Pecado original

Pecado original

terça-feira, 30 de junho de 2026

Verona cidade de Romeu e Julieta

O génio de Shakespeare e o milagre da palavra

Muito antes de William Shakespeare escrever Romeu e Julieta, a história já existia. O escritor italiano Luigi da Porto dera-lhe forma no século XVI, situando-a em Verona, atribuindo aos amantes os nomes de Romeu Montecchi e Giulietta Cappelletti e narrando o drama de duas famílias consumidas pelo ódio. Outros autores retomaram a narrativa e acrescentaram-lhe novos elementos. A matéria-prima estava criada.

Mas uma grande obra não nasce apenas da originalidade do enredo. Nasce, sobretudo, da forma como esse enredo é transfigurado pelo génio criador.

Foi isso que Shakespeare realizou.

Há quem pense que o génio consiste em inventar histórias nunca antes contadas. É uma ideia sedutora, mas incompleta. A experiência humana é relativamente constante: o amor, a morte, a amizade, a traição, a esperança, o medo e o perdão atravessam todas as épocas. O verdadeiro génio manifesta-se quando alguém encontra a forma perfeita de dizer aquilo que todos sentem, mas ninguém conseguira ainda exprimir.

Costuma dizer-se que Shakespeare possuía uma qualidade rara: sabia qual era a palavra mais adequada para colocar a seguir a qualquer outra palavra. Esta observação, aparentemente simples, encerra uma profunda verdade sobre a natureza da criação artística.

As palavras não são meros instrumentos de comunicação. São a matéria com que se constrói o pensamento e se revela a realidade. Entre possibilidades quase infinitas, existe por vezes uma única palavra capaz de dar à frase o seu ritmo, a sua beleza, a sua verdade e a sua força emocional. Encontrá-la exige muito mais do que técnica. Exige uma inteligência que escuta a própria música da linguagem e uma sensibilidade capaz de reconhecer a ordem escondida das coisas.

É por isso que Shakespeare não apenas contou uma história de amor. Fez dela um espelho da condição humana.

Em Romeu e Julieta, a paixão confronta-se com o ódio, a juventude com a tradição, a liberdade com o destino, a esperança com a morte. O drama dos dois amantes ultrapassa a sua época porque revela uma verdade permanente: os maiores conflitos da humanidade raramente nascem da falta de amor, mas da incapacidade de vencer preconceitos, rivalidades e paixões herdadas.

Talvez seja essa a maior lição da obra.

Cada geração continua a construir os seus próprios Montecchi e Cappelletti. Mudam os nomes, mudam as ideologias, mudam as bandeiras e as causas, mas permanece a tendência para dividir o mundo entre “nós” e “eles”. E, enquanto isso acontece, continuam a morrer muitos “Romeus” e muitas “Julietas”: pessoas sacrificadas em nome de conflitos que nunca escolheram.

Verona conserva a memória dessa história. Shakespeare concedeu-lhe a eternidade.

A grande literatura realiza precisamente este milagre: parte do particular para alcançar o universal, transforma um episódio numa parábola da existência e faz com que, séculos depois, continuemos a reconhecer-nos nas suas personagens.

É essa a marca dos verdadeiros génios. Não são apenas criadores de histórias. São reveladores da condição humana. E fazem-no através do mais humilde e, simultaneamente, do mais poderoso dos instrumentos: a palavra certa, colocada exatamente no lugar onde nenhuma outra poderia estar.

Francisco Vaz

30 de junho de 2026


domingo, 28 de junho de 2026

As Duas Humanidades

A ficção das duas humanidades e a verdade da única condição humana

Uma das maiores ilusões políticas, religiosas e ideológicas da história consiste em acreditar que existem duas humanidades: a dos bons e a dos maus.

Curiosamente, quem traça essa fronteira nunca se coloca do lado errado. O bem coincide sempre consigo próprio; o mal coincide invariavelmente com o outro. É uma tentação tão antiga como o Homem e tão persistente quanto as guerras, as revoluções e os fanatismos.

Cada época muda apenas os nomes. Uns falam de crentes e infiéis; outros de revolucionários e reacionários; de patriotas e traidores; de progressistas e conservadores; de oprimidos e opressores. A linguagem altera-se, mas a estrutura permanece: primeiro divide-se a humanidade em duas espécies; depois deixa de se reconhecer plenamente a humanidade daqueles que ficaram do outro lado.

É precisamente aqui que a ironia de Cervantes permanece atual. Em Don Quixote, de Miguel de Cervantes, não existem duas humanidades. Existem dois modos de olhar o mundo que habitam a mesma condição humana. Dom Quixote e Sancho Pança não são o bem e o mal. São duas dimensões inseparáveis do Homem: idealismo e realismo, sonho e prudência, entusiasmo e sensatez. Um aprende com o outro porque nenhum possui toda a verdade.

O maniqueísmo, pelo contrário, impede qualquer aprendizagem. Se o outro pertence à "outra humanidade", deixa de ser interlocutor para se tornar obstáculo. Já não é alguém a compreender, mas alguém a corrigir, converter, derrotar ou eliminar.

Talvez por isso as maiores tragédias da história tenham começado sempre pela mesma operação intelectual: deixar de falar em pessoas para falar em categorias. A partir desse momento, a consciência adormece. O indivíduo desaparece atrás do rótulo e a dignidade cede lugar à abstração. Foi assim que tantos totalitarismos e fanatismos conseguiram justificar o injustificável: antes de eliminar pessoas, eliminaram a sua humanidade.

A realidade é bem menos confortável do que as narrativas maniqueístas. Em cada ser humano coexistem generosidade e egoísmo, coragem e medo, lucidez e ilusão. Não somos Dom Quixote ou Sancho Pança; somos ambos. A condição humana não é uma mistura de contrários, mas uma simbiose de dimensões inseparáveis, cuja unidade torna possível o discernimento, a ação e o aperfeiçoamento moral.

É precisamente por isso que se torna insustentável a pretensão de dividir a humanidade entre "os bons" e "os maus". O maniqueísmo simplifica aquilo que a realidade humana revela ser irredutivelmente complexo. Cada pessoa traz em si a possibilidade do melhor e do pior; é a liberdade, exercida na responsabilidade, que determina o rumo da sua existência. A ética não é um privilégio de uma suposta humanidade dos justos, mas uma tarefa permanente de todos os seres humanos.

