Pecado original

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sexta-feira, 10 de abril de 2026

Europa

Entre declínio e reinvenção

A articulação entre a análise de Carmen Claudín sobre a guerra na Ucrânia e a leitura estrutural de Emilio Lamo de Espinosa sobre o “pós-Ocidente” permite compreender que o conflito atual não é um acidente da história, mas um sintoma de uma transformação mais profunda do sistema internacional.

Estamos, como sugere Lamo de Espinosa, num momento de inflexão histórica: não o fim de uma civilização, mas o fim de uma centralidade — a da Europa e, mais amplamente, do Ocidente. Durante séculos, o mundo organizou-se a partir da expansão europeia; hoje, essa ordem dissolve-se num sistema mais amplo, mais complexo e mais incerto. A emergência de novas potências, a aceleração da globalização e a deslocação do eixo económico para a Ásia criam um mundo que já não é “nosso” no sentido histórico do termo.

É neste contexto que a guerra na Ucrânia deve ser entendida.

A guerra como reação ao declínio relativo

A leitura de Claudín revela que a ação russa não é apenas estratégica, mas também identitária. A Rússia reage à perda de estatuto e de controlo sobre o espaço pós-soviético através de uma narrativa que procura restaurar uma centralidade perdida. Os mitos sobre a unidade histórica com a Ucrânia, a missão civilizadora russa ou a necessidade de uma esfera de influência são, nesse sentido, respostas políticas a uma transformação estrutural mais vasta.

Aqui cruzam-se os dois planos: o estrutural e o ideológico.

Lamo de Espinosa mostra-nos um mundo em convergência — demográfica, tecnológica e económica — onde antigas periferias ganham peso e o Ocidente perde a sua hegemonia. Claudín mostra-nos como essa perda pode gerar reações de fechamento, revisionismo e agressão. A Rússia surge, assim, como um ator que, incapaz de competir plenamente no novo sistema global, procura compensar essa limitação através do poder militar e da reconfiguração do seu “estrangeiro próximo”.

Globalização e fragmentação

Há um paradoxo central que ambos os autores ajudam a iluminar: quanto mais o mundo se globaliza, mais se fragmenta politicamente.

A globalização económica foi, em larga medida, um jogo de soma positiva, permitindo crescimento e redução da pobreza em muitas regiões. Mas, como sublinha Lamo de Espinosa, a política continua a operar como um jogo de soma zero: o poder que uns ganham, outros perdem. É nesta tensão que emergem os conflitos contemporâneos.

A guerra na Ucrânia é um exemplo claro desta transição. Não é apenas uma disputa territorial, mas uma luta pela definição das regras do sistema internacional: soberania versus esferas de influência, direito internacional versus poder de facto.

Ao mesmo tempo, a própria globalização gera clivagens internas — entre os “globalizados” e os “territorializados” — que alimentam populismos, nacionalismos e desconfiança nas instituições. Este fenómeno, descrito por Lamo de Espinosa, encontra eco na análise de Claudín sobre a instrumentalização de narrativas identitárias por parte do Kremlin.

Europa entre dois mundos

Neste cenário, a União Europeia ocupa uma posição particularmente ambígua. É, como ambos reconhecem implicitamente, um sucesso histórico sem precedentes em termos de paz, prosperidade e integração. Mas é também um ator incompleto, com limitada capacidade de projeção estratégica.

A guerra na Ucrânia expôs essa fragilidade. A Europa hesitou, reagiu de forma gradual e, em muitos casos, dependente dos Estados Unidos. Isto confirma a tese de Lamo de Espinosa: a Europa perdeu, em grande medida, a capacidade de determinar autonomamente o seu destino geopolítico.

Ao mesmo tempo, enfrenta um desafio interno: a tensão entre abertura e retração, entre projeção externa e introspeção identitária. A tendência para revisitar o passado, para reforçar identidades defensivas, pode ser lida como uma resposta ao sentimento de perda de centralidade.

Um mundo de fluxos e incerteza

Outro ponto de convergência entre as duas análises é a necessidade de repensar o mundo para além das categorias tradicionais. Lamo de Espinosa insiste na importância de olhar para os fluxos — de pessoas, capital, informação — mais do que para os Estados. Claudín mostra como, apesar disso, os Estados continuam a ser atores centrais na gestão da violência e do poder.

Vivemos, assim, numa tensão entre uma realidade globalizada e uma política ainda enraizada na soberania estatal. Esta desadequação gera um défice de governação global, visível tanto na incapacidade de prevenir conflitos como na dificuldade em responder a crises.

A própria imprevisibilidade do sistema — marcada por “cisnes negros” e mudanças não lineares — reforça a sensação de um mundo “comatoso”, como refere Lamo de Espinosa: não parado, mas desorientado.

Entre declínio e reinvenção

A questão que emerge desta dupla reflexão é, em última análise, existencial: como pode o Ocidente — e em particular a Europa — posicionar-se num mundo que já não domina?

A resposta não parece residir no regresso ao passado nem na afirmação de identidades fechadas. Como mostra o caso russo, essa via tende a gerar conflito e isolamento. Também não basta confiar na inércia das instituições existentes.

O desafio é outro: aceitar a perda de centralidade como condição para uma nova forma de presença no mundo. Isso implica reforçar a unidade europeia, investir em autonomia estratégica e, sobretudo, compreender que o futuro se joga numa escala global.

A guerra na Ucrânia é, nesse sentido, mais do que um conflito regional. É um espelho das tensões de um mundo em transição — entre um passado que resiste e um futuro que ainda não tem forma definida.

E talvez a lição mais exigente seja esta: num mundo pós-ocidental, a relevância não é herdada — é construída.

Francisco Vaz

10 de Abril de 2026

Nota
Conferência “Europa: entre declínio e reinvenção”, com Carmen Claudín e Emilio Lamo de Espinosa, promovida pela Fundación Juan March, dedicada à análise da guerra na Ucrânia e ao conceito de “pós-Ocidente”, enquanto chave interpretativa das transformações estruturais do sistema internacional contemporâneo.

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