Pecado original

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domingo, 5 de julho de 2026

Meditações sobre a peregrinação da beleza

ao som dos Noturnos de Chopin

Há músicas que se escutam. Outras habitam-nos.

Enquanto escrevo as últimas páginas da minha peregrinação pela beleza italiana, os Noturnos de Chopin enchem lentamente a casa. Não impõem emoções. Não procuram deslumbrar. Limitam-se a criar um espaço interior onde o pensamento abranda, a memória se organiza e a alma reencontra o seu ritmo natural.

Talvez seja essa a sua maior grandeza.

A beleza, quando é verdadeira, não nos arrasta para fora de nós; reconcilia-nos connosco.

Chopin começou a compor os seus Noturnos inspirado pelo compositor irlandês John Field, criador deste género musical. Mas aquilo que em Field era já delicadeza transformou-se, em Chopin, numa linguagem inteiramente nova. Cada noturno tornou-se um pequeno universo onde convivem nostalgia, esperança, melancolia, ternura e paz. Não contam uma história. Revelam um estado de espírito.

Talvez por isso permaneçam intemporais.

A primeira metade do século XIX era uma época de profundas transformações. A Europa procurava reencontrar-se depois das guerras napoleónicas. O romantismo florescia nas artes, afirmando que o ser humano não vive apenas da razão, mas também da imaginação, do sentimento e da memória. Chopin era um filho desse tempo.

Polaco de nascimento, viveu grande parte da vida em Paris, longe da sua terra natal, ocupada por potências estrangeiras. O exílio marcou profundamente a sua sensibilidade. A saudade da Polónia nunca desapareceu. Talvez seja por isso que, mesmo quando a música parece sorrir, permanece sempre uma discreta sombra de nostalgia.

Paris reunia então alguns dos maiores espíritos da Europa. Chopin convivia com Franz Liszt, Hector Berlioz, Felix Mendelssohn, Robert Schumann, Eugène Delacroix e a escritora George Sand. Eram artistas diferentes, por vezes até opostos, mas unidos pela convicção de que a arte podia revelar dimensões da existência inacessíveis ao simples discurso racional.

Foi precisamente nessa mesma Europa que também Verdi começou a afirmar-se.

Os dois compositores quase pertencem à mesma geração. Verdi nasceu em 1813; Chopin em 1810. Nunca desenvolveram uma relação pessoal significativa e pertenciam a universos musicais distintos. Chopin escreveu quase exclusivamente para o piano; Verdi entregou a sua vida ao teatro lírico.

Mas existe entre ambos uma afinidade mais profunda.

Ambos compreenderam que a música existe para servir a condição humana.

Em Verdi, essa humanidade manifesta-se na força dramática das paixões, dos conflitos, da justiça, do amor e da liberdade. Em Chopin manifesta-se no recolhimento, na intimidade, na solidão habitada pela esperança. Um fala para milhares de pessoas reunidas numa sala de ópera; o outro parece falar apenas para cada pessoa individualmente.

No entanto, ambos procuram exatamente a mesma verdade.

Durante esta peregrinação visitei o Duomo de Milão, a Casa Verdi, o Teatro alla Scala, a Arena de Verona, igrejas, museus, memoriais e cidades construídas ao longo de séculos. Em todos esses lugares encontrei uma mesma realidade: a beleza é sempre uma forma de resistência contra o esquecimento.

Agora, ao escutar Chopin, compreendo que essa peregrinação continua.

Já não caminho por ruas italianas.

Caminho pelo interior da alma.

Talvez seja esse o destino último de toda a verdadeira cultura. Não apenas ensinar-nos mais coisas, mas tornar-nos mais humanos. Fazer-nos descobrir que a beleza não é um luxo reservado aos tempos de abundância. É uma necessidade espiritual. Alimenta a esperança, ordena os afetos, pacifica a inteligência e recorda-nos que existe uma dimensão da vida que não pode ser medida pela utilidade.

Quando a música termina, permanece o silêncio.

Mas já não é o mesmo silêncio.

É um silêncio habitado.

E talvez seja precisamente aí que reside o maior milagre de Chopin: conseguir que, durante alguns minutos, a alma deixe de lutar contra o tempo e simplesmente aprenda a agradecer.

Francisco Vaz

5 de julho de 2026

sábado, 4 de julho de 2026

Nimitz e a Árvore das Virtudes

No 250.º aniversário da Independência dos Estados Unidos — homenagem a uma grande nação na pessoa de um grande americano.

Neste dia em que se assinalam os 250 anos da Declaração de Independência dos Estados Unidos da América, parece-me apropriado recordar um dos seus maiores cidadãos. Não apenas porque Chester W. Nimitz foi um dos mais notáveis estrategas navais do século XX, mas porque a sua vida testemunha algo muito mais duradouro do que o sucesso militar: a força do carácter.

