ou o Narciso de Mar-a-Lago
Entre a filosofia e a sátira abre-se, por vezes, um espaço fértil onde o pensamento crítico ganha uma nitidez inesperada. A presente reflexão é inspirada na intuição de Louis Lavelle sobre a desordem do amor-próprio, tal como exposta em O Erro de Narciso, para a projetar, com ironia, numa figura contemporânea marcada pela hipertrofia do eu e pela centralidade da imagem: Donald Trump.
O problema do amor-próprio desregrado não é apenas psicológico ou moral; ele é, antes de tudo, ontológico. Trata-se de uma perturbação do ser enquanto ato. Para Lavelle, o eu não é uma coisa, mas um fazer-se contínuo, uma atualização permanente no presente. Quando o sujeito se fixa numa imagem de si — seja ela interior ou projetada — interrompe esse dinamismo e substitui o ser pelo simulacro. Narciso, ao contemplar o seu reflexo, não encontra o seu ser, mas uma sombra; Trump, ao habitar o espaço mediático, não busca o real, mas a amplificação de uma figura. Em ambos, o erro é o mesmo: confundir o aparecer com o ser.
Ontologicamente, o drama reside nesta duplicação ilusória. O eu, que deveria ser ato, torna-se objeto de contemplação. Em vez de agir, o sujeito passa a representar-se. Narciso abandona o seu centro para se procurar fora de si; Trump, numa versão ampliada e tecnologicamente mediada, constrói um mundo onde a realidade é continuamente filtrada pela necessidade de autoafirmação. O resultado é uma existência deslocada: não se vive o real, mas a sua encenação.
Mas esta desordem ontológica tem consequências éticas profundas. Para Lavelle, o amor-próprio desregrado entorpece a consciência — é uma narcose. O indivíduo deixa de se conhecer e, simultaneamente, deixa de reconhecer o outro. A figura de Eco, a jovem ninfa que se apaixonou por Narciso, esquecida e desprezada por ele, simboliza essa perda da consciência: a incapacidade de escutar, de responder, de sair de si. Ora, na esfera contemporânea, esta surdez ética manifesta-se como indiferença ao outro, substituído por um público cuja função é apenas refletir e confirmar a imagem do eu.
A ação, que deveria fundar-se na verdade, degenera então em vaidade e espetáculo. O agir deixa de ser orientado pelo valor intrínseco do ato e passa a ser medido pelo reconhecimento que produz. Não se faz para ser, mas para parecer. Assim, o que em Lavelle é um problema de autenticidade interior torna-se, na figura satirizada, uma prática sistemática: a transformação da aparência em critério de verdade.
É neste ponto que a reflexão se abre ao plano político. Quando a desordem do amor-próprio deixa de ser apenas individual e se torna princípio de ação pública, o risco já não é apenas existencial — é coletivo. O governante, ser ético e político, que vive da imagem tende a governar não a partir do real, mas da sua representação. A verdade cede lugar à eficácia simbólica; o bem comum é substituído por uma narrativa que sustente o eu projetado.
Neste sentido, a sátira revela uma dimensão crítica: o narcisismo não é apenas um vício pessoal, mas uma forma de poder. Um poder que se alimenta da atenção, da polarização e da constante reprodução da imagem. Se Narciso morre junto ao lago, vítima da sua ilusão, o Narciso contemporâneo não morre — adapta-se, reinventa-se, multiplica-se em ecrãs e discursos. Mas o perigo é mais subtil: não é ele que desaparece, é a própria realidade que se torna opaca.
A alternativa, segundo Lavelle, não está na negação do eu, mas na sua retificação. O remédio para o amor-próprio não é o desprezo de si, mas o desprendimento — a capacidade de sair de si em direção ao outro e ao real. Só uma consciência que se liberta da necessidade de se contemplar pode verdadeiramente agir. Só quem abandona a obsessão pela imagem pode recuperar o ser.
Assim, entre o mito e a política, entre o lago e o ecrã, permanece a mesma lição: o homem que se fixa na própria imagem perde-se — não porque se ama demasiado, mas porque ama apenas uma ilusão de si. E onde a ilusão governa, o ser dissolve-se, a ética enfraquece e a política torna-se, inevitavelmente, um teatro de sombras.
Francisco Vaz
6 de Abril de 2026
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