Pecado original

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sexta-feira, 6 de março de 2026

O Papa e a Montanha

A relação de João Paulo II com a montanha não foi um simples gosto pessoal ou um passatempo juvenil: foi uma dimensão constitiva da sua espiritualidade, da sua visão da liberdade e da sua resistência às duas grandes ditaduras que marcaram tragicamente o século XX — o nazismo e o comunismo. Na montanha, Karol Wojtyła encontrava não apenas descanso físico, mas um espaço privilegiado de encontro com a verdade e com Deus.

A montanha como escola de verdade e liberdade

Nascido em Wadowice, no sul da Polónia, Wojtyła cresceu próximo dos montes Tatra. Mais tarde, já sacerdote, bispo e até papa,  continuou a fazer caminhadas, a esquiar e a celebrar missa ao ar livre. A montanha, com o seu silêncio e grandeza, oferecia-lhe aquilo que o mundo moderno tende a sufocar: o confronto com o essencial.

Na experiência da subida, há esforço, disciplina, risco e perseverança. A montanha não se conquista sem sacrifício. Esta realidade concreta tornava-se metáfora viva da vida moral e espiritual: a verdade não é cómoda, exige ascese; a liberdade não é espontaneísmo, mas conquista interior. Para Wojtyła, a natureza revelava a ordem da criação, e essa ordem remetia para o Criador. Na contemplação do horizonte, ele percebia a grandeza da dignidade humana, chamada a algo mais alto do que o conformismo ideológico.

Essa experiência moldou a sua convicção de que a verdade não é imposta pelo poder, mas descoberta na liberdade. A montanha ensinava-lhe que a realidade não pode ser manipulada por propaganda — ela impõe-se com a sua objetividade. Esse realismo espiritual seria decisivo na sua resistência às ideologias totalitárias.

Sob o nazismo: fidelidade à dignidade humana

Quando a Alemanha Nazi ocupou a Polónia em 1939, o jovem Karol Wojtyła viu o seu país devastado, professores deportados, judeus perseguidos e a cultura polaca violentamente reprimida. Trabalhou numa pedreira e numa fábrica química para evitar a deportação, enquanto participava no seminário clandestino organizado pelo cardeal Sapieha.

O nazismo procurava reduzir o ser humano à raça, à biologia, à força. Wojtyła, formado na contemplação da criação e na experiência do valor único de cada pessoa, não podia aceitar essa visão. A montanha tinha-lhe ensinado que o homem é mais do que matéria e poder: é um ser chamado à transcendência. Essa convicção sustentou a sua fidelidade num contexto de terror.

Sob o comunismo: resistência espiritual

Após a guerra, a Polónia caiu sob o domínio do regime comunista imposto pela União Soviética. O comunismo marxista pretendia construir uma sociedade sem Deus, reduzindo a religião à esfera privada e subordinando a pessoa ao Estado.

Como sacerdote, bispo e depois arcebispo de Cracóvia, Wojtyła desenvolveu uma pastoral profundamente centrada na pessoa humana. Defendeu a liberdade religiosa, promoveu o diálogo intelectual e incentivou os jovens a encontrarem-se na natureza, longe da vigilância do regime. As excursões às montanhas tornaram-se também espaços de formação espiritual e resistência cultural.

A sua filosofia personalista afirmava que o homem nunca pode ser meio para um fim político. Essa visão estava enraizada na experiência concreta da liberdade interior — aquela que nenhum regime pode suprimir. A montanha, novamente, era símbolo dessa altitude moral que o poder totalitário não alcança.

O impacto do pontificado na libertação da Polónia e do Leste europeu

Eleito papa em 1978, o primeiro pontífice polaco da história, João Paulo II regressou à sua pátria em 1979. Nessa visita histórica, proclamou diante de milhões: “Não tenhais medo.” Essas palavras tiveram um efeito sísmico. Ao recordar aos polacos a sua identidade cristã e a sua dignidade, despertou uma consciência nacional que o regime não conseguiu controlar.

O seu apoio moral ao movimento Solidariedade, liderado por Lech Wałęsa, foi determinante. Sem recorrer à violência, promoveu uma revolução da consciência. A queda do Muro de Berlim e o colapso dos regimes comunistas no Leste europeu não podem ser compreendidos sem o seu papel espiritual e simbólico.

João Paulo II não combateu com armas, mas com a força da verdade sobre o homem. A sua autoridade moral minou o fundamento ideológico do sistema comunista, mostrando que nenhuma estrutura política pode sobreviver quando nega a liberdade e a dignidade humanas.

A liberdade como eixo do seu pensamento

A liberdade foi o eixo central do seu magistério. Mas não uma liberdade entendida como mera autonomia individual. Para ele, a liberdade é capacidade de aderir ao bem e à verdade. Uma liberdade desligada da verdade autodestrói-se e abre caminho a novas formas de opressão.

Na sua visão, a luta contra o nazismo e o comunismo não foi apenas política, mas antropológica e espiritual. Ambas as ideologias negavam algo essencial: que o homem é imagem de Deus. A experiência da montanha — esse encontro com o silêncio, a ordem e a grandeza da criação — reforçou nele a certeza de que existe uma verdade objetiva que precede o Estado e limita o poder.

Assim, a montanha tornou-se símbolo de uma elevação interior que sustentou a sua coragem histórica. Aquele jovem que caminhava pelos Tatra tornou-se o papa que ajudou a derrubar muros. E, em toda a sua vida, permaneceu fiel à convicção de que só na verdade se encontra a verdadeira liberdade — e só na liberdade o homem pode abrir-se plenamente a Deus.

Francisco Vaz

6 de Março de 2026

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