Imaginação, presença e unidade do real
“A percepção do mundo real, composto por uma imensidão de dinamismos e potências, ultrapassa o plano da materialidade. Podemos ter muitos dados sobre a nossa vida em memória, mas estes, só por si, não compõem uma unidade nem nos proporcionam uma figura de nós mesmos. Esta figura – presença consciente do ser humano a si mesmo – se apresenta apenas à nossa imaginação, sem a qual não conseguimos contar a nossa história. A consciência de nossa verdadeira presença no mundo só advém com a tomada de posse dessa capacidade de percepção do mundo através da imaginação como coisa real e atuante que se desenrola no tempo e que completa a percepção sensível. A objetividade do mundo, a presença unitária do mundo, só pode ser percebida pela imaginação.”
Olavo de Carvalho
A afirmação de que a percepção do mundo real ultrapassa o plano da materialidade toca um ponto central do pensamento de Olavo de Carvalho: a crítica à redução do conhecimento humano à soma de dados sensíveis ou à organização conceitual abstrata. O mundo real não é um agregado de objetos estáticos, mas uma teia viva de dinamismos, potências e sentidos em ato, que só se revela plenamente a uma consciência capaz de integrar tempo, memória e significado.
Os dados da memória — factuais, cronológicos, empíricos — são insuficientes para constituir uma unidade do eu. Eles permanecem dispersos enquanto não são assumidos por uma instância superior de síntese. É precisamente aqui que Olavo recupera a noção clássica de imaginação como potência cognitiva, distinta tanto da fantasia arbitrária quanto da mera reprodução de imagens sensoriais. A imaginação é o lugar onde o homem se torna presente a si mesmo como sujeito histórico, isto é, como alguém que vive no tempo e pode narrar a própria existência.
Sem imaginação, não há biografia; há apenas arquivo. Não há identidade; há sucessão de estados. A “figura de nós mesmos” de que fala o texto não é uma construção fictícia, mas uma presença consciente, uma apreensão unitária do próprio ser em devir. Para Olavo de Carvalho, esta presença não é produzida pela razão discursiva nem pela sensação isolada, mas por uma faculdade intermediária e superior: a imaginação enquanto órgão da experiência total.
Essa conceção rompe com o preconceito moderno que associa imaginação à irrealidade. Ao contrário, é justamente a imaginação que permite perceber o real como real, isto é, como algo dotado de continuidade, sentido e direção. O mundo não se apresenta à consciência humana como um conjunto de estímulos simultâneos, mas como uma realidade temporalmente estruturada, e só a imaginação é capaz de apreender essa estrutura. Ela “completa” a perceção sensível porque lhe restitui aquilo que os sentidos, por si só, não captam: a unidade.
Daí a afirmação decisiva: a objetividade do mundo só pode ser percebida pela imaginação. Isso parece paradoxal apenas para uma epistemologia empobrecida. Para Olavo, a objetividade não é o que se impõe mecanicamente ao sujeito, mas o que pode ser reconhecido como o mesmo através do tempo, em múltiplas experiências, sob diversas perspectivas. Essa identidade do real — seja do mundo, seja do eu — não é sensível nem puramente conceitual: é imaginativa no sentido forte e ontológico do termo.
A imaginação, portanto, não inventa o mundo; ela revela-o como totalidade vivente. É por isso que a consciência da “verdadeira presença no mundo” exige uma tomada de posse dessa faculdade. Sem ela, o homem permanece alienado na exterioridade dos fatos ou aprisionado em abstrações. Com ela, torna-se capaz de reconhecer-se como parte de um drama real, no qual a sua vida tem sentido, direção e responsabilidade.
Em última instância, esta reflexão conduz a uma crítica profunda da cultura contemporânea: ao desprezar a imaginação enquanto faculdade cognitiva legítima, o homem moderno perde simultaneamente o acesso à realidade objetiva e à própria identidade. Recuperar a imaginação, no sentido defendido por Olavo de Carvalho, não é um exercício estético ou psicológico, mas um ato ontológico: é reaprender a estar presente no real, inteiro, uno e significativo.
Francisco Vaz
8 de Fevereiro de 2026
ResponderEliminarDefender que a imaginação é um “órgão da experiência total” é elevar uma metáfora a dogma, e fazer parecer que quem não concorda está de alguma forma a ignorar a realidade. Na prática, são construções abstratas, que confundem sofisticação linguística com profundidade filosófica. Pode até soar convincente para quem gosta de retórica pomposa, mas aqui não há argumento, há autoafirmação. Questiono: será que a imaginação precisa mesmo ser tratada como órgão supremo da experiência, ou isso é apenas mais uma tentativa de impor a visão pessoal do autor como verdade incontestável
Bruno Lopes