Talvez seja essa a mais subtil ironia de Cervantes. Dom Quixote e Sancho Pança não representam duas humanidades, nem dois mundos inconciliáveis. Representam a unidade profunda da condição humana. Quem insiste em dividir o mundo entre puros e impuros, justos e injustos, acaba por esquecer que aquilo que verdadeiramente nos une não é a perfeição, mas a comum fragilidade e a comum capacidade de nos elevarmos acima dela.

Existe apenas uma humanidade: imperfeita, livre e sempre chamada a escolher entre o bem e o mal. É precisamente essa possibilidade de escolha que fundamenta a dignidade de cada pessoa e torna impossível reduzir qualquer ser humano à caricatura de "bom" ou de "mau". A verdadeira fronteira ética nunca passa entre "nós" e "eles"; atravessa silenciosamente o coração de cada homem e de cada mulher. É nessa interioridade que se decide, a cada instante, qual das possibilidades humanas será atualizada. Não existem, pois, duas humanidades. Existe uma única humanidade, chamada incessantemente a transformar a sua fragilidade em virtude e a reconhecer no outro, mesmo quando pensa de modo diferente, um semelhante em dignidade e em destino.

Francisco Vaz

28 de junho de 2026

sábado, 27 de junho de 2026

Verona: um jardim, quatro símbolos

 e uma lição de humanidade

Há lugares que se visitam. Outros, porém, contemplam-se. Não apenas com os olhos, mas com a inteligência e a memória. O Jardim Vittorio Emanuele II, situado no lado poente da Arena de Verona, é um desses lugares.

Os mais distraídos talvez passem por ele sem reparar. No entanto, em poucas dezenas de metros, encontram-se reunidos quatro símbolos que parecem condensar toda a condição humana: um memorial aos mártires dos campos de extermínio nazis; um monumento aos soldados que tombaram pela liberdade; a majestosa Arena de Verona; e os cinco anéis olímpicos, símbolo da fraternidade entre os povos através do desporto.

Não creio que seja apenas uma coincidência urbanística. É como se a cidade tivesse inscrito, neste espaço, uma verdadeira pedagogia da humanidade.

A pedra que evoca Auschwitz, Dachau, Mauthausen, Bergen-Belsen, Ravensbrück ou Sachsenhausen recorda até onde pode descer uma civilização quando deixa de reconhecer, em cada pessoa, uma dignidade absoluta e inviolável. O mal manifesta-se precisamente quando o outro deixa de ser visto como um fim em si mesmo para passar a ser reduzido a um instrumento, um obstáculo ou, no limite, um inimigo a eliminar.

O memorial dedicado aos que morreram pela liberdade lembra-nos, por sua vez, que esta nunca foi uma conquista gratuita. Cada geração recebeu-a porque outras, antes dela, aceitaram pagar o seu preço mais elevado. A liberdade não é apenas um direito; é também uma responsabilidade moral que exige coragem para ser preservada.

E, contudo, mesmo no coração da barbárie, o mal nunca conseguiu alcançar uma vitória absoluta. Nos campos de concentração houve quem escrevesse poemas, quem desenhasse, quem tocasse música, quem rezasse e quem repartisse o último pedaço de pão. Gestos aparentemente insignificantes, mas que preservavam aquilo que nenhum carrasco podia destruir: a liberdade interior. A arte deixou então de ser apenas expressão da beleza para se tornar resistência da própria humanidade.

A poucos metros destes memoriais ergue-se a Arena de Verona. Durante séculos foi palco de combates e espetáculos onde a violência era entretenimento. Hoje é um dos maiores templos mundiais da música e da cultura. Ontem, ao escutar Va, pensiero, de Giuseppe Verdi, senti milhares de pessoas unidas pela mesma emoção. A Arena tornou-se símbolo da capacidade humana de transformar lugares outrora associados à violência em espaços de beleza, comunhão e esperança. Talvez seja essa uma das mais profundas vitórias da civilização.

Como se este percurso simbólico não estivesse ainda completo, surgem os cinco anéis olímpicos. Não representam apenas um evento desportivo. Representam uma ideia de humanidade. Depois da memória do mal absoluto, da memória daqueles que deram a vida pela liberdade e da celebração da arte, aparece a esperança de uma paz construída pelo encontro entre os povos.

O ideal olímpico recorda-nos que o outro não tem de ser um inimigo a destruir, mas um adversário cuja excelência nos desafia a sermos melhores. A competição deixa de significar hostilidade para se tornar reconhecimento mútuo. Vencer já não consiste em aniquilar o outro, mas em superar-se a si mesmo. A força deixa de servir a dominação para se colocar ao serviço da realização da pessoa humana.

Também por isso, o desporto, quando vivido segundo o seu espírito mais autêntico, constitui uma verdadeira escola de paz. Educa para a disciplina, para o respeito pelas regras, para a justiça, para a amizade entre os povos e para a compreensão de que o bem comum vale mais do que qualquer triunfo individual. Onde a guerra procura eliminar o adversário, o desporto procura elevá-lo, porque só um adversário digno torna possível uma vitória digna.

A tradição filosófica ensina-nos que o mal não possui substância própria. Não é um princípio do ser, mas uma privação do bem. Todavia, essa privação torna-se tragicamente real quando se traduz em escolhas humanas que recusam a verdade, a justiça e o amor. Auschwitz não foi uma fatalidade da história; foi o resultado de decisões concretas que negaram a humanidade do outro.

Por isso, o mal nunca poderá ser vencido por outro mal. Só o bem possui verdadeira capacidade criadora. Só a verdade desfaz a mentira. Só a justiça derrota a opressão. Só a beleza resiste à destruição. Só o amor restaura aquilo que o ódio procura destruir.

Talvez esta seja a mais profunda lição que Verona oferece a quem sabe parar para contemplar. Num único jardim encontram-se reunidos quatro dos mais elevados caminhos da humanidade: a memória, que impede o esquecimento; o sacrifício, que torna possível a liberdade; a arte, que eleva o espírito; e o desporto, que transforma a rivalidade em fraternidade.

