Pecado original

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segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

Um pouco de esperança no inferno de fogo

As Enfermeiras Pára-Quedistas Portuguesas1

Américo Pereira

Começa-se com uma citação que enquadra tudo o que se segue, da autoria de alguém que foi militar profissional, mas que é mais conhecido como chefe político, Winston Churchill. Reza assim: 

«NA GUERRA: DETERMINAÇÃO; NA DERROTA: REBELDIA; NA VITÓRIA: MAGNANIMIDADE; NA PAZ: BOA-VONTADE».2

Esta comunicação, que se redobra em homenagem a um grupo de Mulheres, estrategicamente esquecido depois de ter sido usado e descartado, prossegue com a citação de palavras de um Homem pelo qual tenho grande admiração e a quem Portugal muito deve, Salgueiro Maia, retiradas das suas memórias no teatro de operações da Guiné Bissau.

Tais palavras, na sua dureza e crueza, remetem-nos imediatamente para a guerra, guerra que quem a faz sabe bem que não tem leis e não tem outras regras efectivas para lá de essa que determina matar o inimigo antes que ele nos mate, e dessa outra que consiste em, sempre, proteger os camaradas. Daqui, deriva a brutalidade da guerra, a sua impiedade: se não for impiedosa, não é guerra, é uma anedota inconsequente, mas, ainda assim, assassina.

Relata Maia:

«Mando pedir de imediato uma evacuação heli; digo ao enfermeiro para lhe dar as injecções da ordem contra a infecção. O soro, etc. / O helicóptero demora quase quarenta e cinco minutos a chegar. O homem está calmo. Para o socorrer, utilizamos os restos das próprias calças para fazer garrotes à perna e ao braço, para além de, com outras tiras, segurar pensos a tapar ferimentos menores. O homem está totalmente nu, com a camisa do camuflado a fazer de tala para o braço. O esperado heli chega. Traz dentro uma enfermeira para-quedista bonita e loira. Quando vê o homem, diz-me que não leva o ferido assim despido. Dá-me vontade de lhe enfiar um par de estalos. Domino-me e digo ao enfermeiro que está de camisola interior para se despir e tapar o ferido. Por fim, o heli levanta, o homem salva-se. No dia a seguir, a enfermeira, ao aproximar-se de um Nord-Atlas, distrai-se, não vê que uma hélice do avião está em movimento e é feita em pedaços.».3

Esta é a terrível realidade da guerra, sem diplomacias, sem tempo, sem meios adequados, sem contemplações, sempre entre a brutalidade feroz de uma vida em processo de morte, iminente ou eminente, nossa ou do inimigo.

É para e neste ambiente, sem cinzentas ambiguidades, ambiente de absoluto de vida e de absoluto de morte, de juízos impiedosos, de minúcias imediatamente definidoras e definitivas, que se ofereceram e em que trabalharam as Enfermeiras Pára-Quedistas Portuguesas.

Sobre a morte da Enfermeira Paraquedista Maria Celeste Ferreira da Costa, morta em serviço no dia 10 de Fevereiro de 1973, em Biassalanca, Guiné-Bissau, há outros dizeres, por exemplo, o da Camarada Manuela Flores França, do Segundo Curso (falecida em 27 de Dezembro de 2011, primeira a saltar em queda livre), publicado na obra de Susana Torrão, Anjos na guerra. A aventura das enfermeiras paraquedistas portuguesas, Alfragide, Oficina do Livro, 2011, p. 101:

«Outro acontecimento que acabou por marcar todo o corpo de enfermeiras paraquedistas foi a morte da enfermeira Celeste Ferreira Costa, apanhada pela hélice de um avião, em Biassalanca, na Guiné. [palavras da Enfermeira Manuela Flores França:] “Sobretudo para duas colegas que estavam lá na altura foi uma coisa horrível. Marcou-nos horrivelmente [faltam-lhe as palavras (inciso da autora)]. A maneira como foi... Andámos meses a pensar, naquilo. De cada vez que subia para o avião – e eu sempre tive o cabelo muito curtinho – pensava na Celeste.” A enfermeira tinha sido apanhada pelo cabelo. [De novo, citação de Manuela Flores França] “Ela tinha o cabelo muito grande. Nós tínhamos recomendações para trazer o cabelo preso sempre que subíamos para o avião, mas os pilotos também não deviam pôr o avião a funcionar enquanto a enfermeira não estivesse lá dentro. Existiam regulamentos, as pessoas é que, com a pressa, não os cumpriam. Aconteceu. [...]”».

O caso da Enfermeira Pára-Quedista Celeste Costa é paradigmático, positiva e negativamente. Sobre a sua negatividade, já se ponderou, e basta. Sobre a sua positividade, que se pode afirmar?

De facto, nada com mais autoridade do que o louvor que lhe foi concedido, parcialmente transcrito por Susana Torrão, na obra já citada (pp. 132-133), de que salientamos, como resumo e ápice: 

«De trato afável, carácter íntegro, possuindo um alto sentido do dever e da lealdade, a furriel graduada enfermeira Ferreira da Costa foi para todos e em particular para os elementos do serviço de Saúde da Força Aérea, um exemplo a seguir e motivo de prestígio para as Forças Armadas.».

Celeste, Enfermeira Pára-Quedista, «bonita e loira», mas também com «alto grau de sentido do dever e da lealdade», deu a sua vida pelo país que escolheu servir, em frente de guerra, longe do conforto metropolitano, largamente ignorada. Tinha 27 anos. Foi promovida à dignidade de Sargento, que merecera em vida, a título póstumo.

Ora, se se escolhe Celeste Costa como símbolo, não é por ela ser «bonita e loira», mas por personificar a grandeza destas poucas dezenas de Mulheres, mais ou menos bonitas por fora, mas de imensa beleza interior, a beleza que deve possuir todo o militar digno do nome: integridade, lealdade, sentido do dever, mas também dos limites da razoabilidade, coragem, inteligência – profunda e célere –, persistência, dureza no combate, contra inimigos, de que a morte é o mais poderoso, misericórdia, quando o inimigo está já objectivamente reduzido.

De certo ponto de vista, que é fundamental, o pessoal de saúde militar incarna – quando actua como deve – o que é um verdadeiro militar.

As guerras só terminam quando, de um modo ou de outro, se consegue atingir um estado de paz, por mínimo que seja, como pura ausência de actos de guerra, ainda que por exaustão dos inimigos. Sem tal, a guerra continua.

Ora, o militar, mesmo o profissional, talvez sobretudo o profissional, vive para a paz, tendo de, para tal, aprender a vencer qualquer guerra com a maior eficácia possível, com a maior brevidade possível, o que o torna em algo muito mais eficiente do que o vulgar «guerreiro», escravo da guerra.

Saindo do nacional provincianismo, não é, assim, de admirar que um Pára-Quedista, como o já célebre Major Richard Winters, de invejável currículo de batalha, fosse um militar amante da paz, desejoso de acabar o serviço o mais depressa e bem possível, o que o tornou num espantoso instrumento de guerra.

Serve este exemplo para mostrar que as Enfermeiras Pára-Quedistas Portuguesas, não sendo guerreiras, foram, no entanto, talvez por isso mesmo, grandes militares, no seu âmbito próprio de acção.

Tal grandeza merece ser reconhecida de modo claro, sem reducionismos, sem revisionismos, sem preconceitos de qualquer etiologia.

A sua grandeza, sobretudo as das primeiríssimas, as chamadas «Seis Marias», começou, precisamente, enfrentando, mesmo lutando contra, todo um conjunto de ambientes preconceitos relativos à postulada, mas improvada, inabilidade das mulheres para o desempenho de certas tarefas, mormente, as de índole militar.

Este tipo de preconceito é de tal modo irracional que esquece que, por exemplo, é muito mais fácil e rápido treinar alguém, mesmo uma criança de seis, sete, oito anos – menino ou menina – no bom uso de uma arma de fogo, por exemplo, uma ‘amigável’ AK47, do que nos modos, ainda que mais básicos, do socorrismo militar, sobretudo em ambiente de guerra.

Por que é que uma mulher comum não consegue aprender a usar bem uma «Kalash» ou a ser socorrista ou enfermeira ou médica militar em teatro de guerra, mesmo em frente de guerra?

Pois, foi contra tal social imbecilidade que estas primeiras seis Senhoras – sim, estas são Senhoras; mulheres que são Senhoras por mérito próprio – tiveram de começar por lutar. Ao passo que, para o comum mancebo em idade de ser chamado para a guerra, basta existir, sem ter de se voluntariar – e quantos preferiram ser refractários, por razões suas que aqui se não julgam –, estas jovens Mulheres tiveram de se voluntariar, dado que nenhuma Polícia Militar as foi buscar a casa; tiveram de mostrar que eram capazes de desempenhos variados que as não envergonhassem perante o que os homens faziam; tiveram de ser a excepção, a fim de reclamar para si a normalidade.

Para coragem e determinação, não é mau começo. Afinal de contas, coragem é coragem e é-se cobarde tanto sob o fogo das armas quanto sob o fogo da estupidez social. Ontem como hoje.

