Crise, pessoa e compromisso
Uma leitura à luz do pensamento de Maria de Lourdes Sirgado GanhoO personalismo de Emmanuel Mounier nasce num contexto histórico profundamente marcado pela crise económica de 1929, cujas repercussões ultrapassaram o plano financeiro e atingiram o núcleo cultural e espiritual do Ocidente. Como sublinha Mounier, tal crise não poderia ser resolvida por meros cálculos técnicos, mas exigia uma resposta espiritual. É neste ponto que a leitura de Maria de Lourdes Sirgado Ganho se revela particularmente esclarecedora: o personalismo não é apenas uma doutrina filosófica, mas uma tomada de posição existencial face à desumanização moderna.
A fundação da revista Esprit, em 1932, constituiu o espaço privilegiado dessa resposta. Pensar a crise significava, para Mounier, pensar a pessoa humana — não como indivíduo isolado, mas como realidade viva, aberta e comprometida. Sirgado Ganho acentua precisamente esta distinção: o indivíduo corresponde à dimensão funcional e social; a pessoa remete para uma profundidade ontológica que nunca se esgota nas suas manifestações externas. A pessoa é sempre maior do que qualquer definição que dela se faça.
A proposta personalista estrutura-se em torno de três dimensões fundamentais: vocação, encarnação e comunhão. A vocação exprime a missão singular de cada pessoa; a encarnação recorda que essa missão se realiza na condição histórica e material; a comunhão afirma que a pessoa só se encontra plenamente no encontro com os outros. Sirgado Ganho sublinha que esta estrutura impede tanto o espiritualismo desencarnado como o materialismo redutor, oferecendo uma visão integral do humano.
Neste equilíbrio se compreende também a crítica de Mounier ao individualismo e à tirania coletiva. O primeiro dissolve a pessoa no egoísmo; o segundo anula-a na massa. O personalismo apresenta-se, assim, como uma via exigente que afirma a dignidade da pessoa situada, livre e responsável.
Na obra O Personalismo, Mounier aprofunda esta visão ao destacar a comunicação como dado originário da pessoa. Comunicar é sair de si, compreender o outro a partir do seu lugar, partilhar alegria e sofrimento, doar-se e permanecer fiel. Sirgado Ganho interpreta esta centralidade da comunicação como expressão de uma ética da relação, onde a pessoa se constrói no dom e na fidelidade.
Contudo, a comunicação autêntica é frágil. O medo, o fechamento identitário e a superficialidade ameaçam-na. Daí a importância da interioridade. O pudor, longe de repressão, revela que a pessoa é mais do que aquilo que expõe. Num tempo marcado pela banalização do íntimo, esta defesa da vida interior torna-se decisiva.
Existir, para Mounier, é comprometer-se. A liberdade é caminho de libertação e de personificação. O amor é força que resiste à morte e à resignação. Sirgado Ganho evidencia o carácter ético do personalismo: ser pessoa é agir e escolher, mesmo contra a corrente dominante.
A dimensão última da pessoa é a transcendência. Estruturada para se ultrapassar, a pessoa abre-se ao fundamento do Ser. Esta abertura a Deus não aliena do mundo, mas fundamenta um compromisso mais responsável na história. A revolução proposta por Mounier é espiritual e interior: uma transformação da pessoa que se traduz em renovação comunitária.
Em síntese, o personalismo de Mounier propõe uma visão exigente da pessoa: encarnada, relacional, livre e aberta à transcendência. A leitura de Maria de Lourdes Sirgado Ganho mostra que este pensamento permanece atual, interpelando uma sociedade tecnicamente avançada, mas ainda ameaçada pela despersonalização. O personalismo surge, assim, como convite permanente à responsabilidade, ao compromisso e à esperança.
Francisco Vaz
19 de Fevereiro de 2026
Nota
Maria de Lourdes Sirgado Ganho, Professora Jubilada da Universidade Católica Portuguesa, desenvolve uma reflexão enraizada na metafísica cristã, centrada na dignidade e centralidade ontológica da pessoa.
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