Pecado original

Pecado original

sexta-feira, 1 de maio de 2026

Carta aberta à minha mulher

Da incompletude à pertença

Lembro-me, às vezes, daquela antiga história de Platão, no Banquete, onde os seres eram inteiros e foram divididos. Desde então, cada metade procura a outra, não por capricho, mas por uma espécie de memória inscrita no mais fundo do ser. Talvez não sejamos literalmente metades, mas há em nós essa nostalgia de unidade — não de fusão, mas de pertença.

Quarenta e quatro anos depois, compreendo melhor o que essa intuição quer dizer. Não se trata de encontrar alguém que nos complete de uma vez por todas, como se a vida fosse um problema com solução definitiva. Trata-se, antes, de aprender a habitar essa busca, de a reconhecer como caminho comum. Ao longo destes anos, fomos descobrindo que a unidade não é um ponto de chegada, mas um trabalho contínuo — discreto, paciente, feito de pequenos gestos que não ficam registados em lado algum.

Houve dias de luz e outros de sombra. Momentos em que tudo parecia evidente e outros em que quase nada fazia sentido. Mas, mesmo nestes momentos mais sombrios, houve algo que permaneceu — uma espécie de fio invisível que não se quebrou. Talvez seja isso o mais surpreendente: não a ausência de dificuldades, mas a persistência da relação apesar delas.

Com o tempo, deixamos de procurar no outro apenas aquilo que nos falta e começamos a reconhecer também aquilo que nos desafia. A diferença, que no início pode parecer obstáculo, torna-se lugar de crescimento. Não porque desapareça, mas porque aprendemos a escutá-la. Aquilo que em ti é silêncio ensinou-me a abrandar; aquilo que em mim é inquietude talvez te tenha lembrado que a vida é movimento.

Há uma sabedoria que só o tempo oferece: a de perceber que o amor não é feito apenas de intensidade, mas também de duração. Não vive apenas dos momentos altos, mas da capacidade de permanecer quando tudo o resto vacila. Permanecer não como hábito, mas como escolha renovada, mesmo quando não é fácil, mesmo quando não é evidente.

Ao longo destes anos, fomos mudando — inevitavelmente. Não somos hoje os mesmos que éramos no início. E, no entanto, há algo que atravessa todas essas transformações e nos mantém ligados. Não é uma identidade fixa, mas uma fidelidade que se adapta, que se reconfigura, que encontra novas formas de dizer o essencial: estamos aqui.

Talvez seja isso que significa verdadeiramente partilhar uma vida: não eliminar a distância entre dois seres, mas aprender a atravessá-la juntos. Não deixar de ser dois, mas descobrir, nesse espaço, um lugar habitável.

Se há algo que estes quarenta e quatro anos me ensinaram, é que o amor não resolve o enigma do outro — aprofunda-o. E é precisamente por isso que continua vivo. Porque há sempre mais para conhecer, mais para compreender, mais para acolher.

E, no fim, talvez tudo se resuma, não ao facto de termos caminhado sempre sem falhas, mas ao facto de termos continuado a caminhar lado a lado, apesar delas.

Termino com uma palavra de gratidão: gratidão pelo que fomos, pelo que somos e pelo que ainda podemos ser.

Francisco Vaz

1 de Maio de 2026