A Falta de Profundidade no Combate Moderno
A ilusão da suficiência acompanha, muitas vezes, os exércitos vitoriosos. A excelência técnica, a disciplina e a experiência acumulada geram a convicção de que o modelo atual basta. O artigo Three MEFs Won’t Be Enough rompe precisamente com essa complacência: recorda que a guerra entre grandes potências não se vence apenas com qualidade — exige massa, continuidade e capacidade de regeneração.
O United States Marine Corps construiu, ao longo das últimas décadas, uma reputação de elite assente no profissionalismo. As três Marine Expeditionary Forces (MEF) existentes refletem essa lógica: forças altamente treinadas, tecnologicamente avançadas, prontas para projeção imediata. Contudo, essa arquitetura está pensada para conflitos limitados, não para guerras de desgaste prolongado.
A história, como sublinha o artigo, raramente recompensa a ilusão da guerra curta. O paralelismo com o Primeira Guerra Mundial é particularmente elucidativo. O exército britânico entrou no conflito com uma força profissional de elevada qualidade, mas numericamente reduzida. Em poucos meses, o impacto das baixas revelou o erro estrutural: não havia profundidade humana suficiente. Foi necessário recorrer à mobilização em massa — o chamado “exército de Kitchener” — para sustentar o esforço de guerra.
Hoje, o risco repete-se sob novas formas. Num cenário de confronto com potências como a China, a superioridade qualitativa norte-americana pode revelar-se insuficiente face à escala do conflito. As primeiras fases de uma guerra no Indo-Pacífico tenderiam a ser intensas e letais, com perdas significativas logo nos meses iniciais. A questão deixa então de ser “como vencer a batalha” e passa a ser “como continuar a guerra”.
É aqui que a proposta de expandir o número de MEFs — reativando divisões como a 5.ª e a 6.ª — ganha relevância estratégica. Não se trata apenas de aumentar números, mas de criar uma reserva organizada de capacidade de combate, pronta a absorver perdas e a rodar forças no terreno. Em termos conceptuais, é a passagem de um modelo de elite para um modelo de resiliência.
As experiências recentes confirmam esta necessidade. A guerra na Ucrânia e os conflitos prolongados envolvendo Israel demonstram que mesmo forças altamente treinadas se desgastam rapidamente sob pressão contínua. O fator decisivo deixa de ser apenas a qualidade do combatente individual e passa a ser a capacidade do sistema em gerar novos combatentes com rapidez e eficácia.
Contudo, esta transformação levanta um dilema clássico: como crescer sem perder identidade. O Corpo de Fuzileiros Navais construiu-se sobre um ethos exigente, onde a qualidade individual é central. A expansão acelerada pode diluir esse padrão. Mas a história do próprio Corpo — de Belleau Wood ao Pacífico na Segunda Guerra Mundial — mostra que é possível formar unidades eficazes em prazos curtos, desde que exista liderança experiente e um sistema de treino robusto.
No fundo, a reflexão conduz a uma conclusão mais ampla: a guerra moderna entre grandes potências reintroduz a lógica industrial do conflito. Não basta ter melhores soldados; é necessário ter mais soldados capazes de substituir os que caem, mantendo a coesão e a eficácia. A guerra volta a ser, como em Clausewitz, um teste de resistência nacional — não apenas de perícia tática.
Assim, “três MEF não são suficientes” não é apenas uma proposta organizacional. É um aviso estratégico. Num mundo onde os conflitos tendem a prolongar-se e a escalar, a verdadeira superioridade reside na capacidade de durar — de continuar a combater quando o choque inicial já consumiu o melhor das forças disponíveis.
Se o século XXI confirmar esta tendência, os exércitos que sobreviverão não serão apenas os mais avançados, mas os mais preparados para o desgaste. E isso exige algo que a modernidade tentou esquecer: profundidade humana, organização prévia e a aceitação de que, na guerra, a continuidade vale tanto quanto a vitória inicial.
Nota final
Reflexão baseada no artigo “Three MEFs Won’t Be Enough”, de Richard Sweeney III, publicado em abril de 2026 na revista U.S. Naval Institute Proceedings.
Francisco Vaz
12 de Abril de 2026
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