Pecado original

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domingo, 1 de novembro de 2026

À procura do Santo Graal

Da eternidade ao creme antirrugas

Desde que se reconhece como humano, o ser humano parece sofrer de uma ambição desproporcionada: sabe que vai morrer, mas acha que deve haver maneira de resolver o assunto.

Talvez as mãos impressas nas paredes das cavernas já exprimissem esse desejo: «Passei por aqui.» Não sabemos o que pensava quem as deixou, mas é tentador reconhecer naquele gesto uma primeira resistência ao desaparecimento. Milénios depois, continuamos a deixar marcas nas paredes. Apenas lhes chamamos redes sociais.

Erguemos catedrais, procurámos o Santo Graal, escrevemos poemas, lançámos naves para o espaço. Com sentidos muito diferentes, estes gestos deixam entrever uma inquietação comum: o horizonte nunca nos chega. Há em nós qualquer coisa que protesta contra o ponto final.

Durante séculos, a eternidade era uma promessa de Deus. Entretanto, alguns deixaram de acreditar em Deus, mas conservaram intacto o interesse pela promessa. A vida eterna continua a ser desejável; pretende-se agora que seja entregue ainda neste mundo, de preferência com boa mobilidade e sem restrições alimentares.

Mudou o fornecedor, permaneceu a encomenda.

Onde antes havia peregrinações, há protocolos de longevidade. Onde havia relíquias, há suplementos. O elixir da juventude vem em cápsulas, o rejuvenescimento tem mensalidade e certos pregadores da imortalidade apresentam-se de sapatilhas, com gráficos e um código de desconto.

A ciência merece-nos gratidão: aliviar o sofrimento e prolongar a vida são conquistas humanas extraordinárias. O cómico começa quando lhe pedimos que resolva também a nossa dificuldade em aceitar que somos finitos. Queremos viver cento e cinquenta anos, embora, num domingo à tarde, por vezes já não saibamos o que fazer.

Talvez a eternidade que pressentimos dentro de nós não seja um calendário interminável. Talvez seja essa capacidade de desejar um bem que não acabe, de amar alguém sem aceitar que tudo nessa pessoa possa desaparecer. Um desejo não é uma prova, mas merece mais atenção do que a publicidade a um sérum.

E talvez o Santo Graal se deixe entrever quando interrompemos por momentos a preocupação de durar: numa mão que amparamos, numa ofensa que perdoamos, numa alegria que oferecemos.

Para quem crê, a vida eterna permanece uma promessa de encontro. E, enquanto caminhamos, há uma esperança ao alcance de todos: fazer do tempo que temos um lugar onde seja bom alguém existir.

Podemos continuar a pôr creme. Convém apenas deixar também que o rosto ganhe algumas rugas de tanto sorrir.

Francisco Vaz

1 de Novembro de 2026