Pecado original

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sábado, 3 de outubro de 2026

Tempo e consciência

Dedicado ao Fernando Marques da Silva

Há aniversários que nos convidam a olhar para o caminho percorrido. Os 71 anos do nosso camarada Fernando Marques da Silva são uma dessas ocasiões: celebramos a sua vida e reconhecemos nela uma parte do itinerário de todos nós, que partilhámos o curso de Marinha João de Lisboa e continuamos ligados por uma amizade que atravessa os anos.

Quando éramos jovens, o tempo parecia um horizonte aberto. Tínhamos pressa de partir, de conhecer, de provar aquilo de que éramos capazes. A vida apresentava-se sobretudo como promessa, e nós avançávamos com a confiança de quem ainda não conhece inteiramente o peso das escolhas.

Depois vieram as responsabilidades, os encontros, as separações, as alegrias e os dias difíceis. Cada um seguiu o seu rumo. E, enquanto julgávamos apenas construir uma carreira, uma família ou um lugar no mundo, íamos também formando a nossa consciência: aprendendo a distinguir o essencial do acessório e a reconhecer as consequências dos nossos atos na vida dos outros.

Com os anos, perde-se alguma coisa. A prontidão do corpo, a facilidade de recuperar de uma noite mal dormida, certas certezas que pareciam inabaláveis. Perdem-se possibilidades que ficaram por cumprir e, dolorosamente, pessoas cuja presença julgávamos inseparável da nossa vida. Há lugares aos quais podemos regressar, mas onde já não encontramos o mundo que conhecemos.

Seria pouco honesto falar da idade sem reconhecer essas perdas. Mas seria também injusto deixar que elas ocupassem todo o horizonte.

Porque os anos podem trazer ganhos que a juventude dificilmente adivinha. Ganhamos a capacidade de escutar sem ter imediatamente uma resposta. Aprendemos que compreender alguém exige tempo e que uma palavra bondosa pode valer mais do que uma razão vitoriosa. Descobrimos o valor de uma amizade mantida, de uma conversa sem pressa, de um gesto de cuidado que não procura reconhecimento.

Nada disso acontece automaticamente. A idade, por si só, não nos torna mais sábios. É preciso deixar que a experiência nos interrogue, aceitar corrigir o julgamento e conservar a curiosidade. A consciência amadurece quando conseguimos olhar para o que vivemos com gratidão, mas também com verdade.

Para nós, camaradas de Marinha, há algo de particularmente comovente nesta passagem do tempo. Conhecemo-nos quando tanto estava ainda por acontecer. Hoje, ao reencontrarmo-nos, reconhecemos no rosto de cada um o jovem que foi e o homem em que se tornou. A camaradagem guarda essa continuidade: permite-nos recordar o princípio e acompanhar o presente.

Aos 71 anos, o futuro continua a chamar. Há pessoas a quem podemos fazer bem, coisas que podemos aprender, encontros que merecem ser vividos. Há ainda lugar para o espanto, para o humor, para a ternura e para novos projetos. Enquanto formos capazes de dar atenção à vida e aos outros, teremos caminho diante de nós.

Fernando, parabéns pelos teus 71 anos. Que os próximos anos te tragam saúde, serenidade, alegria e ocasiões felizes de convívio. Que possas sentir quanto vale a tua presença entre aqueles que te querem bem.

E parabéns também a todos nós que te acompanhamos. Celebrar o teu aniversário é celebrar a felicidade de continuarmos a fazer parte da vida uns dos outros. Que saibamos aproveitar esse privilégio, mantendo viva a amizade e acolhendo, com esperança, o tempo que ainda nos é dado.


Francisco Vaz
3 de outubro de 2026