Numa assembleia de condóminos ocorrida recentemente, alguém afirmou que não quer andar no elevador com vizinhos porque “podem cheirar mal do sovaco”. A frase provocou desconforto imediato — não apenas pelo mau gosto, mas também pela carga simbólica que transporta. O que parece um comentário trivial revela, afinal, algo mais profundo: um sintoma de egoísmo, isolamento e empobrecimento da consciência humana.
O elevador é um dos espaços mais democráticos da vida urbana. Ali, durante breves segundos, cruzam-se idades, culturas, rendimentos, estilos de vida. É o lugar onde a proximidade não se escolhe e onde a convivência é inevitável. Recusar partilhar esse espaço com o vizinho por uma eventualidade sensorial é mais do que uma questão de higiene; é uma declaração de rejeição. Não se está apenas a evitar um odor hipotétco — está-se a reduzir o outro a um incómodo.
Ontologicamente, o ser humano é relacional. Não existimos como ilhas. A nossa identidade constrói-se na interação, no reconhecimento mútuo, na partilha de espaços e responsabilidades. Negar o outro como presença legítma é ferir essa dimensão essencial do nosso próprio ser. Quem transforma o vizinho num objeto desagradável empobrece a sua própria humanidade. Porque a dignidade não é atributo que concedemos; é realidade que reconhecemos.
Do ponto de vista ético, o comentário é ofensivo porque atinge a dignidade pessoal. A tradição moral ocidental, expressa na chamada Lei de Deus e sintetezada nos Dez Mandamentos, insiste no respeito pelo próximo como fundamento da convivência. “Amarás o teu próximo como a ti mesmo” não é fórmula piedosa; é princípio civilizacional. A humilhação pública, ainda que sob a capa de franqueza ou humor, constitui forma de violência moral. E a violência começa muitas vezes nas palavras.
Há também uma dimensão política — não paridária, mas relacional. Um condomínio é um microcosmos da sociedade. Viver em comunidade implica suportar diferenças, negociar conflitos, reconhecer limites. Quando alguém declara não querer a presença do vizinho, rompe simbolicamente o pacto de convivência. Se este princípio fosse levado às úlltmas consequências, abriria caminho à segregação permanente: afastar os que incomodam, excluir os imperfeitos, selecionar os “aceitáveis”. A história mostra-nos onde essas lógicas podem conduzir.
Este episódio revela uma forma subtil de desumanização. Reduzir alguém a uma característica contingente — real ou imaginada — é negar-lhe complexidade, história, dignidade. E essa negação não atinge apenas a vítima; atinge também quem a profere. Porque a humanidade não é clube privado de conforto pessoal. É experiência partilhada de fragilidade e respeito mútuo.
Pode parecer exagero ver num comentário infeliz uma “ameaça contra a humanidade”. Mas as grandes fraturas sociais começam muitas vezes em pequenos gestos quotidianos. A paz constrói-se nos detalhes: na cortesia do cumprimento, na paciência do silêncio, na capacidade de suportar o outro no espaço comum.
Talvez o verdadeiro teste da nossa maturidade ética não esteja nos grandes discursos, mas no modo como habitamos o elevador. Ali, naquele espaço exíguo, decide-se muito do que somos como comunidade. Partilhar o elevador é aceitar a condição humana: imperfeita, próxima, inevitavelmente relacional. Quem recusa essa proximidade talvez deva perguntar-se se quer, de facto, fazer parte da humanidade que diz integrar.
No fundo, a civilização começa no reconhecimento simples de que o outro — com as suas qualidades e limitações — é meu igual em dignidade. E essa consciência, ao contrário de qualquer odor passageiro, é o que verdadeiramente perfuma a vida em comum.
Francisco Vaz
13 de Fevereiro de 2026
ResponderEliminarRecusar alguém por um desconforto banal revela uma tendência maior: preferirmos evitar a presença humana em vez de construir laços mínimos de civilidade.
Valores éticos (como “amar o próximo”) não apenas como ideal religioso, mas como base para uma vida comunitária digna.
Será que fomos tão condicionados à “zona de conforto” que fugimos de tudo o que nos desafia a olhar para o outro como humano, não como incómodo?
No fim, o elevador deixa de ser um aparelho e torna-se um símbolo da sociedade que queremos ou evitamos construir!
Bruno Lopes