O desvendar da alma humana
Giuseppe Verdi e William Shakespeare pertencem a universos artísticos distintos, mas partilham uma mesma e profunda ambição: revelar a alma humana no momento em que ela se fratura. Um trabalha com o som, o outro com a palavra, porém ambos compreendem que o ser humano só se manifesta plenamente quando é confrontado com o desejo, o medo, a ambição e a culpa. Não é por acaso que Verdi considerava Shakespeare o seu poeta por excelência¹. Nos dramas shakespearianos, Verdi encontrou personagens que não são tipos morais nem alegorias abstratas, mas forças vivas em permanente conflito interior, matéria ideal para a música, que não descreve sentimentos, antes os faz acontecer no tempo.
Quando Riccardo Muti se refere à composição musical de Verdi como “científica”, não o faz no sentido de um cálculo frio ou mecânico, mas como reconhecimento de um conhecimento rigoroso das leis internas da emoção². Em Verdi, nada é supérfluo: cada escolha tonal, rítmica ou tímbrica possui uma função psicológica precisa. O mesmo se pode afirmar da escrita de Shakespeare, igualmente científica no sentido mais elevado do termo, pois cada palavra é necessária e cada imagem verbal conduz o personagem em direção ao núcleo da sua própria verdade. Shakespeare não escreve para ornamentar o discurso dramático, mas para revelar aquilo que o personagem ainda não ousa reconhecer em si mesmo. Ambos operam, assim, como verdadeiros anatomistas da alma humana.
É em Macbeth que essa afinidade se manifesta de forma particularmente intensa. A tragédia não apresenta o mal como uma força exterior ou puramente demoníaca, mas como uma possibilidade interior, despertada pelo desejo e alimentada pela imaginação. Macbeth não é um vilão unívoco, mas um homem dilacerado pela hesitação, que antecipa o crime no pensamento antes de o realizar na ação, iniciando desde logo o seu processo de autodestruição. Lady Macbeth, por sua vez, não é apenas uma figura cruel, mas uma personagem que violenta a própria natureza, forçando-se a silenciar a consciência e a negar qualquer resquício de humanidade em nome do poder³.
Verdi compreende plenamente essa complexidade psicológica e, por isso, recusa deliberadamente a beleza fácil. Em Macbeth, a música não procura agradar, mas dizer a verdade. O coro das bruxas não exerce fascínio sedutor; pelo contrário, inquieta, desestabiliza, introduz no tecido musical uma lógica de desordem. Os seus ritmos irregulares e timbres sombrios não representam o mal de forma simbólica, mas colocam-no efetivamente em ação. Na ária “Vieni! t’affretta!”, Verdi exige uma voz áspera, distante do ideal belcantista, pois Lady Macbeth não canta para encantar, mas para esmagar qualquer vestígio de hesitação moral⁴. Em muitos momentos da ópera, é a orquestra que revela aquilo que a voz tenta ocultar: a música antecipa o colapso interior dos personagens, funcionando como instância de verdade psicológica.
Em Macbeth, Shakespeare oferece a estrutura dramática e psicológica da tragédia, enquanto Verdi lhe confere corpo, pulsação e respiração. A palavra sugere o abismo; a música conduz o ouvinte para dentro dele. Ambos partilham a convicção de que o mal não é grandioso, que o poder não sacia e que a consciência jamais se cala por completo. Por essa razão, Macbeth não se limita a ser uma narrativa sobre ambição política, mas configura-se como uma reflexão profunda sobre a autodestruição da liberdade, sobre o momento em que o indivíduo inverte a ordem interior e se perde em si mesmo⁵.
Assim, Verdi e Shakespeare, ou o desvendar da alma humana, não constitui apenas um título sugestivo, mas a formulação exata do encontro entre dois génios que, por caminhos distintos, perseguiram o mesmo fim. Ambos compreenderam que a arte não existe para consolar nem para moralizar, mas para revelar aquilo que no ser humano permanece oculto, contraditório e inquietante. Em Macbeth, palavra e música unem-se para rasgar o véu da aparência e expor o núcleo trágico da condição humana, onde liberdade, desejo e culpa se entrelaçam de modo irreversível. O que Shakespeare escreve, Verdi faz soar; o que Verdi faz ouvir, Shakespeare já havia intuído em palavras.
Nesse diálogo profundo, a arte deixa de ser mera representação para se tornar revelação — um verdadeiro ato de conhecimento da alma humana.
Francisco Vaz
10 de Fevereiro de 2026
Notas
1. Verdi manifestou reiteradamente a sua admiração por Shakespeare em cartas e depoimentos, considerando-o o maior dramaturgo de todos os tempos. Cf. Verdi, Epistolario, ed. Alessandro Luzio, Milão, Ricordi.
2. Riccardo Muti utiliza a expressão “científica” para caracterizar o rigor estrutural e psicológico da escrita verdiana, sublinhando a ausência de arbitrariedade na sua linguagem musical. Cf. Muti, Verdi, l’italiano, Milão, Rizzoli.
3. Sobre Lady Macbeth como figura de negação da natureza e da consciência, ver Bloom, Harold, Shakespeare: The Invention of the Human, Nova Iorque, Riverhead Books.
4. A recusa de Verdi em relação à beleza vocal tradicional no papel de Lady Macbeth encontra-se documentada em cartas dirigidas a cantoras e diretores de teatro. Cf. Budden, Julian, The Operas of Verdi, vol. I, Oxford, Oxford University Press.
5. A leitura de Macbeth como tragédia da liberdade e da interioridade aproxima-se de interpretações filosóficas modernas, nomeadamente as que relacionam o drama com a problemática do mal e da vontade. Cf. Schelling, F. W. J., Investigações filosóficas sobre a essência da liberdade humana.
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