Pecado original

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quarta-feira, 1 de julho de 2026

Oitenta Anos das Nações Unidas

Das Quatro Liberdades à esperança de uma paz fundada na dignidade humana

“In the future days, which we seek to make secure, we look forward to a world founded upon four essential human freedoms.”

— Franklin D. Roosevelt, Discurso das Quatro Liberdades, 6 de janeiro de 1941


Assinalar os oitenta anos das Nações Unidas não é apenas recordar a fundação de uma organização internacional. É revisitar uma das mais ambiciosas tentativas da humanidade de substituir a lógica da força pela força do direito, da guerra pela cooperação e do medo pela esperança.

As Nações Unidas nasceram formalmente a 24 de outubro de 1945, quando entrou em vigor a Carta assinada meses antes, na Conferência de São Francisco. Porém, a sua verdadeira génese remonta aos anos mais sombrios da Segunda Guerra Mundial. Antes de existir uma organização, existia já uma ideia; antes da instituição, havia uma visão do homem e da sociedade internacional.

Essa visão foi apresentada por Franklin D. Roosevelt no seu célebre discurso das Quatro Liberdades, proferido perante o Congresso dos Estados Unidos a 6 de janeiro de 1941.

Enquanto grande parte do mundo permanecia mergulhada na violência, Roosevelt recusou reduzir o conflito a uma disputa entre potências. Colocou no centro da reflexão aquilo que verdadeiramente justificava o combate ao totalitarismo: a dignidade da pessoa humana. Definiu então quatro liberdades que deveriam ser garantidas a todos os seres humanos, em qualquer parte do mundo: a liberdade de expressão, a liberdade religiosa, a liberdade de viver com condições materiais suficientes e dignas a liberdade de viver sem medo.

Não era apenas um programa político. Era uma verdadeira antropologia. As duas primeiras liberdades protegem o espírito humano; as duas últimas garantem as condições materiais e políticas indispensáveis para que essa liberdade possa ser vivida. Liberdade, justiça, segurança e solidariedade deixavam de ser objetivos exclusivamente nacionais para se transformarem em valores universais.

Pouco depois, a 14 de agosto de 1941, Roosevelt e Winston Churchill subscreveram a Carta do Atlântico, onde aqueles princípios começaram a adquirir expressão política internacional. Em 1 de janeiro de 1942, vinte e seis países assinaram a Declaração das Nações Unidas, utilizando pela primeira vez a designação que viria a identificar a futura organização internacional. A expressão «Nações Unidas» foi sugerida pelo próprio Roosevelt.

Transformar estes ideais numa instituição exigiu um intenso trabalho diplomático. Entre agosto e outubro de 1944, representantes dos Estados Unidos, do Reino Unido, da União Soviética e da China reuniram-se em Dumbarton Oaks, em Washington, para elaborar o primeiro projeto da futura Carta das Nações Unidas. Ali foram desenhadas as estruturas fundamentais da organização: a Assembleia Geral, o Conselho de Segurança, o Tribunal Internacional de Justiça, o Conselho Económico e Social e o Secretariado.

Esse projeto seria posteriormente aperfeiçoado na Conferência de São Francisco, entre abril e junho de 1945, reunindo delegados de cinquenta países. O resultado foi a Carta das Nações Unidas, provavelmente o mais importante tratado político do século XX.

Também os símbolos possuem significado. A sede permanente das Nações Unidas ergue-se em Nova Iorque num terreno oferecido em 1946 por John D. Rockefeller Jr. A doação ultrapassou largamente o seu valor material. Representou a convicção de que a paz necessita de um lugar permanente onde o diálogo possa preceder o confronto e onde a palavra tenha sempre precedência sobre as armas.

Mas as Nações Unidas não nasceram apenas da diplomacia. Nasceram igualmente da reflexão filosófica.

Quando terminou a guerra, tornou-se evidente que a paz não poderia assentar exclusivamente em equilíbrios militares ou económicos. Era necessário encontrar um fundamento ético comum que pudesse ser reconhecido por povos de culturas, religiões e sistemas políticos profundamente diferentes.

