Pecado original

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sexta-feira, 10 de abril de 2026

Ormuz

O estreito onde a estratégia se torna destino

Há lugares no mundo onde a geografia deixa de ser apenas mapa e se torna destino. O Estreito de Ormuz é um desses pontos: estreito no espaço, vasto nas consequências. Ali, a história recente parece condensar-se numa equação inquietante — energia, poder e risco — em que cada decisão tática pode desencadear efeitos estratégicos de longo alcance.

O texto de Michael Baucum¹ expõe com clareza essa tensão: a proximidade de forças navais dos Estados Unidos face a um Irão disposto a transformar a sua vulnerabilidade geográfica numa vantagem assimétrica. O estreito, por onde passa uma parte vital do petróleo mundial, deixa de ser apenas um corredor marítimo para se tornar um instrumento de pressão global. Quando o fluxo abranda, não é apenas o Golfo que se inquieta — é o mundo inteiro que sente o abalo.

Mas o que verdadeiramente atravessa esta análise não é apenas o risco militar; é o dilema político e moral que ele encerra. A tentação de uma ação decisiva — como o controlo da Ilha de Kharg — surge como promessa de eficácia: cortar a fonte económica do adversário e forçá-lo à negociação. Contudo, essa mesma ação pode abrir a porta a uma escalada que já não se controla. A história contemporânea está repleta destes momentos em que a clareza operacional se dissolve na ambiguidade estratégica.

Há aqui um paradoxo central: quanto mais sofisticados são os meios militares, mais incertas se tornam as consequências do seu uso. Um míssil, um drone, uma mina — instrumentos relativamente simples — podem alterar o curso de uma operação e, com ela, a perceção pública, a legitimidade política e a própria duração do conflito. A guerra deixa de ser apenas um confronto de forças para se tornar um confronto de narrativas e resistências.

Neste cenário, o tempo político e o tempo estratégico raramente coincidem. A pressão interna — económica, eleitoral, social — empurra para soluções rápidas. Mas o teatro de operações responde com lentidão, fricção e imprevisibilidade. A decisão de avançar ou recuar não é apenas militar; é uma escolha sobre o tipo de guerra que se está disposto a travar e, mais profundamente, sobre o tipo de paz que se pretende alcançar.

Outro elemento inquietante reside na divergência de objetivos entre aliados. Quando diferentes atores veem na mesma crise oportunidades distintas — uns procurando contenção, outros transformação radical — a unidade estratégica fragiliza-se. E, nesse espaço de desalinhamento, o risco de escalada aumenta.

O Estreito de Ormuz revela, assim, uma verdade mais ampla sobre o mundo contemporâneo: a interdependência global transformou certos pontos geográficos em nervos vitais do sistema internacional. Interrompê-los é atingir não apenas um adversário, mas a própria ordem económica mundial. E é por isso que qualquer decisão ali tomada ressoa muito para além das águas estreitas que o definem.

No fim, permanece a questão essencial: o que significa “vencer” num contexto destes? Garantir a passagem de navios? Neutralizar uma ameaça? Forçar um regime? Ou evitar uma guerra mais ampla? Cada resposta implica custos diferentes — humanos, políticos, morais.

Talvez a maior lição deste momento seja a de que o poder, por mais vasto que seja, não elimina a tragédia da escolha. No estreito de Ormuz, como tantas vezes na história, não há opções limpas — apenas caminhos cujas consequências se prolongam muito para além da decisão inicial.

E enquanto os navios avançam e os relógios políticos contam os dias, o mundo observa, consciente de que, naquele espaço estreito de mar, se joga algo muito maior do que uma operação militar: joga-se o equilíbrio frágil entre contenção e conflito, entre prudência e precipitação — em suma, entre a razão estratégica e o impulso da força.


Nota

1. Michael Baucum, “The Perilous Options in the Strait of Hormuz”, Proceedings, Vol. 152/4/1,478, abril de 2026.

Francisco Vaz

10 de Abril de 2026

Europa

Entre declínio e reinvenção

A articulação entre a análise de Carmen Claudín sobre a guerra na Ucrânia e a leitura estrutural de Emilio Lamo de Espinosa sobre o “pós-Ocidente” permite compreender que o conflito atual não é um acidente da história, mas um sintoma de uma transformação mais profunda do sistema internacional.

