Pecado original

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quarta-feira, 20 de maio de 2026

O Império Britânico

E a prosperidade partilhada

A hegemonia britânica do século XIX encerra uma das mais interessantes contradições da modernidade. O país que dominou os mares, o comércio e grande parte da economia mundial não construiu inicialmente o seu poder industrial como uma máquina orientada para a guerra. Pelo contrário, a Grã-Bretanha liberal nascida da Revolução Industrial acreditava que o comércio, a prosperidade e a liberdade económica poderiam reduzir a violência entre as nações e inaugurar uma era de paz duradoura.

Esta ideia parece hoje quase ingénua, sobretudo depois das tragédias do século XX. Mas, no contexto da época, possuía uma lógica poderosa. A industrialização britânica surgiu associada à ascensão do liberalismo económico e à influência intelectual de Adam Smith. Em A Riqueza das Nações, Smith aceitava a necessidade de forças armadas para proteger o país “da violência e invasão de outras sociedades independentes”, mas considerava-as essencialmente improdutivas. Um exército não criava riqueza; uma fábrica, uma oficina ou uma quinta sim. O ideal era, portanto, limitar os gastos militares ao mínimo compatível com a segurança nacional.

Esta visão marcou profundamente a cultura política britânica do século XIX. O Estado deveria ser pequeno, a economia livre e o comércio internacional suficientemente intenso para tornar a guerra irracional. Richard Cobden e os defensores do livre-cambismo acreditavam sinceramente que as relações económicas criariam uma interdependência civilizadora entre os povos. O comércio seria mais forte do que os canhões.

É precisamente aqui que reside a grande ironia histórica. A mesma Revolução Industrial que alimentava sonhos de paz produziu também os instrumentos materiais que transformariam a guerra numa realidade cada vez mais industrializada e destrutiva. A máquina a vapor, os caminhos-de-ferro, a siderurgia e as novas comunicações serviam o progresso económico, mas podiam igualmente servir a mobilização militar em massa.

Curiosamente, a Grã-Bretanha demorou a compreender plenamente essa transformação. As melhorias nas infraestruturas e na produção não foram acompanhadas por uma modernização equivalente do Exército. A marinha continuou poderosa porque sustentava o império marítimo e o comércio global, mas as forças terrestres permaneceram relativamente conservadoras e limitadas. A crença liberal de que a guerra seria cada vez mais improvável gerou uma certa complacência estratégica.

A história acabaria por desmentir parte dessas esperanças. O final do século XIX assistiu ao crescimento de novas potências industriais, como a Alemanha e os Estados Unidos, capazes de combinar industrialização com forte organização militar. E o século XX destruiria definitivamente a ilusão de que o desenvolvimento económico conduz inevitavelmente à paz. As duas guerras mundiais mostraram precisamente o contrário: a indústria moderna podia tornar a destruição mais eficiente do que nunca.

Todavia, seria injusto reduzir o liberalismo britânico a mero erro histórico. Havia nele uma intuição importante: a de que a prosperidade partilhada pode criar condições mais favoráveis à cooperação internacional. O problema talvez tenha sido outro: acreditar que a economia, por si só, bastaria para domesticar as ambições políticas, os nacionalismos e as rivalidades estratégicas.

A reflexão permanece atual. Também hoje vivemos uma transformação tecnológica profunda, marcada pela inteligência artificial, pela digitalização e pela competição económica global. Tal como no século XIX, existe a esperança de que a interdependência económica reduza os conflitos. Mas a história aconselha prudência. A técnica e a riqueza não eliminam automaticamente a disputa pelo poder.

A Grã-Bretanha industrial ensinou ao mundo que a economia pode ser fundamento de hegemonia global. Mas ensinou igualmente que nenhuma sociedade pode ignorar a dimensão estratégica da história. O comércio aproxima povos; não elimina necessariamente as rivalidades humanas. Entre a fábrica e o canhão, a relação é muitas vezes mais próxima do que os liberais do século XIX desejaram admitir.

Francisco Vaz

20 de Maio de 2026


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