Pecado original

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sábado, 28 de março de 2026

A Europa depois da Europa

Uma actualidade inquietante

A ideia de uma “Europa depois da Europa”, tal como formulada por Jan Patočka, ganha hoje uma atualidade quase inquietante. Se o século XX marcou o “suicídio” europeu através de duas guerras mundiais, o século XXI confronta o continente com um desafio mais subtil, mas talvez mais decisivo: o risco de irrelevância num mundo que já não se organiza em torno de si.

O texto de Emilio Lamo de Espinosa capta bem esta transição. Vivemos numa era paradoxal: ao mesmo tempo que a globalização se aprofunda, multiplicam-se os reflexos de retração identitária — nacionalismos, etnocentrismos, revisionismos históricos. Este movimento não é apenas político; é existencial. Trata-se, no fundo, de uma reação ao deslocamento do centro de gravidade do mundo.

Geoffrey Barraclough antecipava, em meados do século XX, que a “história europeia” deixaria de ser a história do mundo para se tornar apenas uma história regional. A passagem da “Era Atlântica” para uma emergente “Era do Pacífico” não é apenas geográfica; é civilizacional. Hoje, com a ascensão da China, da Índia e de outras potências asiáticas, essa previsão tornou-se realidade concreta.

Mas o mais inquietante não é esta deslocação — que, em certo sentido, corrige um desequilíbrio histórico —, mas a forma como a Europa reage a ela. Em vez de se projetar no mundo, tende a recolher-se em si mesma. Em vez de pensar o futuro, revisita obsessivamente o passado. Em vez de afirmar uma identidade aberta e dinâmica, fragmenta-se em identidades defensivas, muitas vezes recentes e artificialmente construídas.

Este é o “síndrome” identificado no texto: o medo do futuro traduzido como nostalgia do passado.

E, no entanto, a própria história recente da Europa mostra um caminho diferente. Após a devastação da Segunda Guerra Mundial, o continente foi capaz de se reinventar através de um projeto político sem precedentes — a integração europeia. A criação da União Europeia, apoiada por instrumentos como o Plano Marshall, permitiu transformar rivalidades históricas em cooperação estrutural.

Esse momento fundacional assentava numa lógica de abertura: abertura ao outro, ao comércio, ao mundo. Era uma Europa que, consciente da sua fragilidade, escolheu projetar-se para fora em vez de se fechar.

Hoje, porém, essa energia parece esgotar-se. Como advertia Herman Van Rompuy, o principal desafio já não é a guerra entre europeus, mas a forma como a Europa se posiciona no “oceano geopolítico” global. A questão deixou de ser interna; é externa. E é aqui que a hesitação europeia se torna mais visível.

Num mundo em rápida transformação — marcado por mudanças tecnológicas, pressões demográficas, competição entre grandes potências e crescente incerteza — a Europa corre o risco de se tornar espectadora. A transição de um sistema unipolar, centrado nos Estados Unidos, para uma ordem mais difusa e possivelmente multipolar coloca desafios que a Europa ainda não conseguiu internalizar plenamente.

Como sublinhou Federica Mogherini, está em causa não apenas o papel da União Europeia, mas a própria perceção da sua existência como ator relevante.

A reflexão de Niall Ferguson sobre a queda não linear dos impérios acrescenta um elemento de urgência: a história não garante transições suaves. Estruturas aparentemente sólidas podem colapsar rapidamente sob pressão de choques inesperados — os chamados “cisnes negros”. A incapacidade de antecipar eventos como o fim da União Soviética, o 11 de Setembro ou a crise financeira de 2008 deve servir de aviso.

Neste contexto, a Europa enfrenta uma escolha decisiva.

Ou se afirma como unidade política capaz de agir no mundo — não como um Estado clássico, mas como um ator estratégico coerente —, ou aceitará uma progressiva marginalização. Como lembra Angela Merkel, os europeus têm de “tomar o destino nas suas mãos”. Esta não é apenas uma afirmação política; é uma exigência histórica.

O paradoxo final é este: nunca os europeus viveram com tanto bem-estar, liberdade e segurança — e nunca o risco de irrelevância foi tão grande. Como observou Octavio Paz, a Europa corre o risco de se tornar uma “prosperidade sem grandeza”, confortável mas passiva, rica mas desprovida de vontade histórica.

A ideia de “Europa depois da Europa” não é, portanto, um epitáfio, mas um desafio. Obriga a repensar o continente não como centro do mundo, mas como parte de uma totalidade mais vasta — a “era planetária” de Patočka.

E talvez a lição mais exigente seja esta: a Europa só poderá continuar a ser relevante se aceitar deixar de ser central — e, a partir dessa consciência, reinventar a sua forma de presença no mundo.

Não olhando para trás, mas para fora. Não protegendo-se do futuro, mas entrando nele.

Francisco Vaz

28 de Março de 2026

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