É interessante notar que, numa obra intitulada Guerra colonial, da autoria de Aniceto Afonso e de Carlos de Matos Gomes (Lisboa, Diário de Notícias, s. d.), com a extensão de 632 pp., na parte especialmente dedicada aos «Pára-quedistas», surgem, sobre estas suas Camaradas de armas, apenas estas ‘bastantes’ linhas, p. 179:

«Em 1956, a primeira mulher pára-quedista portuguesa, Isabel Rilvas Mathias,4 lançou a ideia de formar um corpo de enfermeiras pára-quedistas e este alvitre conduziu à criação de um curso e, posteriormente, de um corpo dessa especialidade, as primeiras mulheres integradas como militares nas Forças Armadas Portuguesas. Estas enfermeiras dependiam dos comandos das unidades de pára-quedistas em que estavam integradas e realizaram inúmeras acções de apoio a evacuações de feridos nos teatros de operações e em situações de combate. / De 1961 a 1974,

foram “brevetradas” 48 [sic] enfermeiras, tendo uma delas morrido na Guiné, ao embarcar para uma missão de evacuação, e outra sido ferida por um projéctil, em Moçambique.».

Este brevíssimo trecho, acompanhado por uma fotografia em que se podem ver duas destas enfermeiras, tem a vantagem de reconhecer os inúmeros serviços prestados a militares feridos em zonas de combate; tem, ainda, o mérito de trazer à colação os símbolos da Enfermeira morta e da Enfermeira ferida com gravidade, no lado oposto de África, a muitos milhares de quilómetros de distância, apenas nove dias depois, com um disparo que lhe atingiu a cabeça, alojando-se o projéctil no crânio; removido este, a Enfermeira Cristina Silva esteve 434 dias de baixa. Esta Senhora, quando estivera na Zona Aérea de Cabo Verde e Guiné, durante 14 meses, efectuou «mais de duas centenas de evacuações de feridos e doentes»,5 nas palavras do louvor atribuído pelo então Comandante de tal Zona Aérea.

Quando se visita o mural com os cerca de dez mil nomes de militares portugueses mortos nesta guerra, junto ao Tejo, de que partiram os fundadores do que viria a ser o falhado império pelo qual todos morreram, não se pode deixar de perguntar quantos mais nomes aí estariam se estas Senhoras Enfermeiras Pára-Quedistas não tivessem existido ou não tivessem desempenhado bem o seu labor. Quantas linhas se dedicam, em historiografias várias, a medíocre gente que faz fraca a forte outra. Pouquíssimas linhas são dedicadas a estas fortes femininas gentes. Assim se faz ou desfaz um país, insistindo em preferir a mediocridade à grandeza.

Para que não se contribua para o regime de anonimato a que o que há de pior em Portugal costuma votar quem melhor serviu o País, apresentam- se, simbolicamente, os nomes das primeiras seis Enfermeiras Pára- Quedistas, todas lusitanamente chamadas Maria: Maria Ivone, Maria Arminda, Maria Nazaré, Maria de Lourdes, Maria do Céu, Maria Zulmira. Todavia, todas as quarenta e duas que serviram merecem os seus nomes em bronze gravados; e postos em lugar de honra.

Uma honra colectivamente merecida, todavia, através dos pessoalíssimos trabalhos desempenhados pelas jovens raparigas que se disponibilizaram a servir, não no abstracto das grandes declarações, mas no concreto do horror da acção, não essa coisa teórica que é o Estado, ou essa coisa inconcreta que é o povo, não essa coisa mítica que é a Nação, mas essas humanas coisas bem concretamente reais que são os Homens de carne, cuja carne é furada, despedaçada, queimada, volatilizada, tais são alguns dos efeitos da guerra, da real, a de «blood, toil, sweat, and tears», na famosa expressão do Tenente-Coronel Winston Spencer Churchill, em funções de Primeiro Ministro da Grã-Bretanha.

A guerra nunca mente. Os seus promotores e os seus beneficiários, esses, sim.

A saga das Enfermeiras Pára-Quedistas – bonitas e loiras, ou não – todas, na expressão de José Freire Antunes, «heroínas silenciosas»,6 começou na sequência de um nobre desejo de uma jovem senhora, Isabel Bandeira de Melo (Rilvas), que se apressou a transformar tal desejo em vontade, movendo homens poderosos, a fim de ser possível haver em Portugal um corpo de Enfermeiras Pára-Quedistas, ela que já era brevetada e que ambicionava ser enfermeira, o que não veio a suceder.

Tais homens a mover incluíram o então Tenente-Coronel Kaúlza de Arriaga e, segundo as palavras da própria Isabel Bandeira, também Salazar:

«O futuro veio a provar que as minhas conversas com o Subsecretário de Estado, Tenente-Coronel Kaúlza de Arriaga não tinham sido inúteis... a “semente” –, a ideia da criação de enfermeiras paraquedistas – fora lançada, e ficara a “germinar” na sua cabeça. Ele não a esqueceu e, quando se começou a recear o irromper de conflitos nas nossas Províncias Ultramarinas, apresentou-a ao Presidente do Conselho de Ministros, Dr. Oliveira Salazar. Este concordou com a formação do primeiro grupo de mulheres a entrar nas fileiras militares, como enfermeiras!».7

Esta estranha modernidade do chefe de governo abriu as portas não apenas ao acesso de mulheres às Forças Armadas, como militares, como, também, criou a possibilidade de existência de um Serviço de alta nobreza e alto risco, que teve como consequência, para lá do efectivo salvamento ou auxílio ao salvamento de muitas vidas de militares de tais Forças Armadas, como, se bem que estranhamente obscurecido, este, o facto indesmentível de mostrar que as mulheres, mesmo loiras e bonitas, podiam mostrar-se, em situações-limite, capazes de enfrentar perigos análogos aos dos demais militares, desarmadas, agindo profissionalmente debaixo de fogo, em situações em que o metal que voa no ar não sabe distinguir entre o masculino corpo do macho e o feminino corpo da fêmea da espécie humana.

As balas e os estilhaços são do mais democrático que há, e, em termos de género, não são preconceituosos: mutilam e matam tudo o que podem, sem discriminação.

Obtida a autorização ao mais alto nível, havia que pôr ‘a máquina em movimento’. Onde ir buscar recrutas? Em termos militares estritos, como é evidente, o local mais evidente para tal busca é uma escola conventual para meninas enfermeiras. Assim, foi. Nas palavras de Isabel Bandeira:

«E assim se formou o primeiro grupo de enfermeiras paraquedistas equiparadas a militares. Outras se lhes seguiriam... Deu-me particular satisfação o facto de cinco das enfermeiras deste primeiro grupo serem da minha escola, a Escola de Enfermagem Franciscanas Missionárias de Maria, e de serem todas minhas conhecidas, algumas mesmo particularmente amigas. Apenas uma delas era de outra escola, da Escola de S. Vicente de Paulo [...]».8

Encontradas as recrutas, havia que, nas palavras da Enfermeira-Pára Ivone (Maria Ivone Quintino Reis), recruta das Franciscanas Missionárias de Maria, «trocar: a touca branca de enfermeira pela boina verde. A bata branca de enfermeira pelo fato camuflado. Os delicados sapatos brancos de enfermeira por grossas e pesadas botas pretas. A ambulância pelo helicóptero ou o pequeno avião. O hospital, pelo vasto teatro operacional da guerra em Angola, Moçambique e Guiné.».9

Boina. Recruta. Tancos. Brevet. «E serei eu capaz de saltar?»,10 é a questão que a coordenadora da obra, Nós, enfermeiras paraquedistas, Rosa Serra, relembra, relembrando (ibidem) também o «arrepio das convenções sociais então existentes quanto à posição da mulher na sociedade» (ibidem).

Claramente a posição destas Mulheres era bem de pé, numa vertical simbólica entre a terra ensanguentada e o céu por onde o auxílio poderia chegar.

Ainda as palavras da mesma coordenadora:

«Depois de selecionadas pelas freiras da sua escola de enfermagem, foram convidadas pela Força Aérea Portuguesa a entrar[em] no recém-criado quadro de Enfermeiras Paraquedistas. As que aceitaram, fizeram provas de admissão físicas e psicotécnicas, em 26 de Maio de 1961, tendo ficado apuradas onze enfermeiras, que começaram o curso de paraquedismo em 6 de Junho do mesmo ano. / Viriam a terminar este curso apenas seis delas que, pelo facto de todas se chamarem Maria, passaram a ser denominadas de “As Seis Marias”».11

Cinco das recrutas não terminaram com aproveitamento o curso, o que é significativo. Deste modo, em 8 de Agosto de 1961, foram “brevetadas” e receberam a «boina verde» as primeiras mulheres equiparadas a militares de Portugal.

Em breve, trabalho adequado não iria faltar.

