A Guerra na Ucrânia e o Desafio do Mundo Pós-Soviético
A guerra na Ucrânia não pode ser compreendida apenas como um conflito territorial ou como mais um episódio de rivalidade geopolítica entre potências. Como sublinhou Carmen Claudín na sua conferência na Fundación Juan March, trata-se, antes de mais, de um confronto entre narrativas — entre a construção de mitos políticos e a realidade histórica do espaço pós-soviético.
O pós-império que nunca terminou
Com o colapso da União Soviética, em 1991, emergiu formalmente um conjunto de Estados independentes. Contudo, essa independência nunca foi plenamente aceite por Moscovo como um dado irreversível. A Rússia continuou a ver o espaço pós-soviético como a sua esfera natural de influência, mantendo uma posição hegemónica, tanto política como simbólica.
As relações entre estas novas repúblicas revelaram-se tudo menos fraternas. A retórica soviética de “irmandade dos povos” deu lugar a tensões, desconfianças e, em muitos casos, conflitos congelados. A estratégia russa de distribuição de passaportes em regiões com populações russófonas tornou-se um instrumento eficaz para justificar intervenções futuras, criando uma espécie de soberania paralela que fragiliza os Estados vizinhos.
Neste contexto, a Ucrânia surge como o caso mais emblemático: simultaneamente próxima e irredutível, parte de uma história comum mas afirmando uma identidade política própria.
Os mitos como instrumento de poder
Segundo Claudín, a política externa russa assenta numa construção ideológica profundamente enraizada, feita de mitos fundacionais que moldam a perceção do mundo e legitimam a ação do Kremlin.
Entre esses mitos destaca-se a ideia de que a Rússia não está completa sem a Ucrânia e a Bielorrússia — como se estas fossem extensões naturais de um corpo histórico maior. A isto junta-se uma noção de excepcionalismo russo, que atribui ao país uma missão civilizadora sobre os povos vizinhos, e a convicção de que apenas o poder e a força garantem respeito no sistema internacional.
Este imaginário é reforçado por uma persistente mentalidade imperial, que vê ucranianos e bielorrussos como “irmãos menores”, negando-lhes plena autonomia histórica e política. Não se trata apenas de nostalgia; trata-se de uma visão ativa do mundo que orienta decisões estratégicas.
A guerra como narrativa
A invasão da Ucrânia foi justificada pelo Kremlin através de dois grandes eixos discursivos: a alegada “desnazificação” e a ameaça da expansão da OTAN.
Ambos os argumentos, como salientado na conferência, assentam em distorções profundas. A ideia de uma Ucrânia dominada por forças neonazis não encontra sustentação na realidade política do país — cujo presidente, Volodymyr Zelensky, é judeu e falante de russo, e onde a extrema-direita tem expressão marginal. Mais ainda, muitos dos que resistem à invasão são precisamente russófonos.
A “desnazificação” surge, assim, não como objetivo real, mas como linguagem legitimadora de uma operação mais profunda: a negação da identidade ucraniana enquanto tal.
Quanto à narrativa da ameaça da OTAN, Claudín recorda que o verdadeiro ponto de rutura foi o movimento popular do Euromaidan, em 2014 — uma mobilização interna que expressou a vontade de aproximação à Europa e de rejeição da tutela russa. A expansão da OTAN surge, neste quadro, mais como consequência do receio dos países da região face à Rússia do que como causa do conflito.
A hesitação do Ocidente
A resposta do Ocidente tem sido marcada por ambivalência. Por um lado, a União Europeia e a OTAN reconheceram a gravidade da agressão e apoiaram a Ucrânia. Por outro, esse apoio tem sido frequentemente tardio e insuficiente, contribuindo para um cenário de estagnação militar.
Durante anos, prevaleceu uma lógica de acomodação dos interesses russos, na esperança de evitar o confronto direto. A guerra demonstrou os limites dessa estratégia. Como sublinha Claudín, a contenção eficaz da agressão russa não passa pelo apaziguamento, mas pelo reforço da capacidade de resistência ucraniana.
Paradoxalmente, a invasão teve um efeito inesperado: reforçou a identidade nacional ucraniana. Desde 2014, e de forma mais intensa após 2022, a Ucrânia consolidou-se como nação política, unida não apenas por fronteiras, mas por uma experiência comum de resistência.
Europa perante si mesma
A guerra na Ucrânia é, também, um teste à Europa. Não apenas à sua capacidade militar ou diplomática, mas à sua clareza estratégica.
Num mundo em transformação, onde o centro de gravidade se desloca e onde as grandes potências afirmam interesses de forma mais explícita, a Europa é confrontada com uma escolha: agir como sujeito ou resignar-se a ser objeto.
A questão colocada por Claudín permanece em aberto: como responder sem escalar o conflito, mas também sem ceder à lógica de facto consumado? A resposta implica, inevitavelmente, um reforço da unidade europeia e uma redefinição do seu papel no sistema internacional.
Entre a verdade e a narrativa
No fundo, a guerra na Ucrânia revela algo mais profundo do que uma disputa territorial: mostra o poder das narrativas na construção da realidade política. Quando mitos se tornam instrumentos de ação, deixam de ser apenas ideias — tornam-se forças materiais.
Combater esses mitos não é apenas um exercício académico; é uma necessidade estratégica.
Porque, como demonstra este conflito, as guerras do século XXI travam-se tanto no terreno como no imaginário. E é nesse duplo campo que se decide não apenas o destino da Ucrânia, mas o futuro da própria Europa.
Francisco Vaz
28 de Março de 2026
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