Foi precisamente essa ideia que procurei desenvolver no capítulo IV de Chester W. Nimitz: The Pragmatics of Sea Power. A verdadeira grandeza de Nimitz não reside apenas nas vitórias alcançadas no Pacífico. O que distingue o seu comando é algo muito mais profundo: a forma como a sua liderança assentava sobre um carácter cuidadosamente formado.

A história militar oferece inúmeros exemplos de comandantes brilhantes. Poucos, porém, revelam com tanta clareza que a eficácia da ação depende, antes de mais, da ordem interior de quem age.

É precisamente aqui que a tradição clássica continua surpreendentemente atual.

Desde Platão, as quatro virtudes cardeais constituem a arquitetura fundamental da vida moral: temperança, coragem, sabedoria e justiça. Não são qualidades independentes umas das outras, mas momentos sucessivos de uma mesma construção interior. Mais do que quatro virtudes isoladas, formam um caminho de crescimento humano.

Tudo começa pela temperança.

Antes de governar um exército, uma empresa ou uma família, o homem é chamado a governar-se a si próprio. A temperança não significa repressão nem frieza emocional. Significa liberdade interior. É a capacidade de ordenar desejos, ambições, medos e paixões para que deixem de dominar a pessoa.

Em Nimitz esta virtude manifestava-se de forma quase natural. Raramente procurava protagonismo. Nunca confundia autoridade com vaidade. Escutava mais do que falava e preferia resultados ao espetáculo. A humildade não diminuía a sua autoridade; tornava-a credível.

Da temperança nasce a coragem.

Só quem domina o medo pode enfrentá-lo. A coragem não consiste na ausência de temor, mas na decisão de não permitir que ele determine a ação.

Após Pearl Harbor, quando a Esquadra do Pacífico parecia devastada e muitos acreditavam que a iniciativa estratégica estava definitivamente perdida, Nimitz recusou tanto o desespero como a precipitação. Conservou a serenidade necessária para continuar a agir.

A coragem é inseparável da perseverança. Não procura o heroísmo momentâneo; sustenta a fidelidade ao dever durante longos períodos de incerteza.

Mas nem a temperança nem a coragem bastam.

É necessária a sabedoria.

Na tradição grega, a sophia representa a inteligência capaz de discernir a realidade. Não impõe aos factos aquilo que gostaria que fossem; procura compreendê-los tal como são.

Foi esta virtude que tornou Nimitz um estratega excecional. Antes de decidir, escutava. Antes de ordenar, procurava compreender. Em Midway, nas Marianas ou em Okinawa, a superioridade da sua liderança não resultou de gestos espetaculares, mas da qualidade do discernimento.

A sabedoria alimenta-se da escuta, da reflexão, da prudência — entendida aqui como prudência prática e não como virtude cardeal autónoma —, do bom senso e da capacidade de aprender continuamente com a experiência.

Quando estas três virtudes se encontram harmonizadas, surge naturalmente a quarta: a justiça.

Platão compreendeu-o como poucos. Na República, a justiça não aparece simplesmente como mais uma virtude ao lado das restantes. É a harmonia produzida quando cada parte da alma desempenha corretamente a sua função. A justiça é, por assim dizer, a música produzida pela afinação de todos os instrumentos.

Também em Nimitz a justiça era consequência de um carácter previamente formado. Reconhecia os méritos dos subordinados, assumia a responsabilidade pelos fracassos, recusava procurar culpados para proteger a própria imagem e exercia a autoridade como um serviço.

A justiça é sempre um ato simultaneamente temperado, corajoso e sábio.

Por isso, talvez seja mais rigoroso imaginar as virtudes não como uma lista, mas como uma árvore.

A temperança constitui as raízes, profundamente enterradas na terra do autodomínio.

Daí cresce o tronco robusto da coragem, capaz de resistir às tempestades.

Desse tronco nascem os ramos da sabedoria, que se estendem em todas as direções para procurar a luz da verdade.

Finalmente surgem os frutos: a justiça, visível nas ações concretas que beneficiam os outros.

Em torno destas grandes virtudes desenvolvem-se inúmeras outras, como folhas que alimentam continuamente a árvore.

Da temperança florescem a humildade, a simplicidade, a moderação, a paciência e o domínio de si.

Da coragem nascem a perseverança, a serenidade, a resiliência, a confiança e a firmeza.

Da sabedoria irradiam o discernimento, a escuta, a reflexão, o bom senso e a capacidade de aconselhar.

Da justiça brotam a lealdade, a equidade, a empatia, a magnanimidade e o espírito de serviço.

Estas não são virtudes menores. São a expressão quotidiana das grandes virtudes cardeais. Tornam visível, nos pequenos gestos de cada dia, a estrutura profunda do carácter.