Estamos, como sugere Lamo de Espinosa, num momento de inflexão histórica: não o fim de uma civilização, mas o fim de uma centralidade — a da Europa e, mais amplamente, do Ocidente. Durante séculos, o mundo organizou-se a partir da expansão europeia; hoje, essa ordem dissolve-se num sistema mais amplo, mais complexo e mais incerto. A emergência de novas potências, a aceleração da globalização e a deslocação do eixo económico para a Ásia criam um mundo que já não é “nosso” no sentido histórico do termo.

É neste contexto que a guerra na Ucrânia deve ser entendida.

A guerra como reação ao declínio relativo

A leitura de Claudín revela que a ação russa não é apenas estratégica, mas também identitária. A Rússia reage à perda de estatuto e de controlo sobre o espaço pós-soviético através de uma narrativa que procura restaurar uma centralidade perdida. Os mitos sobre a unidade histórica com a Ucrânia, a missão civilizadora russa ou a necessidade de uma esfera de influência são, nesse sentido, respostas políticas a uma transformação estrutural mais vasta.

Aqui cruzam-se os dois planos: o estrutural e o ideológico.

Lamo de Espinosa mostra-nos um mundo em convergência — demográfica, tecnológica e económica — onde antigas periferias ganham peso e o Ocidente perde a sua hegemonia. Claudín mostra-nos como essa perda pode gerar reações de fechamento, revisionismo e agressão. A Rússia surge, assim, como um ator que, incapaz de competir plenamente no novo sistema global, procura compensar essa limitação através do poder militar e da reconfiguração do seu “estrangeiro próximo”.

Globalização e fragmentação

Há um paradoxo central que ambos os autores ajudam a iluminar: quanto mais o mundo se globaliza, mais se fragmenta politicamente.

A globalização económica foi, em larga medida, um jogo de soma positiva, permitindo crescimento e redução da pobreza em muitas regiões. Mas, como sublinha Lamo de Espinosa, a política continua a operar como um jogo de soma zero: o poder que uns ganham, outros perdem. É nesta tensão que emergem os conflitos contemporâneos.

A guerra na Ucrânia é um exemplo claro desta transição. Não é apenas uma disputa territorial, mas uma luta pela definição das regras do sistema internacional: soberania versus esferas de influência, direito internacional versus poder de facto.

Ao mesmo tempo, a própria globalização gera clivagens internas — entre os “globalizados” e os “territorializados” — que alimentam populismos, nacionalismos e desconfiança nas instituições. Este fenómeno, descrito por Lamo de Espinosa, encontra eco na análise de Claudín sobre a instrumentalização de narrativas identitárias por parte do Kremlin.

Europa entre dois mundos

Neste cenário, a União Europeia ocupa uma posição particularmente ambígua. É, como ambos reconhecem implicitamente, um sucesso histórico sem precedentes em termos de paz, prosperidade e integração. Mas é também um ator incompleto, com limitada capacidade de projeção estratégica.

A guerra na Ucrânia expôs essa fragilidade. A Europa hesitou, reagiu de forma gradual e, em muitos casos, dependente dos Estados Unidos. Isto confirma a tese de Lamo de Espinosa: a Europa perdeu, em grande medida, a capacidade de determinar autonomamente o seu destino geopolítico.

Ao mesmo tempo, enfrenta um desafio interno: a tensão entre abertura e retração, entre projeção externa e introspeção identitária. A tendência para revisitar o passado, para reforçar identidades defensivas, pode ser lida como uma resposta ao sentimento de perda de centralidade.

Um mundo de fluxos e incerteza

Outro ponto de convergência entre as duas análises é a necessidade de repensar o mundo para além das categorias tradicionais. Lamo de Espinosa insiste na importância de olhar para os fluxos — de pessoas, capital, informação — mais do que para os Estados. Claudín mostra como, apesar disso, os Estados continuam a ser atores centrais na gestão da violência e do poder.

Vivemos, assim, numa tensão entre uma realidade globalizada e uma política ainda enraizada na soberania estatal. Esta desadequação gera um défice de governação global, visível tanto na incapacidade de prevenir conflitos como na dificuldade em responder a crises.

