Pecado original

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sexta-feira, 27 de março de 2026

Gallipoli e Ormuz

 A persistência das lições ignoradas

Há momentos na história em que o passado não passa — permanece como advertência silenciosa, à espera de ser escutada. A Batalha de Gallipoli é um desses momentos. Mais do que uma derrota militar dos Aliados, foi uma revelação dura sobre os limites do poder quando confrontado com a geografia, a logística e a vontade de um povo. Hoje, ao pensar-se no Estreito de Ormuz, essa lição reaparece com inquietante atualidade.

Em 1915, sob a inspiração de Winston Churchill, os Aliados procuraram abrir uma rota estratégica através dos estreitos otomanos. A ambição era clara: alterar o curso da guerra, aliviar a pressão sobre a Rússia e redesenhar o equilíbrio geopolítico. O resultado, porém, foi o oposto. Subestimaram o terreno, dispersaram esforços, confiaram excessivamente na superioridade material e, sobretudo, falharam na compreensão do adversário. O que deveria ser uma operação decisiva tornou-se um impasse sangrento, culminando numa retirada humilhante.

O paralelismo com Ormuz não reside numa repetição literal dos factos, mas na persistência das condições estruturais. Também aqui se trata de um estreito vital, onde o fluxo marítimo global se concentra e onde a geografia favorece desproporcionalmente o defensor. Rodeado por terreno acidentado e adaptado à guerra assimétrica, o espaço de Ormuz não é apenas um ponto de passagem — é um sistema defensivo natural, potencialmente ampliado por tecnologia contemporânea.

A tentação moderna é acreditar que a precisão das armas, a superioridade aérea e a inteligência em tempo real anulam os constrangimentos que derrotaram os Aliados em Gallipoli. Mas essa crença pode revelar-se uma nova forma de cegueira. A tecnologia altera os meios, não elimina a fricção. E a fricção — como bem se sabe — é o elemento constante da guerra.

Mais ainda: há uma dimensão frequentemente negligenciada nas análises estratégicas — a da vontade. Em Gallipoli, a resistência otomana, de onde emergiria a figura de Mustafa Kemal Atatürk, demonstrou que a defesa da pátria não é apenas um ato militar, mas existencial. O defensor não luta apenas por território; luta por identidade, memória e continuidade histórica. Em Ormuz, qualquer confronto enfrentaria essa mesma energia latente. O Irão não é apenas um ator estratégico — é uma comunidade com consciência histórica e capacidade de mobilização simbólica.

Há, por fim, uma lição mais subtil, mas talvez mais decisiva: a do erro de julgamento. Em Gallipoli, os Aliados foram vítimas de uma confiança excessiva, por vezes tingida de preconceito cultural, que os levou a subestimar o adversário. Esse erro não pertence apenas ao passado. Ele reaparece sempre que o poder se convence de que a superioridade técnica equivale a superioridade estratégica.

Gallipoli mostrou o preço da arrogância. Ormuz pode voltar a cobrá-lo. A diferença não estará nos meios, mas na lucidez. Porque, na guerra, quem ignora os limites não os ultrapassa — é esmagado por eles.

Francisco Vaz

26 de Março de 2026


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