Talvez seja precisamente aqui que reside a maior atualidade de Nimitz.

Vivemos numa época em que frequentemente os vícios se apresentam mascarados de virtudes. A ambição disfarça-se de excelência. A impulsividade chama-se autenticidade. A vaidade e o orgulho apresentam-se como autoestima. A ganância recebe o nome de sucesso. A agressividade reivindica para si o título de coragem.

Mas os vícios possuem sempre a mesma consequência: fragmentam a pessoa. Introduzem conflito onde deveria existir unidade. Dividem interiormente quem os cultiva e deterioram as relações com os outros.

As virtudes realizam precisamente o movimento inverso. Integram. Harmonizam. Ordenam.

Talvez possamos compreender melhor esta arquitetura moral olhando para as quatro virtudes como expressão das quatro grandes relações que constituem a existência humana.

A temperança ordena a relação da pessoa consigo própria. Ensina o governo de si, sem o qual nenhuma liberdade é verdadeira.

A coragem ordena a relação com a adversidade. Permite enfrentar o sofrimento, a incerteza e o medo sem renunciar ao bem que se reconheceu como verdadeiro.

A sabedoria ordena a relação com a realidade e com a verdade. Recorda-nos que agir bem exige, antes de tudo, ver bem. Não basta querer fazer o bem; é necessário compreender a complexidade do mundo para o realizar.

Finalmente, a justiça ordena a relação com os outros. É nela que as restantes virtudes se tornam visíveis. A justiça não nasce espontaneamente nem se reduz ao cumprimento da lei. Brota de uma pessoa que aprendeu a dominar-se, a perseverar e a discernir. É a forma social de um carácter interiormente harmonizado.

É por isso que a justiça não é apenas uma virtude entre outras. É a síntese de todas elas. É o fruto maduro da árvore das virtudes.

Nenhuma tecnologia, nenhuma ideologia, nenhum sistema político e nenhuma inteligência artificial poderão substituir esta formação interior. As sociedades tornam-se justas porque existem pessoas justas; e as pessoas tornam-se justas porque cultivam, pacientemente, as virtudes que ordenam a sua vida.

O futuro da humanidade não será decidido apenas nos parlamentos, nos mercados ou nos laboratórios. Será decidido, sobretudo, no coração de cada homem e de cada mulher, onde diariamente se trava a batalha silenciosa entre a virtude e o vício.

Talvez esta seja, afinal, a maior lição deixada por Chester W. Nimitz.

As vitórias militares fizeram dele um grande almirante.

As virtudes fizeram dele um grande Homem.

E é por isso que o seu exemplo continua a falar-nos muito para além da história naval. Recorda-nos que toda a verdadeira liderança começa onde ninguém vê: na silenciosa construção do carácter.

Antes de comandar navios, instituições ou povos, cada ser humano é chamado a governar a única realidade sobre a qual possui verdadeiro domínio: a sua própria alma.

Talvez seja esta a definição mais simples e mais profunda de justiça: uma alma tão bem ordenada que a sua presença se transforma naturalmente num bem para os outros.

"Leadership consists of picking good men and helping them do their best."
     Chester W. Nimitz

Francisco Vaz
4 de julho de 2026

quinta-feira, 2 de julho de 2026

Entre o cisma e a nostalgia

quando a unidade da Igreja é posta à prova

A história da Igreja ensina que as grandes crises raramente nascem da falta de fé. Nascem, quase sempre, da dificuldade em viver a comunhão. Umas vezes porque se pretende ir demasiado depressa; outras porque se recusa caminhar. Em ambos os casos, perde-se de vista aquilo que constitui o coração da tradição católica: a unidade.

Nos últimos anos assistimos a dois fenómenos aparentemente opostos, mas que, no fundo, revelam a mesma tentação.

Por um lado, encontram-se aqueles que, em nome da renovação, entendem que determinadas decisões podem ser tomadas independentemente da comunhão com o sucessor de Pedro. A ordenação episcopal sem mandato pontifício constitui um dos atos mais graves que um bispo pode praticar. Não se trata apenas de uma questão administrativa ou disciplinar. Na tradição católica, cada bispo é sucessor dos Apóstolos precisamente porque a sua missão se insere na comunhão do colégio episcopal, cuja unidade tem como princípio visível o Bispo de Roma. Quando alguém rompe deliberadamente esse vínculo, não cria apenas uma nova estrutura; introduz uma fratura no próprio significado do episcopado. A sucessão apostólica não é uma simples cadeia histórica de imposição das mãos; é também uma sucessão na comunhão da fé e da Igreja.

Por outro lado, encontramos setores que olham para o Concílio Vaticano II como se tivesse sido um desvio lamentável da história da Igreja. Alimenta-se, por vezes, a esperança de um regresso a um passado idealizado, como se fosse possível suspender sessenta anos de reflexão, de magistério e de vida eclesial. Também aqui existe um equívoco profundo.

