Estrutura invisível do humano
“Em termos antropológicos, a fé não é uma primeira realidade propriamente religiosa, muito menos teológica. Primeira e fundamentalmente, a fé é uma realidade antropológica transcendental que é tão laica quanto a matéria de que a carne humana antropológica é feita.”
Américo Pereira
A afirmação de Américo Pereira é, à primeira vista, desconcertante. Num contexto cultural onde a palavra “fé” é quase automáticamente remetida para o domínio religioso, dizer que ela é, antes de tudo, realidade laica e estrutural do humano obriga-nos a repensar o que significa acreditar.
Habitualmente, associamos fé a adesão a doutrinas, práticas religiosas ou convicções espirituais. Contudo, a perspetiva antropológica proposta por Américo Pereira desloca o eixo da reflexão: antes de ser ato confessional, a fé é condição de possibilidade da própria experiência humana. Não é algo que alguns têm e outros não; é estrutura que sustenta o viver enquanto tal.
A criança que confia na palavra dos pais, o doente que se entrega aos cuidados do médico, o cidadão que acredita na validade das leis, o investigador que parte do pressuposto de que o real é inteligível — todos exercem a fé. Trata-se de uma confiança originária, pré-reflexiva, que torna o mundo habitável. Sem essa confiança básica, a vida dissolver-se-ia numa suspeita permanente. A existência tornar-se-ia impraticável.
É neste sentido que Américo Pereira fala de uma realidade “antropológica transcendental”. A fé não é mero conteúdo mental; é dinamismo constitutivo. O ser humano vive projetando-se para além do imediato, confiando no sentido do real, apostando no futuro. Acreditar é abrir-se ao possível. É um ato ontológico: quem acredita afirma que a realidade não é absurda nem fechada sobre si mesma.
Essa estrutura de confiança tem também implicações éticas e políticas. A convivência humana funda-se na credibilidade mútua. Quando a palavra deixa de valer, quando a suspeita se torna regra, o tecido social fragiliza-se. A atual crise de confiança nas instituições, na política e até nas relações pessoais pode ser lida como sintoma de erosão dessa fé antropológica fundamental. Não falamos aqui de crença religiosa, mas da confiança que permite a cooperação, o compromisso e a responsabilidade partilhada.
Reconhecer que a fé é originariamente laica não significa esvaziar a fé religiosa; pelo contrário, permite compreendê-la como aprofundamento de uma estrutura já presente na condição humana. A fé teologal não surge como elemento estranho, mas como radicalização dessa abertura fundamental. A confiança no sentido do real pode desdobrar-se em confiança no seu fundamento último. A grande intuição de Américo Pereira é recordar-nos que ninguém vive sem acreditar. Mesmo o cético acredita na validade do seu ceticismo. Mesmo quem rejeita toda a transcendência confia na coerência do pensamento e na estabilidade do mundo. Acreditar não é opção secundária; é condição primária.
Talvez o verdadeiro drama contemporâneo não seja a existência de demasiadas crenças, mas o enfraquecimento da confiança estrutural que sustenta o viver comum. Quando tudo é suspeito, quando nenhuma palavra merece crédito, a própria humanidade entra em crise. A fé, entendida como estrutura antropológica, é tão concreta quanto a matéria da nossa carne. Não é adorno espiritual, nem luxo intelectual. É o chão invisível sobre o qual caminhamos. E, enquanto houver humano, haverá sempre esse gesto silencioso e originário de confiar — de acreditar — que torna possível a vida, o amor, o conhecimento e a esperança.
Francisco Vaz
14 de Fevereiro de 2026
Nota:
Américo José Pereira Pinheira, filósofo português contemporâneo. A sua investigação centra-se na antropologia, na metafísica e na fundamentação ontológica da ética. A sua reflexão caracteriza-se pela articulação rigorosa entre ontologia, étca e horizonte teológico, propondo uma leitura da condição humana como ato em realização e como abertura constitutiva ao sentido.
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