Quando o Papa fala da guerra, fala como chefe de Estado ou como consciência da humanidade?
Uma recente entrevista do embaixador dos Estados Unidos junto da Santa Sé suscitou uma questão antiga, mas sempre actual. Referindo-se às intervenções do Papa Leão XIV sobre a guerra, afirmou que o Papa fala "como chefe de Estado" e não apenas como líder espiritual.
A observação merece reflexão. Não porque seja inteiramente falsa, mas porque corre o risco de não compreender a singularidade da missão do Bispo de Roma.
A melhor resposta talvez tenha sido dada há mais de sessenta anos por São Paulo VI, na sua histórica intervenção na Assembleia Geral das Nações Unidas, em 4 de Outubro de 1965.
As suas palavras permanecem de uma extraordinária actualidade:
"Aquele que está a falar convosco é um homem como vós. É vosso irmão e até um dos mais pequenos entre vós, que representais Estados soberanos, pois possui apenas uma soberania temporal mínima e quase simbólica: apenas a indispensável para garantir a liberdade da sua missão espiritual e assegurar a todos aqueles que com ele se relacionam a sua independência perante qualquer soberania deste mundo."
Poucas vezes se definiu, com tanta clareza, a natureza da Santa Sé.
A menor das soberanias
O Estado da Cidade do Vaticano possui apenas quarenta e quatro hectares. Não dispõe de recursos naturais, de poder económico significativo nem de capacidade militar comparável à dos restantes Estados. A sua soberania é quase simbólica.
Mas essa pequenez não constitui uma limitação; é uma escolha.
O Vaticano não existe para aumentar o poder temporal do Papa. Existe precisamente para garantir que nenhum poder temporal possa condicionar a sua liberdade.
Ao longo da História, imperadores, reis e governos procuraram submeter a Igreja aos seus interesses. A existência de um Estado soberano, ainda que diminuto, assegura ao Papa a independência necessária para exercer uma missão que transcende fronteiras, alianças políticas e interesses nacionais.
A soberania não é, portanto, um fim.
É apenas o instrumento que protege a liberdade da palavra.
Potestas e auctoritas
A tradição política romana distinguia dois conceitos fundamentais: potestas e auctoritas.
A potestas era o poder formal de mandar, impor, decretar e sancionar. A auctoritas, pelo contrário, era uma forma de influência fundada no reconhecimento, na experiência, no prestígio e na autoridade moral.
Esta distinção ajuda a compreender a singularidade do Papado.
O Papa possui uma pequena parcela de potestas, inerente à sua condição de chefe de um Estado soberano. Mas a verdadeira força da sua palavra não nasce daí.
Nasce da auctoritas.
Não é a capacidade de obrigar que lhe confere influência. É a possibilidade de interpelar as consciências.
Os grandes Estados podem impor sanções, mobilizar exércitos, controlar fronteiras ou condicionar economias. O Papa não dispõe de nenhum desses instrumentos. A sua presença na ordem internacional é de outra natureza.
Não dá ordens às nações.
Procura recordar-lhes aquilo que elas, frequentemente, preferem esquecer.
As duas cidades
Santo Agostinho, em A Cidade de Deus, distinguiu simbolicamente duas cidades: a cidade terrena, construída sobre o amor de si levado até ao desprezo do outro, e a cidade de Deus, fundada no amor que se abre à transcendência e ao próximo.
Não se trata de duas cidades geográficas nem de uma separação simples entre Igreja e mundo. Trata-se de duas orientações fundamentais do coração humano.
Também os Estados, as sociedades e as instituições podem deixar-se conduzir por uma ou por outra.
A cidade terrena vive da vontade de poder, da competição, da glória e do domínio.
A cidade de Deus lembra que nenhum poder é absoluto, que toda a autoridade deve servir e que a dignidade humana precede a razão de Estado.
Quando o Papa fala da guerra, é precisamente esta tensão que introduz no debate internacional.
Recorda aos governantes que a política não pode limitar-se à gestão dos interesses.
Recorda aos Estados que a soberania não é uma licença moral ilimitada.
Recorda às potências que, acima das fronteiras, dos tratados e das alianças, existem pessoas humanas.
Uma autoridade diferente
É verdade que o Papa é um chefe de Estado. A Santa Sé mantém relações diplomáticas com quase todos os países do mundo, participa nas organizações internacionais e intervém frequentemente nas grandes questões da ordem internacional.
Mas seria um erro colocar essa dimensão no centro da sua identidade.
Ao contrário dos restantes chefes de Estado, o Papa não dispõe de exércitos, não controla mercados financeiros, não impõe sanções nem decide alianças militares.
A sua influência assenta quase exclusivamente na autoridade moral.
A sua força é a palavra.