Nenhum concílio ecuménico pode ser simplesmente apagado. A tradição da Igreja não funciona por eliminação de capítulos da sua história. A tradição é uma continuidade viva. Desenvolve-se sem negar as suas raízes, corrige excessos sem destruir o que recebeu e permanece aberta à ação permanente do Espírito Santo.

O erro consiste em transformar um concílio num campo de batalha ideológico. Uns absolutizam o espírito do concílio esquecendo os seus textos; outros absolutizam o período anterior como se toda a verdade tivesse ficado congelada antes de 1962. Ambos acabam por reduzir um acontecimento espiritual a uma disputa política.

Existe aqui um curioso paralelismo.

Os que rompem com Roma em nome da inovação afirmam que a Igreja deve adaptar-se ao mundo, mesmo que para isso tenha de ultrapassar os limites da comunhão eclesial.

Os que recusam o Vaticano II em nome da tradição sustentam que a Igreja apenas será fiel se regressar ao passado, mesmo que isso implique colocar em causa o magistério posterior.

Uns caminham para diante sem o centro; outros permanecem imóveis enquanto a Igreja continua o seu caminho.

Mas a identidade cristã nunca foi construída sobre estas alternativas. A Igreja não é um museu onde tudo permanece imóvel nem um laboratório onde tudo pode ser reinventado. É um organismo vivo. Como acontece com qualquer ser vivo, cresce permanecendo ele próprio. Uma árvore adulta não renega a semente que lhe deu origem, mas também não regressa a ela.

O critério decisivo continua a ser o mesmo desde os primeiros séculos: a comunhão. Não uma comunhão acrítica, que dispense o debate, nem uma obediência cega que elimine a consciência, mas uma comunhão que reconhece que ninguém possui sozinho a plenitude da verdade. O Espírito Santo não inspira apenas indivíduos; conduz toda a Igreja.

Talvez por isso seja mais fecundo abandonar as categorias políticas de "progressistas" e "conservadores". Essas palavras pertencem ao vocabulário parlamentar, não ao léxico do Evangelho. A verdadeira distinção é outra: entre aqueles que procuram a verdade permanecendo na comunhão e aqueles que colocam a sua própria interpretação acima da comunhão.

A Igreja sempre viveu de tensões criativas. Os grandes santos discutiram, discordaram e, por vezes, confrontaram-se intensamente. Mas fizeram-no sem romper o vínculo que os unia ao Corpo inteiro.

A unidade nunca exige uniformidade absoluta; exige, isso sim, uma humildade comum. A humildade de reconhecer que nem o passado esgota a ação de Deus, nem o futuro nos autoriza a esquecer as raízes. Entre a nostalgia e a ruptura existe um caminho mais difícil, mas também mais autenticamente católico: o caminho da tradição viva, onde a fidelidade e a renovação deixam de ser adversárias para se tornarem duas expressões da mesma esperança.

Uma nota de rigor histórico: se estiver a referir-se ao caso recente da Suíça, posso identificar o episódio concreto e enquadrá-lo canonicamente, pois houve diferentes situações envolvendo tensões com Roma e convém distinguir os factos antes de fazer uma crítica específica.

Francisco Vaz

2 de julho de 2026

quarta-feira, 1 de julho de 2026

Oitenta Anos das Nações Unidas

Das Quatro Liberdades à esperança de uma paz fundada na dignidade humana

“In the future days, which we seek to make secure, we look forward to a world founded upon four essential human freedoms.”

— Franklin D. Roosevelt, Discurso das Quatro Liberdades, 6 de janeiro de 1941


Assinalar os oitenta anos das Nações Unidas não é apenas recordar a fundação de uma organização internacional. É revisitar uma das mais ambiciosas tentativas da humanidade de substituir a lógica da força pela força do direito, da guerra pela cooperação e do medo pela esperança.

As Nações Unidas nasceram formalmente a 24 de outubro de 1945, quando entrou em vigor a Carta assinada meses antes, na Conferência de São Francisco. Porém, a sua verdadeira génese remonta aos anos mais sombrios da Segunda Guerra Mundial. Antes de existir uma organização, existia já uma ideia; antes da instituição, havia uma visão do Homem e da sociedade internacional.

Essa visão foi apresentada por Franklin D. Roosevelt no seu célebre discurso das Quatro Liberdades, proferido perante o Congresso dos Estados Unidos a 6 de janeiro de 1941.

Enquanto grande parte do mundo permanecia mergulhada na violência, Roosevelt recusou reduzir o conflito a uma disputa entre potências. Colocou no centro da reflexão aquilo que verdadeiramente justificava o combate ao totalitarismo: a dignidade da pessoa humana. Definiu então quatro liberdades que deveriam ser garantidas a todos os seres humanos, em qualquer parte do mundo: a liberdade de expressão, a liberdade religiosa, a liberdade de viver com condições materiais suficientes e dignas, e a liberdade de viver sem medo.