A própria imprevisibilidade do sistema — marcada por “cisnes negros” e mudanças não lineares — reforça a sensação de um mundo “comatoso”, como refere Lamo de Espinosa: não parado, mas desorientado.

Entre declínio e reinvenção

A questão que emerge desta dupla reflexão é, em última análise, existencial: como pode o Ocidente — e em particular a Europa — posicionar-se num mundo que já não domina?

A resposta não parece residir no regresso ao passado nem na afirmação de identidades fechadas. Como mostra o caso russo, essa via tende a gerar conflito e isolamento. Também não basta confiar na inércia das instituições existentes.

O desafio é outro: aceitar a perda de centralidade como condição para uma nova forma de presença no mundo. Isso implica reforçar a unidade europeia, investir em autonomia estratégica e, sobretudo, compreender que o futuro se joga numa escala global.

A guerra na Ucrânia é, nesse sentido, mais do que um conflito regional. É um espelho das tensões de um mundo em transição — entre um passado que resiste e um futuro que ainda não tem forma definida.

E talvez a lição mais exigente seja esta: num mundo pós-ocidental, a relevância não é herdada — é construída.

Francisco Vaz

10 de Abril de 2026

Nota
Conferência “Europa: entre declínio e reinvenção”, com Carmen Claudín e Emilio Lamo de Espinosa, promovida pela Fundación Juan March, dedicada à análise da guerra na Ucrânia e ao conceito de “pós-Ocidente”, enquanto chave interpretativa das transformações estruturais do sistema internacional contemporâneo.

Guerra e paz

O poder de resistir e a ilusão de dominar

Um dos traços mais marcantes das guerras contemporâneas reside no desfasamento crescente entre o êxito tático no terreno e a verdadeira eficácia estratégica. No confronto direto entre os Estados Unidos e o Irão, essa fratura revela-se com particular nitidez no Golfo Pérsico, sobretudo na disputa pelo controlo do Estreito de Ormuz.

À primeira vista, a ocupação de ilhas como Abu Musa, Larak ou Kharg parece corresponder a uma lógica clássica de poder: dominar pontos-chave para condicionar fluxos económicos e militares. No entanto, essa leitura pertence mais ao século XX do que ao XXI. Mesmo que essas operações fossem bem-sucedidas do ponto de vista militar, dificilmente produziriam o efeito político desejado: forçar o Irão a recuar ou a negociar em termos favoráveis.

A razão é profunda e estrutural. O poder iraniano não reside apenas em posições fixas — ilhas, bases ou infraestruturas — mas numa capacidade difusa, móvel e resiliente. Mísseis, drones e plataformas improvisadas ao longo de uma vasta linha costeira tornam impossível neutralizar a ameaça através de golpes cirúrgicos. A geografia, aliada à assimetria tecnológica, transforma o espaço num campo de incerteza permanente. O controlo do Estreito de Ormuz não depende de quem ocupa uma ilha, mas de quem consegue manter a capacidade de perturbar — mesmo que de forma intermitente — o fluxo global.

Neste contexto, a proposta de operações terrestres limitadas revela uma tentação recorrente das grandes potências: a de traduzir problemas estratégicos complexos em soluções militares tangíveis. Mas a guerra contemporânea, sobretudo contra atores como o Irão, não se resolve pela ocupação de território, mas pela gestão de equilíbrios instáveis. O risco, como sublinha o texto, é que tais operações não encurtem o conflito, mas o prolonguem — e, mais ainda, o ampliem.

Há também uma dimensão geopolítica mais vasta que não pode ser ignorada. O envolvimento crescente de meios militares norte-americanos no Golfo implica uma redistribuição de recursos que pode fragilizar outras áreas críticas, nomeadamente o Indo-Pacífico. Assim, uma guerra que não produz ganhos claros num teatro regional pode ter custos sistémicos à escala global.

Mas talvez o ponto mais inquietante seja outro: a ilusão de controlo. A captura da ilha de Kharg, por exemplo, poderia parecer um golpe decisivo ao atingir o coração das exportações petrolíferas iranianas. No entanto, tal ação poderia desencadear efeitos contrários — escalada regional, ataques a infraestruturas civis, aumento dos preços da energia — atingindo mais duramente aqueles que a promovem do que o próprio alvo.

