Uma leitura onto-ético-antropológica
Em Todos os Sentidos não é um romance, mas uma reunião de quarenta e uma crónicas escritas por Lídia Jorge para serem lidas aos microfones da Antena 2. Publicado em 2020, o livro recebeu, no ano seguinte, o Grande Prémio da Crónica e Dispersos Literários da Associação Portuguesa de Escritores. A própria autora apresenta a crónica como uma forma de enfrentar a passagem do tempo: não podendo vencê-lo, escrevemos para que ele nos obrigue a olhar de frente para nós mesmos. Almedina, Centro Nacional de Cultura
Esta definição oferece-nos a chave da obra. A crónica nasce do instante, mas procura resgatar do instante alguma coisa que permaneça. Parte do acontecimento circunstancial — uma pessoa, uma fotografia, uma viagem, uma notícia, uma recordação — e tenta descobrir nele uma dimensão universal. O transitório torna-se, assim, lugar de revelação.
O próprio título possui uma fecunda ambiguidade. “Em todos os sentidos” significa, antes de mais, em todas as direções: Lídia Jorge olha para a sociedade, para a política, para a cultura, para a memória pessoal e coletiva. Mas significa também através de todos os sentidos: vendo, ouvindo, tocando e sentindo o mundo. E significa ainda a procura de sentido, isto é, a tentativa de compreender para onde caminhamos e o que estamos a fazer da nossa humanidade.
Uma ontologia do instante
Do ponto de vista ontológico, este é um livro sobre a fragilidade do ser no tempo. Tudo passa: os acontecimentos, as figuras públicas, as convicções políticas, os afetos e até as palavras com que tentamos fixar o real. A crónica é, por natureza, um género ameaçado pelo envelhecimento. Aquilo que hoje parece urgente pode tornar-se incompreensível amanhã.
Lídia Jorge transforma essa limitação numa força. Não procura suspender o tempo, como se a literatura pudesse conceder imortalidade ao acontecimento. Procura antes salvar aquilo que, dentro do acontecimento, pertence à condição humana. O facto passa; a interrogação permanece.
Cada crónica parece dizer-nos que o real é sempre maior do que a sua aparência imediata. Uma notícia não é apenas uma notícia; contém vidas, escolhas, sofrimentos e responsabilidades. Uma imagem não é apenas uma superfície; transporta uma história. Uma pessoa não se reduz à função social, à ideologia ou ao retrato que dela fizeram. Há sempre uma interioridade que escapa à primeira descrição.
Esta posição corresponde a uma ontologia da relação. O ser humano não existe isoladamente. Torna-se pessoa no encontro com os outros, na memória dos que o precederam e na responsabilidade perante os que virão depois. O “eu” que fala nestas crónicas é inseparável de um “nós”. Mesmo quando parte de uma experiência pessoal, a autora procura o ponto onde essa experiência se abre à humanidade comum.
Ver é assumir responsabilidade
A passagem da ontologia à ética acontece de forma natural. Se o outro não é um objeto, mas alguém que possui uma história e uma dignidade próprias, então vê-lo verdadeiramente implica uma responsabilidade.
A escrita de Lídia Jorge recusa a indiferença. Mas não o faz através de um moralismo abstrato. A sua ética nasce da atenção. Antes de julgar, é necessário olhar; antes de condenar, compreender; antes de falar em nome de alguém, escutar a sua voz.
A cronista desconfia das simplificações que dividem o mundo entre inocentes absolutos e culpados irremediáveis. Isso não significa neutralidade perante a injustiça. Pelo contrário: a autora denuncia a violência, a desigualdade, o egoísmo, a manipulação política e a degradação da linguagem pública. Mas sabe que a defesa do bem também pode tornar-se desumana quando transforma o adversário numa coisa sem rosto.
Encontramos aqui uma ética da vigilância. Não apenas vigilância sobre os poderes, as instituições e os discursos dominantes, mas também sobre nós próprios. O mal não pertence exclusivamente aos outros; começa muitas vezes na facilidade com que deixamos de reconhecer o outro como semelhante.
Esta talvez seja uma das intuições mais importantes da obra: a barbárie não começa apenas no ato extremo. Começa na palavra que diminui, na mentira repetida, no preconceito aceite, no sofrimento tornado invisível e na transformação das pessoas em números, categorias ou inimigos.
A literatura assume, neste contexto, uma função ética. Não oferece programas políticos nem soluções técnicas. Conserva, porém, a singularidade das vidas. Onde a estatística vê multidões, a escritora procura rostos; onde a atualidade consome rapidamente os acontecimentos, a crónica demora-se neles; onde o discurso público simplifica, a literatura restitui a complexidade.
Que ideia de ser humano emerge destas crónicas?
A antropologia de Em Todos os Sentidos não é ingénua nem pessimista. O ser humano surge como um ser ambivalente: capaz de compaixão e de crueldade, de lucidez e de autoengano, de criar beleza e de destruir aquilo que ama.
Lídia Jorge não idealiza a humanidade. Conhece a força do medo, da vaidade, do ressentimento e da vontade de domínio. Mas também não aceita que o humano se reduza a essas forças. Em cada pessoa permanece uma possibilidade de ultrapassagem: a capacidade de reconhecer o outro, de corrigir uma injustiça, de preservar a memória ou de começar de novo.
