fundamentação jurídica, a argumentação política⁵.

Se olharmos para o planisfério português anónimo de 1502 (dito Cantino), tomando como escala da medida de um grau equatorial a distância entre os trópicos e o equador, veremos que, mesmo com as dificuldades referidas, está praticamente certa a largura do continente africano e a distância à Índia. Imaginando que as viagens sequentes, até Malaca, Banda e Molucas, deram uma noção (mesmo que vaga) do espaço percorrido, é impossível não pensar que os próprios portugueses foram tomando consciência do problema diplomático que vinha a caminho, quando os espanhóis percebessem até onde estavam a navegar os navios nacionais⁶. Em boa razão, a disputa que estava latente desde Tordesilhas desencadear-se-ia mais dia ou menos dia, e foi nessa base que Magalhães apresentou o seu projeto a Carlos V, que não hesitou em aceitá-lo.

Por outro lado, a decisão de fazer a viagem pelo Pacífico e não pelo Índico, ficou a dever-se ao facto de, nessa altura, os portugueses dominarem os pontos estratégicos das rotas de navegação para a Índia quer no Atlântico, quer no Índico, pelo que seria demasiado arriscado e mesmo temerário empreender uma empresa desta natureza por essa rota. A rota seguida por Fernão de Magalhães pode ser estabelecida por meio dos vários relatos daquele tempo. A sua missão não era localizar as Ilhas das Especiarias, pois isto já tinha sido feito pelos portugueses em 1512. De facto, em Novembro de 1511 partiu de Malaca a primeira expedição portuguesa para as Molucas sob o comando de António de Abreu composta pelas naus Santa Catarina (António de Abreu), a Sabaia (Francisco Serrão) e uma caravela latina (Simão Afonso Bisagudo)⁷.

A missão a que Fernão de Magalhães se propunha tinha três objetivos principais: achar uma passagem que ligasse o Atlântico ao Pacífico e estabelecer, neste Oceano, uma rota marítima até às Molucas; provar que as Molucas estavam situadas no domínio espanhol; estabelecer uma rota favorável de volta a Espanha sem cruzar o Oceano Índico, que estava sob domínio português.

Na verdade, Magalhães descobriu uma rota satisfatória para as Ilhas das Especiarias e encontrou a passagem para o Pacífico, mas foi morto numa das ilhas do arquipélago mais tarde conhecido por Filipinas e os seus sucessores não lograram estabelecer uma rota de retorno através do Pacífico⁸. Também não foi consensual a localização geográfica das Molucas pelo que os dois monarcas decidiram reunir uma “junta de especialistas” que debateriam o problema da delimitação oriental das suas zonas de influência, de forma a acordar a quem caberia a posse das longínquas Molucas, cujo comércio se revelava com valor significativo. Essa junta reuniu-se de 11 de Abril a 31 de Maio de 1524, sobre a ponte do rio Caia, entre Elvas e Badajoz, mas os resultados concretos foram absolutamente nulos, como seria de esperar⁹.

D. João III sabia que não era possível fazer a delimitação com base em “verdades geográficas” incontestáveis, de forma que deu instruções para que fosse recusada toda a argumentação de cartógrafos e cosmógrafos, afirmando a sua soberania com base numa presença, de facto, desde há mais de uma década. Era um argumento juridicamente importante desde que tivesse força política para o impor, ou, por outras palavras, desde que Carlos V não estivesse disposto a combater pelas Molucas, o que era o caso. Nenhuma das partes queria que a dissidência resultasse em conflito violento, pelo que uma solução política era possível. Provisoriamente, ficou aceite que os direitos de comércio nas Molucas seriam portugueses, mediante o pagamento de 40 000 ducados anuais, que ficavam por conta do dote de D. Catarina, ainda em dívida a Portugal. E este foi o acordo imediato que se seguiu à “conversa de surdos” que foi a Junta de Badajoz-Elvas. Em 1529, com o Tratado de Saragoça, foi concedida a posse definitiva do comércio das Molucas a Portugal, pela quantia de 350 000 ducados¹⁰.