Que nunca nos esqueçamos. A memória não ressuscita os mortos, mas pode salvar os vivos. E enquanto houver quem escolha a verdade, a justiça, a beleza, a amizade entre os povos e o amor, o mal jamais terá a última palavra.

Francisco Vaz

27 de junho de 2026

Uma noite na Arena

quando a música toca a eternidade

Há experiências que se podem descrever. Há outras que apenas se podem viver. A récita de Nabucco, de Giuseppe Verdi, na Arena de Verona pertence a esta segunda categoria. Ontem, ao assistir ao vivo àquela que foi a ópera que lançou definitivamente Verdi para a história da música, cumpri dois sonhos antigos: conhecer um dos mais emblemáticos teatros do mundo ao ar livre e ouvir, naquele espaço único, uma das obras maiores do repertório operático.

A produção reuniu um elenco de grande qualidade, capaz de dar vida às intensas personagens criadas por Verdi. O protagonista encarnou um Nabucco simultaneamente poderoso e vulnerável; Abigaille impressionou pela extraordinária exigência vocal e dramática do papel; Zaccaria conferiu profundidade espiritual à narrativa; Fenena e Ismaele completaram um conjunto de elevado nível artístico, apoiado por um coro magnífico e por uma orquestra que soube revelar toda a riqueza da escrita verdiana sob a direção de um maestro de excecional sensibilidade.

Mas a verdadeira protagonista da noite foi, uma vez mais, a Arena de Verona. Entrar naquele anfiteatro romano é entrar em mais de dois mil anos de história. As pedras parecem guardar a memória de sucessivas gerações que ali procuraram beleza, emoção e sentido. Quando o sol se desvanece e a noite envolve lentamente as arquibancadas, cria-se uma atmosfera difícil de traduzir por palavras. A música deixa de ser apenas som para se transformar numa experiência coletiva. Cerca de dez mil pessoas respiram ao mesmo ritmo, partilhando o mesmo silêncio, a mesma expectativa e a mesma emoção. Durante algumas horas, desaparecem as diferenças de língua, de nacionalidade ou de cultura. Todos são simplesmente seres humanos unidos pela arte.

O momento culminante chegou com o célebre «Va, pensiero, sull'ali dorate», o coro dos escravos hebreus exilados na Babilónia. Poucas páginas da história da música conseguiram condensar tão profundamente a nostalgia da pátria, o sofrimento do exílio e a esperança da liberdade. O coro tornou-se, desde o século XIX, um símbolo da identidade italiana durante o Risorgimento, exprimindo o desejo de um povo que aspirava à unidade e à libertação. Mas a sua força ultrapassa largamente esse contexto histórico.

Na Arena, a emoção foi tão intensa que os aplausos pareciam não ter fim. Durante longos minutos, cerca de dez mil espectadores levantaram-se para agradecer aquele momento irrepetível. O maestro compreendeu que a música ainda não terminara no coração do público. E aconteceu aquilo que apenas sucede em ocasiões verdadeiramente excecionais: o «Va, pensiero» foi repetido. Não como um simples bis, mas como um gesto de comunhão entre intérpretes e espectadores. A segunda execução já não foi apenas música; foi memória, gratidão e esperança transformadas em som.

Compreendi, então, porque razão esta página continua a emocionar homens e mulheres de todas as épocas. Todos conhecemos alguma forma de exílio. Nem sempre é geográfico. Há exílios interiores, perdas, separações, sonhos adiados, saudades de pessoas, lugares ou tempos que nunca regressarão. O «Va, pensiero» fala dessa condição universal. Recorda-nos que o ser humano vive sempre entre a memória do que perdeu e a esperança do que ainda pode alcançar. É precisamente por isso que permanece atual.

Essa capacidade de tocar o universal distingue a obra de Giuseppe Verdi. A sua música não procura apenas deslumbrar pela beleza melódica ou pela perfeição dramática. Procura compreender o Homem. Em Nabucco, como em RigolettoLa TraviataDon CarloAida ou Otello, encontramos personagens confrontadas com o poder, o amor, a culpa, o perdão, a liberdade e a morte. As suas óperas são verdadeiras reflexões sobre a condição humana, onde cada nota serve a verdade dramática e cada silêncio possui significado.

O legado de Verdi ultrapassa, por isso, o domínio da música. É um legado cultural, porque ajudou a moldar a identidade italiana e europeia. É um legado artístico, porque elevou a ópera a uma das mais completas expressões da criação humana. Mas é, acima de tudo, um legado profundamente humano. Verdi acreditava que a arte devia falar ao coração de todos e não apenas a uma elite. As suas melodias tornaram-se património comum porque exprimem sentimentos que pertencem à humanidade inteira.

Quando terminou a récita e as luzes da Arena se começaram lentamente a apagar, permaneci durante alguns instantes em silêncio. Não havia pressa em regressar. Sentia que saía daquele lugar um pouco diferente daquele que nele entrara. A verdadeira arte possui esta capacidade discreta de nos transformar sem violência, apenas pela contemplação da beleza.

Ontem não assisti apenas a uma representação de Nabucco. Vivi uma experiência profundamente humana, espiritual e estética. Levo comigo a memória daquela noite, das vozes, da orquestra, do coro, das pedras milenares da Arena e dos aplausos intermináveis de milhares de pessoas unidas pela mesma emoção.

A Giuseppe Verdi, cujo génio continua a falar ao mundo quase cento e vinte e cinco anos após a sua morte, deixo a minha homenagem e a minha mais profunda gratidão. Porque há obras que não terminam quando cai o pano. Continuam a ecoar dentro de nós, lembrando-nos que a beleza é uma das formas mais elevadas da verdade e que, enquanto houver música capaz de tocar a alma humana, haverá sempre esperança para a humanidade.

Francisco Vaz

27 de junho de 2026

Nota

A  representação de Nabucco a que assisti contou com um elenco de elevado nível artístico: Amartuvshin Enkhbat no papel de Nabucco, Maria José Siri como Abigaille, Annalisa Stroppa (Fenena), Roberto Tagliavini (Zaccaria), Galeano Salas (Ismaele), Nicolò Ceriani (Grande Sacerdote de Belo), Carlo Bosi (Abdallo) e Elisabetta Zizzo (Anna), sob a direção musical do maestro Michele Spotti. A encenação, assinada por Stefano Poda, revelou uma notável coerência estética, conjugando monumentalidade com uma leitura simbólica da obra de Verdi.

