Pecado original

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domingo, 2 de agosto de 2026

O equívoco platónico

Uma leitura ontológica da filosofia platónica à luz dos Estudos Platónicos de Américo Pereira

Há ironias que atravessam os séculos. Uma das maiores terá acontecido precisamente com Platão. O seu nome tornou-se sinónimo de idealismo. Chama-se «platónico» ao sonhador, ao homem que vive desligado da realidade, ao enamorado que ama sem tocar, ao pensador que prefere as ideias às coisas. Tornou-se quase um lugar-comum afirmar que Platão desprezou o mundo sensível para habitar um universo de abstrações.

Ora, dificilmente alguma destas afirmações faz justiça ao pensamento de Platão. Paradoxalmente, aquilo a que hoje chamamos «platonismo» constitui, em muitos aspetos, uma das maiores injustiças interpretativas alguma vez cometidas contra o filósofo ateniense. O problema começou quando a palavra «ideia» mudou de significado.

Para nós, uma ideia é normalmente um pensamento, uma representação mental, uma construção da imaginação ou um conceito produzido pela consciência. Quando ouvimos dizer que Platão acreditava nas Ideias, imaginamos imediatamente um universo de abstrações, distante da realidade concreta.

Mas Platão nunca utilizou o termo nesse sentido. A eidos ou idea platónica não é um pensamento humano. É aquilo que faz com que uma coisa seja aquilo que é. Não nasce da mente humana; é o fundamento da inteligibilidade do real. Não é um conceito acerca do ser; pertence ao próprio ser.

Esta diferença muda tudo.

Quando Platão fala da Justiça, da Beleza ou do Bem, não está a propor modelos imaginários destinados a substituir o mundo. Está a afirmar que toda a justiça concreta participa da Justiça, toda a beleza participa da Beleza e todo o bem participa do Bem. Sem essa participação, nada poderia ser reconhecido como justo, belo ou bom.

As Ideias não retiram realidade às coisas. São aquilo que lhes confere realidade.

É precisamente aqui que a leitura de Américo Pereira se revela particularmente fecunda. Ao longo dos seus Estudos Platónicos, mostra que o centro da filosofia platónica não reside numa teoria das ideias entendidas como abstrações, mas numa ontologia da participação.

Tudo o que existe participa do ser e, nessa mesma medida, participa também do Bem. O Bem não constitui apenas uma categoria moral. É o fundamento ontológico de toda a realidade. O mal não possui existência própria; manifesta-se como diminuição do ser, como privação de plenitude. Estamos, portanto, muito longe de qualquer filosofia de evasão do mundo.

Platão procura compreender por que razão o mundo possui consistência, ordem e inteligibilidade. O seu problema não é escapar da realidade, mas descobrir o fundamento da realidade.

Como surgiu, então, a imagem de Platão como filósofo da fuga ao mundo?

Parte da resposta encontra-se no neoplatonismo.

Plotino, no século III, reinterpretou Platão à luz de uma intensa preocupação mística. A ascensão da alma para o Uno adquiriu um peso muito superior ao da reflexão ontológica, ética e política presente nos diálogos platónicos. Embora Plotino permaneça um dos maiores filósofos da Antiguidade, a sua leitura foi deslocando progressivamente o centro da filosofia platónica para uma experiência de retorno espiritual.

Mais tarde, certas leituras cristãs privilegiaram igualmente a oposição entre o mundo terreno e a pátria celeste, aproximando Platão de preocupações que pertenciam já ao horizonte próprio da teologia cristã.

Mas a transformação decisiva ocorreu na filosofia moderna.

Com Descartes, o centro da filosofia desloca-se do ser para a consciência. A pergunta deixa de ser «o que é?» para passar a ser «como conheço?».

Kant aprofundará esta revolução ao afirmar que o conhecimento depende das estruturas do sujeito cognoscente. Hegel identificará o desenvolvimento da realidade com o desenvolvimento do Espírito. Pouco a pouco, as ideias deixam de ser princípios do ser para se tornarem produtos da consciência.

