quando a unidade da Igreja é posta à prova
A história da Igreja ensina que as grandes crises raramente nascem da falta de fé. Nascem, quase sempre, da dificuldade em viver a comunhão. Umas vezes porque se pretende ir demasiado depressa; outras porque se recusa caminhar. Em ambos os casos, perde-se de vista aquilo que constitui o coração da tradição católica: a unidade.
Nos últimos anos assistimos a dois fenómenos aparentemente opostos, mas que, no fundo, revelam a mesma tentação.
Por um lado, encontram-se aqueles que, em nome da renovação, entendem que determinadas decisões podem ser tomadas independentemente da comunhão com o sucessor de Pedro. A ordenação episcopal sem mandato pontifício constitui um dos atos mais graves que um bispo pode praticar. Não se trata apenas de uma questão administrativa ou disciplinar. Na tradição católica, cada bispo é sucessor dos Apóstolos precisamente porque a sua missão se insere na comunhão do colégio episcopal, cuja unidade tem como princípio visível o Bispo de Roma. Quando alguém rompe deliberadamente esse vínculo, não cria apenas uma nova estrutura; introduz uma fratura no próprio significado do episcopado. A sucessão apostólica não é uma simples cadeia histórica de imposição das mãos; é também uma sucessão na comunhão da fé e da Igreja.
Por outro lado, encontramos setores que olham para o Concílio Vaticano II como se tivesse sido um desvio lamentável da história da Igreja. Alimenta-se, por vezes, a esperança de um regresso a um passado idealizado, como se fosse possível suspender sessenta anos de reflexão, de magistério e de vida eclesial. Também aqui existe um equívoco profundo.
Nenhum concílio ecuménico pode ser simplesmente apagado. A tradição da Igreja não funciona por eliminação de capítulos da sua história. A tradição é uma continuidade viva. Desenvolve-se sem negar as suas raízes, corrige excessos sem destruir o que recebeu e permanece aberta à ação permanente do Espírito Santo.
O erro consiste em transformar um concílio num campo de batalha ideológico. Uns absolutizam o espírito do concílio esquecendo os seus textos; outros absolutizam o período anterior como se toda a verdade tivesse ficado congelada antes de 1962. Ambos acabam por reduzir um acontecimento espiritual a uma disputa política.
Existe aqui um curioso paralelismo.
Os que rompem com Roma em nome da inovação afirmam que a Igreja deve adaptar-se ao mundo, mesmo que para isso tenha de ultrapassar os limites da comunhão eclesial.
Os que recusam o Vaticano II em nome da tradição sustentam que a Igreja apenas será fiel se regressar ao passado, mesmo que isso implique colocar em causa o magistério posterior.
Uns caminham para diante sem o centro; outros permanecem imóveis enquanto a Igreja continua o seu caminho.
Mas a identidade cristã nunca foi construída sobre estas alternativas. A Igreja não é um museu onde tudo permanece imóvel nem um laboratório onde tudo pode ser reinventado. É um organismo vivo. Como acontece com qualquer ser vivo, cresce permanecendo ele próprio. Uma árvore adulta não renega a semente que lhe deu origem, mas também não regressa a ela.
O critério decisivo continua a ser o mesmo desde os primeiros séculos: a comunhão. Não uma comunhão acrítica, que dispense o debate, nem uma obediência cega que elimine a consciência, mas uma comunhão que reconhece que ninguém possui sozinho a plenitude da verdade. O Espírito Santo não inspira apenas indivíduos; conduz toda a Igreja.
Talvez por isso seja mais fecundo abandonar as categorias políticas de "progressistas" e "conservadores". Essas palavras pertencem ao vocabulário parlamentar, não ao léxico do Evangelho. A verdadeira distinção é outra: entre aqueles que procuram a verdade permanecendo na comunhão e aqueles que colocam a sua própria interpretação acima da comunhão.
A Igreja sempre viveu de tensões criativas. Os grandes santos discutiram, discordaram e, por vezes, confrontaram-se intensamente. Mas fizeram-no sem romper o vínculo que os unia ao Corpo inteiro.
A unidade nunca exige uniformidade absoluta; exige, isso sim, uma humildade comum. A humildade de reconhecer que nem o passado esgota a ação de Deus, nem o futuro nos autoriza a esquecer as raízes. Entre a nostalgia e a ruptura existe um caminho mais difícil, mas também mais autenticamente católico: o caminho da tradição viva, onde a fidelidade e a renovação deixam de ser adversárias para se tornarem duas expressões da mesma esperança.
Uma nota de rigor histórico: se estiver a referir-se ao caso recente da Suíça, posso identificar o episódio concreto e enquadrá-lo canonicamente, pois houve diferentes situações envolvendo tensões com Roma e convém distinguir os factos antes de fazer uma crítica específica.
Francisco Vaz
2 de julho de 2026
Sem comentários:
Enviar um comentário