A defesa da criação, da dignidade do corpo e da universalidade da salvação cristã
Os Padres da Igreja enfrentaram o gnosticismo como uma das primeiras grandes ameaças à identidade cristã. A disputa ultrapassava uma divergência doutrinal: estavam em confronto duas conceções de Deus, do mundo, do corpo, da história e da salvação.
Para os gnósticos, embora existissem diversas escolas, o mundo material era geralmente entendido como obra imperfeita de um demiurgo inferior. A alma humana, ou pelo menos a dos “espirituais”, possuiria uma centelha divina aprisionada na matéria. A salvação resultaria da gnose: um conhecimento secreto capaz de despertar o iniciado e libertá-lo do mundo corporal.
Os Padres da Igreja responderam afirmando alguns princípios fundamentais:
- existe um só Deus, Criador do céu e da terra;
- a criação é boa, ainda que ferida pelo pecado;
- o corpo pertence à identidade da pessoa;
- Cristo encarnou verdadeiramente, sofreu e ressuscitou corporalmente;
- a salvação é oferecida a todos e não apenas a uma elite de iniciados;
- a fé cristã funda-se na revelação pública transmitida pelos Apóstolos, e não em ensinamentos secretos.
Santo Ireneu de Lião foi o grande adversário do gnosticismo no século II. Na obra Contra as Heresias, mostrou que a multiplicação de entidades divinas, emanações e mitologias gnósticas destruía a unidade de Deus e da história da salvação. Para Ireneu, o Deus que cria é o mesmo Deus que salva. Cristo não veio resgatar o homem da criação, mas restaurar a criação e conduzi-la à sua plenitude. Na Encarnação, Cristo “recapitula” a humanidade: assume a condição humana para a renovar por dentro.
Tertuliano insistiu na realidade da carne. A sua fórmula — caro salutis est cardo, “a carne é o eixo da salvação” — resume uma antropologia profundamente cristã. Se o Verbo assumiu um corpo verdadeiro, então o corpo humano possui dignidade e está destinado à ressurreição. O cristianismo não promete a fuga da condição humana; promete a sua transfiguração.
Hipólito de Roma procurou identificar as origens filosóficas e religiosas das diferentes escolas gnósticas. Clemente de Alexandria e Orígenes, por sua vez, reconheceram o valor do conhecimento espiritual, mas recusaram a ideia de uma revelação reservada a uma aristocracia de eleitos. Existe uma verdadeira gnose cristã: o conhecimento de Deus que nasce da fé, da caridade, da vida moral e da contemplação. Esse conhecimento aprofunda a fé, sem a substituir.
Santo Agostinho, embora tenha combatido sobretudo o maniqueísmo, enfrentou uma visão semelhante: a oposição radical entre espírito e matéria e a existência de dois princípios, um bom e outro mau. Contra esse dualismo, afirmou que o mal carece de substância própria. O mal é privação ou corrupção do bem. Tudo quanto existe, enquanto existe, participa do bem recebido do Criador.
A divergência decisiva pode resumir-se assim: para o gnosticismo, o homem salva-se quando descobre que não pertence verdadeiramente a este mundo; para o cristianismo, o homem salva-se porque Deus entrou verdadeiramente neste mundo.
É por isso que o confronto dos Padres com o gnosticismo conserva atualidade. Sempre que o corpo é tratado como simples prisão, a criação como erro, a história como realidade desprezível ou o conhecimento como privilégio de uma elite esclarecida, reaparece uma tentação gnóstica. Os Padres responderam-lhe com uma afirmação radical: a matéria pode tornar-se lugar da presença divina, porque o Verbo se fez carne. A salvação cristã não consiste em abandonar o mundo, mas em permitir que a graça o transforme.
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