O poder de resistir e a ilusão de dominar
Um dos traços mais marcantes das guerras contemporâneas reside no desfasamento crescente entre o êxito tático no terreno e a verdadeira eficácia estratégica. No confronto direto entre os Estados Unidos e o Irão, essa fratura revela-se com particular nitidez no Golfo Pérsico, sobretudo na disputa pelo controlo do Estreito de Ormuz.
À primeira vista, a ocupação de ilhas como Abu Musa, Larak ou Kharg parece corresponder a uma lógica clássica de poder: dominar pontos-chave para condicionar fluxos económicos e militares. No entanto, essa leitura pertence mais ao século XX do que ao XXI. Mesmo que essas operações fossem bem-sucedidas do ponto de vista militar, dificilmente produziriam o efeito político desejado: forçar o Irão a recuar ou a negociar em termos favoráveis.
A razão é profunda e estrutural. O poder iraniano não reside apenas em posições fixas — ilhas, bases ou infraestruturas — mas numa capacidade difusa, móvel e resiliente. Mísseis, drones e plataformas improvisadas ao longo de uma vasta linha costeira tornam impossível neutralizar a ameaça através de golpes cirúrgicos. A geografia, aliada à assimetria tecnológica, transforma o espaço num campo de incerteza permanente. O controlo do Estreito de Ormuz não depende de quem ocupa uma ilha, mas de quem consegue manter a capacidade de perturbar — mesmo que de forma intermitente — o fluxo global.
Neste contexto, a proposta de operações terrestres limitadas revela uma tentação recorrente das grandes potências: a de traduzir problemas estratégicos complexos em soluções militares tangíveis. Mas a guerra contemporânea, sobretudo contra atores como o Irão, não se resolve pela ocupação de território, mas pela gestão de equilíbrios instáveis. O risco, como sublinha o texto, é que tais operações não encurtem o conflito, mas o prolonguem — e, mais ainda, o ampliem.
Há também uma dimensão geopolítica mais vasta que não pode ser ignorada. O envolvimento crescente de meios militares norte-americanos no Golfo implica uma redistribuição de recursos que pode fragilizar outras áreas críticas, nomeadamente o Indo-Pacífico. Assim, uma guerra que não produz ganhos claros num teatro regional pode ter custos sistémicos à escala global.
Mas talvez o ponto mais inquietante seja outro: a ilusão de controlo. A captura da ilha de Kharg, por exemplo, poderia parecer um golpe decisivo ao atingir o coração das exportações petrolíferas iranianas. No entanto, tal ação poderia desencadear efeitos contrários — escalada regional, ataques a infraestruturas civis, aumento dos preços da energia — atingindo mais duramente aqueles que a promovem do que o próprio alvo.
Estamos, portanto, perante uma guerra onde o poder não se mede apenas pela capacidade de destruir, mas pela capacidade de resistir. O Irão demonstra uma elevada tolerância ao sofrimento económico e militar, enquanto os seus adversários permanecem mais vulneráveis a choques sistémicos, como o aumento dos preços da energia ou a instabilidade dos mercados.
Neste sentido, o conflito entre os Estados Unidos e o Irão ilustra uma transformação mais ampla da guerra: a passagem de confrontos decisivos para impasses prolongados; de vitórias claras para equilíbrios precários; de estratégias de domínio para estratégias de desgaste.
A lição é, por isso, mais política do que militar. Quando a guerra deixa de ser instrumento eficaz para alcançar objetivos estratégicos, a sua continuação torna-se não apenas inútil, mas perigosa. E talvez o verdadeiro risco não esteja na dificuldade de vencer, mas na incapacidade de reconhecer que já não é possível fazê-lo nos termos tradicionais.
Francisco Vaz
10 de Abril de 2026
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