A vida é uma forma especial
de o ser se dar, formando isto que é a nossa dimensão ontológica
própria. É próprio do espírito humano perceber a realidade em que
se insere e de que é testemunha privilegiada. Desde que se pode
perceber a presença deste testemunho, encontram-se dados humanamente
matriciados que revelam que há uma preocupação especial com a
diferença marcada pela vida. Assim, quer nos desenhos antiquíssimos
em que a vida surge representada como algo de manifestamente
importante pela positiva quer nos monumentos em que a morte se
encontra associada a uma qualquer forma de celebração do que fora a
vida e do que parece ser a esperança numa outra qualquer forma de
continuidade reformada da mesma vida, é óbvia a relevância que a
diferença específica própria da vida assume.
Não se sabe e nunca será
possível saber quais as posições metafísicas que tais seres
humanos assumiram perante esta especificidade, mas que tinham um
grande apreço positivo pela vida, tal é inegável. É facilmente
intuitivo passar da nossa experiência de vida própria para uma
eventual representação especulativa do que poderia ter sido a
atitude espiritual de tais seres humanos perante isto de estarem
vivos. O contraste com o material inerte era, como é hoje, evidente:
não somos do mesmo estofo total de uma pedra. Com ela partilhamos
algumas características, como o estar aí, numa certa presença
material irredutível, mas a pedra manifestamente não se
auto-locomove, não fala, parece não sentir, não come, não
procria.
Se estudarmos a literatura
mais antiga, a partir deste ponto de vista, facilmente será possível
perceber que a vida adquire nela uma importância esmagadora; aliás,
não hesitamos em afirmar que, sem o tema da vida como seu sustento
maior, não haveria coisa alguma de importante nesta literatura. Da
vida, nas suas formas aparentemente mais frustres e ancilares, à
vida dos seres considerados menores, mas já mais próximos do campo
semântico do interesse humano, passando pela vida dos próprios
seres humanos, à vida dos deuses, que é encarada como a fonte
suprema de toda a vida, de onde esta emana e se espraia, constituindo
o que há de verdadeiramente importante no mundo, todo o interesse
fundamental se centra em torno da tentativa de compreensão do que a
vida é em si mesma, sobretudo na diferença máxima com o seu
verdadeiro contraditório, o nada.
O próprio ser como um todo
acaba por surgir como algo de vital e mesmo de vivo em si próprio. O
mundo é um imenso vivente. Esta noção de força vital universal e
integrada percorre não apenas as chamadas mentalidades míticas, mas
ocorre também já dentro do campo histórico e historiográfico
propriamente filosófico. O ser, no seu mais profundo de sua
realidade matriz é um «bios
kosmikos», uma
vida cósmica.
O cerne do cosmos é entendido
como vida. Esta é vista como anterior ao próprio cosmos em que o
ser humano vive, pois apenas uma vida imensamente ou infinitamente
poderosa disporia da força ontológica necessária para criar ou
produzir tal cosmos. O sentido vital do cosmos é ontologicamente
fundamental para o ser humano que vivia e vive segundo este tipo de
consciência cosmológica vitalista (note-se que quem assim pensa
ainda constitui a grande maioria da humanidade, ao contrário do que
uma certa propaganda cientificista pode levar a crer).
Por exemplo, o primitivo
«khaos»
helénico pode ser interpretado como uma primeiríssima fonte
absoluta de vida, totalmente informal, mas, assim, totalmente
diferenciável, em
formas infinitas de
possível vida. A
sua emergência diferenciada acaba por ser o todo do mundo que vemos
e habitamos e que mais não é do que um contínuo brotar formal de
vida. A própria morte mais não é do que uma forma, ainda cósmica
em si mesma, de reordenar as formas de vida que se vão, com o
próprio movimento vital, desgastando.1
A vida parece, assim, assumir,
desde o início, e desde que existem registos monumentais, um
carácter concomitantemente mundano e extra-mundano, formal e
informal, físico e metafísico. Sem dúvida que a vida é entendida
como a realidade suprema possível, assumida simbolicamente como tal
nos mesmos «deuses», formas infinitamente concentradas de vida,
modelos paradigmáticos de vitalidade e de vida real. É assim que
surgem não apenas os conhecidos deuses do panteão helénico, mas
também os deuses das civilizações extremo-orientais, ameríndias,
polinésias, por exemplo, mas também as imagens teológicas do
divino nas chamadas religiões monoteístas; Deus é vida; a vida
suprema, em si mesma, é Deus.
