Pecado original

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sábado, 14 de fevereiro de 2026

Winston Churchill e Louis Barthou

Os homens que levaram Hitler a sério

A leitura retrospectiva da década de 1930 continua a levantar uma pergunta inquietante: quantos perceberam verdadeiramente quem era Adolf Hitler e o que pretendia fazer? Entre os que leram Mein Kampf não como retórica inflamada, mas como programa político, destacam-se duas figuras que a história acabou por confirmar na sua lucidez: Winston Churchill e Louis Barthou.

Churchill é hoje símbolo da resistência britânica. Mas durante anos foi voz isolada. Leu Mein Kampf atentamente e levou a sério aquilo que muitos descartaram como exagero ou teatro ideológico: o expansionismo alemão, o revisionismo territorial, o culto da força e a ambição de domínio europeu. Nos anos 30, quando a política dominante em Londres era a do apaziguamento, Churchill alertava insistentemente para o rearmamento alemão e para o perigo de confiar na palavra do ditador. Foi frequentemente acusado de alarmismo. A sua recusa em legitimar Hitler, mesmo em gestos simbólicos — como encontros que pudessem sugerir normalização — traduzia uma compreensão profunda: estava em causa não apenas equilíbrio diplomático, mas o próprio futuro da civilização europeia.

A história de Barthou é menos conhecida, mas não menos relevante. Como ministro dos Negócios Estrangeiros francês em 1934, procurou construir um sistema de contenção da Alemanha nazi. A chamada “Little Entente” — articulação entre França, Checoslováquia, Jugoslávia e Roménia — pretendia formar um cerco político e militar capaz de dissuadir a expansão alemã. O chamado Iron Ring visava precisamente esse cerco estratégico. Barthou percebia que o regime nazi não se satisfaria com revisões limitadas do Tratado de Versalhes; via nele uma lógica estrutural de expansão e hegemonia.

O homicídio de Barthou e do o rei Alexandre I, da Jugoslavia, em Marselha, em outubro de 1934, interrompeu abruptamente essa tentativa de reorganização diplomática. O historiador Allen Roberts, no seu livro The Turning Point, considera mesmo esse momento como decisivo: a morte de Barthou terá enfraquecido a possibilidade de uma frente firme e coordenada que pudesse conter Hitler antes que a máquina nazi se tornasse imparável.

É sempre arriscado fazer história contrafactual. Não sabemos se o cerco diplomático teria realmente travado o Terceiro Reich. Mas sabemos que, nos anos seguintes, a ausência de uma estratégia coesa de contenção facilitou a política de factos consumados: a remilitarização da Renânia, a anexação da Áustria, a desagregação da Checoslováquia. Cada concessão reforçava a convicção de Hitler de que os seus adversários careciam de vontade política.

A lucidez de Churchill e Barthou não residiu apenas na leitura de um livro; residiu na capacidade de reconhecer que certas ideologias devem ser levadas à letra. Muitos líderes europeus preferiram acreditar que Hitler moderaria o discurso quando confrontado com responsabilidades de governo. Churchill e Barthou, pelo contrário, entenderam que o núcleo do projeto nazi — supremacia racial, expansão territorial, subordinação violenta da Europa — era constitutivo e não contingente.

Há aqui uma lição política intemporal. Nem toda a retórica extremista é mera propaganda. Quando um líder expõe de forma sistemática um programa de exclusão, dominação e violência, a prudência exige que se leve a sério. A subestimação pode ser tão perigosa quanto a provocação.

Churchill acabaria por liderar a resistência num momento em que já não havia alternativa senão a guerra total. Barthou não teve essa oportunidade. Ambos, contudo, representam a rara combinação de leitura atenta da realidade e coragem política para agir em conformidade com essa leitura.

A história não é feita apenas pelos que triunfam, mas também pelos que avisam a tempo — mesmo quando ninguém quer ouvir. Churchill e Barthou pertencem a essa categoria. Foram dos poucos que perceberam que, por trás da retórica inflamada de Hitler, estava um projeto coerente de poder insaciável. A tragédia europeia do século XX mostra quanto custou não lhes ter dado ouvidos mais cedo.


Francisco Vaz

14 de Fevereiro de 2026

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