Consonâncias e dissonâncias da tirania: uma leitura ontológica, ética e política
1. Introdução
A tirania não constitui apenas uma categoria histórica ou um desvio ocasional do exercício do poder político. Ela representa uma possibilidade estrutural da política quando esta se emancipa da justiça, da verdade e do bem comum. Desde a reflexão filosófica clássica até às formas contemporâneas de autoritarismo, a tirania reaparece sob diferentes configurações, mantendo, contudo, um núcleo constante: a absolutização do poder e a redução do outro a instrumento ou ameaça.
Este estudo propõe uma leitura comparada de quatro figuras — Trasímaco, Herodes, o Grande, Adolf Hitler e Vladimir Putin — articulando três níveis de análise: ontológico, ético e político, entendendo a política no sentido platónico, isto é, como ordenação da polis segundo o bem e a justiça.
2. Trasímaco: a fundação conceptual da tirania
Trasímaco surge no Livro I da República de Platão como defensor da tese segundo a qual “a justiça é a conveniência do mais forte”. Esta afirmação não constitui apenas uma provocação retórica, mas uma verdadeira subversão do fundamento da política. Ao identificar o justo com o interesse do detentor do poder, Trasímaco dissolve qualquer critério normativo externo à força.
Do ponto de vista ontológico, a justiça deixa de ser uma ordem do ser para se tornar um efeito contingente da dominação. Eticamente, desaparece qualquer limite à ação do governante. Politicamente, a polis deixa de ser comunidade orientada para o bem comum e transforma-se em espaço de exploração.
A centralidade de Trasímaco no pensamento platónico explica-se porque ele não é um tirano empírico, mas o arquétipo racional da tirania. Combater Trasímaco equivale, para Platão, a combater a possibilidade de legitimação filosófica da injustiça.
3. Herodes, o Grande: a tirania como patologia do poder
Herodes representa a passagem da estrutura conceptual à concretização histórica. A sua prática política caracteriza-se por uma violência preventiva e indiscriminada, orientada não por um projeto ideológico coerente, mas por uma lógica de autopreservação absoluta.
Ontologicamente, o poder herodiano identifica-se com o próprio ser do governante: existir politicamente é dominar sem limites. Eticamente, o outro é reduzido a potencial inimigo. Politicamente, o governo converte-se numa administração do medo. O episódio, referido por Flávio Josefo, em que Herodes ordena o encarceramento de notáveis para que sejam executados após a sua morte, revela a essência da tirania: a incapacidade de conceber um mundo que sobreviva ao tirano.
4. Hitler: a tirania totalitária e a negação ontológica do outro
Com Adolf Hitler, a tirania assume uma forma radicalmente nova: o totalitarismo ideológico. O poder já não se exerce apenas para conservar o domínio pessoal, mas para realizar uma visão total da realidade. O Estado nazi não governa cidadãos; administra categorias biológicas e raciais.
Do ponto de vista ontológico, o nazismo introduz uma rutura extrema: certos grupos humanos são definidos como não-ser, vidas sem dignidade ontológica. Eticamente, o assassinato torna-se dever. Politicamente, a polis é destruída enquanto espaço de pluralidade, sendo substituída por uma máquina de extermínio.
A delegação do mal em figuras como Himmler ou Eichmann não atenua a responsabilidade de Hitler; antes revela a lógica moderna da tirania: a fragmentação da culpa através da burocracia.
5. Putin: a tirania contemporânea e a normalização da violência
Vladimir Putin inscreve-se nesta tradição, embora sem recorrer a uma ideologia totalizante explícita. A sua forma de tirania caracteriza-se pela erosão sistemática das instituições, pela instrumentalização da verdade e pela violência seletiva.
Ontologicamente, o opositor é reduzido a obstáculo funcional. Eticamente, a mentira e o cinismo substituem a responsabilidade. Politicamente, a guerra deixa de ser exceção e passa a integrar a racionalidade ordinária do poder, como se observa na invasão de Estados soberanos e na eliminação recorrente de dissidentes.
Putin representa, assim, uma tirania pós-ideológica, que conserva o núcleo clássico da dominação absoluta sob formas adaptadas ao mundo globalizado.
6. Consonâncias e dissonâncias
As diferenças entre estas figuras são evidentes: Trasímaco é conceptual, Herodes é personalista, Hitler é totalitário, Putin é estratégico. Contudo, as consonâncias são profundas:
• Separação entre poder e justiça;
• Redução do outro a meio ou ameaça;
• Supressão da responsabilidade ética;
• Degradação da política enquanto ordenação ao bem comum.
A dissonância reside sobretudo nas formas históricas, não na estrutura fundamental da tirania.
7. Conclusão
Platão antecipa com notável lucidez traços que a história posterior confirmaria. O tirano necessita da guerra para justificar o seu poder. Precisa de inimigos externos para ocultar a desordem interna. Precisa da mentira porque a verdade ameaça revelar a sua fragilidade.
A eliminação dos melhores — os sábios, os corajosos, os justos — não é contingente; é estrutural. Onde o logos sobrevive, a tirania está em perigo.
A atualidade do pensamento platónico reside precisamente na sua capacidade de identificar a tirania não como exceção histórica, mas como possibilidade permanente da política. Sempre que o poder se emancipa da verdade e da justiça, a tirania torna-se racionalmente defensável — como em Trasímaco — e historicamente realizável — como em Herodes, Hitler e Putin.
A política, entendida no sentido platónico, é inseparável da ética e da ontologia. Quando essa ligação se rompe, a polis deixa de ser comunidade e transforma-se em domínio. A história demonstra, com clareza suficiente, os custos humanos dessa rutura.
Referências bibliográficas
Arendt, H., Eichmann em Jerusalém, Tinta-da-China, 2015.
Arendt, H., Origens do Totalitarismo, Dom Quixote, 2006.
Flávio Josefo, Antiguidades Judaicas, XVII, 6.
Platão, República, I, 338c e VIII, 566e
Richardson, P., Herod: King of the Jews and Friend of the Romans, University of South Carolina Press, 1996.
Snyder, T., On Tyrany: Twenty Lessons from the Twentieth Century, Tim Duggan Books, 2017.
Snyder, T., The Road to Unfreedom, Tim Duggan Books, 2018.
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