Verona, shakspeare e Verdi

Ou da imortalidade dos génios

Antes de entrar na Arena para assistir a Nabucco, é quase inevitável recordar que Verona é também uma cidade profundamente marcada por duas figuras que nunca chegaram verdadeiramente a viver nela, mas que a tornaram imortal: William Shakespeare e Giuseppe Verdi. Um fê-lo pela literatura; o outro, pela música. Ambos transformaram Verona num espaço simbólico onde as paixões humanas atingem a sua máxima intensidade.

Shakespeare nunca esteve comprovadamente em Verona. A cidade foi para ele uma criação imaginada, construída a partir de relatos de viajantes e de novelas italianas. Ainda assim, nenhuma outra cidade está tão associada ao seu nome. Foi aqui que situou Romeu e Julieta, Os Dois Cavalheiros de Verona e parte da ação de A Megera Domada. A Verona de Shakespeare não é um lugar geográfico, mas um arquétipo: a cidade onde o amor, a honra, a violência e a reconciliação revelam a profundidade da condição humana.

Verdi, pelo contrário, esteve diversas vezes em Verona. Regeu e assistiu a representações das suas óperas no Teatro Filarmonico e manteve uma estreita relação com a vida musical da cidade. Contudo, foi depois da sua morte que Verona se tornou um dos grandes santuários da sua obra. Desde 1913, quando Giovanni Zenatello organizou a primeira representação de Aida na Arena di Verona para celebrar o centenário do nascimento do compositor, a Arena passou a ser um dos palcos verdianos mais importantes do mundo. Hoje, assistir aqui a Nabucco, Aida, La Traviata ou Rigoletto é quase um ato de peregrinação musical.

Há, porém, uma afinidade muito mais profunda entre estes dois génios do que a simples ligação a Verona.

Ambos compreenderam que a grande arte nasce da universalidade da experiência humana. Shakespeare escreveu sobre reis e mendigos, sobre amantes e assassinos, mas, em todos eles, procurou revelar o drama da liberdade humana. Verdi fez exatamente o mesmo através da música. As suas personagens não são vozes destinadas apenas ao virtuosismo vocal; são consciências em conflito, almas dilaceradas entre o dever, a ambição, o amor, o poder e o remorso.

Não é por acaso que Verdi encontrou em Shakespeare o dramaturgo que mais admirava. Via nele uma capacidade única para penetrar o mistério da alma humana. Daí nasceram três das suas obras-primas: Macbeth, Otello e Falstaff. Em nenhuma delas procurou simplesmente ilustrar o texto original; antes prolongou-o através da linguagem musical, dando voz ao que as palavras já não conseguiam dizer.

As diferenças entre ambos são igualmente reveladoras. Shakespeare exprime-se pelo Logos da palavra. O drama nasce do diálogo, da metáfora e do silêncio. Verdi exprime-se pelo Logos da música. Onde Shakespeare descreve o remorso de Macbeth, Verdi faz-nos ouvi-lo. Onde Shakespeare escreve o ciúme de Otelo, Verdi transforma-o numa tensão orquestral quase insuportável. A literatura explica; a música faz experimentar.

Existe ainda outro traço comum. Nenhum deles se limitou ao seu tempo histórico. Shakespeare escreveu para o teatro londrino do século XVI, Verdi para a ópera italiana do século XIX. No entanto, ambos continuam contemporâneos porque tocaram aquilo que permanece invariável no ser humano: a liberdade, o amor, o mal, a culpa, a esperança, o perdão e a morte.

Talvez seja essa a verdadeira razão pela qual Verona continua a ser um lugar privilegiado para pensar estes dois génios. A cidade conserva vestígios romanos, medievais e renascentistas, mas o seu património mais duradouro não é apenas arquitetónico. É espiritual. Shakespeare deu-lhe uma geografia da alma; Verdi deu-lhe uma voz. Um fez da cidade literatura; o outro fez dela música. E ambos demonstraram que a verdadeira genialidade consiste em transformar um lugar concreto num espaço universal, onde cada geração continua a reconhecer-se.

Francisco Vaz

27 de junho de 2026


Verona e a Memória da Europa

Como as igrejas medievais revelam a vocação espiritual, cultural e civilizacional que moldou o Ocidente.

Ao visitar ontem a Basílica de San Fermo Maggiore e, hoje, a Basílica de Santa Anastasia e a Catedral de Verona, reforçou-se em mim uma convicção que há muito se vinha consolidando: o património espiritual e cultural que os nossos antepassados, sobretudo durante a Idade Média, nos legaram constitui um dos maiores tesouros da humanidade.

Estas igrejas não são apenas monumentos de pedra. São a memória viva de uma época que se compreendia a si própria como uma obra inacabada, em permanente construção. Uma catedral não se erguia em cinco ou dez anos. Muitas levaram mais de um século a concluir. Quem lançava os alicerces sabia que dificilmente veria a obra terminada. Construía, não para si, mas para os vindouros. Havia uma consciência profunda de pertença a uma história maior do que a própria existência individual e uma vocação assumida para a transcendência.

É precisamente esta visão do tempo que impressiona. Hoje habituámo-nos ao imediato, ao efémero e ao descartável. Naquele tempo, porém, construía-se para séculos. A pedra era expressão de uma esperança que ultrapassava uma geração. A beleza não era um luxo; era uma forma de glorificar Deus e, simultaneamente, de elevar o espírito humano.

Por isso, surpreende ouvir repetir que a Idade Média foi apenas uma «idade das trevas» ou do obscurantismo. Tal afirmação revela, muitas vezes, uma incapacidade de olhar para as evidências. Basta entrar numa destas igrejas para perceber que ali convergem arquitetura, engenharia, escultura, pintura, música, teologia, filosofia e organização social de uma complexidade extraordinária. Uma civilização capaz de criar semelhante património dificilmente pode ser reduzida a um estereótipo de ignorância. Basta olhar e ver.

