Pecado original

Pecado original

quarta-feira, 15 de julho de 2026

Calígula, Trump e a Tentação do Espetáculo

Uma sátira sobre o poder, a vaidade e a eterna comédia da política

Quando se pergunta quem foi o imperador mais louco de Roma, muitos respondem instintivamente: Nero. A imagem do imperador que toca lira enquanto Roma arde tornou-se um dos símbolos universais da irresponsabilidade política.

A História, porém, sugere outro candidato. Se existe um imperador que personifica o delírio do poder absoluto, esse é provavelmente Calígula.

As fontes antigas — sobretudo Suetónio e Cássio Dião — descrevem um homem que se julgava divino, governava ao sabor dos caprichos, humilhava sistematicamente os senadores e protagonizava episódios tão extravagantes que ainda hoje parecem saídos de uma peça de teatro. Mesmo admitindo que os seus adversários tenham exagerado alguns relatos, permanece a imagem de um governante convencido de que a realidade existia para confirmar a sua própria grandeza.

Dois mil anos passaram.

Mudaram os palácios, desapareceram as legiões e o Senado romano é hoje apenas uma memória arqueológica. Mas uma tentação permanece extraordinariamente atual: a de confundir liderança com protagonismo.

É aqui que a comparação satírica com Donald Trump se torna sugestiva.

Não porque Trump seja um novo Calígula. As diferenças são demasiado importantes para permitir essa equivalência. Calígula governava um império absoluto; Trump foi eleito numa democracia constitucional, sujeito ao escrutínio dos tribunais, do Congresso, da comunicação social e, acima de tudo, dos eleitores.

Mas ambos compreenderam algo essencial sobre o exercício do poder: a atenção pública tornou-se uma forma de autoridade.

Calígula precisava de surpreender diariamente Roma para manter viva a aura da sua figura.

Trump domina como poucos a capacidade de ocupar permanentemente o espaço mediático. Cada declaração, cada conferência de imprensa, cada publicação nas redes sociais parece concebida para produzir exatamente o mesmo efeito: obrigar o mundo inteiro a olhar para ele.

No fundo, ambos perceberam que, muitas vezes, quem controla o espetáculo acaba por condicionar a própria realidade.

Na Roma antiga, o povo recebia panem et circenses.

Hoje recebe notificações.

A arena foi substituída pelos ecrãs. Os gladiadores deram lugar aos comentadores televisivos. O aplauso transformou-se em partilhas, gostos e visualizações. A lógica, porém, continua surpreendentemente semelhante.

O verdadeiro perigo para uma democracia nunca reside apenas na personalidade exuberante de um líder. Reside sobretudo na disponibilidade dos cidadãos para preferirem o espetáculo às instituições, a emoção à razão e a popularidade à competência.

Calígula morreu assassinado pelos seus próprios guardas. Roma sobreviveu-lhe.

As democracias modernas dispõem de mecanismos muito mais civilizados para limitar os excessos do poder. Essa é, afinal, uma das maiores conquistas da civilização política: substituir o punhal pelo voto, a conspiração pela Constituição e a arbitrariedade pela separação de poderes.

Talvez seja esta a maior lição que Roma ainda tem para nos oferecer.

Os regimes políticos mudam. As tecnologias evoluem. Os meios de comunicação multiplicam-se. Mas a natureza humana permanece notavelmente constante.

Continuamos fascinados por figuras maiores do que a vida. Continuamos vulneráveis ao brilho da personalidade. Continuamos a confundir notoriedade com grandeza.

No fim, a História lembra-nos uma verdade simples: os grandes líderes constroem instituições; os pequenos procuram construir apenas a própria imagem.

É por isso que Calígula continua a interessar-nos.

Não pelo que foi.

Mas pelo que continua a revelar sobre nós.

Francisco Vaz

15 de julho de 2026

Sem comentários:

Enviar um comentário