Nas palavras da Capitão Ivone Reis, a quem, em 2014, Adriano Moreira recorda especialmente como sua «oficial às ordens quando tive responsabilidades no então ultramar»12:

«Enquanto se faziam as fardas, houve uma operação na serra da Canda e pensaram: “Vão duas enfermeiras, para se fazer o teste da sensibilidade dos soldados, para ver como é que eles reagem às mulheres.” Eu e a Maria Arminda fomos para Angola, não sabíamos bem para quê, para um teste de integração no meio operacional. Fomos para Angola no dia 22 de Agosto e no dia seguinte participámos no lançamento de para-quedistas numa zona de combate. [...] Não pudemos saltar, estivemos dentro dos aviões enquanto eles saltavam, e fazíamos o apoio sanitário porque levávamos todo o nosso equipamento. [...] / Houve depois a visita do ministro do Ultramar, Adriano Moreira, e nomearam-me para ir na comitiva, como forma de motivar raparigas enfermeiras a tornarem-se para-quedistas.».13

Também na Ásia se levantavam monções de mudança política, com a morte de velhos impérios e o nascimento de outros, as chamadas possessões portuguesas na Índia foram reclamadas pelo Estado da Índia, o que implicou senão uma «guerra», em sentido comum, pelo menos movimentações inabituais, incluindo também das recentíssimas Enfermeiras Pára-Quedistas portuguesas.

De novo, as palavras autorizadas de Maria Ivone Reis:

«Quando cheguei da visita do ministro do Ultramar surgiu a questão da Índia e fomos quatro [dois terços da força] para Carachi, em 13 de Dezembro, para dar apoio às famílias que eram repatriadas da Índia, porque os militares ficaram em campos de concentração. Estávamos as quatro em Carachi quando Goa foi invadida, no dia 18 de Dezembro.».14

A guerra é muitas vezes determinada em gabinetes e salões, longe da sua real substância de «blood, toil, sweat, and tears», longe do cheiro não ‘a morte’, que é apenas uma metáfora, mas do cheiro dos mortos. Quem realmente faz a guerra vive no meio da maior imundície de que a humanidade é capaz. Foi neste ambiente de substantiva vida com cheiro a mortos, que viveram e trabalharam as Enfermeiras Pára-Quedistas, «iguais a eles. Uns companheiros», como afirma a Enfermeira-Pára Giselda Antunes Pessoa.15

Para que não haja uma imagem romântica das jornadas destas Militares, seguem-se alguns exemplos do que é a guerra, essa que desconhece ‘estados de direito’, direitos dos estados, direitos humanos, humanidade, sem mais, e que é apenas não-totalmente-desumana por causa de actos de humanidade, contraditórios aos actos de guerra a que se opõem, actos que são a parte humanamente positiva dos exemplos que se seguem, terríveis, de tal modo que cabem no que a Enfermeira-Pára Maria de Lourdes (Cobra) afirma como indizível; cita-se:

«É inenarrável o que comigo aconteceu naquele período da minha vida. Muitos daqueles acontecimentos ainda hoje povoam a minha memória, pois são inesquecíveis. Alguns, por muito dolorosos, nunca os narrei a ninguém, e ficarão para sempre comigo, até por respeito por aqueles que foram suas vítimas.».16

Então, do que foi possível partilhar por algumas destas Militares acerca do horrível, começa-se pelo testemunho da Enfermeira-Pára Eugénia do Espírito Santo Sousa:

«De outra vez evacuei um furriel branco e um militar negro. Pela primeira vez na minha vida, tive que utilizar a mesma agulha porque os dois tinham ficado sem pernas. Vinham deitados no helicóptero, um no andar de cima e o outro por baixo. Enquanto o branco suspirava, o negro puxava-me pelo camuflado. Com a mesma seringa e a mesma agulha, dei-lhes injecções alternadamente, tentando ser justa com os dois. Senti-me muito ligada ao furriel porque ele não se queixava. Depois, na minha hora livre, fui vê-lo ao hospital e sofri imenso porque o furriel tinha morrido na operação.».17

A Enfermeira-Pára Maria de Lourdes Gomes afirma que: «Nunca me tinha ocorrido que pudesse haver tanta destruição humana, tanta dor, tanta infelicidade!»,18 e sobre tal destruição testemunha:

«Fui fazer uma evacuação à zona operacional, e já tinha combinado com um médico do hospital de Mueda, que nunca tinha feito nenhuma evacuação, que ele iria comigo para ver como era uma evacuação sanitária. Chegados à pista subimos ambos para o helicóptero e rumámos ao local do pedido, em plena mata. Aterrámos, e logo chegou junto a nós um militar que me entregou um saco preto que ambos arrumámos a um canto do helicóptero de forma a não ocupar muito espaço. O militar ficou a olhar para mim. E eu, como não via aproximar-se nenhum ferido perguntei: “E então o ferido não vem?” O soldado apontou para o saco, ao mesmo tempo que disse, “É só esse!...”. De repente fez-se luz na minha mente!... Nunca me tinha acontecido entregarem-me um corpo desfeito dentro de um saco... / Descolámos, e à medida que o helicóptero tomava altura e se afastava do local, eu vomitava, não conseguindo controlar a emoção que tomou conta de mim. Não me lembro da reação do médico, mas admito que ficou sem vontade de se voluntariar a fazer alguma evacuação mais.».19

Este testemunho, extremo, mostra bem a massa de que a guerra é feita, transcendente a toda e qualquer tentativa de embelezamento, de moralização, de sublimação, de metamorfose de absoluto mal em bem qualquer. Estes homens e estas mulheres, como todos os que, militares – não guerreiros, estes alimentam-se desta massa –, que em semelhantes situações se encontraram, incarnaram, literalmente ficaram com o sentido de tais eventos embutido em sua carne, na carnal memória, que a angústia do absoluto do mal presenciado sempre produz.

O único bem, de que adiante se falará, vivido nestes actos, corresponde ao absoluto do bem feito ou do bem partilhado, por exemplo, como camaradagem, algo que apenas os militares – os soldados vários – podem saber o que é, pelo sabor que em tal hauriram: é o sentido de se pertencer ao que Shakespeare designa como «band of brothers», que não são irmãos «de sangue», mas irmãos «por sangue».

A Enfermeira-Pára Maria do Céu Pedro Esteves, na obra coordenada por Rosa Serra, afirma:

«As minhas recordações dessa época são muito positivas, não podem ser melhores. [...] não deixava de haver sempre uns “amargos de boca”, por vezes mesmo muito amargos. [...] Foi um viver sempre de alma cheia, acompanhado da consciência do Dever cumprido. E, ainda, completado por um sentimento, como sendo o melhor tipo de vida que Deus teve a bondade de me dar.».20

Estas parecem ser afirmações de uma bela e frágil alma. Vejamos, então, a fragilidade e a beleza de tal ‘alma’, em acção (Freire p. 675):

«Depois fui para o Norte de Moçambique, para Nampula, onde tive uma vida difícil porque só lá estava uma colega que se veio embora e eu fiquei sozinha. O primeiro morto que tive a bordo de um avião foi uma coisa horrível. A esse chegámos a dar uma injecção intracardíaca. Comigo só estava um rapaz anestesista, mas era novinho, não tinha prática. Eram mais de trinta homens queimados: uma mina anticarro mandou pelos ares um camião, que levava gasolina, e toda aquela gente ficou numa miséria. Era um avião com 37 feridos.».21

Se todas as regras ou assim supostas são óptimas para ser quebradas quando a dura realidade assim o exige, que ambiente e local melhor para o fazer do que a guerra, não a dos gabinetes presidenciais, não a dos comentadores de ar-condicionado, não a dos juristas que nunca lá estiveram, mas a dos homens e mulheres que, por exemplo, são regados com gasolina ou fósforo branco?

Da mesma Enfermeira-Pára – que não é a única que revela ter desobedecido a NEPs ou outros acrónimos – podemos ler o seguinte relato:

«Não podíamos fazer evacuações nocturnas no terreno porque não se via nada. Mas um dia, já o Sol se estava a pôr no horizonte, o comandante disse que precisava de dois pilotos voluntários para ir buscar feridos muito graves. Houve dois pilotos que se ofereceram, eu estava de alerta e por isso tinha que ir. Não se via nada. Levávamos todos auscultadores e só ouvíamos dizer:

“Corta naquela árvore, corta naquela.” Quando lá chegámos, havia uma clareira no meio de uma mata que eles fizeram à pressa para podermos aterrar. Pousámos, não sei como. Nem sei como é que consegui recolher quatro homens em estado gravíssimo, que não podiam ir em maca porque senão morriam logo. Quando foi para levantar foi o mesmo espectáculo, não se via nada: “Agora para a direita, agora para a esquerda.” A verdade é que os homens salvaram-se. Se lá tivessem ficado tinham morrido.».22

Gráfico, fácil de entender, incluindo a parte em que se consegue mesmo trabalhar depressa e bem sob condições terríveis e sem ar-condicionado. Num grande pormenor, a Enfermeira-Pára Maria do Céu está errada: os homens, de facto, ‘não se salvaram’ – os homens foram salvos pela grandeza do Comandante que comandou segundo não a lógica do manual, mas segundo a lógica da guerra, lógica que, neste caso, resultou mais humana; os homens foram salvos pela grandeza dos pilotos que se voluntariaram para seguir a voz do Comandante e fazer aquilo que qualquer soldado deve fazer, isto é, se humanamente possível, salvar o camarada, o irmão, nunca o deixando para trás (sei que isto diz muito a muitos militares); os homens foram salvos pela grandeza da Enfermeira-Pára que assumiu o seu dever de guerra e de humanidade; os homens foram salvos, também, pela grandeza dos actos apropriados dos camaradas junto de quem estavam e que tudo fizeram para os ajudar.