Recordo, por isso, as palavras de Papa João Paulo II na exortação apostólica Ecclesia in Europa, quando afirmava que a Europa continua a possuir um tesouro para oferecer ao mundo: a esperança que brota de Jesus Cristo e da herança espiritual que moldou o continente. A Igreja, dizia ele, conserva um património capaz de contribuir decisivamente para a construção de uma Europa de valores e de povos. (vatican.va)

Infelizmente, muitos europeus parecem ignorar que a história da Europa é, em larga medida, a história do cristianismo. Desconhecem que grande parte da nossa arte, da nossa cultura, das universidades, dos hospitais, das liberdades locais, da preservação do saber clássico, do desenvolvimento agrícola e do comércio floresceu graças ao trabalho paciente de mosteiros, conventos e ordens religiosas que, durante séculos, procuraram servir o bem comum e orientar a existência humana para o seu sentido último.

Naturalmente, a história europeia conheceu também conflitos, injustiças e contradições. Mas esses factos não anulam o legado extraordinário que recebemos. Pelo contrário, convidam-nos a compreendê-lo na sua complexidade e a reconhecer que a identidade europeia nasceu do diálogo fecundo entre a herança greco-romana, a tradição judaico-cristã e o génio criador das gerações medievais.

Percorrendo Verona, compreendo melhor que estas igrejas não pertencem apenas aos crentes. Pertencem à humanidade. São testemunhos de uma civilização que acreditava que o homem se realiza quando procura a verdade, cultiva a beleza e se abre à transcendência. Talvez o maior desafio da Europa contemporânea não seja construir novos monumentos, mas voltar a reconhecer o sentido daqueles que já possui. Porque um povo que perde a memória do que o formou dificilmente encontrará o caminho do seu futuro.

Francisco Vaz

27 de junho de 2026

O Arco da Paz ou o Triunfo da Guerra

Da Roma imperial a Napoleão e ao domínio austríaco: a história de um monumento que revela as contradições da política.

O Arco della Pace, erguido na entrada do Parco Sempione, em Milão, é um daqueles monumentos que parecem falar uma linguagem diferente da inscrita no seu próprio nome. É chamado Arco da Paz, mas a sua forma, inspirada nos arcos triunfais da Roma Antiga, evoca antes a vitória militar do que a reconciliação entre os povos.

A sua história é, aliás, profundamente reveladora. A construção iniciou-se durante o domínio de Napoleão Bonaparte para celebrar as vitórias do Império Francês. Com a derrota de Napoleão, a obra foi interrompida. Mais tarde, seriam precisamente os austríacos, vencedores das guerras napoleónicas e novos dominadores da Lombardia, a concluí-la, dedicando-a igualmente à paz. O mesmo monumento serviu, assim, para glorificar dois regimes antagónicos, ambos convencidos de que a sua vitória representava a verdadeira paz.

Este é um dos grandes paradoxos da história política. Raramente um poder se apresenta como promotor da guerra. Quase todos afirmam combater para alcançar a paz. Napoleão dizia levar à Europa os ideais da Revolução e uma nova ordem política. Os austríacos apresentavam-se como restauradores da estabilidade e do equilíbrio europeu. Antes deles, o Império Romano proclamava a Pax Romana, fruto das suas conquistas. Depois deles, quantos outros impérios, ideologias e nações justificaram as suas guerras em nome da paz?

O paradoxo é ainda mais profundo. A paz, enquanto realidade humana, não pode ser reduzida à simples ausência de guerra. A ausência de guerra obtida pela submissão do vencido não é necessariamente paz; pode ser apenas silêncio imposto pela força. A paz autêntica exige justiça, reconhecimento da dignidade do outro e uma ordem livremente aceite. Quando nasce exclusivamente da superioridade militar, permanece sempre provisória, porque conserva em si as sementes do conflito futuro.

O Arco della Pace acaba, por isso, por testemunhar uma das maiores ambiguidades da condição humana: a facilidade com que confundimos vitória com justiça e domínio com paz. A linguagem política apropria-se das palavras mais nobres para legitimar os meios mais violentos. A guerra passa a ser apresentada como caminho inevitável para a paz, esquecendo que a violência possui uma lógica própria e tende a perpetuar-se.

Talvez seja esta a verdadeira lição daquele monumento. Mais do que celebrar os vencedores de uma época, convida-nos a desconfiar das narrativas triunfalistas da história. Os regimes sucedem-se, as bandeiras mudam, os conquistadores transformam-se em conquistados, mas todos reivindicam para si o mesmo ideal de paz. A pedra permanece; os impérios passam.

A verdadeira paz não se mede pelo número de batalhas vencidas nem pela grandeza dos monumentos erguidos em sua honra. Mede-se pela capacidade de uma sociedade construir justiça sem recorrer à violência como fundamento permanente da ordem. Enquanto a humanidade continuar a necessitar de arcos triunfais para celebrar a paz, talvez ainda não tenha compreendido plenamente o significado da própria paz.

Francisco Vaz 

27 de junho de 206


quinta-feira, 25 de junho de 2026

Casa Verdi

uma peregrinação

visita à Casa Verdi, em Milão, foi, para mim, um dos momentos mais marcantes desta viagem a Itália. Não foi apenas uma visita cultural. Foi, acima de tudo, uma verdadeira peregrinação. Julgo que qualquer músico — profissional ou amador — que se preze deveria fazer esta visita pelo menos uma vez na vida.

