Pecado original

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sexta-feira, 11 de setembro de 2026

A vocação

A vida como tarefa em acto contínuo

Há uma tentação muito humana de pensar a vida como uma obra que vamos construindo até alcançar uma forma definitiva. Estudamos, escolhemos caminhos, constituímos família, realizamos projetos, atravessamos sucessos e fracassos e imaginamos que, algures nesse percurso, chegaremos finalmente àquilo que somos.

Mas talvez a vida não seja uma obra acabada. Talvez seja, antes, uma tarefa em acto contínuo.

O ser humano nunca coincide inteiramente consigo próprio. É aquilo que é, mas permanece também aquilo que ainda pode ser. Transporta uma história que não pode apagar e uma possibilidade que permanece aberta enquanto houver liberdade. Por isso, viver não consiste apenas em existir. Consiste em responder à existência.

Santo Agostinho compreendeu profundamente esta condição. Quando escreve «inquietum est cor nostrum» — inquieto está o nosso coração — não descreve apenas uma inquietação psicológica. Diz algo mais profundo: o homem não encontra em si mesmo a razão última do seu ser. Há nele uma abertura que nenhuma conquista, nenhum poder, nenhum conhecimento consegue preencher definitivamente.

A inquietação pode, então, não ser uma imperfeição. Pode ser o sinal de que permanecemos a caminho.

Louis Lavelle ajuda-nos a compreender esta abertura através da ideia de participação. O ser não é simplesmente uma coisa que possuímos. Participamos nele. A existência é-nos dada, mas cabe-nos realizá-la através dos nossos atos.

Não somos, portanto, criadores absolutos de nós próprios. Mas também não somos espectadores passivos da nossa existência.

É precisamente entre aquilo que recebemos e aquilo que fazemos com o que recebemos que nasce a liberdade.

Ninguém escolhe nascer. Ninguém escolhe o tempo histórico em que aparece, a família que o recebe, muitas das circunstâncias que encontrará, as fragilidades que o acompanharão ou grande parte dos acontecimentos que irão atravessar a sua vida.

Há sempre alguma coisa que nos precede.

Mas podemos responder.

É aqui que a palavra tarefa adquire todo o seu significado. Um projeto nasce geralmente da nossa vontade: decidimos fazer alguma coisa e procuramos realizá-la. A tarefa contém outra dimensão. Algo nos foi confiado e espera de nós uma resposta.

A vida deixa então de aparecer apenas como propriedade e revela-se como responsabilidade.

A antropologia cristã dá a esta intuição um nome ainda mais profundo: vocação.

A existência é chamamento.

Por isso, talvez a grande pergunta não seja apenas: «Que quero fazer da minha vida?»

Mas também:

«O que me pede a vida que faça com aquilo que me foi dado?»

A parábola dos talentos exprime admiravelmente esta condição. Os servos não escolheram aquilo que receberam e nem sequer receberam todos o mesmo. A questão decisiva é outra: o que fizeram com aquilo que lhes foi confiado?

Mas se a vida é tarefa, essa tarefa nunca pode considerar-se definitivamente cumprida.

É esse o significado de acto contínuo.

Não basta ter amado ontem para amar hoje. Não basta ter sido justo para permanecer justo. Não basta ter praticado o bem para ficarmos dispensados de voltar a escolhê-lo.

Cada situação devolve-nos à liberdade.

O passado forma-nos, mas não nos substitui.

Podemos ter realizado grandes obras e falhar diante da pessoa concreta que agora necessita de nós. Podemos possuir muito conhecimento e continuar incapazes de escutar. Podemos ter alcançado reconhecimento e descobrir que ainda nos falta aprender aquilo que parecia mais simples: agradecer, perdoar, servir, aceitar.

O ser moral não se acumula como património. Atualiza-se.

Talvez seja por isso que a passagem dos anos não diminui necessariamente a tarefa da existência. Apenas a transforma. Chega um tempo em que algumas possibilidades exteriores diminuem, mas outras responsabilidades se tornam mais claras.

A tarefa pode deixar de ser conquistar e passar a ser transmitir.

Pode deixar de ser construir e passar a ser reconciliar.

Pode deixar de ser vencer e passar a ser aceitar.

E haverá momentos em que consistirá simplesmente em permanecer junto de alguém.

É aqui que o cristianismo introduz o seu paradoxo mais profundo. A realização da pessoa não acontece pela acumulação, mas pela entrega. Cristo não apresenta a plenitude como conquista de si, mas como dom de si. É quando deixamos de fazer da nossa própria realização o centro da existência que começamos verdadeiramente a encontrá-la.

A tarefa da vida não consiste, portanto, em construir obsessivamente uma versão perfeita de nós próprios.

Consiste talvez em algo simultaneamente mais humilde e mais exigente:

tornarmo-nos disponíveis para o bem que, em cada circunstância, pode passar através de nós.

Agostinho recorda-nos que o coração permanece inquieto enquanto procurar em si mesmo aquilo que o transcende. Lavelle mostra-nos que existir significa participar no ser. O Evangelho revela que essa participação encontra no amor a sua expressão mais alta.

No fundo, as três perspetivas convergem numa mesma verdade: a pessoa nunca está terminada enquanto vive.

Somos seres em caminho.

E talvez, no fim, a pergunta decisiva não seja: «Que consegui?»

Nem sequer: «Que deixei?»

Mas simplesmente:

«Que fiz com aquilo que me foi confiado?»

Porque a vida não é uma obra que um dia possamos declarar concluída.

É uma tarefa que se renova em cada instante: receber o que nos é dado, discernir o que nos é pedido e, pela liberdade e pelo amor, transformar existência em sentido.

Uma tarefa em acto contínuo.


Francisco Vaz

11 de setembro de 2026


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