Isto é a guerra – terrível –, mas, no seu seio de madrasta, isto também é a camaradagem, forma especial de amizade, a mais nobre, aquela que, como diz Platão, leva o amante a dar a vida pelo amado, coisa bela que os camaradas sempre são: irmãos amantes até à morte. Assim também estas Mulheres de camuflado.

Não se quer promover este lote de 46 Mulheres, Senhoras, a santas ou a entidades perfeitas: ninguém o é, pelo menos ao modo divino. Todavia, na sua humana imperfeição, comum a todos os seres humanos, surgem actos como o que, de seguida se narra, da mesma Enfermeira-Pára:

«De outra vez, o helicóptero desceu e eu fiquei na orla da mata, não podia sair do helicóptero. Eles entraram pelo mato dentro e o cabo nunca mais aparecia. Decidi então entrar pelo mato e lá os encontrei. Estavam a demorar porque um alferes tinha pisado uma mina, tinha ficado sem a perna e estavam-lhe a fazer um penso compressivo, para que não perdesse sangue. Quando me viram disseram: “A senhora aqui?! A senhora é doida!” Era realmente proibido sair, aquilo estava tudo armadilhado, só não pisei uma mina porque não calhou. Mas devo dizer que nunca senti medo.».23

Medo: o sentimento que os tiranos promovem, a fim de nem sequer terem de combater aqueles a quem querem escravizar. É bom não o ter ou, pelo menos, saber como o controlar, a fim de eliminar com a maior brevidade possível tais tiranos. É aqui que tudo se joga, perceba-se tal ou não.

Para que não se pense que a vida em guerra destas frágeis Senhoras foi apenas um mar de humano sofrimento e miséria, transcrevemos, ainda da mesma Enfermeira-Pára, um caso de sucesso incruento:

«[...] Mas salvei um bebé, uma vez. Entrou um casal dentro do posto de socorros de Bissalanca, aos gritos, com uma criança nos braços. Eu vi aquilo, saquei-lhes a criança dos braços, e levei- a para dentro. A criança vinha em morte aparente. Mandei uma das nossas colegas preparar uma injecção de Solu-Dacortina, enquanto eu lhe fazia respiração boca a boca e massagem cardíaca, sem desistir. Como a criança era de cor, elas não lhe conseguiam apanhar a veia, ainda por cima porque as veias já estavam colapsadas. Mas ao fim de quinze minutos, o bebé já expelia o ar. Continuei e, passado um bocado, a criança começou a rir. Consegui apanhar-lhe uma veia ao pé da sobrancelha, dei-lhe a injecção de Solu-Dacortina e pus-lhe o soro a correr. Entretanto, chegou um dos médicos que me disse: “Maria do Céu, foi uma vitória que teve aqui. Pode ter a certeza que ressuscitou esta criança. Como prémio, vai na ambulância levá-la ao hospital civil, para entrega-la aos pais.” Foi para mim uma felicidade, uma recompensa.».24

Deveras.

Já vai longo este monólogo. Antes do toque de recolher, e evitando o provincianismo lusitano, permitam-me voltar a Churchill:

«Ah, terrível guerra, espantosa mistura de glória e de imundície, de coisas miseráveis e sublimes, se os modernos líderes te conhecessem mais de perto os homens simples dificilmente te voltariam a ver» (palavras inicialmente publicadas no periódico Morning Post).25

Antes do silêncio – que seria bom ser de paz – que tais palavras merecem, outras palavras de um outro oficial estado-unidense, uma jovem Tenente Enfermeira, em acção no teatro de guerra do Vietnam, Linda Van Devanter, em dia de Natal, de 1969 (tradução nossa):

«Na manhã de Natal, saí de serviço e abri, sozinha, todas as minhas encomendas. Senti tanto a vossa falta, embalei-me, chorando, até dormir. Estou a começar a chorar de novo. É ridículo. Parece que, ultimamente, passo o tempo todo a chorar. Odeio este sítio. Estou, agora, no sétimo mês de morte, destruição, e miséria. Estou cansada de ir dormir a ouvir foguetes, morteiros e artilharia, que dispamos e que disparam sobre nós. Estou enojada com ter de enfrentar, todos os dias, um novo monte de crianças desfeitas em pedaços. São apenas miúdos – dezoito, dezanove anos de idade! Mete nojo! Toda uma vida diante deles – cortada. Estou enojada de morte com isto. Tenho de sair daqui. [... um pouco mais à frente] Acabo de ouvir mais um ‘héli’ chegar. É melhor eu ir. Precisam de mim na sala de operações.».26

Este trecho manifesta bem a imbecilidade da guerra, que o mesmo não é dizer a não necessidade de Forças Armadas, desde que estas sejam constituídas por militares cujo serviço consiste em evitar guerras, simplesmente porque essa é a sua missão.

As quarenta e duas Pára-Quedistas Enfermeiras Portuguesas, que são o motivo que aqui nos reúne, incluem-se no grupo dos «simples» seres humanos, Mulheres, que, no meio e do meio de «coisas miseráveis» e de «imundície» – assim a guerra – se ergueram, e ergueram esses a quem ajudaram, ao sublime de quem põe o único real bem que se é, a sua própria vida, ao serviço de semelhante bem alheio.

Nada mais elevado em termos humanos se pode exigir, pois nada de mais humano existe.

A tais Mulheres, como a todos os que deram a sua vida pelo bem dos seus camaradas e, ultimamente, do seu País, devemos um perene apresentar de armas e um eterno toque de despertar, pois, para todos eles, não há toque de finados que se adeque.

Américo Pereira

Novembro 2025

Notas:

1 Estavam presentes as Enfermeiras Paraquedistas Antonieta Antunes Ribeiro, Giselda Antunes Pessoa e Maria de Lourdes Lobão.
2 Tradução nossa, do original, em língua inglesa, CHURCHILL Winston S., The Second World War, 6 vols., Boston, Houghton Mifflin Company, 1985, palavras que surgem como «Moral of the work», em todos os seis volumes, logo a seguir ao frontispício e página técnica.

3 MAIA Fernando Salgueiro, Capitão de Abril. Histórias da guerra do ultramar e do 25 de Abril.

Depoimentos, Lisboa, Editorial Notícias, 1994, p. 47.

4 Falecida a 14 de Setembro de 2025, com noventa anos.
5 Cfr., Susana Torrão, op. cit., p. 134.
6 ANTUNES José Freire, A guerra de África. 1961-1974. Volume II, s. l., Círculo de Leitores, 1995, p. 663.
7 SERRA Rosa (coord.), Nós, Enfermeiras Paraquedistas, Porto, Fronteira do Caos Editores, Lda., 2014, p. 25.
8 Ibidem.
9 Ibidem, p. 385. 10 Ibidem, p. 48. 11 Ibidem, p. 50.
12 Ibidem, p. 15.
13 ANTUNES José Freire, A guerra de África. 1961-1974. Volume II, s. l., Círculo de Leitores, 1995, p. 664.
14 Ibidem.
15 Ibidem, p. 684.
16 SERRA Rosa (coord.), Nós, Enfermeiras Paraquedistas, Porto, Fronteira do Caos Editores, Lda., 2014, p. 407.
17 ANTUNES José Freire, A guerra de África. 1961-1974. Volume II, s. l., Círculo de Leitores, 1995, p. 681.
18 SERRA Rosa (coord.), Nós, Enfermeiras Paraquedistas, Porto, Fronteira do Caos Editores, Lda., 2014, p. 425.
19 Ibidem, p. 247.
20 SERRA Rosa (coord.), Nós, Enfermeiras Paraquedistas, Porto, Fronteira do Caos Editores, Lda., 2014, p. 395.
21 ANTUNES José Freire, A guerra de África. 1961-1974. Volume II, s. l., Círculo de Leitores, 1995, p. 675.
22 Ibidem.
23 Ibidem, pp. 675-676.
24 Ibidem, p. 676.
25 SANDYS Celia, Winston Churchill pela sua neta Celia Sandys, trad. por Victor Antunes, Lisboa, Alêtheia Editores, 2006, p. 27; reza do seguinte modo o original em língua inglesa: «.................», in . SANDYS Celia, Winston Churchill..............
26 VAN DEVANTER Linda (with Christopher Morgan), Home before morning. The story of an Army Nurse in Vietnam, New York, Toronto, Beaufort Books, 1983, pp. 174-175.
3 MAIA Fernando Salgueiro, Capitão de Abril. Histórias da guerra do ultramar e do 25 de Abril. Depoimentos, Lisboa, Editorial Notícias, 1994, p. 47.

