A vida como tarefa em acto contínuo
Há uma tentação muito humana de pensar a vida como uma obra que vamos construindo até alcançar uma forma definitiva. Estudamos, escolhemos caminhos, constituímos família, realizamos projetos, atravessamos sucessos e fracassos e imaginamos que, algures nesse percurso, chegaremos finalmente àquilo que somos.
Mas talvez a vida não seja uma obra acabada. Talvez seja, antes, uma tarefa em acto contínuo.
O ser humano nunca coincide inteiramente consigo próprio. É aquilo que é, mas permanece também aquilo que ainda pode ser. Transporta uma história que não pode apagar e uma possibilidade que permanece aberta enquanto houver liberdade. Por isso, viver não consiste apenas em existir. Consiste em responder à existência.
Santo Agostinho compreendeu profundamente esta condição. Quando escreve «inquietum est cor nostrum» — inquieto está o nosso coração — não descreve apenas uma inquietação psicológica. Diz algo mais profundo: o homem não encontra em si mesmo a razão última do seu ser. Há nele uma abertura que nenhuma conquista, nenhum poder, nenhum conhecimento consegue preencher definitivamente.
A inquietação pode, então, não ser uma imperfeição. Pode ser o sinal de que permanecemos a caminho.
Louis Lavelle ajuda-nos a compreender esta abertura através da ideia de participação. O ser não é simplesmente uma coisa que possuímos. Participamos nele. A existência é-nos dada, mas cabe-nos realizá-la através dos nossos atos.
Não somos, portanto, criadores absolutos de nós próprios. Mas também não somos espectadores passivos da nossa existência.
É precisamente entre aquilo que recebemos e aquilo que fazemos com o que recebemos que nasce a liberdade.
Ninguém escolhe nascer. Ninguém escolhe o tempo histórico em que aparece, a família que o recebe, muitas das circunstâncias que encontrará, as fragilidades que o acompanharão ou grande parte dos acontecimentos que irão atravessar a sua vida.
Há sempre alguma coisa que nos precede.
Mas podemos responder.
É aqui que a palavra tarefa adquire todo o seu significado. Um projeto nasce geralmente da nossa vontade: decidimos fazer alguma coisa e procuramos realizá-la. A tarefa contém outra dimensão. Algo nos foi confiado e espera de nós uma resposta.
A vida deixa então de aparecer apenas como propriedade e revela-se como responsabilidade.
A antropologia cristã dá a esta intuição um nome ainda mais profundo: vocação.
A existência é chamamento.
Por isso, talvez a grande pergunta não seja apenas: «Que quero fazer da minha vida?»
Mas também:
«O que me pede a vida que faça com aquilo que me foi dado?»
A parábola dos talentos exprime admiravelmente esta condição. Os servos não escolheram aquilo que receberam e nem sequer receberam todos o mesmo. A questão decisiva é outra: o que fizeram com aquilo que lhes foi confiado?
Mas se a vida é tarefa, essa tarefa nunca pode considerar-se definitivamente cumprida.
É esse o significado de acto contínuo.
Não basta ter amado ontem para amar hoje. Não basta ter sido justo para permanecer justo. Não basta ter praticado o bem para ficarmos dispensados de voltar a escolhê-lo.
Cada situação devolve-nos à liberdade.
O passado forma-nos, mas não nos substitui.
Podemos ter realizado grandes obras e falhar diante da pessoa concreta que agora necessita de nós. Podemos possuir muito conhecimento e continuar incapazes de escutar. Podemos ter alcançado reconhecimento e descobrir que ainda nos falta aprender aquilo que parecia mais simples: agradecer, perdoar, servir, aceitar.
O ser moral não se acumula como património. Atualiza-se.
Talvez seja por isso que a passagem dos anos não diminui necessariamente a tarefa da existência. Apenas a transforma. Chega um tempo em que algumas possibilidades exteriores diminuem, mas outras responsabilidades se tornam mais claras.
A tarefa pode deixar de ser conquistar e passar a ser transmitir.
Pode deixar de ser construir e passar a ser reconciliar.
Pode deixar de ser vencer e passar a ser aceitar.
E haverá momentos em que consistirá simplesmente em permanecer junto de alguém.
É aqui que o cristianismo introduz o seu paradoxo mais profundo. A realização da pessoa não acontece pela acumulação, mas pela entrega. Cristo não apresenta a plenitude como conquista de si, mas como dom de si. É quando deixamos de fazer da nossa própria realização o centro da existência que começamos verdadeiramente a encontrá-la.
A tarefa da vida não consiste, portanto, em construir obsessivamente uma versão perfeita de nós próprios.
Consiste talvez em algo simultaneamente mais humilde e mais exigente:
tornarmo-nos disponíveis para o bem que, em cada circunstância, pode passar através de nós.
Agostinho recorda-nos que o coração permanece inquieto enquanto procurar em si mesmo aquilo que o transcende. Lavelle mostra-nos que existir significa participar no ser. O Evangelho revela que essa participação encontra no amor a sua expressão mais alta.
No fundo, as três perspetivas convergem numa mesma verdade: a pessoa nunca está terminada enquanto vive.
Somos seres em caminho.
E talvez, no fim, a pergunta decisiva não seja: «Que consegui?»
Nem sequer: «Que deixei?»
Mas simplesmente:
«Que fiz com aquilo que me foi confiado?»
Porque a vida não é uma obra que um dia possamos declarar concluída.
É uma tarefa que se renova em cada instante: receber o que nos é dado, discernir o que nos é pedido e, pela liberdade e pelo amor, transformar existência em sentido.
Uma tarefa em acto contínuo.
Francisco Vaz
11 de setembro de 2026
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