No entanto, o facto que se tornou mais relevante acabou por ser aquele que não estava previsto de início, ou seja, a circum-navegação efetuada por um dos seus navios. De facto, a Victoria capitaneada por Juan Sebastián Elcano conseguiria chegar a S. Lucar de Barrameda ao fim de três anos navegando sempre para Oeste, após uma viagem dramática pelo Índico e pelo Atlântico.

É devido a este acontecimento, a que o nome de Fernão de Magalhães está indelevelmente associado, que se deve a sua inscrição na história das grandes viagens marítimas e na história da humanidade.


Notas

  1. BARRAULT, Jean-Michel, Fernão de Magalhães: a terra é redonda, Terramar, Lisboa, 1998, p. 81.

  2. Cf. ALBUQUERQUE, Luís, O Tratado de Tordesilhas e dificuldades técnicas da sua aplicação rigorosa, sep. Revista da Universidade de Coimbra, Coimbra, 1973, p. 4.

  3. Cf. ABADÍA, Ramon E., «La ideia del antimeridiano», A viagem de Fernão de Magalhães e a questão das Molucas, Actas do II Colóquio Luso-Espanhol de História Ultramarina, Lisboa, Junta de Investigações Científicas do Ultramar, 1975, p. 4.

  4. Cf. ALBUQUERQUE, Luís, op. cit., p. 12.

  5. Cf. Ibidem, pp. 18-19.

  6. Cf. Ibidem, pp. 19-20.

  7. Cf. THOMAZ, Luís F., «Maluco e Malaca», A viagem de Fernão de Magalhães e a questão das Molucas, Actas do II Colóquio Luso-Espanhol de História Ultramarina, Lisboa, Junta de Investigações Científicas do Ultramar, 1975, pp. 36-37.

  8. Cf. DAVIES, Arthur, «A Navegação de Fernão de Magalhães», Revista de História, Vol. 22, n.º 45, Universidade de São Paulo, 1961, p. 175.

  9. Cf. MATOS, Jorge Semedo de, A Junta de Badajoz-Elvas, Instituto Camões, Navegações Portuguesas (acedido em Dezembro de 2018).

  10. ALBUQUERQUE, Luís; FEIJÓ, Rui, «Os pontos de vista de D. João III na Junta de Badajoz-Elvas», A viagem de Fernão de Magalhães e a questão das Molucas, Actas do II Colóquio Luso-Espanhol de História Ultramarina, Lisboa, Junta de Investigações Científicas do Ultramar, 1975, p. 545.

Francisco Vaz

12 de Fefereiro de 2019

quinta-feira, 16 de abril de 2026

O poder que não resolve

Os Estados Unidos e a Nova Ordem em Formação

A reflexão sobre a hegemonia americana ganha hoje uma nitidez quase desconfortável quando cruzada com a atual confrontação com o Irão. Aquilo que no plano teórico se apresentava como transição — da “hiperpotência” para uma primazia relativa — revela-se agora, no terreno, como uma evidência estratégica difícil de contornar.

Desde o fim da Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos construíram um poder sem paralelo, combinando geografia,  economia, inovação e supremacia militar. Esse poder continua intacto no essencial. Nenhuma potência rivaliza com a sua capacidade de projeção global, nem com o seu domínio dos mares, nem com a sua liderança tecnológica. E, no entanto, é precisamente esse poder que a atual crise expõe nos seus limites mais profundos.

A confrontação com o Irão mostra, de forma nua e crua, que a superioridade militar deixou de ser sinónimo de controlo estratégico. Tal como já se evidenciara na Guerra do Vietname, e mais recentemente na Guerra do Iraque e na Guerra do Afeganistão, os Estados Unidos podem dominar o campo de batalha convencional, mas não conseguem impor um desfecho político estável. O Irão, consciente dessa assimetria, evita o confronto direto e aposta numa guerra difusa — mísseis, drones, milícias e pressão indireta — transformando a fraqueza relativa em instrumento de resistência.