segunda-feira, 1 de junho de 2020

BIOÉTICA - Estatuto epistemológico e questões principais


Neste texto, que é de índole introdutória, iremos procurar entender a necessidade antropológica a que uma «bioética» procura responder, de modo a ser possível entender o que possa ser, precisamente, uma «bioética». Não vamos, assim, partir do que é já a bioética constituída, mas da realidade que parece implicar a existência de uma bioética. Deste modo, a perspectiva será crítica, como é fundamental que seja em toda a reflexão epistemológica séria.
A reflexão acerca da bioética é uma reflexão epistemológica, não é uma reflexão moral. O que está em causa fundamentalmente é o estatuto próprio da bioética como esforço científico de conhecimento, o que implica a sua aplicabilidade concreta em âmbito antropológico. Esta só releva depois de se saber se isso que opera é epistemologicamente pertinente. As disciplinas teóricas ou teórico-práticas – como a bioética – só fazem sentido se relevarem de uma necessidade qualquer real que lhes sirva de fundamento existencial. São sempre ancilares, sempre função de um serviço ao bem-comum. De outro modo, não passam de caprichos infundados, danosos para o mesmo bem-comum. Assim sendo, estudaremos a fundamentação real do surgimento da bioética.
O serviço ao bem-comum por parte destas disciplinas, único fundamento para a sua existência, implica que não devam ser senão um trabalho objectivo de procura de soluções teóricas ou teórico-práticas para problemas reais que implicam negativamente com a realidade humana. Assim, justificam-se apenas como meios de buscar modos praticáveis de auxílio ao melhor possível da vida de todos os seres humanos, sem excepção.
De outro modo, não são apenas inúteis como são realmente nocivas e não devem existir, pois delapidam recursos que são sempre, por causa da finitude dos meios à nossa disposição, escassos. Tendo isto em consideração, em tais disciplinas e mormente numa humanamente tão sensível como a bioética, a procura da objectividade deve ser total e incessante, devendo ser afastado delas todas as formas de subjectivismo, todas as formas de redução da realidade a mera forma de interesse pessoal ou sectário: o que está em causa, repetimos, é o bem- comum da humanidade, não o meu bem ou o bem exclusivo de qualquer parte reduzida dessa mesma humanidade, no que configura sempre uma qualquer forma fascizante e tiranizante.

Logo, tudo quanto seja ideológico deve ser liminarmente afastado de tais disciplinas, isto é, de toda a ciência, pois é do que se trata. O cultor desta actividade deve procurar ser o mais inocente humanamente possível, do ponto de vista de todo o preconceito ou prejuízo. Será a realidade, na sua omnidimensionalidade, que será o únido guia possível para tal labor. Ora, o que acabou de se enunciar nada mais é do que o grande princípio epistemológico da independência do investigador relativamente a tudo o que não seja a mesma fidelidade ao conhecimento do objecto de estudo em causa. É esta a razão pela qual não há mesmo, por mais que se diga ou esforços que se façam, uma «ciência nazi» ou uma «ciência estalinista»,1 por exemplo, mas apenas ciência ou não-ciência.

Compreende-se, assim, por maioria de razão, que uma «bioética» que queira ser ciência e ciência aplicável e ciência aplicada (sem o que não tem qualquer interesse, não passando de mais uma forma de ludíbrio pseudo- intelectual), tem de ser epistemologicamente válida, isto é, tem de possuir. O mesmo não é dizer que não tenha havido seres humanos nazis ou estalinistas que tenham procurado fazer ciência, mas onde deixaram que a ideologia os condicionasse, aí, deixaram de ser cientistas e passaram a ser meros agentes políticos dos senhores ou das causas a que serviam e de que eventualmente se serviam. A ciência, quando existe propriamente como ciência, não como actividade prostituída aos senhores do momento, é independente da bestialidade ambiente em que possa ocorrer não apenas uma estrutura metodológica formalmente lógica, mas também um objecto que a justifique e procedimentos que respeitem metodologicamente tal objecto. A bioética, a ser epistemologicamente válida, não pode ser um instrumento político de intervenção tirânica, antes uma forma lógica de auxiliar a resolver prática e pragmaticamente os problemas reais que teoricamente apreendeu. Este «dever» não é moral, mas formal, objectivo, ditado pela sua própria pretensão epistemológica.

O nome escolhido para a disciplina não pode deixar de ser perspectivado criticamente, sem o que se fica com a incómoda impressão de que os cultores da disciplina não sabem muito bem o que querem e do que tratam. Assim, o termo «bioética» compõem-se dos evidentes sub- termos «bio» e «ética», ambos de origem helénica. «Bio» traduz para algumas linguagens modernas o étimo grego homologamente transliterado «bio», que se refere ao termo grego, masculino do singular, «bios», «vida». «Ética» refere-se a dois étimos substantivos helénicos, que grafamos em português de modo idêntico, «ethos», mas que se distinguiam graficamente por um possuir um «epsilon», «e» breve e aberto, e o outro um «eta», «e» longo e fechado. O primeiro termo diz respeito a «costume», «uso», mas também a «hábito»; o segundo diz respeito a «morada», «lugar habitual de permanência», mas também a «hábito». Ambos os termos referem-se, portanto, genericamente, a «modo de ser».

A ética, como disciplina, tem procurado equilibrar-se entre os extremos exclusivistas de uma mera ciência descritiva do que é a agência humana e uma normatividade dessa e para essa mesma agência. Ora, o que a ética é verdadeiramente é a mesma agência humana, enquanto tal e enquanto própria de um sujeito, nisso insubstituível como única fonte possível principial para a sua mesma agência, sempre pessoal e irredutível (ver nosso estudo «Ética e política: essência e relação», Itinerarium, Ano LIV, no 191, Maio-Agosto de 2008, pp. 209-231).

Assim, a ética sofrerá sempre desta ambiguidade, sendo sempre quer a própria agência humana, enquanto principialidade da mesma, e o seu estudo. Há também quem queira que a ética seja algo de normativo, confundindo ética com direito, confusão que em nada beneficia a disciplina e quem com ela trabalha. Deste modo, a bioética acaba por sofrer com toda esta falta de clareza, não se percebendo, muitas vezes, se isso de que se trata se refere ao que objectivamente se passa em termos da fontalidade da agência humana, ao seu estudo científico, a uma tentativa jurídica de normalização do mesmo âmbito real daquela agência.

No detalhe das questões do universo da bioética, para além desta reflexão epistemológica inicial, que permite validar ou invalidar criticamente a disciplina, salientamos, entre outras mais relevantes, as seguintes: Que se entende por vida? O que é a vida, ontologicamente? Qual a especificidade da vida humana? Que é propriamente «ser-se humano» e não um mero outro ser biológico qualquer? Quais são as consequências deste entendimento para a bioética? Que relacionamento há entre as ciências da vida e a bioética? Qual a realidade própria sobre a qual a bioética se debruça? Qual é a relação especial da bioética com uma ecologia que saiba situar o lugar do ser humano no conjunto holodinâmico da realidade biológica geral conhecida? Qual a relação especial da bioética com a ética geral e com a política. Qual é a dimensão política essencial e substancial da bioética?

Outras questões fundamentais são: Fundamentação filosófica da bioética. Identidade, pessoalidade, relação da materialidade física do ser humano com a sua realidade total. A genética, a cultura e a irredutível pessoalidade. Corporeidade, sexualidade, irrepetibilidade, clonagem e diferença espiritual. Formas artificialistas de relação com o humano: manipulação genética, reprodutiva e curativa. Direito à vida, direito à sobrevivência.

Direitos especiais dos menos fortes. Escolhas civilizacionais definidoras do estatuto que a humanidade quer para si própria: uma civilização da vida ou da morte? A saúde e a doença. Os cuidados de saúde. Ênfase curativo ou preventivo? A relação da prestação de cuidados de saúde com a política estatal e a economia. A saúde e a sobrevivência dos povos e da própria humanidade. As ameaças naturais e culturais à saúde e sobrevivência da humanidade.

A questão da guerra e os seus efeitos sobre a vida e a saúde das pessoas. Uma bioética especial para tempos de guerra?
A questão da morte como questão vital. O direito a morrer; o direito a morrer com dignidade; o direito a matar; o direito a matar-se; o direito a matar o outro. A questão da chamada «eutanásia». Bioética e virtudes. Bioética e as virtudes cardeais.
Necessidade de uma nova «Magna carta» para uma conduta humana que tenha como única finalidade o bem-comum.