Fomos recebidos numa visita guiada por Ettore, um dos voluntários do projeto Aperti per Voi, do Touring Club Italiano, cuja dedicação e entusiasmo deram ainda maior significado ao percurso. Graças ao trabalho destes voluntários, a Casa Verdi permanece aberta ao público, permitindo que milhares de visitantes descubram aquela que o próprio Giuseppe Verdi considerava ser “a mais bela de todas as suas obras”: não uma ópera, mas uma casa destinada a acolher músicos e cantores que, depois de uma vida dedicada à arte, necessitassem de apoio e de um lugar onde envelhecer com dignidade. (Touring Club Italiano)

O momento mais emocionante foi, sem dúvida, a descida à cripta, onde repousam Giuseppe Verdi e a sua segunda esposa, Giuseppina Strepponi. Ali existe igualmente uma discreta homenagem à primeira mulher de Verdi, Margherita Barezzi, cuja morte prematura marcou profundamente a vida do compositor. Casados em 1836, perderam primeiro os dois filhos ainda crianças e, poucos anos depois, Margherita morreu aos vinte e seis anos, provavelmente vítima de uma das doenças infecciosas então comuns, como encefalite, tifo ou malária. Essa sucessão de tragédias mergulhou Verdi numa profunda crise humana e artística, da qual apenas viria a recuperar anos mais tarde. (Casa Verdi)

Percorrer as salas da Casa é entrar na intimidade do compositor. Tivemos o privilégio de ver o seu piano de cauda, documentos relacionados com a construção da instituição e diversos objetos pessoais. Entre todos, impressionou-me particularmente o manuscrito original do seu testamento. A caligrafia revela um homem extraordinariamente meticuloso, de pensamento claro e rigoroso, qualidades que reconhecemos igualmente na estrutura das suas óperas e na forma como organizou toda a sua obra filantrópica.

Ao longo da visita fomos registando, através de várias fotografias, os espaços onde Verdi imaginou que a música continuaria viva muito para além da sua própria existência. Cada sala recorda que a verdadeira grandeza de um artista não reside apenas no legado que cria, mas também na forma como cuida daqueles que partilharam consigo a mesma vocação.

No final da visita tivemos a honra de inscrever o nosso nome no livro de visitantes. Foi um gesto simples, mas profundamente simbólico. Não o senti como a assinatura de um turista, mas como a humilde homenagem de um músico perante um dos maiores génios da história da música.

Saí da Casa Verdi com uma convicção reforçada. As grandes obras de um homem não são apenas aquelas que permanecem nos teatros ou nos livros. São também aquelas que continuam a servir os outros muito depois da sua morte. As óperas de Verdi deram voz às paixões humanas; a Casa Verdi deu dignidade aos próprios músicos. Talvez por isso o compositor tenha afirmado que esta era, entre todas as suas criações, a mais bela. E, depois desta visita, compreendo perfeitamente porquê.

Francisco Vaz
25 de junho 2026

Uma visita a Milão

A Cidade onde a Ciência, a Arte e a Religião se Encontram

Há cidades que se distinguem pela sua riqueza económica, outras pelo seu poder político ou militar. Milão distingue-se por algo mais raro: é um lugar onde três das mais elevadas manifestações do espírito humano se encontram e dialogam. A ciência, a arte e a religião convivem nela de forma quase orgânica, mostrando que o ser humano apenas se compreende plenamente quando estas três dimensões permanecem unidas.

Há dias escrevia, a propósito de Félix de Azúa, que a ciência, a arte e a religião constituem os três grandes sistemas através dos quais a humanidade procura compreender o mundo e compreender-se a si própria. A ciência pergunta como as coisas acontecem; a arte revela como elas são vividas; a religião interroga-se sobre o seu sentido último. Nenhuma destas linguagens esgota a realidade. Cada uma ilumina uma dimensão diferente do mesmo mistério do ser.

Milão parece ter dado corpo histórico a esta intuição.

Na ciência, ergue-se a figura de Leonardo da Vinci. É comum classificá-lo como artista, engenheiro ou inventor. Na verdade, Leonardo recusava essas fronteiras. Para ele, pintar era conhecer; observar era criar; desenhar era pensar. O seu método assentava na contemplação rigorosa da natureza. Os seus estudos de anatomia, hidráulica, mecânica ou arquitetura não eram compartimentos isolados, mas expressões de uma única inteligência que procurava decifrar a ordem inscrita na criação. Em Leonardo, a ciência não nasce contra a beleza; nasce precisamente da capacidade de reconhecer a beleza da ordem do real.

Na arte, Milão encontra em Giuseppe Verdi uma das suas expressões mais universais. Verdi compreendeu que a música não é mero entretenimento. Ela molda a memória de um povo, educa os sentimentos e desperta a consciência moral. As suas óperas deram voz ao sofrimento, ao amor, à liberdade e à dignidade humana. Não por acaso quis terminar os seus dias fundando a Casa Verdi, onde músicos idosos encontrariam não apenas assistência material, mas também reconhecimento pela sua vida dedicada à beleza. A verdadeira arte culmina naturalmente na caridade, porque a beleza autêntica conduz sempre ao bem.

Na religião, Milão encontra o seu grande mestre em Ambrósio. Bispo, teólogo, pastor e um dos grandes Padres da Igreja, Ambrósio soube integrar a herança filosófica clássica com a revelação cristã. Foi ele quem acolheu e conduziu à conversão Agostinho de Hipona, mudando profundamente a história do pensamento ocidental. Em Ambrósio, a religião não é fuga ao mundo, mas iluminação da inteligência e educação da liberdade. A fé não diminui a razão; oferece-lhe um horizonte mais vasto.

É significativo que estas três figuras coexistam simbolicamente na mesma cidade. Leonardo ensina-nos a olhar o mundo; Verdi ensina-nos a senti-lo; Ambrósio ensina-nos a orientá-lo para o seu fim último. A ciência procura a verdade dos fenómenos; a arte revela a verdade da experiência humana; a religião abre a inteligência à Verdade que fundamenta todas as verdades.

Talvez seja esta a grande lição de Milão. Uma civilização floresce quando não separa aquilo que pertence à mesma raiz. Quando a ciência perde a dimensão ética e espiritual, transforma-se facilmente em técnica sem sabedoria. Quando a arte abandona a verdade e o bem, reduz-se a mero espetáculo ou consumo estético. Quando a religião renuncia ao diálogo com a razão e com a cultura, corre o risco de se tornar ritual vazio ou ideologia.

Milão recorda-nos precisamente o contrário: o ser humano realiza-se quando o conhecimento, a beleza e a transcendência convergem. São três caminhos distintos, mas orientados para a mesma realidade: o Logos que sustenta o universo e confere sentido à existência.

Talvez por isso caminhar por Milão seja mais do que visitar monumentos. É percorrer uma cidade onde a inteligência de Leonardo, a beleza de Verdi e a santidade de Ambrósio continuam, séculos depois, a recordar-nos que a verdadeira grandeza humana nasce quando a ciência procura a verdade, a arte celebra a beleza e a religião abre ambas ao horizonte do Bem. Nesse encontro reside não apenas o génio de Milão, mas uma imagem da própria vocação do Homem.