Não era apenas um programa político. Era uma verdadeira antropologia. As duas primeiras liberdades protegem o espírito humano; as duas últimas garantem as condições materiais e políticas indispensáveis para que essa liberdade possa ser vivida. Liberdade, justiça, segurança e solidariedade deixavam de ser objetivos exclusivamente nacionais para se transformarem em valores universais.

Pouco depois, a 14 de agosto de 1941, Roosevelt e Winston Churchill subscreveram a Carta do Atlântico, onde aqueles princípios começaram a adquirir expressão política internacional. Em 1 de janeiro de 1942, vinte e seis países assinaram a Declaração das Nações Unidas, utilizando pela primeira vez a designação que viria a identificar a futura organização internacional. A expressão «Nações Unidas» foi sugerida pelo próprio Roosevelt.

Transformar estes ideais numa instituição exigiu um intenso trabalho diplomático. Entre agosto e outubro de 1944, representantes dos Estados Unidos, do Reino Unido, da União Soviética e da China reuniram-se em Dumbarton Oaks, em Washington, para elaborar o primeiro projeto da futura Carta das Nações Unidas. Ali foram desenhadas as estruturas fundamentais da organização: a Assembleia Geral, o Conselho de Segurança, o Tribunal Internacional de Justiça, o Conselho Económico e Social e o Secretariado.

Esse projeto seria posteriormente aperfeiçoado na Conferência de São Francisco, entre abril e junho de 1945, reunindo delegados de cinquenta países. O resultado foi a Carta das Nações Unidas, provavelmente o mais importante tratado político do século XX.

Também os símbolos possuem significado. A sede permanente das Nações Unidas ergue-se em Nova Iorque num terreno oferecido em 1946 por John D. Rockefeller Jr. A doação ultrapassou largamente o seu valor material. Representou a convicção de que a paz necessita de um lugar permanente onde o diálogo possa preceder o confronto e onde a palavra tenha sempre precedência sobre as armas.

Mas as Nações Unidas não nasceram apenas da diplomacia. Nasceram igualmente da reflexão filosófica.

Quando terminou a guerra, tornou-se evidente que a paz não poderia assentar exclusivamente em equilíbrios militares ou económicos. Era necessário encontrar um fundamento ético comum que pudesse ser reconhecido por povos de culturas, religiões e sistemas políticos profundamente diferentes.

Foi neste contexto que a UNESCO promoveu um amplo inquérito internacional junto de filósofos, juristas e pensadores de diversas civilizações sobre os fundamentos dos direitos humanos. Coube a Jacques Maritain coordenar intelectualmente esse diálogo. O seu extraordinário mérito consistiu em demonstrar que era possível alcançar um consenso prático sobre os direitos fundamentais da pessoa, mesmo permanecendo divergências quanto aos seus fundamentos filosóficos. Daí a sua célebre afirmação: «Estamos de acordo acerca destes direitos, desde que ninguém nos pergunte porquê.»

Longe de representar um relativismo moral, esta observação revelava uma profunda sabedoria política. Antes de discutir as razões últimas da dignidade humana, importava garantir que nenhuma pessoa voltaria a ser privada dela por causa da sua raça, religião, nacionalidade ou condição social. A experiência dramática do Holocausto e dos restantes totalitarismos tornara essa evidência irrecusável.

Este ambiente intelectual influenciou profundamente os trabalhos da Comissão dos Direitos Humanos das Nações Unidas, presidida por Eleanor Roosevelt, da qual fizeram parte René Cassin, Charles Malik, Peng-chun Chang e John Humphrey. Daí nasceu, em 10 de dezembro de 1948, a Declaração Universal dos Direitos Humanos, talvez o documento mais importante da história contemporânea.

Também a tradição cristã reconheceu rapidamente a importância deste caminho. Em 1963, São João XXIII publicou a encíclica Pacem in Terris, onde propôs uma visão da paz construída sobre quatro pilares inseparáveis: a verdade, a justiça, o amor e a liberdade. Pela primeira vez, um documento do magistério pontifício reconhecia explicitamente o papel das Nações Unidas e da Declaração Universal dos Direitos Humanos como instrumentos privilegiados para a construção do bem comum universal.

É difícil não reconhecer a convergência destas três grandes figuras do século XX. Roosevelt recordou que a paz só pode existir onde existem liberdades fundamentais. Maritain demonstrou que diferentes culturas podem encontrar-se na sua comum humanidade. João XXIII mostrou que a paz não é apenas um equilíbrio político, mas uma exigência moral fundada na dignidade da pessoa. Política, filosofia e teologia encontraram-se, assim, numa mesma visão humanista.