Estamos, portanto, perante uma guerra onde o poder não se mede apenas pela capacidade de destruir, mas pela capacidade de resistir. O Irão demonstra uma elevada tolerância ao sofrimento económico e militar, enquanto os seus adversários permanecem mais vulneráveis a choques sistémicos, como o aumento dos preços da energia ou a instabilidade dos mercados.

Neste sentido, o conflito entre os Estados Unidos e o Irão ilustra uma transformação mais ampla da guerra: a passagem de confrontos decisivos para impasses prolongados; de vitórias claras para equilíbrios precários; de estratégias de domínio para estratégias de desgaste.

A lição é, por isso, mais política do que militar. Quando a guerra deixa de ser instrumento eficaz para alcançar objetivos estratégicos, a sua continuação torna-se não apenas inútil, mas perigosa. E talvez o verdadeiro risco não esteja na dificuldade de vencer, mas na incapacidade de reconhecer que já não é possível fazê-lo nos termos tradicionais.

Francisco Vaz

10 de Abril de 2026

quinta-feira, 9 de abril de 2026

Quando o mal se torna método

O segundo livro de Adolf Hitler

Num tempo em que se proclama o fim das grandes ideologias, permanece um paradoxo inquietante: nunca se falou tanto do mal — e raramente se pensou tão pouco sobre ele. A persistente evocação de Adolf Hitler como símbolo absoluto do horror revela menos uma compreensão histórica do que uma necessidade contemporânea: a de fixar um ponto de referência negativo que organize o nosso olhar sobre o mundo.

É neste contexto que ganha relevância um texto durante muito tempo marginal: Hitler’s Second Book, manuscrito ditado em 1928 e publicado apenas décadas depois. Frequentemente ofuscado por Mein Kampf, este “segundo livro” revela, no entanto, uma formulação mais sistemática e depurada do pensamento hitleriano — sobretudo no que diz respeito à política internacional e à visão global da história.

Ao contrário da imagem de improvisação ou oportunismo que por vezes se associa ao nazismo, o texto mostra uma inquietante coerência. A política surge aí como extensão de uma lógica mais profunda: a da vida entendida como luta. Influenciado por correntes próximas da chamada Lebensphilosophie, Hitler constrói uma visão onde povos e nações não são comunidades éticas, mas organismos em competição permanente. A história deixa de ser espaço de liberdade para se tornar campo de sobrevivência.

É neste quadro que emerge o conceito de Lebensraum — o “espaço vital” — não como simples ambição territorial, mas como necessidade quase biológica. A expansão não é apresentada como escolha, mas como destino. A guerra, por sua vez, não é fim em si mesma: é instrumento. Um meio para assegurar a continuidade de um povo concebido como entidade orgânica e hierarquizada.

Tal visão implica inevitavelmente a definição de inimigos absolutos. O antissemitismo, já central em Mein Kampf, reaparece aqui reforçado, integrado numa estrutura conceptual onde a exclusão não é acidente, mas condição de possibilidade da identidade. Curiosamente, o livro introduz também uma novidade geopolítica significativa: a perceção dos Estados Unidos como futuro adversário estratégico, antecipando conflitos que ultrapassam o quadro europeu.

Apesar da sua importância, este texto permaneceu relativamente ignorado. Historiadores como Ian Kershaw ou Neil Gregor reconheceram o seu valor, mas figuras maiores do pensamento político, como Hannah Arendt, praticamente não o integraram nas suas análises. Talvez porque a sua clareza perturbe: nele, Hitler diz com nitidez aquilo que muitos prefeririam ver como ambiguidade ou improviso.

Hoje, num mundo descrito por Slavoj Žižek como “pós-ideológico”, a figura de Hitler tende a ser usada como metáfora do “mal absoluto”. Mas essa utilização levanta uma questão decisiva: ao transformar o nazismo num símbolo abstrato, não estaremos a afastá-lo da história — e, com isso, a perder a capacidade de reconhecer os seus mecanismos quando reaparecem sob novas formas?

Compreender textos como Hitler’s Second Book não significa legitimar, mas precisamente o contrário: desmontar. Obriga-nos a entrar na lógica interna de um discurso que fez da morte um princípio absoluto e da política uma arte de exclusão. Só assim se evita a tentação confortável de reduzir o mal a uma exceção inexplicável.