Tal é a importância que a
vida assume.
Este breve percurso pela
importância inicial da noção de vida ajuda-nos a entender melhor
os problemas de sentido que uma redução da vida a uma mera
realidade material acarreta, eliminado quase tudo o que é
humanamente relevante na mesma noção de vida. Uma possível redução
puramente materialista da noção de vida e de tudo o que se encontra
a jusante desta noção irá imediatamente eliminar dimensões
humanas de uma noção que se confunde, em sua mais lata compreensão,
com a mesma realidade humana como um todo: o ser humano é, no
limite, a sua vida, plenamente entendida, pelo que qualquer redução
da grandeza da noção de vida é imediatamente uma redução da
mesma vida humana que manifesta.
Muitos dos supostos problemas
tratados pelas bioéticas relevam necessariamente de reduções
indevidas da noção de vida, com consequências também imediatas
sobre a noção de vida humana e de humanidade e pessoa humana,
precisamente como concretizações dessa mesma noção.2
O facto de se empregar o termo
«noção» em vez do termo «conceito» deriva, assim, da
necessidade de se procurar mostrar que a vida e a vida humana são
realidades virtualmente infinitas em potencialidade ontológica
própria, sendo, deste modo, impossíveis de ser conhecidas ao ponto
de se poder delas cunhar algo como um conceito. No entanto, como
pretendemos mostrar brevemente, é impossível que a humanidade tenha
sequer podido ser propriamente humanidade sem que tivesse de «vida»
e de vida própria sua, «vida humana», apreendido uma qualquer
forma nocional, sempre imprecisa, sempre em redefinição, mas que
guarda, já, algo de fundamental, de uma realidade imensa, impossível
de dominar logicamente, mas passível de ser acedida através de
formas muito próximas e primeiras de intuição. Talvez esta
intuição primeira se possa especulativamente pôr na seguinte
forma, manifesta para cada próprio indivíduo humano, enquanto
sujeito de conhecimento de si próprio: «eu
sou a vida que sou».
Esta é uma afirmação
absoluta do ser humano em sua forma vital. Sem esta afirmação,
qualquer seja o seu modo formal, não há ser humano algum. Toda a
vida propriamente humana arranca desta afirmação e toda a bioética
que se preze como algo de humano, tem de a ter em consideração.
A especificidade da vida
Toda a história do pensamento
humano parece, então, dizer que há uma diferença irredutível
própria da vida. Então que diferença é essa? É aqui que a
questão encontra uma barreira epistemológica: aquele que pretende
perceber o que é definitivamente próprio da vida, supostamente «o
que a define», é, também ele, um ente que participa de isso que
busca delimitar, definir. Uma situação formal sujeito-objecto,
típica da ciência, é impossível neste caso, pois o mesmo sujeito
é, também e necessariamente, objecto.
Tal significa que não é
possível uma «ciência da vida» no sentido objectivo das mesmas
«ciência» e «vida». A vida não pode simplesmente perguntar
objectivamente acerca de si mesma. Tal implica que a biologia,
enquanto questionamento sobre algo de que o mesmo questionante
participa não é possível.
Assim, a
biologia como ciência não é possível.
Mas, então, não há, há já
muito tempo, constituída como tal, uma ciência chamada «Biologia»?
Sem dúvida que há, desde
Aristóteles, uma actividade que se dedica a perceber o que é a
vida, mas o que aquela nunca conseguirá será distanciar-se
objectivamente da mesma vida, que também é, para poder sobre ela
trabalhar objectivamente.
Assim sendo, o que a biologia
faz é estudar parcialmente manifestações de isso que se revela
como «biológico»; mais nada. Quando se pergunta: «mas, então, o
que é a vida?», nenhuma resposta cabal emerge, nenhuma pode
emergir. As respostas são todas laterais ao que deveriam dizer.
A impossibilidade de se
responder substantiva ou essencialmente a esta questão levou a que
se adoptasse uma abordagem meramente funcionalista, que permite
explicar eventualmente todo o movimento físico interpretável como
biológico, mas continua a não responder à questão fundamental.
Ora, o
que é mesmo específico da vida?
Indubitavelmente, a vida surge
como uma forma de movimento, manifestamente físico, entre outras
formas de movimento físico. Não há, na nossa experiência,
qualquer forma de vida que não se manifeste como forma qualquer de
movimento. Mesmo nas versões metafísicas de vida, esta não existe
senão como forma de movimento, por vezes tão subtil que se confunde
com uma total quietude, mas que não é a quietude do nada, antes a
quietude do movimento absoluto a que nada se opõe; algo como um
movimento em que a inércia é concomitantemente nula e infinita
(assim, o «motor imóvel» de Aristóteles).
