Pecado original

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sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

Os estaleiros de Francisco

Sobre a esperança cristã


“Mas Lisboa, abraçada pelo oceano, oferece-nos motivos para esperar; é cidade da esperança. Há uma maré de jovens que se espraia sobre esta cidade acolhedora. Quero agradecer o grande trabalho e generoso empenho empreendidos por Portugal para acolher um evento tão complexo de gerir, mas fecundo de esperança, pois – como se diz por aqui – «ao lado dos jovens, não se envelhece». Jovens provenientes de todo o mundo que cultivam anseios de unidade, paz e fraternidade, jovens que sonham desafiam-nos a realizar os seus sonhos bons. Não andam pelas ruas a gritar sua raiva, mas a partilhar a esperança do Evangelho, a esperança da vida. E se, em muitos lugares, se respira hoje um clima de protesto e insatisfação, terreno fértil para populismos e conspirações, a Jornada Mundial da Juventude é ocasião para construir juntos. Reaviva o desejo de criar coisas novas, fazer-se ao largo e navegar juntos rumo ao futuro. Vêm à mente algumas palavras ousadas de Fernando Pessoa: «Navegar é preciso; viver não é preciso (...); o que é necessário é criar» (Navegar é preciso). Trabalhemos, pois, com criatividade para construirmos juntos! Imagino três estaleiros de construção da esperança onde podemos trabalhar todos unidos: o ambiente, o futuro, a fraternidade.”


Papa Francisco

Discurso no Centro Cultural de Belém em 2023


Lisboa, “abraçada pelo oceano”, surge como metáfora viva da condição cristã: cidade aberta ao horizonte, lugar de encontro, porto e partida. A imagem de uma maré de jovens que não grita raiva, mas partilha esperança, oferece-nos um símbolo eloquente daquilo que significa viver teologicamente o tempo. Num mundo onde cresce o protesto, a insatisfação e a tentação do fechamento identitário, a esperança cristã apresenta-se não como evasão, mas como força criadora. É neste horizonte que se compreende a reflexão do teólogo Juan Francisco Ambrósio, particularmente quando propõe — de modo original e provocador — o verbo “esperançar”.

A esperança cristã não é mero otimismo psicológico nem ingenuidade histórica. É virtude teologal: nasce da confiança na promessa de Deus e funda-se no acontecimento da ressurreição. Para Juan Ambrósio, a esperança não se limita a projetar um futuro distante; ela transforma o presente. Não é espera passiva, mas dinamismo ativo. Por isso, a distinção entre “esperar” e “esperançar” torna-se decisiva. Esperar pode significar aguardar; esperançar significa agir a partir da promessa. É viver comprometido com o futuro de Deus já em germinação na história.

Quando o papa Francisco afirma que, “ao lado dos jovens, não se envelhece”, afirma algo mais profundo do que um dado geracional: a esperança rejuvenesce porque reconecta com o fundamento último da vida cristã. A juventude reunida, cultivando anseios de unidade, paz e fraternidade, torna-se sinal visível de que a história permanece aberta. Como recorda Juan Ambrósio, a esperança é sempre memória do futuro — antecipação confiada da plenitude prometida.

Neste contexto, a citação de Fernando Pessoa — “Navegar é preciso (…) o que é necessário é criar” — ganha densidade espiritual. A esperança cristã é criativa. Não repete esquemas gastos nem se resigna à decadência; constrói. Os “três estaleiros” evocados — ambiente, futuro e fraternidade — traduzem campos concretos onde a esperança se torna operativa. Cuidar da casa comum é reconhecer o mundo como dom; investir no futuro é afirmar que a história não terminou; promover a fraternidade é antecipar, nas relações humanas, a lógica do Reino.

Aqui o verbo “esperançar” revela toda a sua força. Esperançar é resistir ao cinismo que paralisa e ao medo que fecha. É recusar que o mal tenha a última palavra. É comprometer-se na transformação das estruturas injustas e na construção de relações reconciliadas. A esperança, neste sentido, possui também uma dimensão política — não no sentido ideológico, mas no campo relacional: funda comunidade, gera encontro, restaura vínculos.

Num tempo em que a insatisfação pode tornar-se terreno fértil para populismos e conspirações, esperançar é gesto contra-cultural. É afirmar que o futuro não pertence ao desespero, mas à promessa. A esperança cristã não ignora a crise; atravessa-a. Não nega o sofrimento; assume-o à luz da Páscoa.

Concluindo, a esperança cristã, tal como pensada por Juan Ambrósio, não é fuga do mundo nem adiamento da responsabilidade. É modo de habitar o tempo com confiança ativa. Lisboa, aberta ao mar, torna-se assim símbolo da Igreja e da humanidade: chamadas a fazer-se ao largo, a navegar juntas, a criar. Não basta esperar que o futuro aconteça. É preciso esperançar — viver e agir como quem sabe que a promessa já começou.
Francisco Vaz
13 de Fevereiro de 2026

Nota:

Juan Francisco Garcia Ambrósio, teólogo português contemporâneo, tem desenvolvido reflexão sistemáca sobre a esperança cristã como dimensão constitutiva da identidade crente.

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