Naturalmente, oitenta anos depois, o balanço das Nações Unidas permanece ambivalente. A organização falhou em impedir numerosas guerras, revelou limitações perante genocídios, sofreu bloqueios impostos pelos interesses das grandes potências e enfrenta hoje desafios que os seus fundadores dificilmente poderiam imaginar.

Contudo, seria injusto ignorar a outra face da sua história. As Nações Unidas acompanharam a descolonização de dezenas de países, consolidaram o direito internacional, promoveram os direitos humanos, impulsionaram o direito do mar, organizaram centenas de missões de manutenção da paz, combateram epidemias, protegeram milhões de refugiados e criaram uma cultura de cooperação internacional sem precedentes na história da humanidade.

Talvez o maior risco do nosso tempo não seja apenas o regresso da guerra. É o esquecimento das ideias que estiveram na origem da própria organização. Quando as liberdades deixam de ser universais; quando a dignidade humana passa a depender da nacionalidade, da religião, da etnia, da ideologia ou da condição económica; quando a força pretende novamente substituir o direito, regressamos exatamente ao mundo que as Nações Unidas quiseram impedir.

As Nações Unidas nunca foram chamadas a instaurar um paraíso na Terra. A sua missão sempre foi mais modesta, mas também mais realista: impedir que a humanidade volte a construir o seu próprio inferno.

Oitenta anos depois, permanece atual a pergunta colocada, implicitamente, por Roosevelt em 1941: que mundo queremos legar às gerações futuras?

Enquanto a resposta continuar a passar pela liberdade, pela dignidade da pessoa, pela justiça e pela paz, o espírito das Quatro Liberdades permanecerá vivo. As instituições podem envelhecer e necessitar de reforma. Os princípios que exprimem a verdade sobre o ser humano, esses, permanecem.

Talvez seja este, afinal, o maior legado das Nações Unidas ao fim de oito décadas: recordar que a paz não nasce do equilíbrio do medo nem da hegemonia dos poderosos. Nasce do reconhecimento de que cada ser humano, simplesmente por o ser, possui uma dignidade inviolável. Enquanto esta verdade permanecer viva na consciência dos povos, permanecerá igualmente viva a esperança que inspirou os fundadores das Nações Unidas.

Francisco Vaz

1 de julho de 2026


Do Génesis à Divina Comédia

Uma alegoria sobre o humor divino, a liberdade humana e as eternas azelhices da criatura.

Há uma hipótese que, naturalmente, não consta em qualquer tratado de teologia, mas que merece, pelo menos, um sorriso filosófico: talvez a história da humanidade possa ser lida como a mais longa comédia alguma vez representada.

Não porque Deus tenha criado o homem para dele troçar, mas porque só um infinito sentido de humor poderia acompanhar, sem desistir da obra, a sucessão interminável de equívocos produzidos pela criatura dotada de liberdade.

Tudo começa no Génesis. O cenário é perfeito. O jardim é paradisíaco. A criação termina com uma exclamação de satisfação: «E Deus viu que tudo era muito bom.» A peça parecia destinada ao género da contemplação. Mas bastaram poucas páginas para surgir o primeiro ato cómico. Deus diz: «De toda a árvore podes comer, menos desta.» O ser humano, com a criatividade que o acompanhará para sempre, conclui imediatamente que a única árvore realmente interessante só pode ser precisamente essa.

É o primeiro grande momento da comédia humana: transformar a única exceção na única prioridade.

Segue-se o célebre interrogatório. «Adão, onde estás?» Como se Deus ignorasse a resposta. A pergunta não procura informação; procura consciência. Mas Adão responde como responderão milhões dos seus descendentes: não assume a responsabilidade, procura um culpado: «A mulher que me deste…». Eva, por sua vez, remete a culpa para a serpente. A serpente, infelizmente, não dispõe de advogado.

Desde então, a humanidade aperfeiçoou o método. Descobrimos a política, onde a culpa pertence sempre ao governo anterior; a economia, onde a responsabilidade é dos mercados; a meteorologia, onde tudo se explica pelas alterações climáticas; e as redes sociais, onde cada um possui a verdade absoluta durante quinze minutos.

Entretanto, Deus continua, por assim dizer, a assistir à representação. Não como um espectador que se diverte com o sofrimento das personagens, mas como um autor paciente que sabe que a liberdade implica a possibilidade permanente do disparate. Um criador de marionetas controla os fios; um criador de pessoas aceita o risco da improvisação.

Talvez seja precisamente aí que reside o humor divino: conceder inteligência suficiente para descobrir as leis do universo e, ao mesmo tempo, observar os mesmos seres humanos discutirem por um pedaço de terra, uma herança ou um lugar de honra à mesa.