O Estreito de Ormuz surge aqui como símbolo maior desta nova realidade: um ponto geográfico estreito, vulnerável, onde uma potência regional consegue condicionar o fluxo vital da economia global. A hegemonia naval americana garante a abertura dos mares, mas não elimina a capacidade de perturbação. O controlo não é absoluto; é, no máximo, contestado.

É neste contexto que o paradoxo do poder americano se torna mais evidente: nunca foi tão grande, e nunca foi tão insuficiente. A guerra moderna — assimétrica, híbrida, prolongada — esvazia a lógica clássica da vitória. Já não se trata de derrotar um exército inimigo, mas de gerir um ecossistema de conflitos difusos, onde o tempo favorece quem resiste e não necessariamente quem domina.

Ao mesmo tempo, a dimensão interna não pode ser dissociada desta equação. A polarização política, visível no Ataque ao Capitólio dos Estados Unidos de 2021, fragiliza a consistência estratégica. Um país dividido hesita, oscila e, por vezes, recua. A tentação do isolacionismo — do "America First" ao risco de um "America Only" — limita a capacidade de sustentar compromissos prolongados e reforça a perceção externa de incerteza.

E, no entanto, importa evitar o erro inverso: o de anunciar prematuramente o fim da hegemonia. Apesar da ascensão de potências como a China, nenhuma reúne ainda a combinação de atributos que sustenta o poder americano. O mundo não é verdadeiramente multipolar no sentido clássico; é antes um sistema em transição, onde a primazia americana persiste, mas é cada vez mais desafiada.

A guerra com o Irão, integrada nesta leitura, não anuncia o colapso dos Estados Unidos — mas revela a transformação da sua hegemonia. De uma hegemonia incontestada para uma hegemonia disputada; de uma capacidade de imposição para uma necessidade de gestão; de um poder absoluto para um poder condicionado.

A conclusão torna-se, assim, mais densa e mais inquietante: o mundo continua dependente dos Estados Unidos, mas já não pode ser organizado apenas por ele. A hegemonia permanece — mas já não resolve. E quando o poder não resolve, abre-se um espaço perigoso onde a desordem, mais do que a ordem, tende a prosperar.

Francisco Vaz

16 de Abril de 2026


Guerra e tecnologia

A invenção de Higgins e a invenção do drone

Há comparações que não nascem de um gosto pela analogia histórica, mas da evidência quase imediata de uma transformação estrutural. O “Higgins Boat” e o drone pertencem a épocas distintas, mas cumprem a mesma função silenciosa: alterar as condições de possibilidade da guerra.

A invenção de Andrew Higgins permitiu resolver um problema estrutural: como projetar força do mar para terra. O drone resolve hoje outro problema essencial: como ver, decidir e destruir sem expor diretamente o combatente. Se o primeiro abriu a praia, o segundo dissolve o campo de batalha.

Na Segunda Guerra Mundial, o “Higgins Boat” foi decisivo não por ser tecnologicamente sofisticado, mas por ser produzível em massa, adaptável e integrado numa doutrina — a do United States Marine Corps. Hoje, os drones repetem exatamente esse padrão. Não são apenas máquinas; são sistemas integrados numa nova forma de combate. Na guerra da Ucrânia, por exemplo, encurtam radicalmente o tempo entre deteção e destruição, tornando a guerra mais imediata e mais letal.

Tal como a embarcação de Higgins democratizou o desembarque anfíbio, os drones democratizam o poder aéreo. O que antes exigia aviões, pilotos e superioridade aérea, hoje pode ser realizado por dispositivos pequenos, muitas vezes baratos e amplamente disponíveis. A assimetria torna-se regra: quem melhor integra tecnologia e adaptação tática ganha vantagem, independentemente da escala tradicional de poder.

Mas há uma segunda camada, mais inquietante. O “Higgins Boat” levava homens para o combate; o drone tende a afastá-los. A guerra torna-se mais mediada, mais técnica e, em certo sentido, mais desumanizada. O campo de batalha deixa de ser um espaço delimitado para se tornar uma rede contínua de vigilância e ataque, onde a exposição é permanente e o abrigo cada vez mais ilusório.