Porque talvez o mais perturbador não seja que Hitler tenha existido, mas que tenha pensado — e que esse pensamento, longe de ser caos, tenha obedecido a uma ordem. É essa ordem, e não apenas os seus crimes, que importa compreender.

Francisco Vaz

9 de Abril de 2026

quarta-feira, 8 de abril de 2026

Nabucco

A precisão da emoção

Falar de Giuseppe Verdi é, muitas vezes, falar de génio, de inspiração, de emoção imediata. Mas ouvir Nabucco à luz das leituras de Ramon Gener obriga a deslocar o olhar: por detrás da emoção está um método; por detrás da aparente espontaneidade, uma construção rigorosa. Há, em Verdi, uma forma de “escrita científica” — não no sentido frio do termo, mas como domínio consciente dos meios para alcançar um fim muito preciso: comover.

Nabucco, ópera estreada em 1842, não é ainda a obra de maturidade do compositor, mas já contém os seus princípios fundamentais. Verdi escreve com uma clareza que não é simplificação ingénua, mas estratégia. As melodias são diretas, quase inevitáveis; a orquestra sustenta a voz em vez de a obscurecer; a repetição fixa no ouvinte aquilo que importa. Nada é deixado ao acaso. Como sublinha Ramon Gener, o compositor trabalha como quem conhece os mecanismos internos da emoção e sabe como ativá-los.

O exemplo mais evidente é o célebre coro Va, pensiero. Tornado símbolo muito para além da ópera, ele é, antes de mais, um prodígio de construção. A sua simplicidade melódica não é pobreza, mas depuração. A progressão harmónica é previsível, mas é precisamente essa previsibilidade que permite ao ouvinte entrar sem resistência. O tempo abranda, a ação suspende-se, e o coletivo, em uníssono, ganha voz. O que parece apenas um momento lírico é, na verdade, o centro emocional e estrutural da obra.

Há aqui uma lição essencial: em Verdi, a simplicidade é uma conquista. Ao contrário de uma escrita que procura impressionar pela complexidade, ele escolhe reduzir, eliminar o supérfluo, concentrar a expressão. Essa economia de meios aproxima-se de um princípio quase científico: controlar as variáveis para garantir o efeito. O compositor sabe que a emoção não nasce do excesso, mas da precisão.

Essa precisão não é apenas técnica; é também profundamente humana e política. Em Nabucco, o coro deixa de ser ornamento e torna-se sujeito. A música cria um “nós”, uma comunidade momentânea que se reconhece na mesma emoção. Não por acaso, este coro foi rapidamente associado ao desejo de unidade italiana. Verdi não faz discurso político explícito — constrói, através da forma, as condições para que o público se reconheça e se una.

Mas seria redutor ver em Verdi apenas um estratega da emoção. O que distingue a sua música é precisamente o ponto em que o cálculo desaparece e dá lugar à sensação de inevitabilidade. Como insiste Ramon Gener, a grande arte é aquela em que a técnica se torna invisível. Em Nabucco, ainda vislumbramos o mecanismo; nas obras posteriores, ele dissolver-se-á numa fluidez total. Aqui, porém, essa transparência permite-nos compreender melhor o processo.

Talvez seja esse o verdadeiro segredo de Verdi: não escreve para demonstrar, escreve para atingir. E atinge porque conhece, com rigor, os caminhos que conduzem ao coração do ouvinte. A sua “ciência” não se mede em fórmulas, mas em efeitos. Não explica — realiza.

Num tempo em que a complexidade é muitas vezes confundida com profundidade, Nabucco recorda uma verdade exigente: a emoção mais poderosa nasce, muitas vezes, da forma mais clara e simples.

Francisco Vaz

8 de Abril de 2026



terça-feira, 7 de abril de 2026

O dia Mundial da Paz

A Evolução do Discurso da Paz: De João Paulo II a Leão XIV

A mensagem para o Dia Mundial da Paz de Leão XIV, centrada na saudação pascal — “A paz esteja convosco!” — revela uma síntese particularmente densa de tradição e atualidade, que permite situá-la numa linha de continuidade, mas também de inflexão, face aos estilos de João Paulo II, Bento XVI e Francisco.