Américo Pereira

31/12/2017

segunda-feira, 9 de dezembro de 2019

Ecologia e falsidade


A primeira falsidade acerca da ecologia é tratar-se esta de uma «questão natural». Ora, na natureza, não há quaisquer questões, pois apenas em seio de cultura podem estas surgir. A questão ecológica é cultural, humana, portanto.
Não havia mais do que estrita obediência física aos princípios naturais de movimento, incluindo as várias formas de potencialidade e de cinese, quando, antes de haver seres humanos, por exemplo, um vulcão emitia alguns milhares ou milhões de toneladas de dióxido de carbono para a atmosfera. Aliás, a atmosfera nasceu precisamente da emissão de gases por parte de vulcões e outros entes naturais naturalmente emissores de gases, sem que tal constituísse questão alguma.
Em tais emissores se incluem as naturalíssimas estrumeiras animais, turfeiras e outras demais fontes por estas tipificadas. Antes de haver humanidade, com tudo isto e muito mais presente em termos ecossistémicos, não havia questão ecológica alguma. Havia o movimento natural de tudo, com as consequências necessárias. Nada se preocupava, pois nada se podia preocupar, dado que nenhum ser havia que se pudesse preocupar. A natureza é laica, não tem deuses.
É com o surgimento da humanidade – que é operativamente indistinguível da ação humana que propriamente a constitui – que surge uma modificação radical no ecossistema: a possibilidade de haver entidades que podem não obedecer deliberadamente aos comuns anteriores princípios físicos omnipresentes e omnireinantes.
É também com este surgimento que ocorre a presença de entidades com capacidade para se questionarem, entre outras coisas, sobre a sua ação sobre o ambiente.
É também falso que a consciência ambiental seja algo de recente, especialmente remontando apenas à década de sessenta do século passado. É antiquíssimo o sentido – não se lhe pode chamar «consciência» porque o termo não existia, o que não impede que isso a que se refere como sentido existisse, sem ilusão retrospetiva – da gravidade, do peso próprio irredutível da relação entre o ser humano em sua ação e isso que fisicamente o transcende, chame-se-lhe ecossistema, ambiente, mundo.
Como não ver já no mito da expulsão do casal genesíaco um primeiro momento em que a ação humana sobre o mundo é trazida em sua grave consequência à cultural colação? Como não ver nos mitos de degradação antropológica e ecossistémica a
 partir de «idades de ouro» a tradução variegada de uma mesma preocupação? Como não ver nos vários tipos – alguns propostos já em âmbito filosófico – de recosmicização de mundos caotizados pela ação humana, mundos tornados imundos pela poluição operada pelas várias culturas destrutivas, formas também elas de preocupação fortíssima com o sentido e finalidade possível de uma realidade de relação entre humanidade e meio-ambiente em que a primeira ameaçava o segundo?
Como não ver em teorias éticas e políticas várias dedicadas à promoção do bem- comum uma busca de respostas teóricas universalizáveis em termos práticos e pragmáticos como modos de combater as várias formas de imundície cultural antinatural?
Velha mentira é também a que proclama que há seres humanos em demasia – sempre os outros, nunca nós e os nossos. Mesmo com a quantidade de seres humanos que se pensa haver hodiernamente, perto de oito mil milhões (8.000.000.000), há que perceber que fisicamente, em posição de pé e com uma densidade típica de carruagem de metropolitano em hora de ponta, a oito por metro quadrado, todos cabem na superfície dos Açores. São, assim tantos?
Quanto à escassez de recursos, antes de a decretar, há que pensar se na América do Norte e na Europa, entre outras regiões ditas desenvolvidas, não consome em recursos totais cada ser humano o equivalente a várias vezes aquilo de que realmente necessita, por exemplo, em termos de comida. Quem come um bife de mil gramas está a comer proteína por dez pessoas, o que faz, imediatamente que, para ele e seu egoísmo, o mundo tem apenas oitocentos milhões de seres humanos tão gulosos quanto ele. Todavia, de facto, não tem oitocentos milhões de apenas gulosos, mas oito mil milhões, entre gulosos, equilibrados e muitos com fome, fome de comida que, afinal, sempre existe.
Falsidade final: que se esteja efetivamente a fazer – a agir – muito no sentido de atenuar e inverter impactos negativos em termos de poluição, por exemplo, a de excesso de carbono em várias formas moleculares na atmosfera. Um passo objetivamente muito mais eficaz do que fabricar através de forte poluição industrial automóveis elétricos é obrigar e ajudar a mudança de máquinas que gastam na ordem dos dez litros por cada cem quilómetros para máquinas que gastem metade. A quebra de emissões é evidente e a tecnologia e técnica estão prontas e disponíveis. O resultado é muito mais rápido e eficaz.
Por outro lado, é grande a mentira – falsidade que é propositada – quando se procura convencer as pessoas de que se está a investir grandemente no plantio de

árvores. Quantas árvores estão a ser plantadas no mundo não apenas em substituição de outras em searas de árvores – uma floresta é outra coisa – mas em novas searas de árvores, estas dedicadas à fixação do carbono?
Faz-se sequer ideia da quantidade que é possível plantar, com mais ou menos custos, mas, sem dúvida, gastando muito menos do que se gasta em material militar inútil?
O recurso a uma aritmética muito simples pode ajudar a compreender o que está em causa em termos da grandeza do possível e da grandeza do realizado. Se se plantar – nalguns casos, pode mesmo semear-se – uma árvore de dois em dois metros, em grelha, obtém-se por cada quilómetro quadrado um número impressionante de árvores: 500 x 500 árvores = 250 000 árvores. Ora, uma superfície um pouco maior do que a de Portugal, com cem mil quilómetros quadrados, permite plantar o seguinte número de árvores: 250.000 x 100.000 = 25.000.000.000. Vinte e cinco mil milhões. Três árvores por cada habitante da Terra.
Pense-se no que significa toda a área dos vários desertos quentes transformados em searas de árvores deste tipo. Dirão os sábios que se trata de uma ignara utopia. Todavia, ignaro é pensar-se que não é possível criar laranjas no quente deserto. É difícil e trabalhoso, mas é possível. É labor de paz. Sem mentir.
Américo
Universidade
Imagem:
Publicado em 06.12.2019
Portuguesa,
Faculdade
de
Pereira Ciências Humanas MicroOne/Bigstock.com