A atualidade confirma esta mutação: enxames de drones, ataques à distância, operações persistentes que tornam o tempo um fator tão decisivo quanto o espaço. Tal como os desembarques em Batalha de Guadalcanal inauguraram uma nova fase da guerra anfíbia, estas práticas anunciam uma guerra onde a presença física já não é condição necessária para exercer força.

E, no entanto, a lição essencial mantém-se: a tecnologia só é decisiva quando se torna sistema. Tanto o barco de Higgins como os drones dependem de organização, doutrina e capacidade industrial. Sem isso, são apenas engenhos; com isso, tornam-se instrumentos de transformação histórica.

O paralelismo é, por isso, mais do que técnico — é civilizacional. O “Higgins Boat” pertence à era da guerra industrial integrada; o drone anuncia a era da guerra distribuída, algorítmica e persistente. Um levou o homem até ao inimigo; o outro permite combater sem lá estar.

No fundo, ambas as invenções revelam a mesma verdade incómoda: a guerra muda menos pelos grandes discursos do que pelos meios concretos que tornam possível agir. E são esses meios — discretos, replicáveis, muitas vezes subestimados — que acabam por redefinir tudo.

Francisco Vaz

16 de Abril de 2026

O César de Fogo

 EUA, Irão e o Estreito de Ormuz

Há momentos na história em que o poder se revela não como ordem, mas como combustão. O que emerge do confronto entre os Estados Unidos e o Irão — tal como descrito neste debate do Proceedings — é precisamente isso: um poder incendiário, um César de fogo, que tudo toca mas nada resolve definitivamente.

A cifra impressiona: 13 mil alvos atingidos. A aritmética da guerra moderna tornou-se abstrata, quase metafísica. Não são apenas alvos — são manifestações de uma crença profunda na capacidade técnica de dominar a realidade. Contudo, como já se entrevia nas campanhas aéreas dos Balcãs ou do Afeganistão, o poder de destruição não se traduz automaticamente em poder político. O adversário permanece. O regime resiste. A vontade não se dissolve sob o fogo.

Aqui reside o paradoxo central: o César contemporâneo não conquista — incendeia. E ao incendiar, revela o limite do seu próprio domínio.

O Estreito de Ormuz surge, neste contexto, como símbolo e campo de prova. Não é apenas um corredor marítimo; é uma encruzilhada ontológica entre Cosmos e Caos. A distinção entre passagem inocente e passagem em trânsito não é meramente jurídica — é civilizacional. A primeira admite a suspensão, a exceção, a vontade soberana que se impõe. A segunda afirma um princípio universal: certos espaços pertencem à humanidade e não ao arbítrio de um Estado.

Quando o Irão tenta transformar Ormuz num “posto de portagem” — esse “Tehran toll booth” — não está apenas a procurar vantagem tática ou económica. Está a desafiar a própria ideia de ordem internacional construída após a Segunda Guerra Mundial. E, como bem se sublinha no debate, o perigo maior não é local, mas precedencial: o que acontece em Ormuz ecoará no Estreito de Taiwan ou no Mar do Sul da China.

O César de fogo, porém, enfrenta um dilema trágico. Para reabrir Ormuz, não basta destruir — é necessário controlar, limpar, garantir. As minas navais, silenciosas e persistentes, são o antídoto perfeito contra a arrogância tecnológica. Um míssil pode ser lançado e interrompido; uma mina, uma vez colocada, permanece como memória física do conflito. Obriga à lentidão, à prudência, à vulnerabilidade. É a guerra a regressar ao tempo humano, contra a ilusão da velocidade absoluta.

Mais ainda: a própria estratégia revela um impasse moral. Quando os alvos militares se esgotam, surgem os “alvos de duplo uso” — pontes, centrais elétricas, infraestruturas civis. Aqui, o César aproxima-se perigosamente da hybris: ao tentar forçar a vitória, arrisca destruir as condições da paz. E, paradoxalmente, como sugerido no debate, o sofrimento infligido à população pode reforçar o poder do regime adversário, em vez de o enfraquecer.

