o maniqueísmo do nosso tempo
Há uma tentação antiga que parece ter adquirido nova força no nosso tempo: dividir o mundo entre bons e maus. De um lado, os justos; do outro, os culpados. De um lado, aqueles que possuem a verdade; do outro, aqueles que representam o erro. É uma simplificação sedutora: reduz a complexidade da realidade e oferece-nos ainda o conforto de colocar o mal quase sempre fora de nós.
Santo Agostinho conheceu bem esta tentação. Durante cerca de nove anos esteve ligado ao maniqueísmo, doutrina fundada por Mani no século III, que pretendia responder a uma das perguntas mais perturbadoras da existência: se Deus é bom, de onde vem o mal?
A resposta maniqueia assentava na existência, desde a origem, de dois princípios independentes e irreconciliáveis: o Bem e o Mal, a Luz e as Trevas. O universo seria o campo de batalha dessas duas forças e o próprio homem participaria nesse conflito.
Agostinho acabaria por descobrir a contradição fundamental desta doutrina. Se existem dois princípios absolutos, nenhum deles pode verdadeiramente sê-lo. Um absoluto não pode ter diante de si outro poder igualmente originário que o limite. Se o Bem encontra no Mal um princípio independente e equivalente, deixa de ser o fundamento último da realidade.
A crítica vai ainda mais longe. Fazer do mal uma substância significa conceder-lhe uma existência própria. Ora, para Agostinho, tudo o que existe, enquanto existe, participa de algum bem. O mal não é, portanto, uma realidade autónoma, mas privatio boni: privação, corrupção ou diminuição de um bem.
A cegueira pressupõe a visão; a doença, um organismo cuja ordem foi perturbada; a injustiça, uma vontade capaz de agir justamente. O mal não cria: corrompe. Não possui consistência própria: instala-se num bem que deteriora.
Esta conclusão transforma também o problema moral. Se não existe em nós um princípio maligno responsável pelos nossos atos, desaparece a possibilidade de transferir a culpa para uma força exterior. O homem é livre e, precisamente por isso, responsável pelas suas escolhas.
É neste ponto que uma controvérsia do século IV se torna surpreendentemente atual.
O maniqueísmo praticamente desapareceu enquanto religião, mas sobrevive como maneira de olhar o mundo. A antiga oposição entre Luz e Trevas reaparece quando a complexidade das pessoas e dos acontecimentos é reduzida a campos morais perfeitamente definidos.
Vemo-lo na política, quando o adversário deixa de ser alguém com quem se discorda para se tornar alguém moralmente desprezível. Vemo-lo nas relações internacionais, quando conflitos complexos são apresentados como confrontos entre povos intrinsecamente virtuosos e povos intrinsecamente perversos. E vemo-lo diariamente nas redes sociais, onde a rapidez do julgamento favorece a condenação antes da compreensão.
A própria História pode ser submetida a este tribunal simplificador. Homens de outros séculos são retirados das circunstâncias em que viveram e classificados segundo as categorias morais do presente. Já não procuramos compreender para depois julgar; julgamos primeiro e, muitas vezes, deixamos de sentir necessidade de compreender.
Esta forma de pensar possui uma poderosa vantagem psicológica: permite-nos ocupar o lado certo da barricada.
Quando transformamos o adversário na encarnação do erro, deixamos de precisar de examinar as nossas próprias contradições. A pertença ao grupo considerado justo funciona como uma espécie de absolvição antecipada. Se a nossa causa é boa, tendemos a concluir que também os nossos meios o são.
É precisamente aqui que Agostinho se torna incómodo.
Para ele, o problema moral não se resolve identificando um grupo onde o mal reside. A mesma vontade humana é capaz de generosidade e egoísmo, coragem e cobardia, verdade e mentira. Até um desejo legítimo de justiça pode degenerar em vingança; o amor à liberdade pode tornar-se intolerância; a defesa de uma causa justa pode acabar por justificar meios injustos.
Daí a importância do ordo amoris, a ordem do amor. Não são necessariamente más as coisas que amamos: a pátria, a liberdade, a justiça, a segurança, o reconhecimento ou o poder podem corresponder a bens reais. A desordem começa quando um desses bens relativos é transformado em absoluto e todos os restantes lhe são sacrificados.
Esta perspetiva não conduz ao relativismo moral. Reconhecer a complexidade humana não significa negar que existam injustiças, vítimas e agressores, nem renunciar ao dever de distinguir o certo do errado. Significa apenas recusar uma conclusão demasiado cómoda: a de que estar do lado de uma causa justa nos torna, por esse facto, justos.
Combater o mal não nos transforma automaticamente em bons.
Talvez esta seja uma das lições mais necessárias de Agostinho para o nosso tempo. Uma verdade pode ser defendida com arrogância. A justiça pode ser invocada para alimentar o ressentimento. A liberdade pode servir de pretexto à indiferença perante os outros. E uma convicção moral pode tornar-se tão absoluta que deixe de reconhecer a humanidade de quem discorda de nós.
A pergunta decisiva deixa então de ser apenas: quem são os bons e quem são os maus?
Passa a ser: o que acontece dentro de nós quando nos convencemos de que somos os bons?
É uma pergunta menos confortável, porque nos retira a segurança das classificações. Obriga-nos a reconhecer que a fronteira moral não coincide perfeitamente com fronteiras políticas, religiosas, ideológicas ou culturais.
Passa também pelo interior de cada um.
Dezasseis séculos depois de Agostinho, talvez seja essa a forma mais persistente de maniqueísmo: acreditar literalmente em dois princípios cósmicos, o Bem e o Mal e imaginar que a humanidade se encontra dividida da mesma maneira.
Os maus são sempre os outros.
E esse é, provavelmente, o primeiro sinal de que começámos a pensar como maniqueus.
Francisco Vaz
6 de outubro de 2026
Sem comentários:
Enviar um comentário