Francisco Vaz

25 de junho de 2026


terça-feira, 23 de junho de 2026

Santo Ambrósio de Milão

quando o Logos encontrou a Fé

Ao visitar Milão, muitos turistas dirigem-se naturalmente ao Duomo, admirando a grandiosidade da catedral que se tornou símbolo da cidade. Contudo, para quem procura compreender as raízes espirituais e intelectuais da civilização europeia, existe um lugar ainda mais significativo: a Basílica de Santo Ambrósio. É aí que repousa um dos homens que mais profundamente moldaram a tradição cristã do Ocidente e cuja influência se prolonga até aos nossos dias.

Santo Ambrósio viveu no século IV, numa época decisiva para a história do Cristianismo. O Império Romano atravessava profundas transformações políticas e culturais, enquanto a Igreja procurava consolidar a sua doutrina e definir a sua identidade perante as grandes correntes filosóficas herdadas da Antiguidade clássica. Foi neste contexto que surgiu a figura de Ambrósio, não apenas como bispo, mas como um dos grandes construtores da síntese entre a herança greco-romana e a fé cristã.

Nascido por volta de 340 numa família romana de elevada posição social, recebeu uma sólida formação jurídica e administrativa. Antes de se tornar bispo, exerceu funções de governador imperial em Milão, uma das capitais do Império. A sua eleição para a cátedra episcopal foi, porém, tudo menos previsível. Quando morreu o bispo da cidade, as tensões entre católicos e arianos ameaçavam degenerar em violência. Ambrósio, ainda catecúmeno e simples magistrado civil, deslocou-se ao local para garantir a ordem pública. Foi então que a multidão começou a aclamar o seu nome. Em poucos dias recebeu o batismo, foi ordenado sacerdote e consagrado bispo.

Este acontecimento extraordinário marcou o início de uma das mais fecundas carreiras intelectuais e pastorais da história da Igreja.

O grande mérito de Santo Ambrósio consistiu em compreender que a fé não precisava de rejeitar a razão. Pelo contrário, a verdade revelada podia dialogar com a melhor tradição filosófica da Antiguidade. Conhecedor da herança platónica e neoplatónica, utilizou os instrumentos conceptuais da filosofia para aprofundar a compreensão dos mistérios cristãos. Não se tratava de substituir o Evangelho pela filosofia, mas de colocar a inteligência humana ao serviço da procura da verdade.

Nesta perspetiva, Ambrósio tornou-se uma das pontes mais importantes entre Atenas e Jerusalém, entre o Logos filosófico e o Logos cristão. Graças ao seu trabalho, muitos elementos da cultura clássica foram integrados na tradição teológica que viria a marcar toda a Idade Média e, em larga medida, a própria civilização europeia.

Mas a sua importância não se limitou ao plano intelectual. Santo Ambrósio foi também uma figura decisiva na definição das relações entre poder político e autoridade moral. O episódio mais conhecido ocorreu após o massacre de Tessalónica, ordenado pelo imperador Teodósio. Perante a gravidade dos acontecimentos, Ambrósio recusou admitir o imperador à comunhão até que este realizasse uma penitência pública.

O significado deste gesto ultrapassa largamente o contexto histórico em que ocorreu. Pela primeira vez de forma clara e inequívoca, afirmava-se que o poder político não era absoluto. Mesmo o soberano mais poderoso da Terra permanecia sujeito à ordem moral e à exigência da justiça. A autoridade não podia fundamentar-se apenas na força; devia submeter-se à verdade.

Esta visão teve consequências profundas para a história do Ocidente. Ao estabelecer limites éticos ao exercício do poder, Ambrósio lançou uma das bases da tradição política europeia, onde a legitimidade da autoridade depende não apenas da sua capacidade de governar, mas também da sua conformidade com o bem e a justiça.

O seu legado manifesta-se igualmente através da influência exercida sobre aquele que viria a ser um dos maiores pensadores da história cristã: Santo Agostinho. Quando Agostinho chegou a Milão, era um brilhante professor de retórica, mas encontrava-se dividido entre a ambição intelectual e a busca de sentido para a sua vida. Foi ouvindo as homilias de Ambrósio que descobriu uma nova forma de interpretar a Escritura e encontrou respostas para muitas das dificuldades que o afastavam da fé.

Pode afirmar-se, sem exagero, que a conversão de Santo Agostinho passou pela ação pastoral e intelectual de Ambrósio. E, através de Agostinho, a influência do bispo de Milão estendeu-se a toda a tradição filosófica, teológica e espiritual do Ocidente.

Também no domínio litúrgico o seu contributo foi notável. Promoveu o canto comunitário dos fiéis e deixou uma tradição musical própria, conhecida como canto ambrosiano, que ainda hoje subsiste em Milão como testemunho vivo da sua obra.

Mais de dezasseis séculos após a sua morte, Santo Ambrósio continua a representar um ideal raro de equilíbrio entre pensamento e ação, contemplação e governo, fé e razão. A sua vida recorda-nos que a verdadeira sabedoria não consiste em escolher entre o Logos e a fé, entre a inteligência e a espiritualidade, mas em reconhecer que ambas convergem na busca da verdade.

Talvez seja essa a razão pela qual a sua figura permanece tão atual. Num tempo marcado por divisões ideológicas, relativismo moral e desconfiança perante a razão, Santo Ambrósio continua a testemunhar que a liberdade humana encontra a sua plenitude quando se orienta para a verdade, e que o poder só é legítimo quando se coloca ao serviço do bem comum.

Na Basílica que fundou e onde repousa, permanece vivo o testemunho de um homem que ajudou a construir os fundamentos espirituais da Europa. Um homem que compreendeu que o Logos não é apenas uma capacidade intelectual, mas a própria vocação do ser humano para a verdade, para o bem e para Deus.

Francisco Vaz

23 de junho de 2026


O mal do século XX

 Memória e Esquecimento

O século XX ficou marcado pela emergência de dois grandes sistemas totalitários que procuraram remodelar radicalmente a condição humana: o nacional-socialismo e o comunismo bolchevique. Apesar das diferenças evidentes entre ambos, Alain Besançon chamou a atenção para um facto que continua a interpelar a consciência histórica contemporânea: a profunda desigualdade com que a memória coletiva trata estes dois fenómenos.

