Entre o fogo e a memória
Os antigos gregos compreenderam cedo que viver significava navegar entre monstros. Na Odisseia, Ulisses atravessa o estreito onde habitam Cila e Caríbdis: de um lado, o rochedo monstruoso que devora homens; do outro, o abismo que engole o mar inteiro. Não existe passagem segura. Escolher um lado implica sempre perda. A existência humana é precisamente essa travessia permanente entre perigos inevitáveis.
Também em Il trovatore tudo acontece nesse espaço estreito entre destruição e esquecimento. O fogo é a violência original. A memória é aquilo que impede a ferida de desaparecer. Azucena vive aprisionada entre ambos: o fogo que matou a mãe e a memória que não lhe permite regressar à vida normal. O incêndio termina rapidamente; a memória arde durante décadas. Talvez seja essa a tragédia maior da humanidade: os acontecimentos passam, mas permanecem dentro de nós como brasas ocultas.
A civilização tenta constantemente construir muralhas contra o caos. Roma ergue diques contra o Tibre; os impérios constroem fronteiras; os homens inventam leis, religiões e sistemas políticos. Mas, no fundo, tudo permanece frágil. O rio transborda sempre. A guerra regressa sempre. O ódio herdado atravessa gerações. A humanidade move-se como Ulisses: sem possibilidade de regressar à inocência original, obrigada a continuar a navegar entre monstros.
Cila representa talvez o excesso da memória: o homem incapaz de esquecer, condenado a transformar dor em vingança. Caríbdis representa o esquecimento absoluto: o abismo onde desaparecem identidade, história e sentido. Entre ambos tenta sobreviver o ser humano. Se esquecemos totalmente, perdemos quem somos. Se recordamos demasiado, tornamo-nos prisioneiros da ferida.
Toda a modernidade parece viver precisamente neste estreito. O século XX mostrou isso de forma brutal. Depois de duas guerras devastadoras, genocídios e totalitarismos, a humanidade ficou suspensa entre a tentação da memória absoluta — transformar tudo em ressentimento permanente — e a tentação do esquecimento confortável, como se nada tivesse acontecido. Nenhuma dessas soluções salva verdadeiramente o homem.
É aqui que a arte assume uma função decisiva. A música de Verdi não elimina o sofrimento, mas transforma-o. O fogo deixa de ser apenas destruição e converte-se em canto. A memória deixa de ser apenas ferida e converte-se em beleza partilhada. A arte torna-se então uma terceira via entre Cila e Caríbdis: nem o esquecimento vazio, nem a vingança infinita, mas a transfiguração da dor.
Talvez seja por isso que a ópera continua a emocionar. Porque nela reconhecemos aquilo que somos: criaturas vulneráveis, carregando memórias antigas, navegando entre abismos, tentando encontrar sentido num mundo onde nada permanece totalmente seguro. E, contudo, continuamos a cantar.
Ulisses regressa a Ítaca não porque tenha vencido os monstros, mas porque aprendeu a atravessá-los. O homem talvez seja apenas isso: alguém que compreendeu que viver não significa escapar ao fogo nem apagar a memória, mas aprender a navegar entre ambos sem perder a alma.
Francisco Vaz
17 de Maio de 2026
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