Pecado original

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sábado, 16 de maio de 2026

A Muralha

O medo, a identidade e a erosão da humanidade no mundo contemporâneo

A fotografia de Donald Trump ao lado de Xi Jinping diante da Grande Muralha da China possui uma força simbólica extraordinária. Dois homens que representam duas grandes potências do século XXI colocados diante de uma das maiores metáforas políticas da História: a muralha. Não apenas uma construção de pedra, mas uma declaração civilizacional. Toda a muralha diz sempre a mesma frase: “daqui para dentro somos nós; daí para fora estão os outros”.

A Grande Muralha foi construída para proteger a continuidade da civilização chinesa perante as invasões dos povos nómadas vindos das estepes. Mais do que uma defesa militar, era uma tentativa de preservar uma identidade cultural, uma visão do mundo, uma ordem política e espiritual. A muralha separava o cosmos do caos. O império da barbárie. A estabilidade da incerteza. Ela revelava um medo antigo e profundamente humano: o medo da dissolução.

Também a Muralha de Adriano cumpriu função semelhante. O Império Romano erguia pedra sobre pedra para delimitar o espaço da romanidade perante os povos do Norte. Não se tratava apenas de impedir incursões militares; tratava-se de preservar uma ideia de civilização. Roma sabia que os impérios não caem apenas pela espada inimiga. Caem sobretudo quando deixam de acreditar naquilo que os sustenta interiormente.

Séculos mais tarde, Portugal construiria as Linhas de Torres Vedras. Aquelas fortificações, erguidas em silêncio diante da ameaça napoleónica, tinham igualmente um propósito de sobrevivência nacional. Ao proteger Lisboa, protegiam o núcleo político e espiritual do país. Eram muralhas de resistência e de permanência histórica. A geografia transformava-se em estratégia; a defesa do território confundia-se com a defesa da identidade.

Todos estes muros tinham algo em comum: eram físicos. Eram visíveis. Podiam ser tocados. Separavam espaços concretos. Mas o nosso tempo construiu outro género de muralhas, talvez mais perigosas, porque invisíveis.

Hoje os muros deixaram de ser apenas de pedra. Tornaram-se psicológicos, ideológicos, morais e metafísicos.

Existe, evidentemente, o muro físico que continua a ser levantado na fronteira dos Estados Unidos. Contudo, mais importante do que o cimento ou o aço é aquilo que esse muro simboliza: o medo do outro. O receio de que o estrangeiro ameace o nosso trabalho, a nossa cultura, a nossa segurança ou até a nossa própria identidade. O muro contemporâneo já não separa apenas territórios; separa consciências.

E é aqui que reside talvez a tragédia do nosso tempo.

As antigas muralhas procuravam impedir a entrada do inimigo externo. As muralhas modernas procuram sobretudo expulsar o outro do interior da nossa humanidade. O outro deixa de ser alguém diferente para se transformar numa ameaça absoluta. Já não é adversário; é inimigo moral. E quando o outro se torna um inimigo moral, desaparece a possibilidade de diálogo, de compreensão e até de coexistência.

Vivemos numa época de muros interiores.

Erguemos barreiras para proteger o nosso ego, o nosso narcisismo, as nossas certezas ideológicas. As redes sociais transformaram-se em fortalezas emocionais onde cada indivíduo procura apenas ouvir o eco da sua própria voz. A política tornou-se frequentemente uma guerra tribal. O espaço público converteu-se numa arena de ressentimentos permanentes. E o ódio — antes exceção — tornou-se linguagem quotidiana.

É este o espetáculo que tantas vezes vemos: sociedades incapazes de olhar o outro sem suspeita. Povos inteiros contaminados pela lógica da hostilidade permanente. O adversário político deixa de ser alguém com quem discordamos; passa a ser alguém cuja própria existência parece intolerável.

Ora, quando uma civilização começa a viver exclusivamente da construção de muros interiores, algo profundamente humano se perde. Porque o homem não foi feito apenas para defender fronteiras; foi feito, sobretudo, para construir pontes.

A História mostra-nos que nenhuma muralha é eterna. A Grande Muralha não impediu todas as invasões. Roma acabou por cair. As Linhas de Torres Vedras cumpriram o seu propósito histórico e desapareceram enquanto necessidade estratégica. Todo o muro é, no fundo, provisório. Porque nenhuma civilização sobrevive apenas pela capacidade de excluir. Sobrevive sobretudo pela capacidade de integrar, de criar sentido comum e de reconhecer humanidade mesmo na diferença.

O drama contemporâneo é que os muros metafísicos são mais difíceis de derrubar do que os muros físicos. Uma muralha de pedra pode ser destruída por máquinas; uma muralha interior pode durar gerações.

Talvez por isso aquela fotografia diante da Grande Muralha da China seja tão simbólica. Ela obriga-nos a perguntar não apenas que muralhas construímos no mundo, mas sobretudo que muralhas construímos dentro de nós. E talvez a questão decisiva do nosso tempo não seja apenas como defender fronteiras, mas como impedir que o medo transforme a própria alma humana numa fortaleza fechada.

Porque uma sociedade que vive apenas para se proteger acaba lentamente por perder aquilo que pretendia proteger: a sua própria humanidade.

Francisco Vaz

16 de Maio de 2026

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