Pecado original

Pecado original

domingo, 18 de janeiro de 2026

A Quarta Guerra Mundial já começou?


Geoffrey Nyquist e o conflito invisível do século XXI

O fim da guerra Fria

Durante muito tempo, o fim da Guerra Fria foi apresentado como o desfecho triunfal da história contemporânea. A queda do Muro de Berlim e o colapso da União Soviética pareciam confirmar a vitória definitiva das democracias liberais e do modelo ocidental. Mas, para o analista político norte-americano Geoffrey Nyquist, essa leitura otimista esconde um erro grave de avaliação. Em As Origens da 4ª Guerra Mundial, o autor sustenta uma tese inquietante: o mundo já entrou num novo conflito global, discreto, não declarado e profundamente assimétrico.
Segundo Nyquist, a Quarta Guerra Mundial não se trava com tanques atravessando fronteiras nem com batalhas espetaculares transmitidas pela televisão. Trata-se de uma guerra difusa, conduzida por meios indiretos: pressão econômica, manipulação política, tecnologia, controle da informação e guerra psicológica. Um conflito que se desenrola em silêncio, enquanto grande parte do Ocidente continua a agir como se vivesse em plena normalidade.

O fim da história?

O equívoco do “fim da história” Um dos alvos centrais da crítica de Nyquist é a crença de que o colapso soviético teria encerrado definitivamente o confronto ideológico global. Para o autor, as lideranças ocidentais confundiram a derrota militar e econômica de um regime com o abandono de seus objetivos estratégicos. O comunismo, afirma, não desapareceu; apenas mudou
de forma. Em vez da confrontação direta típica do século XX, regimes autoritários passaram a explorar as fragilidades estruturais das democracias liberais. Sociedades abertas, economias interdependentes, liberdade de expressão e pluralismo político — pilares do mundo democrático — tornam-se também pontos vulneráveis quando enfrentam adversários que não jogam segundo as mesmas regras.

Rússia e China: adaptação estratégica

Nyquist vê na Rússia pós-soviética uma continuidade mais profunda do que uma ruptura. Embora a ideologia comunista tenha sido substituída por um nacionalismo autoritário, as estruturas de poder, os serviços de inteligência e a mentalidade estratégica herdadas da Guerra Fria permaneceram ativas. O objetivo central, segundo o autor, segue o mesmo: enfraquecer o Ocidente e redesenhar o equilíbrio global de poder.
A China ocupa um lugar ainda mais central na análise. O Partido Comunista Chinês é descrito como um ator paciente, disciplinado e altamente estratégico. Em vez do confronto militar direto, Pequim aposta no crescimento econômico, na dependência comercial, no domínio tecnológico e no controle informacional. Para Nyquist, trata-se de uma estratégia de longo prazo que visa vencer sem guerra aberta, moldando silenciosamente o sistema internacional a seu favor.

Uma guerra sem declaração oficial

A Quarta Guerra Mundial, tal como descrita no livro, acontece simultaneamente em vários campos: ciberataques, espionagem industrial, manipulação de eleições, campanhas de desinformação, coerção econômica e conflitos regionais por procuração. É uma guerra híbrida, deliberadamente ambígua, que confunde os limites entre paz e conflito. Essa indefinição, alerta Nyquist, favorece regimes autoritários. Eles não precisam prestar contas à opinião pública, nem se submeter a ciclos eleitorais ou a uma imprensa livre. As democracias, por sua vez, tendem a subestimar ameaças que não se encaixam nos modelos clássicos de guerra, reagindo tarde demais.