Foi neste contexto que a UNESCO promoveu um amplo inquérito internacional junto de filósofos, juristas e pensadores de diversas civilizações sobre os fundamentos dos direitos humanos. Coube a Jacques Maritain coordenar intelectualmente esse diálogo. O seu extraordinário mérito consistiu em demonstrar que era possível alcançar um consenso prático sobre os direitos fundamentais da pessoa, mesmo permanecendo divergências quanto aos seus fundamentos filosóficos. Daí a sua célebre afirmação: «Estamos de acordo acerca destes direitos, desde que ninguém nos pergunte porquê.»

Longe de representar um relativismo moral, esta observação revelava uma profunda sabedoria política. Antes de discutir as razões últimas da dignidade humana, importava garantir que nenhuma pessoa voltaria a ser privada dela por causa da sua raça, religião, nacionalidade ou condição social. A experiência dramática do Holocausto e dos restantes totalitarismos tornara essa evidência irrecusável.

Este ambiente intelectual influenciou profundamente os trabalhos da Comissão dos Direitos Humanos das Nações Unidas, presidida por Eleanor Roosevelt, da qual fizeram parte René Cassin, Charles Malik, Peng-chun Chang e John Humphrey. Daí nasceu, em 10 de dezembro de 1948, a Declaração Universal dos Direitos Humanos, talvez o documento mais importante da história contemporânea.

Também a tradição cristã reconheceu rapidamente a importância deste caminho. Em 1963, São João XXIII publicou a encíclica Pacem in Terris, onde propôs uma visão da paz construída sobre quatro pilares inseparáveis: a verdade, a justiça, o amor e a liberdade. Pela primeira vez, um documento do magistério pontifício reconhecia explicitamente o papel das Nações Unidas e da Declaração Universal dos Direitos Humanos como instrumentos privilegiados para a construção do bem comum universal.

É difícil não reconhecer a convergência destas três grandes figuras do século XX. Roosevelt recordou que a paz só pode existir onde existem liberdades fundamentais. Maritain demonstrou que diferentes culturas podem encontrar-se na sua comum humanidade. João XXIII mostrou que a paz não é apenas um equilíbrio político, mas uma exigência moral fundada na dignidade da pessoa. Política, filosofia e teologia encontraram-se, assim, numa mesma visão humanista.

Naturalmente, oitenta anos depois, o balanço das Nações Unidas permanece ambivalente. A organização falhou em impedir numerosas guerras, revelou limitações perante genocídios, sofreu bloqueios impostos pelos interesses das grandes potências e enfrenta hoje desafios que os seus fundadores dificilmente poderiam imaginar.

Contudo, seria injusto ignorar a outra face da sua história. As Nações Unidas acompanharam a descolonização de dezenas de países, consolidaram o direito internacional, promoveram os direitos humanos, impulsionaram o direito do mar, organizaram centenas de missões de manutenção da paz, combateram epidemias, protegeram milhões de refugiados e criaram uma cultura de cooperação internacional sem precedentes na história da humanidade.

Talvez o maior risco do nosso tempo não seja apenas o regresso da guerra. É o esquecimento das ideias que estiveram na origem da própria organização. Quando as liberdades deixam de ser universais; quando a dignidade humana passa a depender da nacionalidade, da religião, da etnia, da ideologia ou da condição económica; quando a força pretende novamente substituir o direito, regressamos exatamente ao mundo que as Nações Unidas quiseram impedir.

As Nações Unidas nunca foram chamadas a instaurar um paraíso na Terra. A sua missão sempre foi mais modesta, mas também mais realista: impedir que a humanidade volte a construir o seu próprio inferno.

Oitenta anos depois, permanece atual a pergunta colocada, implicitamente, por Roosevelt em 1941: que mundo queremos legar às gerações futuras?

Enquanto a resposta continuar a passar pela liberdade, pela dignidade da pessoa, pela justiça e pela paz, o espírito das Quatro Liberdades permanecerá vivo. As instituições podem envelhecer e necessitar de reforma. Os princípios que exprimem a verdade sobre o ser humano, esses, permanecem.

Talvez seja este, afinal, o maior legado das Nações Unidas ao fim de oito décadas: recordar que a paz não nasce do equilíbrio do medo nem da hegemonia dos poderosos. Nasce do reconhecimento de que cada ser humano, simplesmente por o ser, possui uma dignidade inviolável. Enquanto esta verdade permanecer viva na consciência dos povos, permanecerá igualmente viva a esperança que inspirou os fundadores das Nações Unidas.

Francisco Vaz

1 de julho de 2026


Do Génesis à Divina Comédia

Uma alegoria sobre o humor divino, a liberdade humana e as eternas azelhices da criatura.