O ser humano é apresentado sobretudo como um ser narrativo. Precisamos de histórias para compreendermos quem somos. A memória individual e a memória coletiva não constituem simples arquivos do passado; participam na construção da nossa identidade. Quando uma sociedade falsifica ou apaga a memória, não altera apenas o conhecimento histórico: modifica a compreensão que possui de si mesma.
Há ainda uma antropologia da vulnerabilidade. Somos corpos expostos ao tempo, à doença, à perda e à morte. Mas a vulnerabilidade não aparece somente como fraqueza. É também a condição da compaixão. Apenas porque podemos sofrer somos capazes de reconhecer verdadeiramente o sofrimento alheio.
Por isso, a fragilidade não diminui a pessoa. Pelo contrário, revela aquilo que nela exige cuidado. A dignidade humana não depende da força, da produtividade, do sucesso ou da visibilidade pública. Pertence à pessoa precisamente quando ela já não pode defender-se ou afirmar-se por si própria.
A palavra contra o ruído
Estas crónicas foram inicialmente concebidas para a rádio. Existe nelas uma oralidade particular: ouvimos uma voz que se dirige a alguém. Não é a voz impessoal de um tratado, mas a de uma consciência que partilha perplexidades.
Este aspeto tem importância antropológica. A palavra humana pressupõe presença, mesmo quando essa presença é mediada pela rádio ou pelo livro. Falar é dirigir-se a alguém; escutar é reconhecer que alguém tem alguma coisa para nos dizer.
Num tempo saturado de informação, Lídia Jorge procura distinguir a palavra do ruído. O ruído exige uma reação imediata; a palavra pede reflexão. O ruído excita; a palavra interroga. O ruído divide o mundo em respostas instantâneas; a palavra restitui-lhe profundidade.
A sua escrita é firme, mas não perde a delicadeza. A indignação é atravessada pela ironia, a memória pela ternura e a crítica por uma persistente confiança na inteligência do leitor. A autora não nos entrega conclusões fechadas: convida-nos a continuar o pensamento.
Uma reserva crítica
A principal virtude do livro contém também a sua limitação. A diversidade das quarenta e uma crónicas oferece uma visão ampla do mundo, mas não produz uma arquitetura completamente unitária. Alguns textos possuem uma densidade literária e reflexiva superior à de outros; algumas referências, ligadas à atualidade em que foram escritas, perderão inevitavelmente parte da sua intensidade.
Pode igualmente sentir-se, em certas passagens, que a posição moral da autora antecede a exploração do problema. O leitor percebe rapidamente onde está a sua simpatia e onde se encontra a sua censura. Por vezes, desejaríamos que a ambiguidade humana fosse levada ainda mais longe e que a pergunta permanecesse aberta durante mais tempo.
Mas esta desigualdade é quase inseparável do género. A crónica vive do confronto imediato entre uma consciência e o seu tempo. Não possui a distância nem a construção de um romance. O seu valor reside precisamente na capacidade de captar a vibração ética de um momento antes que ele desapareça.
Conclusão: reaprender a sentir para reaprender a ser
Em Todos os Sentidos pode ser lido como um livro de resistência à anestesia moral. Num mundo que nos oferece milhares de imagens, corremos o risco de já não ver; rodeados de vozes, podemos deixar de escutar; informados sobre o sofrimento, podemos já não o sentir.
Lídia Jorge recorda-nos que a primeira obrigação ética talvez seja esta: prestar atenção.
Prestar atenção à palavra escondida sob o ruído, à pessoa ocultada pela categoria, à memória ameaçada pelo esquecimento e ao sofrimento que a velocidade da atualidade depressa substitui por outro sofrimento.
A grande interrogação que atravessa estas crónicas não é apenas “Que mundo estamos a construir?”, mas uma questão mais radical: “Que espécie de seres humanos nos estamos a tornar?”
A resposta da autora não é definitiva. O ser humano permanece aberto: pode fechar-se no medo e no egoísmo ou reconhecer-se no rosto do outro. Entre essas possibilidades encontra-se a liberdade — e, com ela, a responsabilidade.
No fundo, Em Todos os Sentidos convida-nos a recuperar a unidade entre sentir, pensar e agir. Porque só quando vemos e escutamos verdadeiramente o mundo podemos responder por ele. E talvez seja precisamente isso que a literatura ainda pode fazer por nós: devolver-nos os sentidos para que não percamos o sentido do humano.
Questões para o debate
Pode a crónica ultrapassar a circunstância que lhe deu origem e alcançar uma dimensão universal?
A literatura deve assumir uma posição ética ou corre, desse modo, o risco de se tornar moralista?
Estamos hoje mais informados sobre o sofrimento dos outros, mas menos capazes de o sentir?
A memória aproxima-nos da verdade ou reconstrói inevitavelmente o passado?
Em que medida a linguagem pode defender a dignidade humana?
Qual das crónicas melhor exprime a tensão entre a fragilidade da pessoa e a sua capacidade de resistência
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