O fator desestabilizador: uma América desnorteada

A essa equação já complexa, soma-se um elemento adicional de perturbação estratégica: o comportamento errático dos Estados Unidos no cenário internacional. Para além da pressão externa exercida por potências autoritárias, Nyquist identifica — ainda que de forma implícita — um enfraquecimento interno do eixo ocidental causado por uma América politicamente dividida e estrategicamente incoerente. Em vez de reforçar alianças históricas, Washington tem, em diversos momentos, tratado parceiros tradicionais como adversários: guerras comerciais, sanções unilaterais, retórica hostil contra aliados e decisões abruptas em matéria de segurança internacional. Esse comportamento não apenas confunde os aliados, como oferece vantagens claras aos rivais geopolíticos, que exploram as fissuras abertas no bloco democrático.
Uma América que ataca economicamente os seus aliados, que questiona compromissos multilaterais e que oscila entre isolacionismo e intervencionismo imprevisível introduz um fator de instabilidade que enfraquece a capacidade de resposta coletiva do Ocidente. Para regimes como o chinês e o russo, essa fragmentação é uma oportunidade estratégica de primeira ordem.

O risco maior: a negação

Mais perigoso do que os adversários externos, segundo Nyquist, é o risco interno da negação. A recusa em reconhecer que o conflito já está em curso — alimentada pela ilusão de normalidade, pela confiança excessiva na diplomacia, pela dependência econômica de regimes hostis e agora também pela desorientação estratégica do principal ator ocidental — corrói a capacidade de resistência das democracias.
O autor não oferece soluções fáceis nem receitas imediatas. O seu alerta é mais profundo: guerras modernas não começam com declarações solenes ou mobilizações visíveis. Elas começam quando uma parte decide lutar e a outra insiste em não perceber — ou se divide a ponto de já não saber quem são os seus aliados.

Um livro para tempos incertos

As Origens da 4ª Guerra Mundial é, acima de tudo, uma obra de advertência. Concorde-se ou não com suas conclusões, o livro obriga o leitor a repensar categorias confortáveis e a encarar um cenário internacional cada vez mais instável.
Francisco Vaz
18/012026

terça-feira, 13 de janeiro de 2026

A Doutrina “Donroe”

A Doutrina “Donroe” Deve Basear-se na Contenção, Não na Intervenção


James Holmes — Proceedings, janeiro de 2026

O autor apresenta quatro orientações para aplicar a chamada “Doutrina Donroe”, inspirada na Doutrina Monroe. Na sua conferência de imprensa na Flórida, após a operação relâmpago contra o regime de Nicolás Maduro em Caracas, o Presidente Donald Trump voltou a invocar a Doutrina Monroe como princípio duradouro da política externa dos EUA, afirmando mesmo que a sua administração tinha “superado largamente” a formulação original de 1823.

Se assim for, é necessária extrema prudência. A diplomacia norte-americana dirige-se a múltiplos públicos, internos e externos, e deve legitimar as suas ações junto do maior número possível, evitando ofender desnecessariamente aliados. Primeiro, é essencial ser preciso quanto aos objetivos e ao alcance do poder dos EUA.

As memórias do intervencionismo norte-americano entre as décadas de 1910 e 1930 permanecem vivas na América Latina, enquanto a literacia histórica nos próprios EUA é limitada. Se a administração Trump pretende fundamentar a sua política externa em princípios históricos, os decisores devem conhecer profundamente a história da Doutrina Monroe. Caso contrário, a retórica fica vazia.

A nova Estratégia de Segurança Nacional proclama um “Corolário Trump” à Doutrina Monroe, definido como “preeminência americana no Hemisfério Ocidental”. Este conceito é ambíguo e facilmente abusável. Theodore Roosevelt, autor do corolário de 1904, orgulhava-se precisamente de ter intervindo pouco na América Latina. O minimalismo deve orientar a ação. Operações como a derrubada de Maduro geram inevitavelmente controvérsia, e uma linguagem imprecisa amplifica reações negativas.

A Doutrina Monroe nunca significou “controlo dos Estados Unidos sobre o hemisfério”. No início do século XX, o ministro argentino Luis Drago elogiou a política tradicional dos EUA por condenar a opressão europeia sem procurar dominação regional. A Doutrina Monroe era, então, um instrumento de defesa contra a opressão externa, não uma justificação para a opressão norte-americana — e assim deveria continuar a ser. A

contenção deve ser o alicerce da Doutrina Donroe.

