O inferno na terra
“Sobrevivi a dias em que ninguém acreditaria. O sangue, a imundice, as mortes — mas as noites eram piores. Uma pessoa não consegue ver o que está lá fora e não sabe o que quer que seja, exceto que pode morrer a qualquer minuto. A tensão é excruciante. O pôr do sol tropical é lindo, não é? Mas, quando sabíamos o que estava para vir, passávamos a odiá-lo — odiar mesmo. Do pôr do sol ao amanhecer, ninguém se mexia. Apenas esperávamos o dia nascer. Mal podia esperar, com o coração disparado e o dedo no gatilho. Era impossível acostumarmo-nos com aquilo. Pelo menos, durante o dia conseguíamos ver; não havia aquele terror constante.”
Dick Whitaker
Companhia F, 2º Batalhão, 29º Regimento de Marines, 6ª Divisão de Marines durante a Segunda Guerra Mundial
Há batalhas que não se esgotam no campo militar. Elas atravessam a carne, a linguagem e a própria ideia do que significa ser humano. Okinawa foi uma dessas. Não apenas pelo número de mortos ou pela dureza extrema do combate, mas porque ali a guerra deixou de ser um acontecimento externo e tornou-se uma condição do ser. O excerto de Whitaker não descreve uma batalha, descreve uma existência suspensa entre o pôr do sol e o amanhecer, entre o visível e o invisível, entre a vida e a morte iminente.
Ontologicamente, Okinawa dissolve a distinção entre viver e sobreviver. O soldado já não habita o tempo humano, marcado por projetos, memória e esperança, mas um tempo puramente biológico e tenso, medido pela espera do dia seguinte. “Do pôr do sol ao amanhecer, ninguém se mexia.” O ser reduz-se à vigilância, ao dedo no gatilho, ao coração disparado. A noite — tradicionalmente lugar de repouso — converte-se em ameaça absoluta. Não é apenas o medo da morte, mas a impossibilidade de sentido: não se sabe “o que está lá fora”, não se sabe “o que quer que seja”, exceto que se pode morrer a qualquer momento. A ignorância radical destrói a confiança mínima que sustenta a experiência do mundo.
Esse colapso do sentido revela uma consequência ontológica profunda: o mundo deixa de ser mundo e torna-se imundo. O pôr do sol, símbolo clássico de beleza e harmonia, passa a ser odiado. A natureza, que em outras circunstâncias consola ou inspira, aqui anuncia o terror. O belo torna-se cúmplice do horror. Okinawa mostra que a guerra não apenas mata corpos; ela corrompe as categorias fundamentais com as quais o ser humano se relaciona com a realidade.
Eticamente, o testemunho aponta para um esgotamento extremo da interioridade moral. Quando a luta pela sobrevivência se torna absoluta, a reflexão ética cede lugar à reação. O soldado não escolhe; espera. Não delibera; vigia. O medo constante não é um sentimento episódico, mas uma atmosfera total que molda gestos, pensamentos e afetos. A repetição dessa experiência, a que ninguém se acostumava — indica que não há adaptação moral possível ao terror contínuo. A interioridade ética não desaparece por maldade, mas por exaustão.
Esse esgotamento tem um custo duradouro. Sobreviver a “dias que ninguém acreditaria” significa carregar para sempre uma memória que não se integra facilmente no quotidiano, no discurso público ou na narrativa heroica. Okinawa expõe o abismo entre a retórica da glória militar e a realidade vivida pelos combatentes. Não há triunfo na noite; há apenas espera. A guerra, nesse sentido, produz sujeitos feridos não apenas no corpo, mas na capacidade de confiar, dormir, admirar e esperar.
Politicamente, Okinawa representa o limite extremo da lógica da guerra total. Ali se tornou claro que a vitória não seria apenas a derrota do inimigo, mas a aniquilação de qualquer horizonte comum de humanidade. A batalha antecipou o que viria a seguir: se a guerra exige que homens vivam nesse estado de terror absoluto, então o recurso a armas capazes de encerrar o conflito rapidamente — mesmo a um custo moral imenso — torna-se politicamente pensável. Okinawa não explica Hiroshima; apenas prepara.
Nesse sentido, Okinawa é mais do que um episódio da Segunda Guerra Mundial. É uma advertência. Quando se aceita a guerra como instrumento político último, ela abre caminho para a suspensão prolongada do humano. O inferno descrito por Whitaker não é metafórico: é a experiência concreta de um mundo onde o tempo, a beleza, o descanso e a confiança foram destruídos.
Chamar Okinawa de “inferno na terra” não é retórica exagerada. É reconhecer que ali se tocou um ponto em que o ser humano foi reduzido à vigília armada, à espera angustiada, ao ódio ao pôr do sol. E quando o pôr do sol se torna odiável, algo fundamental se perdeu. Porque Okinawa não foi apenas um campo de batalha, mas um espelho sombrio do que a humanidade é capaz. E lembrar esse inferno não é revivê-lo — é advertir para que jamais volte a ser possível.
Francisco Vaz
7 de Fevereiro de 2026
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