Uma sátira sobre o poder, a vaidade e a eterna comédia da política
Quando se pergunta quem foi o imperador mais louco de Roma, muitos respondem instintivamente: Nero. A imagem do imperador que toca lira enquanto Roma arde tornou-se um dos símbolos universais da irresponsabilidade política.
A História, porém, sugere outro candidato. Se existe um imperador que personifica o delírio do poder absoluto, esse é provavelmente Calígula.
As fontes antigas — sobretudo Suetónio e Cássio Dião — descrevem um homem que se julgava divino, governava ao sabor dos caprichos, humilhava sistematicamente os senadores e protagonizava episódios tão extravagantes que ainda hoje parecem saídos de uma peça de teatro. Mesmo admitindo que os seus adversários tenham exagerado alguns relatos, permanece a imagem de um governante convencido de que a realidade existia para confirmar a sua própria grandeza.
Dois mil anos passaram.
Mudaram os palácios, desapareceram as legiões e o Senado romano é hoje apenas uma memória arqueológica. Mas uma tentação permanece extraordinariamente atual: a de confundir liderança com protagonismo.
É aqui que a comparação satírica com Donald Trump se torna sugestiva.
Não porque Trump seja um novo Calígula. As diferenças são demasiado importantes para permitir essa equivalência. Calígula governava um império absoluto; Trump foi eleito numa democracia constitucional, sujeito ao escrutínio dos tribunais, do Congresso, da comunicação social e, acima de tudo, dos eleitores.
Mas ambos compreenderam algo essencial sobre o exercício do poder: a atenção pública tornou-se uma forma de autoridade.
Calígula precisava de surpreender diariamente Roma para manter viva a aura da sua figura.
Trump domina como poucos a capacidade de ocupar permanentemente o espaço mediático. Cada declaração, cada conferência de imprensa, cada publicação nas redes sociais parece concebida para produzir exatamente o mesmo efeito: obrigar o mundo inteiro a olhar para ele.
No fundo, ambos perceberam que, muitas vezes, quem controla o espetáculo acaba por condicionar a própria realidade.
Na Roma antiga, o povo recebia panem et circenses.
Hoje recebe notificações.
A arena foi substituída pelos ecrãs. Os gladiadores deram lugar aos comentadores televisivos. O aplauso transformou-se em partilhas, gostos e visualizações. A lógica, porém, continua surpreendentemente semelhante.
O verdadeiro perigo para uma democracia nunca reside apenas na personalidade exuberante de um líder. Reside sobretudo na disponibilidade dos cidadãos para preferirem o espetáculo às instituições, a emoção à razão e a popularidade à competência.
Calígula morreu assassinado pelos seus próprios guardas. Roma sobreviveu-lhe.
As democracias modernas dispõem de mecanismos muito mais civilizados para limitar os excessos do poder. Essa é, afinal, uma das maiores conquistas da civilização política: substituir o punhal pelo voto, a conspiração pela Constituição e a arbitrariedade pela separação de poderes.
Talvez seja esta a maior lição que Roma ainda tem para nos oferecer.
Os regimes políticos mudam. As tecnologias evoluem. Os meios de comunicação multiplicam-se. Mas a natureza humana permanece notavelmente constante.
Continuamos fascinados por figuras maiores do que a vida. Continuamos vulneráveis ao brilho da personalidade. Continuamos a confundir notoriedade com grandeza.
No fim, a História lembra-nos uma verdade simples: os grandes líderes constroem instituições; os pequenos procuram construir apenas a própria imagem.
É por isso que Calígula continua a interessar-nos.
Não pelo que foi.
Mas pelo que continua a revelar sobre nós.
Francisco Vaz
15 de julho de 2026
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