Pecado original

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quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

A Teologia Moral no Segundo Concílio do Vaticano

A vocação universal à santidade


O Concílio Vaticano II constitui, não apenas um momento de aggiornamento disciplinar ou pastoral, mas uma verdadeira viragem paradigmática na compreensão da moral cristã. Mesmo sem dedicar um documento específico à teologia moral fundamental, o Concílio operou uma deslocação decisiva: da moral casuística, juridicista e defensiva, para uma moral personalista, cristocêntrica e histórica, profundamente enraizada na dignidade da pessoa humana e na vocação universal à santidade.


O “corte com o passado”, não deve ser interpretado como uma rejeição da tradição, mas como um exercício de fidelidade criativa ao Evangelho. A superação da moral dos manuais — centrada na lei, no pecado e na classificação dos actos — abriu espaço a uma moral entendida como resposta à iniciativa de Deus, inscrita na história da salvação e vivida na liberdade responsável do sujeito. Esta mudança não é meramente metodológica. Trata-se de uma transformação teológica profunda, em que o agir moral deixa de ser pensado prioritariamente como obediência externa a normas para ser compreendido como expressão da identidade cristã: agir como quem já foi alcançado pela graça.


Neste horizonte, a centralidade de Cristo assume um papel estruturante. A moral cristã não se constrói a partir de um ideal abstrato de perfeição nem de uma ordem natural concebida de forma estática, mas a partir do encontro com Cristo, revelador do homem ao próprio homem (GS 22). A moral cristã é, assim, inseparável da cristologia e da antropologia teológica: o ser humano é visto como portador de uma dignidade inalienável, chamado à plenitude e capacitado, pela graça, para responder livremente ao bem. A superação da distinção entre uma moral “mínima” para os leigos e uma moral “máxima” para os religiosos exprime de forma clara esta visão: todos são chamados à santidade, não como privilégio de alguns, mas como vocação constitutiva de todo o baptizado.


A reflexão sobre a santidade, revela uma das intuições mais fecundas do Concílio para a teologia moral: a santidade não é o resultado do esforço moral humano, mas o seu fundamento. Vive-se moralmente não para alcançar a santidade, mas porque se participa nela como dom. Esta perspetiva contraria tanto o moralismo como o pelagianismo latente da tradição casuística e reconduz a moral cristã ao seu núcleo teologal. A exigência moral permanece, mas é compreendida como consequência da graça e não como condição para a salvação. Daqui decorre também o carácter profundamente humanizador da moral cristã: longe de alienar o ser humano, ela revela o sentido pleno do seu agir.


Um dos contributos mais significativos do Concílio, é a revalorização da consciência moral. A consciência deixa de ser entendida como simples aplicadora subjetiva de normas objetivas para ser reconhecida como o lugar interior onde a pessoa se encontra com Deus e discerne a verdade do bem a realizar. Esta abordagem personalista não relativiza a verdade moral, mas reconhece que ela só se torna verdade salvífica quando é assumida na interioridade da pessoa concreta, situada historicamente. A atenção à consciência errónea invencível, bem como à boa-fé do sujeito, revela uma ética que não abdica da verdade, mas que recusa uma aplicação abstrata e despersonalizada da norma.


A abertura metodológica à história, à cultura e às ciências humanas confirma esta orientação. Ao reconhecer a autonomia das realidades terrestres e o valor dos saberes humanos, o Concílio legitima uma teologia moral em diálogo com o mundo, capaz de interpretar os “sinais dos tempos” à luz do Evangelho. Esta opção implica a renúncia a modelos éticos fixistas e a aceitação da historicidade das mediações morais, sem cair num relativismo ético. A verdade moral permanece, mas a sua compreensão e aplicação exigem discernimento, escuta da realidade e responsabilidade histórica.


Período pós-conciliar


No período pós-conciliar, este projeto encontrou resistências, ambiguidades e tensões. A dificuldade em abandonar categorias pré-conciliares e o receio de uma perda de segurança doutrinal marcaram fortemente o debate moral. A encíclica Veritatis Splendor surge neste contexto como tentativa de recentrar a moral cristã na verdade objetiva e na  autoridade do Magistério. O seu valor é inegável, sobretudo na reafirmação do vínculo intrínseco entre liberdade e verdade e na denúncia de correntes éticas redutoras, como o consequencialismo ou o proporcionalismo mal compreendido.


Todavia, uma reflexão crítica mostra que a encíclica se distancia, em vários aspetos, do estilo e das intuições do Vaticano II. A sua linguagem menos dialogante, a desconfiança face à modernidade e a subvalorização do contributo das ciências humanas parecem contrariar a metodologia conciliar. Em vez de aprofundar a corresponsabilidade eclesial no discernimento moral, a encíclica tende a reforçar uma lógica de segurança doutrinal centrada na autoridade, correndo o risco de enfraquecer a dimensão propositiva da consciência e da liberdade cristã.


Deste percurso emerge um desafio decisivo para a teologia moral contemporânea: articular fidelidade ao Concílio Vaticano II e escuta crítica do Magistério posterior, sem cair nem na ruptura nem na regressão. A teologia moral é chamada a permanecer enraizada em Cristo, alimentada pela Escritura, sensível à história e atenta à dignidade da pessoa humana. Só assim poderá continuar a ser, não um sistema de normas externas, mas um verdadeiro caminho de vida, capaz de orientar o agir cristão no meio das complexidades do mundo atual.


Francisco Vaz

5 de Fevereiro de 2026

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