Pecado original

Pecado original

quinta-feira, 5 de março de 2026

A Odisseia

O Mito, a Ética e a Política

Num tempo como o nosso, marcado pela velocidade da informação e pela fragmentação das narrativas, talvez valha a pena regressar aos mitos. Não para os tomar como histórias ingénuas de um passado ultrapassado, mas para os reconhecer como aquilo que verdadeiramente são: laboratórios simbólicos onde a humanidade começou a pensar-se a si própria. O mito é uma forma inaugural de reflexão. Nele, o ser humano experimenta, de modo paradigmático, as possibilidades da sua existência, procurando um sentido para a realidade que o transcende.

Mas o mito exige honestidade intelectual. Deve ser lido a partir da sua própria lógica interna, do seu universo simbólico, e não reduzido a interpretações arbitrárias que projetam nele as nossas preferências pessoais. Só assim pode continuar a oferecer algo de vivo e fecundo à cultura contemporânea.

Tal como na Epopeia de Gilgamesh¹, também na Odisseia² encontramos uma humanidade que desperta para a consciência de si. Ulisses não é apenas um herói astuto; é a imagem de um homem em viagem. Viagem que não é só geográfica — é moral, existencial e política. Sob a proteção de Atena, símbolo da inteligência, enfrenta monstros, deuses, tentações e perdas. Experimenta o prazer e o sofrimento, a sedução da evasão e o peso da responsabilidade. Em cada episódio, revela-se a tensão fundamental da condição humana: entre a dispersão e o regresso, entre o desejo imediato e o bem duradouro.

O regresso a Ítaca, narrado no canto XX, não é apenas o culminar de uma aventura. É o momento em que o herói se confronta com a necessidade de restaurar a ordem justa. Os pretendentes que ocupam o seu palácio não representam apenas uma ameaça pessoal; simbolizam a degradação do espaço comum, a corrupção da comunidade. Ao planear a sua derrota, Ulisses age não apenas como marido ou pai, mas como garante de uma ordem política fundada no bem comum. A sua ação levanta uma questão sempre atual: pode haver comunidade sem ética? Pode haver política sem responsabilidade?

O mito sugere que não. Ulisses encarna a ideia de que o ser humano só se realiza plenamente na relação — com o outro, com a cidade, com o que ama. Penélope não é apenas a esposa fiel; é o símbolo da permanência, da fidelidade ao essencial. O regresso a ela representa o reencontro com aquilo que dá sentido ao agir.

A mesma intuição atravessa o Livro de Job³. Job é despojado de tudo o que parecia definir a sua identidade — bens, saúde, estatuto — e permanece diante da pergunta radical sobre o sentido do ser. Ao aproximar-se do nada, descobre o núcleo irredutível da sua liberdade. A sua fidelidade não é ingénua; é uma afirmação do valor do ser mesmo quando tudo o mais vacila.

Entre Ulisses e Job desenha-se uma linha invisível que conduz à reflexão filosófica e, mais tarde, ao encontro entre o pensamento grego e o cristianismo, encontro esse decisivamente impulsionado por Paulo de Tarso⁴. Desse cruzamento nasceu uma matriz cultural que ainda hoje estrutura o nosso modo de pensar a dignidade humana, a justiça e a comunidade.

Talvez o contributo mais atual destes mitos seja recordar-nos que ética e política não são esferas separadas. A política, quando desligada da ética, transforma-se em técnica de poder. A ética, quando isolada da vida comum, torna-se mero ideal abstrato. Ulisses ensina-nos que governar — seja uma cidade, uma instituição ou a própria vida — é sempre um exercício moral. E Job recorda-nos que a integridade do ser humano se mede na fidelidade ao essencial, sobretudo quando tudo parece perdido.

Num mundo que frequentemente confunde sucesso com sentido, poder com razão, rapidez com profundidade, regressar aos mitos pode ser um ato de resistência. Não para fugir ao presente, mas para o compreender melhor. Porque, no fundo, continuamos a fazer a mesma viagem: entre a tentação da dispersão e o desejo de casa, entre o nada e o ser, entre a força e a justiça.

Francisco Vaz

5 de Março de 2026


Notas

  1. Gilgamesh é a obra inaugural onde a humanidade começa a pensar-se como humanidade, tratando a ética, pela primeira vez, como fonte principal da ação do homem.

  2. A Odisseia, atribuída a Homero, terá sido composta no século VIII a.C. e integra, juntamente com a Ilíada, o núcleo da épica grega arcaica. Enquanto a Ilíada se centra na guerra de Troia, a Odisseia narra o difícil regresso de Ulisses (Odisseu) à sua pátria, Ítaca, após a queda da cidade.

  3. Job intui o absoluto do ser próprio na medida em que lhe vai sendo retirado tudo o que nele não é essencial. Ao aproximar-se do absoluto nada, torna-se um teste radical à bondade do ser.

  4. Paulo é figura central no encontro entre a filosofia grega e o cristianismo, contribuindo decisivamente para a formação da matriz cultural do Ocidente.

Sem comentários:

Enviar um comentário