Ou a última gargalhada de Verdi
Há algo de profundamente simbólico na forma como Giuseppe Verdi decidiu despedir-se da composição operática.
Depois de criar algumas das mais intensas tragédias da história da música — Rigoletto, Il Trovatore, La Traviata, Aida, Don Carlo e Otello — escolheu terminar o seu percurso artístico com uma comédia: Falstaff.
Tinha quase oitenta anos. Já não precisava de conquistar aplausos, afirmar o seu génio ou corresponder às expectativas do público. Era, unanimemente, um dos maiores compositores de todos os tempos. Talvez por isso muitos musicólogos considerem Falstaff a sua obra mais livre: uma ópera escrita, antes de mais, pelo prazer da criação, como se Verdi tivesse finalmente alcançado aquela rara liberdade de fazer arte apenas porque já nada tinha a provar.
Mas seria um erro olhar para Falstaff apenas como uma deliciosa comédia inspirada em Shakespeare.
Na verdade, trata-se de uma das mais refinadas reflexões musicais sobre a vaidade.
Sir John Falstaff vive prisioneiro da imagem que construiu de si próprio. Julga-se irresistível, irresistivelmente inteligente, superior aos demais. Não vê o mundo como ele é; vê-o através do espelho da sua própria importância. A realidade deixa de ser critério. O único critério passa a ser a imagem.
É precisamente aqui que nasce a vaidade.
A vaidade não consiste simplesmente em gostar de reconhecimento. Consiste em substituir o ser pelo parecer. Quando isso acontece, o homem deixa de procurar a verdade sobre si mesmo para viver da representação de uma personagem. Torna-se ator da sua própria existência.
Verdi percebeu que não existe castigo maior do que esse. Quem vive para a aparência acaba inevitavelmente por tornar-se ridículo. Não porque os outros o ridicularizem, mas porque a própria realidade acaba sempre por desmentir a ficção que construiu acerca de si.
É por isso que Falstaff não termina com uma condenação nem com uma tragédia. Termina com uma gargalhada.
Não uma gargalhada cruel.
Uma gargalhada sábia.
Uma gargalhada de quem, ao longo de toda uma vida, conheceu demasiado bem a condição humana para continuar a levar demasiado a sério as nossas pretensões.
Chega então a extraordinária fuga final:
Tutto nel mondo è burla.
"Tudo no mundo é uma brincadeira."
Não significa que a vida seja absurda. Significa, antes, que são absurdas muitas das ilusões com que procuramos engrandecer-nos. O prestígio, a fama, o poder, a necessidade permanente de reconhecimento, a obsessão pela imagem... tudo isso se revela, à luz da verdade, surpreendentemente frágil.
Talvez por isso a última ópera de Verdi seja também a sua mais humana.
Depois de explorar, durante décadas, as paixões mais profundas da alma, conclui que uma das maiores prisões do homem é a necessidade de parecer aquilo que não é.
A verdadeira grandeza nunca precisou de anunciar a sua própria grandeza.
Há, porém, uma ironia ainda mais bela.
O homem que podia legitimamente orgulhar-se do seu génio escolhe despedir-se compondo precisamente uma obra que ridiculariza a vaidade. Como se dissesse ao mundo que a arte só atinge a sua maturidade quando deixa de servir o ego do artista para se colocar ao serviço da verdade.
É essa, talvez, a última e mais profunda lição de Giuseppe Verdi.
No fim de uma vida extraordinária, não nos deixou uma apologia do triunfo, mas uma gargalhada.
A gargalhada de quem compreendeu que a vaidade passa, a aparência desvanece-se, a fama é efémera, mas o ser permanece.
E só quem vive no ser pode verdadeiramente rir da própria vaidade.
«Tutto nel mondo è burla. L'uom è nato burlone.»
Tudo no mundo é uma brincadeira. O homem nasceu para se enganar e para enganar os outros.
Francisco Vaz
28 de outubro de 2026
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