Pecado original

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sábado, 7 de fevereiro de 2026

Memorial Day

Memorial Day: Lembrar o Sacrifício e Escolher a Paz

Na última segunda-feira de maio, os Estados Unidos pararam para celebrar o Memorial Day — uma data que vai muito para além de churrascos, promoções e desfiles. É um dia de silêncio e respeito, de lembrança e responsabilidade. Um dia para reconhecer aqueles que ofereceram tudo — sangue, labuta, suor e lágrimas, como disse Churchill — em defesa de um ideal: a liberdade.

Originado após a Guerra Civil Americana como Decoration Day, o Memorial Day evoluiu para homenagear todos os militares norte-americanos mortos em combate. Mas essa memória não pode — nem deve — ser estática. Em tempos de polarização, tensões internacionais e ameaças veladas à democracia, lembrar os que morreram pela liberdade exige mais do que flores sobre lápides. Exige consciência histórica, vigilância moral e escolhas responsáveis.


A geração que combateu o fascismo e o nazismo na Segunda Guerra Mundial não o fez por vaidade ou ambição. Lutou contra ideologias que negavam a dignidade humana. Muitos caíram em praias desconhecidas e selvas inóspitas, longe de casa, pela liberdade de pessoas que jamais conheceriam. Honrar essa entrega significa preservar os princípios que motivaram esse sacrifício — não apenas celebrá-los, mas defendê-los.


No entanto, vivemos hoje um cenário mundial que, em certos aspetos, inquietantemente se assemelha àquele que precedeu os grandes conflitos do século XX. Com os nacionalismos agressivos, os revisionismos históricos, a crescente militarização e a relativização dos direitos humanos, o presente ecoa os fantasmas do passado. O equilíbrio global, já frágil, oscila perigosamente entre diplomacia e confronto. A história já nos mostrou como esse filme termina — e não é com aplausos.

É nesse ponto que a voz da moral, muitas vezes abafada pelos ruídos da geopolítica, precisa ser ouvida. Diversos líderes espirituais e pensadores têm alertado para os caminhos insensatos que o mundo contemporâneo parece seguir. Entre esses, os pontífices da Igreja Católica têm oferecido reflexões que transcendem a fé e se dirigem à consciência humana.

  • Em 1963, João XXIII publicou a encíclica Pacem in Terris, um grito pela paz em plena Guerra Fria, em que proclama a paz como bem universal: “A paz de todos os povos na base da verdade, justiça, caridade e liberdade” — uma paz fundada na dignidade, nos direitos humanos e na justiça social.
  • Já Paulo VI, em 1967, na Populorum Progressio, declarou que “o desenvolvimento é o novo nome da paz”. A verdadeira segurança global, segundo ele, nasce não das armas, mas da equidade e da solidariedade entre os povos.
  • João Paulo II — que conheceu o totalitarismo por dentro — foi incansável contra todo o tipo de violência declarando que a guerra é sempre “uma derrota da humanidade”.
  • Bento XVI, ao escolher o seu nome pontifício, evocou Bento XV como “profeta da paz” e repetiu a condenação da guerra como “desperdício inútil”. E o Papa Francisco, com a sua linguagem direta e acessível, não poupou nas críticas aos conflitos armados atuais, denunciando aquilo a que chamava a “terceira guerra mundial aos pedaços”. Em 2020, na encíclica Fratelli Tutti, afirma: “Toda a guerra deixa o mundo pior do que o encontrou.”

Estes apelos não são discursos religiosos: são clamores morais. São convites à lucidez.


O Memorial Day, portanto, não pode ser apenas um ritual patriótico. Ele precisa ser também um espelho. Um espelho que nos pergunte: o que estamos a fazer com o legado daqueles que tombaram? Estamos, de facto, a construir um mundo mais livre, mais justo, mais pacífico?


Dos campos de batalha de Gettysburg às montanhas do Afeganistão, das águas de Guadalcanal às areias de Fallujah, soldados americanos — muitas vezes ainda jovens — entregaram o bem mais precioso que possuíam: a própria vida. O seu sacrifício não está apenas nos livros de história: vive na liberdade conquistada e nos princípios de humanidade a serem defendidos.


No Colégio Militar, Instituição em que os princípios de disciplina e de serviço em prol do bem comum são pilares da formação, temos a responsabilidade de refletir sobre o verdadeiro significado desta data. Não se trata apenas de olhar para o passado, mas de aprender com ele. O Memorial Day ensina-nos que a liberdade tem um preço — e que cada geração deve estar disposta a preservar, a proteger e a respeitar esse legado.


Memória verdadeira não é nostalgia. É responsabilidade. Honrar os que morreram pela nossa liberdade não é apenas recordar o passado, mas lutar — com as armas da justiça, da palavra e da paz — para que o seu sacrifício não tenha sido em vão. Porque o que se ganhou com sangue, labuta, suor e lágrimas pode ser perdido com indiferença, vaidade e egoísmo.

Hoje, mais do que nunca, precisamos de lembrar. Mas mais ainda: precisamos de escolher. E que essa escolha seja pela paz. Uma paz justa.


Francisco Vaz

27 de Maio de 2025


publicado in revista Zacatraz

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