Há uma hipótese que, naturalmente, não consta em qualquer tratado de teologia, mas que merece, pelo menos, um sorriso filosófico: talvez a história da humanidade possa ser lida como a mais longa comédia alguma vez representada.

Não porque Deus tenha criado o homem para dele troçar, mas porque só um infinito sentido de humor poderia acompanhar, sem desistir da obra, a sucessão interminável de equívocos produzidos pela criatura dotada de liberdade.

Tudo começa no Génesis. O cenário é perfeito. O jardim é paradisíaco. A criação termina com uma exclamação de satisfação: «E Deus viu que tudo era muito bom.» A peça parecia destinada ao género da contemplação. Mas bastaram poucas páginas para surgir o primeiro ato cómico. Deus diz: «De toda a árvore podes comer, menos desta.» O ser humano, com a criatividade que o acompanhará para sempre, conclui imediatamente que a única árvore realmente interessante só pode ser precisamente essa.

É o primeiro grande momento da comédia humana: transformar a única exceção na única prioridade.

Segue-se o célebre interrogatório. «Adão, onde estás?» Como se Deus ignorasse a resposta. A pergunta não procura informação; procura consciência. Mas Adão responde como responderão milhões dos seus descendentes: não assume a responsabilidade, procura um culpado: «A mulher que me deste…». Eva, por sua vez, remete a culpa para a serpente. A serpente, infelizmente, não dispõe de advogado.

Desde então, a humanidade aperfeiçoou o método. Descobrimos a política, onde a culpa pertence sempre ao governo anterior; a economia, onde a responsabilidade é dos mercados; a meteorologia, onde tudo se explica pelas alterações climáticas; e as redes sociais, onde cada um possui a verdade absoluta durante quinze minutos.

Entretanto, Deus continua, por assim dizer, a assistir à representação. Não como um espectador que se diverte com o sofrimento das personagens, mas como um autor paciente que sabe que a liberdade implica a possibilidade permanente do disparate. Um criador de marionetas controla os fios; um criador de pessoas aceita o risco da improvisação.

Talvez seja precisamente aí que reside o humor divino: conceder inteligência suficiente para descobrir as leis do universo e, ao mesmo tempo, observar os mesmos seres humanos discutirem por um pedaço de terra, uma herança ou um lugar de honra à mesa.

Construímos telescópios capazes de observar galáxias a milhares de milhões de anos-luz e, logo a seguir, perdemos meia hora à procura dos óculos que temos pousados na cabeça. Inventamos a penicilina e a inteligência artificial, mas continuamos incapazes de ler as instruções e montar uma simples estante sem sobrarem meia dúzia de parafusos.

A história torna-se assim uma sucessão de atos em que convivem o sublime e o ridículo. A mesma humanidade que ergue catedrais, compõe sinfonias, escreve Shakespeare, pinta Miguel Ângelo ou descobre a estrutura do ADN é também capaz de iniciar guerras por vaidade, destruir o que levou séculos a construir e repetir, geração após geração, os mesmos erros com uma surpreendente convicção de originalidade.

Talvez por isso a expressão Divina Comédia encerre uma intuição mais profunda do que parece. Não porque a criação seja uma piada, mas porque o drama humano é frequentemente atravessado por um humor involuntário. Somos simultaneamente heróis e trapalhões, sábios e distraídos, criados à imagem do Logos e continuamente tentados pelo absurdo.

O Génesis pode, assim, ser entendido como o prólogo desta imensa representação. Não uma comédia destinada a ridicularizar o homem, mas uma comédia onde a liberdade humana revela, a cada passo, a distância entre aquilo que somos e aquilo que poderíamos ser.

E talvez o riso de Deus — se é legítimo imaginá-lo — não seja um riso de escárnio, mas de infinita ternura. O mesmo sorriso de um pai que vê o filho cair pela centésima vez enquanto aprende a caminhar. Sabe que a queda faz parte do caminho. E continua, pacientemente, a estender-lhe a mão.

No fim, a verdadeira graça da história não está nas nossas azelhices, mas no facto de, apesar delas, a criação continuar aberta à esperança. Afinal, se o Génesis inaugura a grande comédia da liberdade, é porque o Autor nunca deixou de acreditar que a última palavra não pertencerá ao ridículo, mas ao amor.

Francisco Vaz

1 de julho de 2026