É neste contexto que nasce a imagem moderna de Platão como idealista.

Mas essa leitura diz talvez mais acerca da filosofia moderna do que acerca do próprio Platão.

O filósofo ateniense nunca afirmou que o pensamento cria a realidade. Afirmou precisamente o contrário. A inteligência humana só conhece porque existe uma realidade inteligível que antecede qualquer ato de conhecimento. É o ser que funda o pensamento. Não é o pensamento que funda o ser.

É aqui que reside toda a diferença.

Talvez seja mesmo uma das grandes linhas de separação entre a filosofia clássica e uma parte significativa da filosofia moderna.

Também o chamado «amor platónico» nasce deste equívoco.

No Banquete, Platão não descreve um amor impossível nem um amor desencarnado. O percurso do amor começa precisamente pela beleza sensível. O corpo não é negado; é reconhecido como o primeiro lugar onde a beleza se manifesta. O amor verdadeiro não termina no corpo, mas também não o elimina. O sensível torna-se caminho para o inteligível.

Quem reduz o amor platónico a um sentimento sem encontro não leu ou não entendeu Platão.

Vivemos numa cultura profundamente marcada pelo imediatismo, pela aparência e pela fragmentação. Talvez por isso Platão continue a ser tão necessário. Não para nos ensinar a fugir do mundo, mas para nos ensinar a habitá-lo com maior profundidade.

Porque existe sempre mais realidade do que aquela que os sentidos captam. Existe sempre mais verdade do que aquela que a opinião alcança. Existe sempre mais ser do que aquilo que a superfície deixa ver.

É esta profundidade do real que Platão procura revelar.

Por isso, talvez devamos inverter uma expressão repetida ao longo dos séculos. Platão não foi o filósofo das ideias. Foi o filósofo do ser.

As Ideias não constituem um segundo mundo. São a inteligibilidade deste. Não afastam o homem da realidade. Permitem-lhe finalmente compreendê-la.

Talvez a maior injustiça feita a Platão tenha consistido precisamente em chamar-lhe idealista. Porque, lido atentamente — e, de modo particular, à luz da interpretação ontológica proposta por Américo Pereira —, descobrimos um filósofo profundamente realista: alguém para quem o ser precede o pensamento, o Bem funda toda a realidade e a filosofia não consiste em inventar mundos imaginários, mas em aprender a contemplar, com maior profundidade, o único mundo que verdadeiramente existe.

Nota final

Este ensaio inspira-se na interpretação desenvolvida por Américo Pereira, cuja obra constitui um dos mais relevantes contributos contemporâneos para a compreensão de Platão em língua portuguesa. Através de uma leitura rigorosamente ontológica, o autor recupera a centralidade da participação, da analogia do ser e da primazia do Bem, mostrando que a filosofia platónica não deve ser entendida como uma forma de idealismo, mas como uma metafísica do real.

Nesta perspetiva, Platão inaugura uma das grandes tradições do realismo filosófico, da qual participarão Aristóteles, o neoplatonismo — reinterpretando-o em aspetos fundamentais — e, mais tarde, Santo Agostinho e São Tomás de Aquino. A leitura proposta por Américo Pereira permite, assim, reencontrar um Platão frequentemente ocultado por interpretações modernas centradas na consciência e não no ser.

Bibliografia

PEREIRA, Américo. Estudos Platónicos. Covilhã: LusoSofia Press, 2014.

PEREIRA, Américo. Eros e Sophia: Estudos Platónicos II. Covilhã: LusoSofia Press, 2015.

PEREIRA, Américo. Ensaios de Antropologia Platónica: Estudos Platónicos III. Covilhã: LusoSofia Press, 2017.

PEREIRA, Américo. Sócrates Vai à Escola: O Desejo e o Detalhe da Participação (Estudos Platónicos V). Covilhã: LusoSofia Press, 2019.

PEREIRA, Américo. Euthyphron. No Pórtico: O Absoluto Ontológico do Pormenor (Estudos Platónicos VII). Covilhã: LusoSofia Press, 2022.

Francisco Vaz

2 de agosto de 2026


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