segunda-feira, 2 de dezembro de 2019

Da ética como autopoética do humano

Embora o termo «ética» faça parte do título desta breve reflexão e muitas vezes por «ética» se entenda apenas ou prioritariamente a disciplina académica – quiçá, ciência – dedicada à normatividade não-jurídica da ação humana, não é este o sentido que será aqui usado, assumindo «ética» como, fundamentalmente, a própria ação humana na sua transcendentalidade máxima: a ética é o todo da ação humana, de que fazem parte quer as ações ditas «boas» quer as ações ditas «más».
Não se distingue, assim, entre «ato de homem» e «ato humano», pois, sem qualquer destes dois tipos analíticos da ação humana, não há propriamente «ação humana». Não há, também, qualquer ação de um ser humano que não tenha um qualquer sentido humano, dado que é através da ação que o ser humano se constrói como sentido.
Não desconhecemos a confusão moderna entre «ética» e ação de algum modo «boa», que relega o que seja a ação «não-boa» para o campo do não ético. Desta não-bondade da ação faz parte, eventualmente, a ausência de um sentido transcendental de autonomia regida por princípios a priori. Estas restrições do âmbito da ética implicam que se possa cair no absurdo de considerar como totalmente não-ética toda a existência ativa de um qualquer ser humano, levando a questionar o que seja, então, isso a que tal ser humano ético-transcendentalmente foi reduzido. O que é, na sua realidade onto-antropológica, um ser humano não-ético?
Tal ente mais não é do que uma abstração ou, então, pior, é mesmo um ser humano que foi reduzido ontologicamente a algo que poderá ser tudo menos uma entidade ética, de que temos exemplos aproximativos nas narrações feitas por pessoas submetidas a máquinas políticas de redução ética humana como foram os campos de concentração e de morte nazis, de que podemos salientar, pela exemplaridade, os textos de Primo Levi. Todavia, volta a questionar-se, que é isso de um ser humano que não é uma realidade, uma entidade atualmente ética?
Se se retira a realidade ética – que, fora de um regime abstracionista, é sempre algo da ordem do facto, do concreto que cria a história, ato a ato – a um ser humano, sobra exatamente o quê?
Não é esta redução transcendental factícia uma forma de redução ontológica, mais do que ética?; quer dizer, não é esta redução ética do ser humano uma redução realmente ontológica em que se retira a dimensão factual propriamente ativa a um ser humano, assim reduzindo a sua dimensão onto-antropológica fundamental, que é a sua capacidade – possibilidade ontológica radical – de se construir ato a ato, ato seu a ato seu? Ato com que coincide o seu ser próprio, precisamente de forma «ativa».
Apenas esta atualidade, que é mais do que própria ou apropriada, mas é coincidente com o ato-ser próprio de cada pessoa humana, permite que se possa falar de liberdade; esta não depende de qualquer forma normativa, imanente ou transcendente, mas da assunção como próprios dos atos que constituem cada ser humano. Tal diz-se de todos os atos assim autocriados, sem exceção, abarcando todo o possível e real bem e todo o possível e real mal.
Ato seu irredutível, a ato seu irredutível, não é precisamente assim que o ente humano se cria? Ato que é irredutível, no sentido em que, de facto – facto que é um ato –, cada seu movimento diferenciador relativamente ao que era, ao que já foi no absoluto da atualidade já havida e que cria isso a que se chama «passado», e que institui uma nova realidade ontológica diferenciada sua, ato que é, independente de qualquer outra consideração, mesmo seu, melhor, mesmo isso que é, em seu ato próprio, então, assim irredutível: tal movimento – em sentido ontológico, isto é, cada sua diferenciação de que foi motor próprio – é absolutamente seu, é absolutamente o que é como autoconstituição própria, independentemente de qualquer forma de circunstancialidade, sendo que, se tal circunstancialidade anular tal autonomia de motricidade de movimento ontológico de diferenciação, tal significa que, na verdade, já não há propriamente um ser humano, mas ou um cadáver movimentado por forças físicas totalmente a si transcendentes ou um ser apenas com figura humana ou com figura de vida humana, mas algo de já não verdadeiramente humano, estando nele morta a humanidade.
Esta imagem, terrível, surge muitas vezes, por exemplo, nos já mencionados escritos de Primo Levi e em muitos outros: a imagem de uma humanidade aniquilada, de facto, em corpos já quase apenas físicos ou zoo-biológicos, que se arrastam penosamente num vão afã de humana sobrevivência, mas que, na maior parte das vezes, não passa de uma desesperada subvivência animalizada. Esta animalização é fruto da ação, isto é, é fruto ético e político de uns seres humanos sobre outros, dos tiranos sobre os tiranizados.
É este estado reduzido que se encontra em tantos relatos, por exemplo, nos campos de extermínio nazi, ou em outros a que estes servem de conhecido paradigma? A resposta, que se encontra em muitos relatos fidedignos, é simples e é sim (a este propósito é claríssima a narrativa que Primo Levi faz nas suas obras, por exemplo, em Se isto é um homem?).
Ora, eliminada a totalidade da dimensão ética no ser humano, elimina-se o ser humano como tal, dele nada ficando de propriamente humano, porque dele nada fica que se lhe possa atribuir como ato seu. No limite, poder-se-ia pensar num ente, diferente do que é o ser humano, que fosse apenas um ser de paixão, sem ação. Nenhum ser humano pode, por absoluta falta de experiência do que tal seja, sequer imaginar a que possa corresponder tal ser alternativo.
Se bem que imprescindível para que o próprio humano se possa constituir, a passionalidade só é humana se se encontrar indissoluvelmente ligada a uma qualquer atividade, que tem de ser propriamente humana, não apenas mecânica, ao modo pavloviano ou watsoniano.
É esta atividade coincidente com o ato autónomo de cada ser humano que corresponde à autopoiese humana.
Esta autopoiese é sempre da ordem do ético. Esta autopoiese funda a liberdade humana e coincide com esta mesma liberdade, eliminado toda a argumentação que procura condicionar toda a atividade possível e concreta humana a ser nada mais do que uma decorrência mecânica de cânones heteronómicos porque antropo-transcendentes, ou, também, ao perigo de eventuais formas várias de ilusão, não percebendo que todo o ato – necessariamente imanente como Descartes bem percebeu – em que o ser humano qualquer se põe em e como ser é sempre absolutamente autónomo, porque é, como tal, independente de tudo, sendo que a grande ilusão consiste em pensar que a maior ilusão não é, ainda, um ato, logo, algo que absolutamente se opõe ao nada, único correlativo ontológico que pode ameaçar o absoluto do ato autónomo do ser humano, como também Descartes bem percebeu.
O melhor exemplo deste absoluto de autonomia ética e política, logo, de liberdade, encontramo-lo no início da narrativa genésica judaico-cristã, quando, independentemente de todo o contexto, hiperbolicamente ignorando a própria palavra de isso que constitui o absoluto da diferença ontológica entre o ser mundano e o nada – que surge com a designação de «Deus» – os seres humanos prototípicos agem como, precisamente, querem, mesmo sob a ameaça da aniquilação, única verdadeira condicionante séria em termos éticos, porque põe, em absoluto, em causa o ser do possível agente. É esta e não outra qualquer a densidade ontológica de cada ato e, assim, de toda a possível e real ética e sua decorrente política.
Não é pensável a ética como auto-ontopoiese humana sem que se suponha algo que faça movimentar o ser humano em sentido diferencial relativamente a qualquer possível situação ontológica em que se encontre.
Por que razão age o ser humano? Por que não haver um contentamento final em qualquer fase da sua ação, assim a terminando definitivamente? Não se está a pôr aqui a questão da chamada «felicidade», mas a indagar qual seja o motor imanente do movimento humano. Sem este motor imanente, o ser humano cessa.
Como eventual exemplo, as contemporâneas e positivistas biologias genéticas poderão afirmar – passe a prosopopeia – que o que move o ser humano é, em última análise, o ADN, como fim programático e mapa de roteiro para a concretização de si próprio, assim, como que endeusando as moléculas do ácido desoxirribonucleico. É mais uma religião, entre outras.
A questão não se situa a este nível, ainda e apenas material, mas ao nível do sentido: do ponto de vista do sentido, do ato lógico com que cada ser humano sempre coincide, o que é que o move para que continue agindo, isto é, sendo?
Aqui, encontramos uma questão que merece reflexão aprofundada e que deixamos como mote para reflexão.


Américo Pereira

Universidade Católica Portuguesa, Faculdade de Ciências Humanas
Publicado em 17.04.2019

domingo, 26 de maio de 2019

A propósito de um campeão

Os falhados
Talvez nunca como hoje as questões ligadas à definição ontológica do que é um ser humano, uma pessoa, foram tão relevantes, numa altura da história em que, após mais de trinta séculos de transição de um estado de definição antropológica baseado em primitivas categorias etnocêntricas – que sempre reduzem a dignidade ontológica do diferente –, a um estado de consciência antropológica, ética e política de uma comum humanidade universalmente verificável, se caminha perigosamente em sentido inverso.
Após a maior vergonha antropológica da história da humanidade constituída pelo massacre de dezenas de milhão de pessoas aquando da Segunda Guerra Mundial, muitos destes milhões apenas porque foram considerados desconformes a formas precisamente etnocêntricas, outros apenas porque estavam no sítio em que os senhores da guerra localizaram esta, após se ter erigido a Declaração Universal dos Direitos do Homem, logo após tal matança, a mesma humanidade parece ter enveredado por um caminho de regresso à estupidez primitivista que está na base de todas as discriminações antropológicas, de todas as formas de denegação da dignidade humana de uns seres humanos por outros, de toda as formas de escravização.
Interroga-se: tanto sofrimento para quê? Tanto trabalho de esclarecimento lógico-racional para quê? Para que uns quantos arautos de uma redescida aos infernos da irracionalidade triunfem, fazendo a humanidade regressar a tempos de antes das grandes denúncias antropológicas da tiranização de uns por outros?
Com a animalização biologista da humanidade e a igualização entre a besta – por simpática que seja – e o ser humano; com o renovado triunfo dos movimentos promotores da tirania, encorajados pela transferência maciça da riqueza para o oriente de tradição esclavagista de que nunca prescindiu e que sabe disfarçar muito bem, até com teorias que justificam engenhosa e requintadamente todas as formas de submissão ao tirano; com o renovar da tradição depredatória ocidental, em que, de facto, o ser humano é lobo do ser humano; com todos estes movimentos lançando para a sargeta da história os que não podem ou não querem fazer parte de um tal mundo, impiedosamente tratando tudo o que considera fraco ou simplesmente desconsidera porque elege como não-querido, de que o exemplo maior foi Adolf Hitler, a humanidade encaminha-se para um abismo de bestialidade antropológica ou de puro e simples caos.
O universo humano substituído por um universo mecânico mais poderoso do que o seu criador humano começa a apresentar-se como alternativa, como se pode perceber pelas figuras criadas por um George Lucas, que chega a trocar o pessoal médico por máquinas, em Guerra das Estrelas; por um Spielberg, que cria um menino mecânico mais propriamente humano do que os seres humanos que o construíram, em Inteligência Artificial; pelos irmãos Wachowski, na sua antropologicamente muito significativa epopeia antropo-mecânica Matrix. Todas estas são obras consumidas cumulativamente por centenas de milhão de pessoas.
É um tempo em que a definição de humanidade está em causa, logo após uma raríssima parte da humanidade possidente ter posto em forma escrita, que deveria ser Lei, mas que não passa de um papel ignorado, uma Declaração que supõe uma definição antropológica capaz de obviar a todos estes movimentos de irracionalização, de indignificação onto-antropológica da humanidade.
Mas que é isso da humanidade? O que é ser-se um ser humano?
Nenhuma definição pode já ser aceite como boa universalmente, tal a qualidade perversa do trabalho de sapa que foi feito precisamente para impedir tal definição universal.
A única resposta universalizável, mesmo para e com as mais irredutivelmente perversas pessoas – sempre pessoas – é esta: o ser humano é isso que vês quando te olhas ao espelho. Isso que faz de ti isso que vês ao espelho é estruturalmente o mesmo em e para todos os seres que também assim se vêem ao espelho e que tu podes ver como são, se te dignares olhar para eles como te dignas olhar para ti, ao espelho.
Ainda assim, e por causa da perversidade do olhar, perversidade que não é possível eliminar sem que se elimine quem assim olha – precisamente o ponto aqui em causa –, esta definição claudica: que vê um Hitler quando olha um «indesejado»? Um semelhante à sua imagem especular? Claramente não.
Mas e não há um hitlerzinho potencial em cada olhar de cada um de nós? Em mim, há, bem o sei. E eu sei que não sou diferente senão em grau dos demais, porque eu já me vi ao espelho e já olhei e olho os outros como eles são, não como eu os quero ver. É uma boa experiência: morta a vaidade, é não só não-dolorosa, como absolutamente deliciosa. Que bom é ver no outro não a besta semelhante a mim, mas a pessoa semelhante a mim.
O campeão
Por isso gosto muito de olhar para o meu atleta favorito, o meu Amigo João, o campeão que já ganhou dezenas e dezenas de troféus. O homem que é capaz de nadar mil e quinhentos metros em estilo mariposa, quando o máximo que já consegui nadar nesta especialidade foi vinte e cinco metros. Se empregarmos uma perversa antropologia métrica, o João é sessenta vezes melhor do que eu a nadar em estilo mariposa. Nisto das comparações antropológicas, tão em voga, pobre de mim.
Como nunca ganhei qualquer medalha em qualquer desporto e a diferença entre nada e muitas dezenas é infinita, o João é infinitamente melhor do que eu a ganhar medalhas desportivas. Estou mal.
Mas posso recuperar: eu sou um filho razoável e o João é um bom filho. Já estou mais próximo. O João gosta muito de raparigas e eu também sempre gostei. Consegui um empate. O João é bom no que faz na escola e eu também por aí ando. Outro empate.
O João, com tanto exercício, é de uma elegância imbatível; eu tenho a barriga burguesa que se espera de um homem com 52 anos e sedentário. Já estou de novo a perder. Comparar seres humanos é ingrato. Na comparação, perde-se sempre algo, ao relativizar-se o que é absoluto na pessoa a uma outra pessoa, assim as relativizando a ambas. É um processo destruidor do que há de absoluto em cada ser humano, algo que nunca deve ser relativizado.
As pessoas são o absoluto de isso que surge no espelho invocado algumas linhas acima (não confundir com o reflexo). E, ou cada pessoa percebe tal e é, assim, possível construir uma humanidade real de reais pessoas, ou não percebe e está a humanidade condenada ou à bestialização ou à erradicação.
O João, na sua grandeza ontológica própria de pessoa, todos os «João» – e todas as «Joanas» (o João tem mesmo uma irmã chamada Joana e muito se amam) –, os Pais de todos os «João», todos os que nos servem de exemplo, mas também todos os outros, porque o João é a humanidade numa pessoa, como cada um de nós é a humanidade numa pessoa, são para ser contemplados no que são e, nisso, amados.
Esqueço-me de um pormenor, agora irrelevante: o João, o João Vaz tem Trissomia 21. E eu sinto-me profundamente humilde perante tão grande humanidade nele.
Outubro de 2016
Américo Pereira


