Pecado original

Pecado original

sábado, 18 de julho de 2026

As Revoluções do Século XX

Porque falharam quase todas?

O século XX foi, por excelência, o século das revoluções. Nunca antes tantos homens acreditaram que seria possível reconstruir a sociedade a partir de um ideal político. Nunca antes tantas nações procuraram começar de novo, convencidas de que bastaria destruir o passado para inaugurar um futuro melhor.

O resultado está diante de nós.

Poucos séculos produziram tanto progresso científico, tecnológico e económico. Mas poucos conheceram também tamanha violência organizada. Entre guerras mundiais, genocídios, totalitarismos, revoluções e golpes de Estado, o século XX tornou-se simultaneamente o mais criativo e o mais destrutivo da história da humanidade.

Esta aparente contradição merece ser pensada.

A Revolução Russa prometia libertar os trabalhadores e construir uma sociedade de iguais. Produziu o Gulag.

O nacional-socialismo apresentou-se como um renascimento da Alemanha. Produziu Auschwitz.

A Revolução Cultural Chinesa anunciava o nascimento de um homem novo. Deixou milhões de mortos e uma civilização profundamente ferida.

No Camboja, os Khmer Vermelhos quiseram inaugurar o "Ano Zero", apagando toda a memória histórica. O resultado foi um dos maiores genocídios do século.

Mesmo revoluções inspiradas por causas legítimas de independência nacional ou justiça social acabaram frequentemente capturadas por novos autoritarismos, substituindo uma opressão por outra.

Perante este panorama, torna-se inevitável colocar uma pergunta incómoda: porque falharam quase todas?

A filósofa Hannah Arendt oferece uma primeira pista. No seu extraordinário On Revolution, distingue libertação de liberdade. Libertar um povo de um tirano pode ser relativamente rápido. Construir instituições que garantam uma liberdade duradoura exige gerações de aprendizagem política, respeito pelas leis e uma cultura de responsabilidade.

É por isso que Arendt via na Revolução Americana um exemplo mais conseguido do que na Revolução Francesa. Enquanto a primeira procurou fundar uma ordem política estável, a segunda acabou devorada pela lógica do Terror. Quando uma revolução acredita possuir o monopólio da virtude, deixa inevitavelmente de tolerar quem pensa de forma diferente. E quando desaparece o pluralismo, desaparece também a liberdade.

Albert Camus aprofundou ainda mais esta reflexão em O Homem Revoltado. A revolta nasce de uma exigência profundamente humana: afirmar que existe uma injustiça que já não pode ser tolerada. Mas quando essa revolta perde o sentido dos seus próprios limites, transforma-se numa ideologia absoluta.

É então que o futuro passa a justificar qualquer violência no presente.

Em nome da humanidade futura sacrificam-se pessoas concretas. Em nome da igualdade elimina-se a liberdade. Em nome da paz faz-se a guerra.

O século XX forneceu demasiados exemplos desta tragédia.

Décadas antes, G. K. Chesterton já havia identificado o problema essencial. As ideologias modernas partilhavam uma convicção comum: acreditavam que o mal residia apenas nas estruturas sociais. Bastaria mudar o regime político, abolir determinadas instituições ou reformar a economia para surgir automaticamente uma sociedade melhor.

Mas Chesterton lembrava uma verdade muito mais antiga.

O problema nunca está apenas nas instituições.

Está também no coração humano.

As mesmas paixões — orgulho, ambição, inveja, sede de poder — sobrevivem a qualquer mudança de regime. Quem conquista o poder sem primeiro se governar a si próprio acaba quase sempre por reproduzir os mesmos abusos que prometera combater.

Foi precisamente esta a experiência vivida por João Paulo II.

Tendo conhecido sucessivamente o nazismo e o comunismo, compreendeu que ambos assentavam no mesmo erro fundamental: colocavam uma ideia acima da pessoa humana.

Na encíclica Centesimus Annus chamou-lhe "erro antropológico". Sempre que o Estado, a raça, a classe ou qualquer projecto ideológico passam a valer mais do que cada pessoa concreta, a liberdade transforma-se numa concessão do poder e deixa de ser um direito inerente à dignidade humana.

Talvez seja esta a grande lição do século XX.

As sociedades não se regeneram apenas através de revoluções políticas.

Regeneram-se através da formação das consciências.

As leis são indispensáveis.

As instituições são necessárias.

As constituições protegem a liberdade.

Mas nenhuma delas substitui o carácter das pessoas que as fazem funcionar.

É por isso que as civilizações mais duradouras raramente nasceram de rupturas absolutas. Cresceram lentamente, através de reformas sucessivas, de instituições estáveis, de tradições vivas e de uma cultura moral partilhada.

Edmund Burke compreendeu-o ao criticar os excessos da Revolução Francesa. Alexis de Tocqueville voltou a demonstrá-lo ao estudar a democracia americana. Mais recentemente, Russell Kirk recordou que uma sociedade verdadeiramente livre depende sempre da existência de virtudes pessoais.

Também o pensamento social cristão converge nesta conclusão.

Não rejeita a necessidade de reformas profundas. Pelo contrário, reconhece que existem momentos em que a mudança se torna moralmente imperativa. Mas insiste que nenhuma transformação estrutural será suficiente se não existir uma conversão da pessoa.

A política pode mudar governos.

A economia pode reduzir desigualdades.

A tecnologia pode transformar a vida quotidiana.

Mas apenas uma renovação ética e espiritual pode transformar verdadeiramente uma civilização.

Vivemos hoje rodeados por novas promessas revolucionárias. Fala-se de revoluções digitais, biotecnológicas, ambientais, culturais e até antropológicas. Continuamos fascinados pela ideia de que uma inovação ou uma nova organização social resolverá finalmente os problemas da humanidade.

A experiência do século XX aconselha, porém, alguma prudência.

O progresso técnico não produz automaticamente progresso moral.

Uma inteligência artificial pode servir para educar ou manipular.

A energia nuclear pode iluminar cidades ou destruir populações.

A ciência multiplica o poder humano, mas não decide a forma como esse poder será utilizado.

Essa decisão continua a depender da consciência.

Talvez seja esta a verdadeira revolução de que o nosso tempo necessita.

Não uma revolução contra alguém, mas uma revolução dentro de cada um.

Porque a História demonstra que mudar o mundo é relativamente fácil.

Muito mais difícil — e infinitamente mais importante — é mudar o homem.

E talvez seja precisamente aí que começa a única revolução capaz de resistir ao tempo.

Francisco Vaz

18 de julho de 2026

Sem comentários:

Enviar um comentário