Desde o início, a marca distintiva de Leão XIV é a performatividade da paz: não se trata apenas de um ideal proclamado, mas de uma realidade que “realiza uma mudança”. Aqui há uma tonalidade quase sacramental — a palavra de Cristo não descreve, opera. Este acento aproxima-se de Bento XVI, para quem a verdade cristã é intrinsecamente eficaz, mas Leão XIV desloca essa eficácia para o campo existencial e histórico: a paz como força que atravessa as “portas fechadas” do medo contemporâneo.

Comparando estilos, vemos primeiro que, em João Paulo II, a paz surgia frequentemente como apelo dramático à liberdade humana, num horizonte marcado pela experiência totalitária. A sua linguagem era performativa, mas heroica: convocava consciências, denunciava sistemas, mobilizava povos. Em Leão XIV, esse dramatismo cede lugar a uma revolução silenciosa. A paz não é tanto conquista quanto presença: menos épica, mais ontológica. Não se ergue contra um inimigo histórico concreto, mas contra uma condição difusa — o medo, a desconfiança, a fragmentação.

Já em Bento XVI encontramos uma proximidade maior. Tal como Bento, Leão insiste que a crise da paz é, antes de mais, uma crise da verdade e da razão. A denúncia da “irracionalidade” da dissuasão nuclear e da lógica do medo ecoa diretamente a crítica bentiana à razão instrumental. No entanto, Leão XIV introduz um elemento novo: a fragilidade como categoria epistemológica e política. Onde Bento enfatizava a verdade, Leão sublinha a vulnerabilidade — não apenas como limite, mas como via de conhecimento e de transformação.

Com Francisco, a afinidade é ainda mais visível. A expressão “terceira guerra mundial em pedaços”, explicitamente retomada, situa a mensagem no mesmo diagnóstico histórico. Também a insistência numa paz “desarmada e desarmante” prolonga o estilo pastoral de Francisco, profundamente marcado pela misericórdia, pela proximidade e pela crítica às estruturas de exclusão. Contudo, Leão XIV dá um passo adicional ao articular essa visão com uma reflexão mais sistemática sobre tecnologia e responsabilidade. A referência à inteligência artificial e à delegação de decisões letais às máquinas introduz uma dimensão inédita no magistério da paz: a da mediação tecnológica.

Do ponto de vista ontológico, a mensagem de Leão XIV propõe uma conceção da paz como modo de ser antes de ser projeto político. “Antes de ser um objetivo, a paz é uma presença e um caminho.” Esta formulação é profundamente filosófica: a paz não pertence apenas à ordem do agir, mas à do ser. Neste sentido, aproxima-se de uma metafísica relacional — a paz como forma de existência que se comunica e se expande.

Eticamente, emerge uma inversão decisiva: a paz não nasce do equilíbrio de forças, mas do desarmamento interior. Aqui ressoa a tradição agostiniana e joanina (Pacem in terris), mas com uma linguagem adaptada ao presente. A verdadeira alternativa ao medo não é o poder, mas a confiança.

Politicamente, a mensagem é simultaneamente crítica e propositiva. Critica a lógica dominante — aumento de despesas militares, pedagogia do medo, instrumentalização da tecnologia — e propõe uma alternativa baseada no diálogo, na confiança e na responsabilidade partilhada. Mas, ao contrário de João Paulo II, que confrontava sistemas ideológicos, ou de Francisco, que privilegia imagens e gestos, Leão XIV articula essa crítica num registo mais reflexivo e estrutural, quase ensaístico.

Em síntese, poder-se-ia dizer que:

  • João Paulo II foi o profeta da liberdade;

  • Bento XVI, o guardião da verdade;

  • Francisco, o pastor da misericórdia;

  • e Leão XIV apresenta-se como o intérprete da paz como presença desarmante, numa era marcada pela fragmentação, pela tecnologia e pela incerteza global.

A sua mensagem não convoca apenas a agir pela paz; convida, antes, a habitar a paz — como luz discreta, mas resistente, no meio das trevas do nosso tempo.