Construímos telescópios capazes de observar galáxias a milhares de milhões de anos-luz e, logo a seguir, perdemos meia hora à procura dos óculos que temos pousados na cabeça. Inventamos a penicilina e a inteligência artificial, mas continuamos incapazes de ler as instruções e montar uma simples estante sem sobrarem meia dúzia de parafusos.

A história torna-se assim uma sucessão de atos em que convivem o sublime e o ridículo. A mesma humanidade que ergue catedrais, compõe sinfonias, escreve Shakespeare, pinta Miguel Ângelo ou descobre a estrutura do ADN é também capaz de iniciar guerras por vaidade, destruir o que levou séculos a construir e repetir, geração após geração, os mesmos erros com uma surpreendente convicção de originalidade.

Talvez por isso a expressão Divina Comédia encerre uma intuição mais profunda do que parece. Não porque a criação seja uma piada, mas porque o drama humano é frequentemente atravessado por um humor involuntário. Somos simultaneamente heróis e trapalhões, sábios e distraídos, criados à imagem do Logos e continuamente tentados pelo absurdo.

O Génesis pode, assim, ser entendido como o prólogo desta imensa representação. Não uma comédia destinada a ridicularizar o homem, mas uma comédia onde a liberdade humana revela, a cada passo, a distância entre aquilo que somos e aquilo que poderíamos ser.

E talvez o riso de Deus — se é legítimo imaginá-lo — não seja um riso de escárnio, mas de infinita ternura. O mesmo sorriso de um pai que vê o filho cair pela centésima vez enquanto aprende a caminhar. Sabe que a queda faz parte do caminho. E continua, pacientemente, a estender-lhe a mão.

No fim, a verdadeira graça da história não está nas nossas azelhices, mas no facto de, apesar delas, a criação continuar aberta à esperança. Afinal, se o Génesis inaugura a grande comédia da liberdade, é porque o Autor nunca deixou de acreditar que a última palavra não pertencerá ao ridículo, mas ao amor.

Francisco Vaz

1 de julho de 2026


terça-feira, 30 de junho de 2026

Verona cidade de Romeu e Julieta

O génio de Shakespeare e o milagre da palavra

Muito antes de William Shakespeare escrever Romeu e Julieta, a história já existia. O escritor italiano Luigi da Porto dera-lhe forma no século XVI, situando-a em Verona, atribuindo aos amantes os nomes de Romeu Montecchi e Giulietta Cappelletti e narrando o drama de duas famílias consumidas pelo ódio. Outros autores retomaram a narrativa e acrescentaram-lhe novos elementos. A matéria-prima estava criada.

Mas uma grande obra não nasce apenas da originalidade do enredo. Nasce, sobretudo, da forma como esse enredo é transfigurado pelo génio criador.

Foi isso que Shakespeare realizou.

Há quem pense que o génio consiste em inventar histórias nunca antes contadas. É uma ideia sedutora, mas incompleta. A experiência humana é relativamente constante: o amor, a morte, a amizade, a traição, a esperança, o medo e o perdão atravessam todas as épocas. O verdadeiro génio manifesta-se quando alguém encontra a forma perfeita de dizer aquilo que todos sentem, mas ninguém conseguira ainda exprimir.

Costuma dizer-se que Shakespeare possuía uma qualidade rara: sabia qual era a palavra mais adequada para colocar a seguir a qualquer outra palavra. Esta observação, aparentemente simples, encerra uma profunda verdade sobre a natureza da criação artística.

As palavras não são meros instrumentos de comunicação. São a matéria com que se constrói o pensamento e se revela a realidade. Entre possibilidades quase infinitas, existe por vezes uma única palavra capaz de dar à frase o seu ritmo, a sua beleza, a sua verdade e a sua força emocional. Encontrá-la exige muito mais do que técnica. Exige uma inteligência que escuta a própria música da linguagem e uma sensibilidade capaz de reconhecer a ordem escondida das coisas.

É por isso que Shakespeare não apenas contou uma história de amor. Fez dela um espelho da condição humana.

Em Romeu e Julieta, a paixão confronta-se com o ódio, a juventude com a tradição, a liberdade com o destino, a esperança com a morte. O drama dos dois amantes ultrapassa a sua época porque revela uma verdade permanente: os maiores conflitos da humanidade raramente nascem da falta de amor, mas da incapacidade de vencer preconceitos, rivalidades e paixões herdadas.

Talvez seja essa a maior lição da obra.

Cada geração continua a construir os seus próprios Montecchi e Cappelletti. Mudam os nomes, mudam as ideologias, mudam as bandeiras e as causas, mas permanece a tendência para dividir o mundo entre “nós” e “eles”. E, enquanto isso acontece, continuam a morrer muitos “Romeus” e muitas “Julietas”: pessoas sacrificadas em nome de conflitos que nunca escolheram.

