Pecado original

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domingo, 15 de março de 2026

A Grande Guerra no cinema

Entre o céu e a terra


A Grande Guerra continua a exercer uma forte atração sobre o cinema, não apenas pelo seu impacto histórico, mas pelo modo como revelou uma nova dimensão da violência humana. Dois filmes separados por quase um século — Wings (1927), de William A. Wellman, e War Horse (2011), de Steven Spielberg — oferecem perspectivas distintas sobre esse mesmo acontecimento, permitindo uma reflexão sobre a guerra e a condição humana.


Em Wings, o foco narrativo situa-se no nascimento da guerra aérea. O filme acompanha jovens pilotos americanos que vivem a experiência do combate nos céus da Europa. A realização de Wellman — ele próprio veterano da guerra — privilegia o realismo técnico e a dimensão épica das batalhas aéreas. O céu surge como espaço de mobilidade e heroísmo, ainda que marcado por tragédias pessoais e pela consciência progressiva da brutalidade do conflito.


Já War Horse adopta uma perspetiva radicalmente diferente. O filme acompanha a guerra a partir da história de um cavalo — Joey — e do seu jovem dono, separados pelo conflito. A narrativa desloca o olhar para a experiência terrestre da guerra: trincheiras, campos devastados, soldados anónimos e populações civis. A guerra deixa de ser apresentada como arena de heroísmo tecnológico e torna-se uma tragédia que atravessa indistintamente amigos e inimigos.


Essa diferença de perspectiva revela também uma diferença de sensibilidade histórica. Wings, produzido menos de uma década após o fim da guerra, mantém ainda vestígios de uma visão épica do conflito, típica de uma época que procurava dar sentido ao sacrifício de milhões de combatentes. A guerra é terrível, mas ainda pode ser associada a virtudes como coragem, honra e camaradagem.


Em War Horse, realizado quase um século depois, a guerra aparece sobretudo como absurdo histórico e sofrimento humano. Spielberg constrói uma narrativa profundamente humanista, onde a empatia ultrapassa fronteiras nacionais. Soldados britânicos e alemães surgem frequentemente como vítimas de uma mesma tragédia, unidos por gestos de humanidade que sobrevivem no meio da violência.


Contudo, apesar dessas diferenças, os dois filmes partilham uma intuição comum: a guerra expõe a fragilidade da ordem humana. Nos combates aéreos de Wings ou nas trincheiras de War Horse, o espectador confronta-se com a mesma realidade fundamental — a facilidade com que o mundo humano pode deslizar para a destruição.


Neste ponto, ambos os filmes dialogam implicitamente com reflexões filosóficas sobre a guerra. O filósofo Louis Lavelle, que combateu na Grande Guerra, escreveu nos seus Cadernos de Guerra que é precisamente no meio da miséria da guerra que a vida do espírito pode revelar toda a sua intensidade. Tanto Wellman como Spielberg parecem partilhar essa intuição: mesmo no interior da violência, subsistem gestos de amizade, lealdade e compaixão que testemunham a persistência da humanidade.


Assim, Wings e War Horse oferecem duas imagens complementares da mesma tragédia histórica. O primeiro mostra a guerra vista do céu, onde a tecnologia e o heroísmo ainda moldam a narrativa. O segundo observa a guerra a partir da terra devastada, onde a fragilidade da vida humana se torna mais evidente. Entre o céu e a terra, entre a épica e a compaixão, ambos os filmes recordam uma verdade essencial: a guerra não é apenas um fenómeno militar ou político, mas uma prova extrema da própria condição humana.


Uma curiosidade histórica merece ainda ser lembrada a propósito do filme Wings. Realizado por William A. Wellman e estreado em 1927, este filme mudo sobre pilotos na Grande Guerra ocupa um lugar singular na história do cinema: foi o primeiro filme a ser nomeado e a vencer o prémio que viria a tornar-se o mais prestigiado da indústria cinematográfica, o Academy Award for Best Picture, atribuído pela Academy of Motion Picture Arts and Sciences na primeira cerimónia realizada em 1929.


Este facto confere a Wings não apenas um valor intrínseco, mas também um significado simbólico na evolução da própria  arte cinematográfica. O filme marcou o início de uma tradição de reconhecimento internacional que, ao longo das décadas, transformaria os Óscares no principal barómetro de excelência do cinema mundial.


Francisco Vaz

15/03/2026

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