Francisco Vaz

7 de Abril de 2026

segunda-feira, 6 de abril de 2026

Espelho Meu, Espelho Teu

 ou o Narciso de Mar-a-Lago

Entre a filosofia e a sátira abre-se, por vezes, um espaço fértil onde o pensamento crítico ganha uma nitidez inesperada. A presente reflexão é inspirada na intuição de Louis Lavelle sobre a desordem do amor-próprio, tal como exposta em O Erro de Narciso, para a projetar, com ironia, numa figura contemporânea marcada pela hipertrofia do eu e pela centralidade da imagem: Donald Trump.

O problema do amor-próprio desregrado não é apenas psicológico ou moral; ele é, antes de tudo, ontológico. Trata-se de uma perturbação do ser enquanto ato. Para Lavelle, o eu não é uma coisa, mas um fazer-se contínuo, uma atualização permanente no presente. Quando o sujeito se fixa numa imagem de si — seja ela interior ou projetada — interrompe esse dinamismo e substitui o ser pelo simulacro. Narciso, ao contemplar o seu reflexo, não encontra o seu ser, mas uma sombra; Trump, ao habitar o espaço mediático, não busca o real, mas a amplificação de uma figura. Em ambos, o erro é o mesmo: confundir o aparecer com o ser.

Ontologicamente, o drama reside nesta duplicação ilusória. O eu, que deveria ser ato, torna-se objeto de contemplação. Em vez de agir, o sujeito passa a representar-se. Narciso abandona o seu centro para se procurar fora de si; Trump, numa versão ampliada e tecnologicamente mediada, constrói um mundo onde a realidade é continuamente filtrada pela necessidade de autoafirmação. O resultado é uma existência deslocada: não se vive o real, mas a sua encenação.

Mas esta desordem ontológica tem consequências éticas profundas. Para Lavelle, o amor-próprio desregrado entorpece a consciência — é uma narcose. O indivíduo deixa de se conhecer e, simultaneamente, deixa de reconhecer o outro. A figura de Eco, a jovem ninfa que se apaixonou por Narciso, esquecida e desprezada por ele, simboliza essa perda da consciência: a incapacidade de escutar, de responder, de sair de si. Ora, na esfera contemporânea, esta surdez ética manifesta-se como indiferença ao outro, substituído por um público cuja função é apenas refletir e confirmar a imagem do eu.

A ação, que deveria fundar-se na verdade, degenera então em vaidade e espetáculo. O agir deixa de ser orientado pelo valor intrínseco do ato e passa a ser medido pelo reconhecimento que produz. Não se faz para ser, mas para parecer. Assim, o que em Lavelle é um problema de autenticidade interior torna-se, na figura satirizada, uma prática sistemática: a transformação da aparência em critério de verdade.

É neste ponto que a reflexão se abre ao plano político. Quando a desordem do amor-próprio deixa de ser apenas individual e se torna princípio de ação pública, o risco já não é apenas existencial — é coletivo. O governante, ser ético e político, que vive da imagem tende a governar não a partir do real, mas da sua representação. A verdade cede lugar à eficácia simbólica; o bem comum é substituído por uma narrativa que sustente o eu projetado.

Neste sentido, a sátira revela uma dimensão crítica: o narcisismo não é apenas um vício pessoal, mas uma forma de poder. Um poder que se alimenta da atenção, da polarização e da constante reprodução da imagem. Se Narciso morre junto ao lago, vítima da sua ilusão, o Narciso contemporâneo não morre — adapta-se, reinventa-se, multiplica-se em ecrãs e discursos. Mas o perigo é mais subtil: não é ele que desaparece, é a própria realidade que se torna opaca.

A alternativa, segundo Lavelle, não está na negação do eu, mas na sua retificação. O remédio para o amor-próprio não é o desprezo de si, mas o desprendimento — a capacidade de sair de si em direção ao outro e ao real. Só uma consciência que se liberta da necessidade de se contemplar pode verdadeiramente agir. Só quem abandona a obsessão pela imagem pode recuperar o ser.

Assim, entre o mito e a política, entre o lago e o ecrã, permanece a mesma lição: o homem que se fixa na própria imagem perde-se — não porque se ama demasiado, mas porque ama apenas uma ilusão de si. E onde a ilusão governa, o ser dissolve-se, a ética enfraquece e a política torna-se, inevitavelmente, um teatro de sombras.

Francisco Vaz

6 de Abril de 2026