Pecado original

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sábado, 9 de maio de 2026

Fausto

ou o desassossego do homem moderno

Há obras que não pertencem apenas à literatura; pertencem à condição humana. Fausto, de Johann Wolfgang von Goethe, é uma delas. Mais do que um drama, é um espelho inquietante onde a modernidade se reconhece — e, talvez, se acusa.

A leitura ontológica desta obra revela um traço essencial: o ser humano moderno perdeu o seu lugar no cosmos. Se, outrora, a existência se organizava numa hierarquia clara — Deus, mundo, homem —, com a modernidade o “eu” passou a ocupar o centro. Este deslocamento, frequentemente associado ao gesto inaugural de René Descartes ao afirmar “penso, logo existo”, inaugura um sujeito autónomo, mas também solitário.

Fausto encarna essa condição: um homem que tudo experimentou — ciência, magia, saber — e que, ainda assim, permanece vazio. O seu drama não é a ignorância, mas o excesso sem sentido. É o homem que sabe demais para acreditar e sente de menos para viver.

Deste ponto de vista, Fausto não é apenas um indivíduo: é uma alegoria do ser moderno. Um ser que já não encontra na natureza nem na transcendência um fundamento estável e que, por isso, se lança numa busca incessante de satisfação. Mas essa busca está condenada à frustração, porque o desejo, quando centrado exclusivamente no ego, é, por definição, insaciável.

No plano ético, a obra de Goethe é ainda mais perturbadora. Fausto não é um herói moral. Pelo contrário, a sua trajetória está marcada pela culpa, pelo abandono e pela destruição — basta lembrar a tragédia de Margarida. No entanto, a obra não se limita a condená-lo. Pelo contrário, abre uma questão decisiva: o que salva o homem? As suas ações? A sua intenção? Ou algo que o transcende?

Aqui, Goethe inscreve-se num debate clássico entre duas tradições: o bem através das obras, mais próximo do catolicismo, e o bem através da graça, associado ao protestantismo. Fausto erra, falha, destrói — mas nunca deixa de procurar. E talvez seja precisamente essa inquietação, esse movimento incessante de busca, que constitui o seu âmago. Não a perfeição, mas a recusa da mediocridade. Não a pureza, mas o esforço.

A salvação final de Fausto — ambígua, quase irónica — sugere que o homem não se mede apenas pelos seus erros, mas pela intensidade da sua procura. Num mundo onde a tentação é a indiferença, Fausto é culpado, sim, mas nunca indiferente.

Politicamente, a leitura torna-se ainda mais atual. O percurso de Fausto atravessa várias formas de poder: o conhecimento, o prazer, a riqueza, a técnica. Em cada uma delas há uma promessa de realização — e, em cada uma, uma desilusão. Quando, no final, Fausto se entusiasma com a ideia de dominar a natureza através de diques e engenharia, vislumbramos o nascimento do homem técnico, o antepassado direto da nossa civilização.

Mas Goethe não celebra ingenuamente esse progresso. Pelo contrário, introduz uma crítica subtil, quase profética. A técnica pode transformar o mundo, mas não preenche o vazio do homem. Pode criar riqueza, mas também alienação. Pode prometer domínio, mas frequentemente resulta em perda de sentido. A cena do papel-moeda — uma riqueza fundada sobre o nada — antecipa, de forma surpreendente, as fragilidades de um capitalismo que vive de abstrações.

Assim, Fausto torna-se também o homem que acredita poder construir o paraíso na terra, mas que, ao fazê-lo, corre o risco de perder a sua própria humanidade.

No fim, o que resta? Talvez uma intuição simples, mas exigente: o homem moderno, entregue a si mesmo, dificilmente encontrará repouso. A sua grandeza — a liberdade, a autonomia, a capacidade de criar — é também a sua condenação. Porque, sem um horizonte que o transcenda, o desejo transforma-se em vertigem.

E, no entanto, Goethe não termina na desesperança. Ao salvar Fausto, apesar de tudo, sugere que há ainda uma possibilidade de redenção. Não na perfeição, nem no sucesso, mas na própria busca. No esforço contínuo de ir além de si mesmo. Na abertura ao outro — simbolizada, talvez, na figura de Margarida ou no enigmático “eterno feminino” que encerra a obra.

Num tempo como o nosso, marcado pela aceleração, pelo consumo e pela permanente insatisfação, Fausto permanece desconfortavelmente atual. Porque nos lembra que o problema não é apenas o mundo que construímos, mas o vazio que transportamos connosco.

E talvez essa seja a sua lição mais exigente: não basta ter mais. É preciso saber para quê.

Francisco Vaz
9 de Maio de 2026

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