Pecado original

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quinta-feira, 16 de julho de 2026

Dez Anos Depois: O Entendimento Global Continua a Passar pelas Periferias

Uma reflexão sobre a atualidade de uma intuição que o tempo confirmou.

«O bem-comum de todas as pessoas, sem exceção, em cada momento, sempre. Não se trata de uma utopia, mas da intuição da possibilidade de uma existência política, de base ética, em que todos os seres humanos possam, e, de facto, sejam o melhor que podem ontologicamente ser, em universal e total harmonia. É este o entendimento como padrão de possibilidade.»

Américo Pereira
Introdução a Entendimento Global e Compromisso com as Periferias

Há dez anos, a Universidade Católica Portuguesa dedicava uma Summer School ao tema «Entendimento Global e Compromisso com as Periferias». O encontro, coordenado por Américo Pereira, partia de uma convicção simples: não haverá verdadeira globalização enquanto parte da humanidade permanecer na periferia das nossas preocupações.

Uma década depois, é difícil não reconhecer o carácter quase profético dessa reflexão.

Em 2016 acreditava-se que a globalização aproximaria povos, culturas e sociedades. A tecnologia prometia reduzir distâncias, o conhecimento parecia cada vez mais acessível e o diálogo surgia como uma possibilidade real.

A realidade revelou-se mais complexa.

Nunca estivemos tão ligados e, paradoxalmente, nunca foi tão evidente a fragmentação do mundo. As redes sociais multiplicaram a comunicação, mas também a polarização. A pandemia expôs fragilidades comuns. As guerras regressaram ao coração da Europa e persistem no Médio Oriente. A rivalidade entre grandes potências voltou a marcar a política internacional. A inteligência artificial abre horizontes extraordinários, mas levanta novas questões sobre a verdade, a liberdade e a responsabilidade.

Hoje percebemos que a tecnologia, por si só, não produz entendimento.

O entendimento é sempre uma conquista ética.

Também as periferias mudaram. Continuam a existir as da pobreza e da exclusão, mas surgiram outras: a solidão dos idosos, a exclusão digital, a marginalização cultural, os migrantes sem voz, os jovens sem horizonte, as vítimas das alterações climáticas e todos aqueles que, mesmo vivendo no centro das cidades, permanecem invisíveis.

Foi precisamente esta capacidade de olhar para as periferias que o Papa Francisco colocou no centro do seu pontificado. Ir às periferias não significa apenas prestar assistência; significa aprender a olhar o mundo a partir daqueles que normalmente não contam. É uma mudança de perspetiva antes de ser uma mudança geográfica.

Neste ponto, a reflexão da Summer School encontra uma notável convergência com o pensamento social cristão. Bento XVI, na encíclica Caritas in Veritate, recordava que a globalização só é verdadeiramente humana quando é acompanhada pela solidariedade e pelo desenvolvimento integral da pessoa. Francisco, em Fratelli Tutti, aprofundou essa mesma intuição ao defender que nenhuma paz será duradoura sem fraternidade e nenhuma fraternidade existirá enquanto houver descartados.

Talvez devamos, por isso, inverter a lógica do próprio título.

Há dez anos pensávamos que o entendimento global conduziria naturalmente ao compromisso com as periferias.

Hoje percebemos que será precisamente o contrário: só um compromisso efetivo com os mais vulneráveis poderá reconstruir um verdadeiro entendimento global.

É aí que se decide a qualidade das nossas democracias, das nossas economias e da nossa cultura. Uma sociedade mede-se menos pela riqueza que produz do que pela dignidade que reconhece em cada pessoa.

Mas as periferias não são apenas um problema da política, da economia ou das instituições. São também uma questão de consciência. Todos construímos periferias quando ignoramos quem pensa de forma diferente, quando desistimos do diálogo ou quando nos habituamos ao sofrimento dos outros. E todos contribuímos para um verdadeiro entendimento global quando fazemos do encontro, da escuta e da solidariedade uma forma quotidiana de viver.

Os grandes temas não envelhecem; amadurecem. O que em 2016 parecia um programa académico revela-se, dez anos depois, uma necessidade civilizacional. A globalização mostrou-nos que é possível ligar economias e tecnologias. Falta ainda aprender a ligar consciências.

Dez anos depois, as palavras de Américo Pereira não perderam atualidade; ganharam urgência. Perante um mundo marcado por guerras, polarização, migrações forçadas, desigualdades persistentes e desafios tecnológicos sem precedentes, compreendemos melhor que o entendimento global não é um luxo intelectual nem um ideal ingénuo. É uma condição para a sobrevivência da própria humanidade.

Talvez seja esta a principal lição daquela Summer School. O entendimento global não começa nas cimeiras internacionais, nem nos tratados diplomáticos, nem sequer nas redes que ligam o planeta. Começa quando reconhecemos que o bem comum só é verdadeiramente comum quando é verdadeiramente de todos.

Porque, afinal, as periferias não são apenas um lugar do mundo. São o lugar onde se decide a humanidade do próprio mundo.

Francisco Vaz
16 de julho de 2026


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