Ou da inquietação de Santo Agostinho
Há uma sede que a água não mata. Há uma fome que o pão não sacia. Há no homem um desejo que atravessa todos os outros desejos e que, muitas vezes, ele próprio não sabe nomear.
Santo Agostinho encontrou para esse mistério uma das frases mais belas da tradição cristã: «Fizestes-nos para Vós, Senhor, e o nosso coração está inquieto enquanto não repousar em Vós.»
A inquietação não é, portanto, apenas uma fraqueza humana. Pode ser um sinal. É como uma abertura deixada por Deus no interior da criatura, lembrando-lhe que nenhuma realidade criada consegue ocupar inteiramente o lugar do Criador.
Agostinho conheceu essa sede antes de saber que tinha sede de Deus. Procurou-a no conhecimento, na ambição, nos prazeres, nas relações humanas, nas filosofias e nas doutrinas do seu tempo. Procurava a verdade, mas confundia frequentemente a verdade com aquilo que momentaneamente o fascinava.
É esta talvez uma das grandes intuições das Confissões: o homem pode procurar Deus mesmo quando julga estar à procura de outra coisa.
Quando desejamos reconhecimento, talvez exista, escondido nesse desejo, algo mais profundo: queremos saber que a nossa existência tem valor. Quando desejamos amar e ser amados, talvez procuremos um amor que não desapareça. Quando procuramos conhecimento, talvez exista por detrás de cada pergunta a nostalgia da Verdade. Quando procuramos beleza, talvez pressintamos uma Beleza que nenhuma coisa bela consegue conter completamente.
É por isso que a sede permanece.
Podemos possuir coisas e continuar inquietos. Podemos alcançar posições e continuar insatisfeitos. Podemos conhecer muitas coisas e continuar a perguntar. Podemos ser amados e continuar a sentir dentro de nós uma solidão que nenhuma outra pessoa consegue inteiramente preencher.
Agostinho compreendeu finalmente que o erro estava em exigir às criaturas aquilo que somente Deus poderia dar.
Mas isto não significa desprezar o mundo. Pelo contrário. Quando deixamos de transformar as coisas criadas em absolutos, começamos verdadeiramente a amá-las. A amizade deixa de ser posse. O amor deixa de ser idolatria. A beleza deixa de ser distração. O conhecimento deixa de ser orgulho. Tudo pode tornar-se caminho.
A criatura não é Deus, mas pode falar de Deus.
É aqui que «a minha alma tem sede de Vós» adquire toda a sua profundidade. Ter sede de Deus não significa fugir da existência. Significa descobrir a direção última da existência.
Para Agostinho, porém, acontece algo ainda mais extraordinário. Procuramos Deus fora de nós e descobrimos que Ele estava mais próximo de nós do que nós próprios:
«Tu estavas dentro de mim, e eu fora.»
Passamos grande parte da vida dispersos. Procuramos fora aquilo que só pode ser encontrado através de uma descida ao interior. Não porque Deus seja uma criação da consciência, mas porque é precisamente na profundidade da consciência que o homem encontra a pergunta que nenhuma realidade finita consegue responder.
É necessário então regressar ao interior.
E talvez seja precisamente isto a conversão agostiniana: não deixar de desejar, mas aprender a desejar corretamente.
O cristianismo não destrói o desejo humano. Purifica-o e ordena-o. A sede não desaparece imediatamente. Transforma-se. Já não é apenas inquietação; torna-se procura. Já não é vazio; torna-se esperança.
Por isso podemos rezar:
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