Neste ponto, a reflexão ganha uma dimensão mais profunda: a guerra contemporânea expõe a fragilidade da ideia moderna de soberania absoluta. O Irão não pode fechar Ormuz sem se prejudicar; os Estados Unidos não podem abri-lo sem custos desproporcionados. Ambos estão presos numa teia de interdependência que limita o exercício pleno do poder.

É aqui que o “César de fogo” revela a sua natureza trágica. Ele possui meios quase ilimitados de destruição, mas encontra-se limitado na construção. Pode interromper o mundo, mas não o reorganizar à sua vontade.

Por fim, permanece a questão essencial: o que fazer quando já não há mais alvos, mas o conflito persiste? A resposta não é militar — nunca foi. A técnica atinge o seu limite onde começa a política, e a política, por sua vez, só se sustenta se enraizada numa ordem partilhada.

Ormuz, portanto, não é apenas um estreito. É um teste à própria ideia de comunidade internacional. Se prevalecer a lógica da portagem, da exceção e da força, entramos num mundo fragmentado, onde cada passagem depende do arbítrio do mais forte. Se, pelo contrário, se reafirmar o princípio da liberdade de navegação, então talvez ainda reste algo da ordem construída no século XX.

O César de fogo pode iluminar — mas também pode cegar. A questão é saber se, no meio das chamas, ainda somos capazes de ver.

Francisco Vaz

16 de Abril de 2026

terça-feira, 14 de abril de 2026

César e Deus

Quando o poder convoca o sagrado

 A evocação de uma eventual “reza” de Pete Hegseth no Pentágono, lida como sinal de uma aproximação entre poder político e linguagem religiosa, desperta ecos históricos que importa tratar com rigor — e, sobretudo, com prudência. A história oferece exemplos extremos de confronto entre o poder secular e a autoridade espiritual, mas também ensina que a analogia, quando forçada, obscurece mais do que esclarece.

No início do século XIV, Filipe IV de França entrou em choque direto com o papado, num conflito que culminaria no episódio de Anagni e na progressiva submissão da Igreja à coroa francesa. Aqui, o que estava em causa era uma disputa estrutural: quem detém a supremacia última — o trono ou o altar? O rei não procurava apenas condicionar o Papa; pretendia integrar a autoridade espiritual na lógica do poder político.

Séculos mais tarde, o plano atribuído a Adolf Hitler de sequestrar ou mesmo eliminar Pio XII representa um salto qualitativo: já não se trata de dominar a Igreja, mas de a neutralizar fisicamente enquanto foco de resistência moral. A própria reação de Pio XII — ponderando renunciar para evitar que o cargo fosse instrumentalizado — revela a consciência de que o papado, enquanto instituição, podia tornar-se alvo direto de violência política.

Colocar a atual administração americana no mesmo plano destes episódios históricos exige cautela. A instrumentalização simbólica da religião por parte do poder político não é nova — e não é exclusiva de um regime ou de uma época. No entanto, há uma diferença essencial entre o uso retórico ou cultural da religião e a tentativa de subjugação ou eliminação da autoridade espiritual. Confundir estes níveis é correr o risco de banalizar o passado e de inflacionar o presente.

Ainda assim, a questão de fundo permanece pertinente. Sempre que o poder político recorre à linguagem religiosa — seja para legitimação, mobilização ou identidade — reabre-se uma tensão antiga: a da autonomia do espiritual face ao temporal. A história de Filipe IV mostra como essa tensão pode degenerar em conflito institucional; o caso extremo associado a Hitler revela até onde pode ir quando o poder se absolutiza.

O nosso tempo situa-se, felizmente, noutro horizonte. Mas isso não elimina o problema; apenas o desloca. O risco contemporâneo não é tanto o de um confronto direto, mas o de uma fusão subtil, onde o religioso é absorvido como instrumento simbólico do político. E é precisamente aí que a lição histórica se torna mais exigente: não para alimentar paralelismos fáceis, mas para recordar que a independência das esferas — política e espiritual — é uma conquista frágil, que requer vigilância constante.