A questão não consiste em diminuir a gravidade dos crimes do nazismo nem em relativizar o horror singular do Holocausto. Pelo contrário, trata-se de compreender porque razão os crimes do comunismo, responsáveis por dezenas de milhões de vítimas, parecem frequentemente relegados para um plano secundário da memória pública, enquanto os crimes nazis continuam, e bem, a ocupar um lugar central na consciência moral do Ocidente.

A raiz desta questão é mais profunda do que uma simples disputa historiográfica. É uma questão ontológica, ética e política.

Tanto o nazismo como o bolchevismo partiram de uma mesma tentação: substituir a realidade concreta do ser humano por uma abstração ideológica. No caso do nacional-socialismo, o indivíduo era reduzido à sua pertença racial. No caso do comunismo, era reduzido à sua pertença de classe. Em ambos os sistemas, a pessoa deixava de possuir valor intrínseco. O seu valor passava a depender da sua utilidade para um projeto histórico considerado superior.

Quando isto acontece, o ser humano concreto desaparece sob o peso da ideia. A realidade deixa de ser o critério da ação política. É a ideologia que passa a determinar o que deve existir e o que deve desaparecer. O homem deixa de ser um fim para se tornar um instrumento.

É precisamente aqui que nasce a perversão ética característica dos totalitarismos. Ambos afirmavam agir em nome do bem. O nazismo proclamava defender o povo alemão e purificar a Humanidade de uma suposta ameaça racial. O comunismo afirmava libertar a Humanidade da exploração económica e construir uma sociedade justa e igualitária. Ambos apresentavam horizontes de redenção coletiva. Ambos prometiam uma espécie de paraíso terrestre.

O problema surge quando o bem futuro é considerado tão absoluto que tudo passa a ser permitido para o alcançar. Se a História caminha inevitavelmente para a perfeição, então aqueles que se opõem ao processo deixam de ser vistos como pessoas. Transformam-se em obstáculos. E os obstáculos podem ser removidos.

Foi assim que milhões de seres humanos foram deportados, encarcerados, torturados ou executados não por aquilo que fizeram, mas por aquilo que eram ou representavam segundo a lógica ideológica do sistema. A ética deixou de consistir no respeito pela dignidade da pessoa e passou a ser uma técnica destinada a acelerar a chegada de um futuro imaginado.

Também a política sofreu uma transformação radical. Na tradição clássica, desde Platão e Aristóteles, a política existe para ordenar a convivência humana em função do bem comum. É o espaço onde as decisões éticas dos cidadãos se encontram e procuram harmonizar-se numa comunidade de homens livres.

Os regimes totalitários inverteram esta lógica. A sociedade deixou de ser uma comunidade de pessoas para se tornar matéria-prima de um projeto ideológico. O Estado passou a assumir a missão de fabricar um homem novo, libertado das imperfeições do passado e moldado segundo os desígnios da ideologia dominante.

O resultado é conhecido. O homem novo nunca apareceu. Em seu lugar surgiram campos de concentração, polícias políticas, expurgos, sistemas de vigilância, fomes provocadas e uma repressão sem precedentes.

É neste contexto que a reflexão de Besançon se torna particularmente relevante. Porque recordamos legitimamente Auschwitz e tantas vezes esquecemos o Gulag? Porque conhecemos os nomes dos responsáveis pela máquina de extermínio nazi e ignoramos frequentemente os arquitetos do terror soviético? Porque razão certos símbolos associados ao comunismo continuam a ser vistos com indulgência, quando símbolos equivalentes do nazismo provocam, justamente, repulsa imediata?

Uma possível explicação reside no carácter universalista da promessa comunista. Enquanto o nazismo afirmava defender interesses nacionais e raciais específicos, o comunismo apresentava-se como um projeto de emancipação universal. Falava em igualdade, fraternidade, justiça e libertação. As suas palavras eram moralmente atraentes. Muitos homens e mulheres sinceramente generosos aderiram a essa promessa acreditando servir uma causa nobre.

Mas a nobreza das intenções não absolve a realidade dos resultados. A História julga os regimes não apenas pelas promessas que formularam, mas sobretudo pelas consequências que produziram.

A memória histórica não pode tornar-se seletiva sem correr o risco de se transformar numa nova forma de injustiça. O sofrimento das vítimas não depende da ideologia dos seus carrascos. Cada vida destruída possui igual dignidade. Cada ser humano aniquilado representa uma perda irreparável para a humanidade inteira.

A grande lição do século XX talvez não seja a comparação estatística entre os crimes de Hitler e os de Estaline. A verdadeira lição consiste em compreender que toda a ideologia que coloca uma abstração acima da pessoa humana acaba inevitavelmente por abrir caminho à violência. Sempre que uma ideia vale mais do que um homem, o totalitarismo começa a tornar-se possível.

Recordar os crimes do bolchevismo não diminui a memória das vítimas do nazismo. Pelo contrário, reforça-a. Ambas nos recordam a mesma verdade fundamental: nenhuma causa histórica, nenhum projeto político e nenhuma utopia justificam o sacrifício da dignidade humana.

A memória existe para servir a verdade. E a verdade exige que todas as vítimas sejam recordadas, independentemente da cor da bandeira sob a qual sofreram.

Francisco Vaz 
23 de junho de 2026

Nota
A reflexão aqui apresentada inspira-se no pensamento de Alain Besançon, em particular na sua obra “Le malheur du siècle”, onde analisa a desigualdade da memória histórica entre os crimes do nazismo e do comunismo.

Resumo biográfico de Alain Besançon
Alain Besançon (1932–2023) foi um historiador e filósofo francês, especialista em história da Rússia e do pensamento soviético. Professor na École des Hautes Études en Sciences Sociales, destacou-se pela análise crítica do comunismo e pela reflexão sobre a natureza dos regimes totalitários. Foi membro da Academia de Ciências Morais e Políticas do Institut de France. A sua obra combina rigor histórico com uma profunda preocupação ética, tendo contribuído decisivamente para o debate sobre a memória dos crimes do século XX.