Mas, neste nosso mundo, vida
implica movimento. Todavia, tem de implicar algo mais ou todo o
movimento seria vida e tal não sucede. A vida, então, supõe o
movimento, mas é algo mais do que isso; pelo menos, é uma forma
diferente de movimento.
Que diferença é esta?
A vida é a forma de movimento
que coincide com o seu próprio princípio de movimento: todas as
outras formas derivam o seu movimento de algo que lho confere
exteriormente. A sua matriz de movimentação é análoga ao choque,
do famoso exemplo das bolas de uma mesa de bilhar às três tabelas.
Nenhuma destas bolas tem em si o movimento como princípio de
mudança. O movimento vem-lhes de fora e delas não depende, não
lhes é consubstancial – parece ser o termo mais apropriado. Mesmo
que pensássemos uma mesa sem qualquer forma de perda de energia e um
movimento futuramente infinito das bolas, o movimento inicial que
estas têm depende sempre da comunicação de algo exterior. Se esta
comunicação não ocorrer, nada há nas bolas que as faça
movimentar-se. Este movimento é, assim, heterónomo. Inexistente sem
a influência externa. A sua persistência é meramente inercial; a
sua manutenção apenas função inercial do choque transmissor. Não
faz parte do ser das bolas.
A fonte de movimento na vida,
em isso que é vivo, faz parte do ser de isso que está vivo. Sem
esta coincidência ontológica, não há vida ou movimento como vida,
apenas mais um movimento, como o mencionado das bolas de bilhar. O
movimento vital é, assim, autónomo. Sem esta autonomia, não há
vida.
Este movimento de que aqui
falamos é o movimento segundo a diferença, de que a translação
espacial faz parte e de que é apenas um exemplo.
Percebe-se o que se quer
dizer, através do seguinte exemplo. Deste ponto de vista, a
diferença entre um corpo (que só é corpo porque está vivo) e um
cadáver reside no facto de o cadáver já não possuir princípio
algum motor, próprio seu, capaz de o fazer diferenciar-se (se cair
da mesa de autópsia, tal deve-se apenas a forças exteriores que o
mobilizam, não a qualquer princípio motor interior).3
Assim, e sabendo que não é
possível definir o que seja a vida, podemos perceber que tudo o que
lhe diz respeito concerne a um princípio interior de movimento, de
diferenciação, independente de tudo o mais, enquanto princípio,
mesmo que dependente em termos operacionais. A vida começa, deste
modo, por ser uma real possibilidade, podendo, depois, ser uma
realidade de diferenciação principialmente autónoma.
É esta principialidade
autónoma que justifica a presença da vida num universo em que a
entropia pareceria impedir a sua existência, cuja realidade se
mantém à custa de enorme dispêndio de energia, dispêndio que,
mais tarde ou mais cedo, anula a vida como tal.
Mas, enquanto dura, a vida é
a prova de que é possível haver ordem anti-entrópica auto-mantida
no universo. Mais: o segredo de sobrevivência da vida reside na
outorga de um sistema de prolongamento que não depende do mero
indivíduo, mas confia na pluri-individualidade e na transmissão
interior da mesma possibilidade de sobrevivência vital, através dos
diferentes modos de reprodução.
Assim, ainda que de modo
finito e talvez breve, a vida como tal consegue contornar a entropia,
passando a outros seres, através de tal passagem, também vivos, a
possibilidade de terem em si a mesma capacidade de diferenciação
autónoma.
Deste modo, o que é
verdadeiramente próprio da vida é esta possibilidade e capacidade
de transmitir a potência vital, como princípio interior de
movimento próprio, irredutível a qualquer outra coisa: a sua
redução, por exemplo, a algo de material, significa a sua
destruição como tal. Esta capacidade é tão importante que a mesma
continuidade vital, considerada de forma mítico-analógica, é dita
como a mesma essência e substância divinas: os deuses ou Deus são
o que são porque são esta vitalidade sem fim (quem assim for será
como os deuses: a vida eterna, pedra filosofal...).