E precisamente porque essa palavra não está subordinada aos interesses estratégicos de nenhuma potência, conserva uma credibilidade singular.
A guerra vista pela consciência
Quando o Papa fala da guerra, não o faz como um estratega militar nem como representante dos interesses de um Estado.
Fala a partir da tradição moral da Igreja.
Uma tradição que nunca foi pacifista num sentido ingénuo. Desde Santo Agostinho e São Tomás de Aquino, a Igreja reconhece que, em circunstâncias extremas, o recurso à força pode ser moralmente legítimo para proteger os inocentes e restaurar a justiça.
Mas, exactamente por reconhecer essa legitimidade limitada, insiste permanentemente na primazia da paz.
A doutrina da guerra justa nunca pretendeu tornar a guerra moralmente desejável. Procurou, antes, limitar a violência, submeter a força à justiça e impedir que a necessidade militar se transformasse numa justificação sem limites.
A guerra pode, em certas circunstâncias, ser considerada inevitável.
Nunca deixa, porém, de ser uma tragédia.
Cada guerra representa uma derrota da política, da justiça e, sobretudo, da fraternidade humana.
Quando o Papa condena uma guerra ou apela ao diálogo, não apresenta um plano estratégico para resolver conflitos.
Recorda algo mais profundo: por detrás das estratégias militares existem pessoas, famílias, crianças, cidades destruídas e um sofrimento que nenhuma vitória consegue apagar.
O poder que renuncia ao poder
Há algo de profundamente paradoxal na soberania pontifícia.
Ela existe para que o Papa possa não depender politicamente de nenhum Estado, mas não existe para que possa competir com os Estados.
É um poder que se justifica pela renúncia ao poder.
Uma soberania que não pretende expandir-se.
Uma independência que não procura dominar.
Esta ideia aproxima-se da visão cristã da autoridade. No Evangelho, governar não significa colocar-se acima dos outros, mas fazer-se servidor.
O poder, quando se torna cristão, deixa de ser simples capacidade de mandar. Torna-se responsabilidade perante os mais frágeis.
Foi também esta a linha de pensamento que Bento XVI desenvolveu ao insistir na diferença entre a missão da Igreja e a acção propriamente política.
A Igreja não pretende substituir-se ao Estado nem governar tecnicamente a sociedade. A sua missão é contribuir para a formação das consciências, iluminar a razão moral e recordar à política que a justiça não pode ser reduzida ao equilíbrio de forças.
A Igreja não apresenta soluções técnicas para todos os conflitos.
Mas deve perguntar se essas soluções respeitam a dignidade humana.
A consciência da comunidade internacional
Talvez o embaixador americano tenha razão num aspecto: o Papa fala, efectivamente, como chefe de Estado.
Mas como chefe de um Estado cuja única razão de existir é permitir-lhe falar livremente como Pastor da Igreja Universal.
É esta a originalidade da Santa Sé.
A sua soberania foi reduzida ao mínimo para que a sua independência fosse máxima.
É provavelmente o único Estado cuja autoridade cresce na proporção inversa do seu poder material.
Num tempo em que quase todas as vozes internacionais representam interesses nacionais, económicos ou geopolíticos, a voz do Papa procura representar algo diferente: a dignidade da pessoa humana, a primazia da consciência e a exigência ética da paz.
Pode nem sempre convencer.
Pode até ser criticada.
As suas palavras podem ser consideradas inoportunas, excessivamente prudentes ou insuficientemente alinhadas com uma determinada leitura política dos conflitos.
Mas não devem ser confundidas com a voz de mais um actor geopolítico.
O Papa não fala para defender uma fronteira.
Fala para defender um princípio.
Não procura proteger um interesse nacional.
Procura recordar uma obrigação universal.
Uma pequena soberania ao serviço de uma grande missão
Foi isto que Paulo VI quis transmitir às Nações Unidas.
A pequena soberania do Vaticano não existe para conferir poder ao Papa.
Existe para garantir que ele permaneça livre perante todos os poderes.
Livre para dizer aos fortes aquilo que poucos ousam dizer.
Livre para recordar que nenhuma razão de Estado pode justificar a perda da humanidade.
Livre para denunciar a guerra sem precisar de calcular os seus dividendos políticos.
Talvez seja esta a maior originalidade da Santa Sé na ordem internacional: possuir o mínimo de poder temporal para preservar o máximo de liberdade espiritual.
É essa liberdade que faz com que, quando um Papa fala da guerra, a sua voz não seja apenas a de um chefe de Estado.
Seja, antes de mais, a voz de uma consciência que interpela os Estados e recorda à humanidade que a paz nunca é sinal de fraqueza.
É, pelo contrário, a expressão mais exigente da justiça, a forma mais elevada da política e uma das maiores conquistas da civilização.
Francisco Vaz
15 de julho de 2026
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