quinta-feira, 31 de janeiro de 2019

João Vaz - Excelência humana e atlética

 
        Olhando quer retrospectivamente quer de forma sincrónica para o conjunto sempre em mutação que constitui isso que se designa diplomaticamente como «humanidade» percebe-se que talvez o maior problema que, a este nível, existe é o da definição precisa do que é propriamente a humanidade, o que é propriamente ser-se humano, um ser humano.
Todas as formas tribalistas antigas e contemporâneas definem o próprio do humano como isso que obedece aos princípios míticos em torno dos quais se constitui a tribo a que se pertence, sejam tais princípios claramente assumidos como míticos sejam disfarçados de formas “superiores” de racionalidade.
Ora, a humanidade tribal sempre se definiu propriamente por oposição à definição do que é propriamente humano nas outras tribos. Tal significa que o que é mesmo humano é o que pertence ao que o mito da minha tribo define como tal. A definição de humanidade e de ser humano seu constituinte é, assim, um acto cultural e apenas cultural.
Pode ser o nazi-ariano por oposição ao restante da humanidade; pode ser o membro do Klan norte americano, através do mesmo modo universal de distinção; pode ser o “branco” relativamente ao “preto” ou o “preto” relativamente ao “branco”; pode ser o rico relativamente ao pobre; o indivíduo com elevado QI relativamente ao de baixo QI, mas cuja acção aquele explora porque não pode viver sem ela.
Todavia, também pode ser o “saudável” relativamente ao “doente” ou o “normal” relativamente ao “anormal”. Estas distinções, todas elas etnocêntricas, todas elas onto-antropológica, ética e politicamente ilegítimas fundaram as relações humanas e continuam a fundá-las, mesmo no campo macro da geopolítica e das, assim perversas, relações internacionais entre estados, povos, nações, instituições várias.
Sendo este panorama etnocêntrico universal o que é, apesar das superficiais declarações em contrário, proferidas pelos mesmos responsáveis pela existência de tais perversidades antropológicas e político-sociais, não é de surpreender que se estenda, também, ao campo do desporto, em que a discriminação etnocêntrica vária ainda se encontra presente.
Uma destas presenças consiste em tratar os desportistas que não são considerados como aptos a competir com os ditos “normais” como desportistas de ordem inferior, assim os tratando como se de uma tribo menor se tratasse, impassível de conviver ao mesmo nível da tribo dos “bons”, dos privilegiados pela natureza, dos que foram eleitos para se destacarem antropologicamente entre os seres humanos que a si próprios se consideram como os normais, classificação que recebe tacitamente o beneplácito das instituições nacionais e internacionais que aceitam tal classificação, tal discriminação.
Ora, subjacente a esta discriminação está o irracional preconceito de que os chamados «deficientes» não são seres humanos semelhantes aos outros, apenas diferentes, nas circunstâncias que são as suas.
Não há qualquer razão para que, consideradas positiva e não negativamente as suas diferenças, não possam e mesmo devam poder fazer tudo o que os outros fazem, também segundo as suas diferenças próprias, sem que sejam considerados «menos humanos» ou indignos de estar lado-a-lado com os demais ditos «normais».
Há que notar que todos os seres humanos são deficientes de um modo ou de outro: que capacidade tem um homem com dois metros e vinte de altura e cento e cinquenta quilos de peso para ser cavaleiro de corridas de velocidade? Isso faz dele «anormal», deficiente, menos humano por comparação com o habitual cavaleiro com um metro e sessenta de altura e sessenta quilos de peso?
Então, por que razão não hão-de os atletas, quaisquer, mas sobretudo os excelentes em sua diferença, ser tratados como humanamente semelhantes em direitos e deveres aos outros, aos ditos «normais»?
Por que razão não haver, mas haver mesmo, competições em que uns e outros se pudessem encontrar, não para competir humilhando-se, mas para competir imbricando as suas diferentes formas de uma mesma humanidade?
Por que razão certas formas de desporto não são ainda reconhecidas como olímpicas, como, por exemplo, a natação dita «adaptada»? «Adaptada» a quê? Ou será que a «normal» também não é adaptada ao seu nível e modo; ou é «desadaptada», talvez «inadaptada»? Não é todo o desporto necessariamente adaptado ao que é como desporto diferenciado?
 Toda esta irracionalidade, inaceitável neste século XXI e fruto de estruturas antropológicas arcaicas e primitivas que já deveriam ter desaparecido, obriga a que atletas de várias modalidades «não-normais» tenham muito mais dificuldade em procurar e manifestar a sua excelência possível do que os proclamados «normais». Ora, tais dificuldades implicam que os triunfos destes atletas desconsiderados tenham um mérito relativo e absoluto muito maior do que os outros, apaparicados etnocentricamente pelo sistema discriminatório, em que os «normais» privilegiam os «normais».
Serve esta reflexão para ajudar a magnificar algo que concretiza um ponto de viragem fundamental e de grande dignidade antropológica, ética e política e que é a presença de atletas especialmente diferenciados na selecção para o Prémio do Melhor Atleta do Ano, relativo a 2018, promovido pela Confederação do Desporto de Portugal.
O facto de se pôr debaixo de uma única designação antropológica universal – agora – todos os atletas, independentemente da sua especial diferença, constitui um marco cultural e civilizacional do mais elevado mérito humano, cumpridor da Carta dos Direitos Humanos.
No desporto, como no mais da vida humana, em termos de mérito pessoal, o que interessa são os actos que cada um fez, que cada um é. O mais é especulativo, quiçá, preconceituoso.
No caso vertente, é o palmarés objectivo que deve contar e, a partir dele, ser feito o juízo acerca de quem foram os melhores, realmente, sem preconceitos ou má-fé.
O grande Atleta nadador João Vaz, ser humano portador de trissomia vinte e um, foi este ano incluído na lista dos possíveis melhores. Foi-o objectivamente: não porque pertence a quotas, não porque é visto de modo especial, mas porque se integra na normalidade do que deve ser a triagem e eleição normal de todos os seres humanos – identicamente humanos – em qualquer âmbito da acção humana.
Parabéns ao João; mas, sobretudo, parabéns a quem conseguiu pessoal e institucionalmente evoluir para um patamar de inteligência em que formal e materialmente se supera tudo o que são atavismos etnocêntricos aniquiladores da objectiva dignidade humana.
Está também Portugal de parabéns. Encetado o caminho, agora há que não vacilar e não retroceder, sobretudo em tempos em que as velhas estruturas etnocêntricas estão a reganhar terreno.
Janeiro de 2019
Américo Pereira
FCH/UCP