A história não se repete nos mesmos termos. Mas recorda, com insistência, que quando o poder deixa de reconhecer limites, tende a procurá-los — e, por vezes, a destruí-los.

Francisco Vaz
14 de Abril de 2026

Maria

Mulher e Mãe

Ao tempo de Jesus, à luz da lei judaica, as mulheres e as crianças não tinham autoridade e o seu testemunho dificilmente podia ser acreditado pela comunidade. No entanto, nos Evangelhos, elas têm um papel primordial pois enquanto os evangelistas narram o que aconteceu, as mulheres são as primeiras a testemunhar o acontecimento da ressurreição.


Esta é uma das vocações das mulheres: transmitir aos vindouros que Jesus está vivo, que Jesus é o ressuscitado. Na verdade, os apóstolos e os discípulos tiveram alguma dificuldade em acreditar. As mulheres não. Pedro corre para o sepulcro mas detém-se perante o túmulo vazio; Tomé tem que tocar com as mãos nas feridas de Jesus. Isto deve fazer-nos refletir sobre como as mulheres tiveram e têm ainda hoje um papel fundamental no abrir das portas à fé comunicando o rosto e a vida de Jesus.


Ao longo dos últimos decénios, com as transformações sociais e culturais que todos conhecemos, também a identidade e o papel da mulher na família, na sociedade e na Igreja sofreram transformações notáveis e, em geral, constatamos que a participação e responsabilidades das mulheres foi aumentando. Neste processo foi e continua a ser importante o discernimento por parte do magistério dos papas. De referir em particular, a Carta Apostólica de 1988, Mulieris digitatem, de João Paulo II, sobre a dignidade e vocação da mulher.


Este documento, em consonância com o ensinamento do Concílio Vaticano II, reconhece a força moral e espiritual da mulher (Cf. Mulieris dignitatem, nº 30). Da mesma forma é pertinente recordar aqui a Mensagem do Dia Mundial da Paz de 1995 sobre o tema “Mulher: educadora de Paz”. Esta mensagem dirige-se sobretudo às mulheres “pedindo-lhes que se tornem educadoras de paz com todo o seu ser e todo oseu agir: sejam testemunhas, mensageiras, mestras de paz entre as pessoas e as gerações, na família, na vida cultural, social e política das nações, especialmente nas zonas de conflito e de guerra.” (XXVIII Mensagem do Dia Mundial da Paz, 1995, nº 2).


Mais recentemente, o papa Francisco acentua a indispensável contribuição da mulher na sociedade, em especial com a sua sensibilidade e intuição em relação ao outro, em particular os mais débeis (Cf. Evangelii gaudium nº 103). Desde 1975, ano em que a Organização das Nações Unidas (ONU) definiu o dia 8 de Março como o Dia Internacional da Mulher, que se recorda o caminho de lutas, muitas vezes sofridas, pelos seus direitos e também o resultado das conquistas alcançadas pelas mulheres.

Se muitas delas se tornaram exemplo a ser seguido, há, no entanto, uma que se destaca: Maria, a mãe de Jesus. A fé de Maria é o cumprimento da fé de Israel e, nesse sentido, é o modelo da fé da Igreja. A vida de Maria foi a vida de uma mulher do seu povo, numa união perfeita com Jesus. Acima de tudo Maria foi e é exemplo de mãe.


Foi sublinhando esta dimensão que João Paulo II se pronunciou, há 35 anos, em Fátima: “Nas palavras da mensagem de Fátima parece-nos encontrar precisamente esta dimensão do amor materno, o qual com a sua amplitude, abrange todos os caminhos do homem em direção a Deus […]. A solicitude da Mãe do Salvador identifica-se com a solicitude pela obra da salvação: a obra do Seu Filho. […] À luz do amor materno, nós compreendemos toda a mensagem de Nossa Senhora de Fátima.” (Homilia do papa João Paulo II, Fátima, 13 de Maio de 1982).


Francisco Vaz

Publicado Mensageiro de Santo António 

10 de Setenbro de 2017