Verona conserva a memória dessa história. Shakespeare concedeu-lhe a eternidade.

A grande literatura realiza precisamente este milagre: parte do particular para alcançar o universal, transforma um episódio numa parábola da existência e faz com que, séculos depois, continuemos a reconhecer-nos nas suas personagens.

É essa a marca dos verdadeiros génios. Não são apenas criadores de histórias. São reveladores da condição humana. E fazem-no através do mais humilde e, simultaneamente, do mais poderoso dos instrumentos: a palavra certa, colocada exatamente no lugar onde nenhuma outra poderia estar.

Francisco Vaz

30 de junho de 2026


domingo, 28 de junho de 2026

As Duas Humanidades

A ficção das duas humanidades e a verdade da única condição humana

Uma das maiores ilusões políticas, religiosas e ideológicas da história consiste em acreditar que existem duas humanidades: a dos bons e a dos maus.

Curiosamente, quem traça essa fronteira nunca se coloca do lado errado. O bem coincide sempre consigo próprio; o mal coincide invariavelmente com o outro. É uma tentação tão antiga como o Homem e tão persistente quanto as guerras, as revoluções e os fanatismos.

Cada época muda apenas os nomes. Uns falam de crentes e infiéis; outros de revolucionários e reacionários; de patriotas e traidores; de progressistas e conservadores; de oprimidos e opressores. A linguagem altera-se, mas a estrutura permanece: primeiro divide-se a humanidade em duas espécies; depois deixa de se reconhecer plenamente a humanidade daqueles que ficaram do outro lado.

É precisamente aqui que a ironia de Cervantes permanece atual. Em Don Quixote, de Miguel de Cervantes, não existem duas humanidades. Existem dois modos de olhar o mundo que habitam a mesma condição humana. Dom Quixote e Sancho Pança não são o bem e o mal. São duas dimensões inseparáveis do Homem: idealismo e realismo, sonho e prudência, entusiasmo e sensatez. Um aprende com o outro porque nenhum possui toda a verdade.

O maniqueísmo, pelo contrário, impede qualquer aprendizagem. Se o outro pertence à "outra humanidade", deixa de ser interlocutor para se tornar obstáculo. Já não é alguém a compreender, mas alguém a corrigir, converter, derrotar ou eliminar.

Talvez por isso as maiores tragédias da história tenham começado sempre pela mesma operação intelectual: deixar de falar em pessoas para falar em categorias. A partir desse momento, a consciência adormece. O indivíduo desaparece atrás do rótulo e a dignidade cede lugar à abstração. Foi assim que tantos totalitarismos e fanatismos conseguiram justificar o injustificável: antes de eliminar pessoas, eliminaram a sua humanidade.

A realidade é bem menos confortável do que as narrativas maniqueístas. Em cada ser humano coexistem generosidade e egoísmo, coragem e medo, lucidez e ilusão. Não somos Dom Quixote ou Sancho Pança; somos ambos. A condição humana não é uma mistura de contrários, mas uma simbiose de dimensões inseparáveis, cuja unidade torna possível o discernimento, a ação e o aperfeiçoamento moral.

É precisamente por isso que se torna insustentável a pretensão de dividir a humanidade entre "os bons" e "os maus". O maniqueísmo simplifica aquilo que a realidade humana revela ser irredutivelmente complexo. Cada pessoa traz em si a possibilidade do melhor e do pior; é a liberdade, exercida na responsabilidade, que determina o rumo da sua existência. A ética não é um privilégio de uma suposta humanidade dos justos, mas uma tarefa permanente de todos os seres humanos.

Talvez seja essa a mais subtil ironia de Cervantes. Dom Quixote e Sancho Pança não representam duas humanidades, nem dois mundos inconciliáveis. Representam a unidade profunda da condição humana. Quem insiste em dividir o mundo entre puros e impuros, justos e injustos, acaba por esquecer que aquilo que verdadeiramente nos une não é a perfeição, mas a comum fragilidade e a comum capacidade de nos elevarmos acima dela.

Existe apenas uma humanidade: imperfeita, livre e sempre chamada a escolher entre o bem e o mal. É precisamente essa possibilidade de escolha que fundamenta a dignidade de cada pessoa e torna impossível reduzir qualquer ser humano à caricatura de "bom" ou de "mau". A verdadeira fronteira ética nunca passa entre "nós" e "eles"; atravessa silenciosamente o coração de cada homem e de cada mulher. É nessa interioridade que se decide, a cada instante, qual das possibilidades humanas será atualizada. Não existem, pois, duas humanidades. Existe uma única humanidade, chamada incessantemente a transformar a sua fragilidade em virtude e a reconhecer no outro, mesmo quando pensa de modo diferente, um semelhante em dignidade e em destino.

Francisco Vaz

28 de junho de 2026