Sempre que se procura explicar
o próprio da vida através de analogias com o que não é vida,
elimina-se o próprio da vida. Assim, dizer que a vida é ordem, nada
diz de substancialmente diferente relativamente ao restante do
universo, que também é ordem. Se se quiser começar a adjectivar,
cai-se, querendo precisamente o contrário, em formas míticas ou
metafísicas. Nada de novo acrescenta dizer-se que é uma «ordem
especial» ou algo no género. A vida também é ordem, claro que é
«especial», mas não é só ordem e sua «especialidade» é
precisamente o que se quer perceber.
O aprofundamento racional do
que seja a vida reconduz-nos a territórios míticos ou metafísicos,
aqueles mesmos que a ciência diz querer evitar. Assim, o que se pode
dizer de certo acerca do próprio da vida é que é isso que nos
permite, em absoluto, questionarmo-nos acerca do que é a vida.
O mais são descrições ou
narrações funcionalistas, adaptadas à cultura vigente, como o
foram as dos tempos bíblicos ou outros.
Para uma leitura crítica
aprofundada acerca da relação da biologia com a bioética,
recomendamos a leitura do nosso estudo: «Bioética? Da relação
entre a vida e a biologia», publicado on-line
em www.lusosofia.net.
Américo
Pereira
1
De notar que não é, como se diz habitualmente, o tempo que esgota
ontologicamente os seres, mas são estes que se desgastam
ontologicamente em seu movimento ontológico próprio, assim criando
o tempo. Segundo esta mentalidade, a vida surge sempre como uma
forma de empréstimo de possibilidade, que tem o seu máximo de
possibilidade no momento inicial e que vai sendo diminuída à
medida que se vai diferenciando e aparentemente crescendo. Fundam-se
aqui os chamados mitos da idade de ouro inicial da humanidade.
2
Não é mera coincidência que o primeiro grande programa de
eutanásia tenha sido pensado e implementado logo nos primeiros
tempos do regime nazi. Foi, aliás, o percursor técnico e logístico
do programa mais geral de eliminação de «indesejados», que
incluía, para além de pessoas judaicas e outras racicamente
incorrectas, segundo os executores, pessoas homossexuais, pessoas
com problemas mentais e com toda uma variedade de doenças que as
tornavam inúteis ou prejudiciais ao regime nazi. O «holocausto»
mais não é do que um super-programa de eutanásia de todos aqueles
cujas vidas incomodavam de alguma forma o regime nazi. Tratou-se da
implementação de um princípio onto-cosmológico de morte, por
oposição (com origens metafísicas) a um princípio
onto-cosmológico de vida. Tratou-se de uma nova e radical forma de
cultura que inverteu completamente o sentido último universal,
transformando o motor do cosmos de uma força infinita de vida para
uma força infinita de morte. Como é evidente, o resultado não
pode ser senão o da morte total do cosmos. Os próprios proponentes
desta mutação cosmológica puderam experimentar as consequências
lógicas do seu pensamento. O símbolo gráfico desta nova
formulação principial cosmológica podia ser visto na forma da
caveira que, por exemplo, os famigerados SS usavam no boné da sua
farda para-militar. Sobre este assunto,
consultar: LIFTON Robert Jay, The Nazi
Doctors. Medical Killing and the Psychology of Genocide,
s. l., Basic Books, 1986, XIV + 561 pp., bem como o nosso estudo:
«Eutanásia: a solução final», em
http://www.caritas.pt/cr/index.php?option=com_content&view=article&id=536:eutanasia-solucao-final&catid=60:etica&Itemid=64.
3
Amarra aqui o sentido subjacente à expressão popular «enquanto há
vida, há esperança», pois percebe-se que apenas a presença do
tal princípio interior de movimento pode permitir a diferenciação,
que é o sustentáculo da «esperança». Desaparecido aquele
princípio, deixa de haver «esperança», isto é, qualquer
possibilidade de movimento autónomo, qualquer diferenciação,
qualquer forma de vida. Isto aplica-se não apenas ao ser humano,
mas a todos os seres que compartilham com ele isso de serem vivos.
Tal ajuda, por exemplo, a dirimir as velhas questões acerca de os
vírus serem ou não vivos, dado que têm em si o princípio de
movimento próprio, seja ele dependente ou não de estímulos
externos, o que é irrelevante, pois havendo estímulos e não
havendo o princípio motor, não haveria sequer questão. Mas tal
ajuda também a compreender que é possível haver vida desde que
haja uma qualquer forma destes princípios, por exemplo, sintética
(ver nosso estudo «Da essência do humano. Artificial
intelligence», publicado on-line em www.lusosofia.net).
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