Uma catedral por terminar
Num tempo em que a União Europeia se interroga sobre o seu rumo, revisitar a visão de Charles de Gaulle não é um exercício de nostalgia, mas de lucidez. Poucos líderes pensaram a Europa com tanta densidade histórica e tão aguda consciência dos seus limites quanto o general francês.
Para De Gaulle, a Europa nunca poderia ser reduzida a um projeto técnico ou burocrático. Não era, antes de mais, um mercado, nem um conjunto de instituições: era uma realidade histórica feita de povos, memórias e identidades. Esta convicção levava-o a rejeitar uma construção supranacional apressada, desligada das nações concretas. A sua pergunta implícita continua a ecoar: pode haver uma Europa política sem um verdadeiro sentimento de pertença comum?
A resposta de De Gaulle era prudente, quase desconfiada. Não se opunha à cooperação europeia — pelo contrário, foi decisivo na consolidação do Mercado Comum —, mas insistia que essa cooperação deveria assentar nos Estados soberanos. Para ele, só as nações possuem legitimidade histórica e capacidade de mobilizar os seus povos. Uma Europa construída ignorando essa realidade arriscar-se-ia a tornar-se uma abstração sem alma.
Contudo, seria injusto ver em De Gaulle apenas um defensor rígido da soberania nacional. A sua grande visão foi compreender que o futuro da Europa passava pela reconciliação entre França e Alemanha. Ao aproximar-se de Konrad Adenauer, o general não estava apenas a selar uma aliança política, mas a curar uma ferida civilizacional aberta durante séculos. Nesse gesto residiu talvez o verdadeiro fundamento da Europa contemporânea.
A imagem que melhor sintetiza o seu pensamento é a da “catedral europeia”. Para De Gaulle, a Europa constrói-se como as grandes catedrais: lentamente, com paciência, sobre alicerces sólidos. Esses alicerces não são tratados nem regulamentos, mas a reconciliação histórica e a consciência de um destino partilhado. Só depois se erguem os pilares económicos e, eventualmente, a arquitetura política.
Outro traço marcante da sua visão é a exigência de independência. Num mundo dominado pelas superpotências da Guerra Fria, De Gaulle recusava que a Europa fosse mero prolongamento dos interesses de Estados Unidos ou da União Soviética. Defendia uma Europa capaz de afirmar-se por si mesma, aliada mas não subordinada. Essa ambição, muitas vezes criticada como excessiva, revela hoje uma inquietante atualidade.
É certo que a sua visão levantava dificuldades. Como conciliar soberania nacional com unidade política? Como avançar sem instituições comuns fortes? Estas questões permanecem no coração do debate europeu. Mas talvez o maior contributo de De Gaulle não tenha sido oferecer respostas definitivas, e sim obrigar a colocar as perguntas certas.
Num momento em que a Europa enfrenta desafios geopolíticos, crises de identidade e tensões internas, a lição de De Gaulle mantém-se pertinente: não há construção europeia sólida sem raízes históricas, sem legitimidade política e sem uma ideia clara do que une os seus povos.
A Europa pode multiplicar tratados, criar mecanismos e reforçar instituições. Mas, se quiser ser mais do que um espaço de cooperação — se quiser ser um verdadeiro sujeito da história — terá de enfrentar o desafio que De Gaulle formulou com rara clareza: construir unidade sem destruir a diversidade, e afirmar-se no mundo sem perder a sua alma.
Talvez seja essa, ainda hoje, a catedral por terminar.
Francisco Vaz
10 de Maio de 2026
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