História e ilusão de poder
Há momentos na história em que as grandes potências parecem esquecer aquilo que, durante séculos, constituiu o fundamento mais sólido do poder: a geografia. A recente tensão entre os Estados Unidos e o Irão — seja por ação direta, seja por escalada indireta — revela um desses momentos de amnésia estratégica. E como tantas vezes acontece, essa amnésia não se manifesta na ausência de meios, mas na fragilidade da visão.
O paradoxo é evidente. Ao mesmo tempo que se reforçam alinhamentos políticos com Israel, corre-se o risco de produzir efeitos colaterais que beneficiam adversários estratégicos como a Rússia, nomeadamente no contexto da guerra na Ucrânia. Mas o problema mais profundo não está apenas na redistribuição de poder entre atores; está na negligência de um dos pontos nevrálgicos do sistema global: o Estreito de Ormuz.
Ormuz não é apenas um estreito. É uma das principais artérias energéticas do mundo. Uma parte significativa do petróleo global atravessa diariamente aquele corredor estreito e vulnerável. Qualquer perturbação ali não tem consequências locais — tem efeitos sistémicos. Ignorar esta realidade não é apenas um erro tático; é um erro de leitura da própria estrutura do poder global.
Curiosamente, esta não é uma descoberta recente. Há mais de quatro séculos, Portugal compreendeu com notável clareza aquilo que hoje parece escapar a análises mais sofisticadas. Quando Vasco da Gama abriu o caminho marítimo para o Índico, inaugurou uma nova era. Mas foi Afonso de Albuquerque quem lhe deu coerência estratégica. A sua visão assentava numa ideia simples e profundamente moderna: não é necessário controlar territórios vastos; é essencial controlar os pontos de passagem.
Essa estratégia materializou-se num triângulo decisivo: Goa, o Estreito de Malaca e o Estreito de Ormuz. Quem controlasse estes nós controlaria os fluxos entre o Oriente e o Ocidente. Durante cerca de um século, com recursos limitados, Portugal conseguiu exercer uma influência desproporcionada à sua dimensão. Não por força numérica, mas por inteligência geoestratégica.
Hoje, chamamos a esses pontos “chokepoints”. Enumeramo-los, classificamo-los, analisamo-los. Mas o essencial permanece o mesmo: são os locais onde o sistema global revela a sua vulnerabilidade. Entre eles, Ormuz continua a ser um dos mais sensíveis — talvez o mais sensível. A sua importância não diminuiu com o tempo; pelo contrário, intensificou-se.
E, no entanto, a ação política contemporânea parece, por vezes, operar como se essa realidade fosse secundária. A multiplicação de teatros de conflito, a pressão das alianças e a necessidade de respostas imediatas criam uma espécie de miopia estratégica. O resultado é um fenómeno recorrente: decisões que, no curto prazo, afirmam poder, mas que, no médio e longo prazo, o redistribuem de forma inesperada.
Uma escalada no Golfo pode ter precisamente esse efeito. Ao aumentar os preços da energia, reforça economias exportadoras como a russa. Ao dispersar a atenção estratégica, fragiliza outras frentes consideradas prioritárias. Ao expor a vulnerabilidade dos fluxos energéticos, revela a dependência estrutural das economias globais.
Este é o verdadeiro paradoxo: numa era de tecnologia avançada e capacidade militar sem precedentes, continuamos dependentes de corredores marítimos estreitos, definidos por uma geografia imutável. A ilusão de controlo global esbarra, repetidamente, na realidade física do planeta.
Talvez por isso a lição de Afonso de Albuquerque permaneça atual. O poder não reside apenas na capacidade de agir, mas na capacidade de compreender. E compreender implica distinguir o essencial do acessório, o estrutural do circunstancial.
O Estreito de Ormuz não é um detalhe. É um dos lugares onde se decide, silenciosamente, o equilíbrio do mundo. Esquecê-lo não é apenas um erro estratégico. É, no limite, uma forma de ilusão.
Francisco Vaz
23 de março de 2026
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