Segundo, a Doutrina Monroe visava impedir a apropriação territorial por potências externas. Hoje, embora China, Rússia e Irão sejam atores ativos no Caribe, não há sinais claros de que venham a adquirir território no hemisfério. Este facto distingue profundamente o contexto atual daquele do século XIX. A atenção deve centrar-se no território, não na influência difusa.

Terceiro, os EUA devem seguir um “Juramento de Hipócrates”: não causar danos. Após derrubar Maduro, não faz sentido apoiar figuras do próprio regime para governar o país durante a transição. A vontade eleitoral dos venezuelanos é conhecida e foi reafirmada em 2024, quando Edmundo González venceu de forma expressiva, apesar da repressãodo regime. Se forem necessárias novas eleições, devem ser livres e imediatas; caso

contrário, deve respeitar-se o resultado existente.

Quarto, se os EUA supervisionarem a transição venezuelana, esta deve ser curta e liderada pelos próprios venezuelanos. A Estratégia de Segurança Nacional rejeita a dominação americana no hemisfério — e essa rejeição deve ser levada a sério.


Francisco Vaz

21 de Janeiro de 2026



A Doutrina Monroe:

A Doutrina Monroe: origem, formação e consequências de uma
ideia que moldou o poder americano

Proclamada em 1823, a Doutrina Monroe marcou um ponto de viragem na política externa dos Estados Unidos e viria a tornar-se um dos pilares da sua projeção internacional. Anunciada na mensagem anual do presidente James Monroe ao Congresso, a doutrina afirmava um princípio simples, mas ambicioso: o continente americano estaria fechado a novas colonizações europeias, e qualquer tentativa de intervenção seria considerada uma ameaça à segurança dos Estados Unidos. Em contrapartida, Washington prometia não interferir nos assuntos internos da Europa nem nas colónias europeias já existentes.
À primeira vista, tratava-se de uma declaração defensiva. Na prática, lançava as bases de uma nova ordem hemisférica. As origens da Doutrina Monroe encontram-se no contexto turbulento que se seguiu às Guerras Napoleónicas. As potências europeias vencedoras procuravam restaurar regimes monárquicos e conter a difusão das ideias liberais associadas à Revolução Francesa. Nos Estados Unidos, crescia o receio de que a França pudesse ajudar a Espanha a recuperar o controlo das suas antigas colónias na América Latina — possivelmente em troca de Cuba.
Foi neste cenário que o ministro britânico dos Negócios Estrangeiros, George Canning, propôs uma declaração conjunta anglo-americana contra a intervenção europeia nas Américas. A proposta parecia vantajosa, mas foi recusada por influência decisiva do secretário de Estado norte-americano, John Quincy Adams. Adams alertou que uma declaração conjunta colocaria os Estados Unidos numa posição subalterna face ao poder naval britânico e limitaria a sua expansão futura. “Os Estados Unidos não devem navegar como um barco a remos na esteira do navio de guerra britânico”, terá advertido.
Monroe seguiu o conselho e optou por uma afirmação unilateral. A reação internacional foi contida. As potências europeias estavam absorvidas por outros problemas, e a doutrina foi inicialmente recebida com indiferença. Na América Latina, alguns líderes viram nela uma oportunidade de aliança com os Estados Unidos, mas Washington recusou compromissos formais. O Reino Unido, apesar de incomodado
com as pretensões americanas, acreditava já ter assegurado a não intervenção francesa.
Com o crescimento do poder económico e militar dos Estados Unidos ao longo do século XIX, a Doutrina Monroe ganhou novo significado. O que começara como um aviso defensivo transformou-se gradualmente num instrumento de afirmação imperial. Na década de 1840, o presidente James Knox Polk usou os seus princípios para se opor às reivindicações britânicas no Noroeste do Pacífico. Pouco depois, a doutrina foi invocada contra a presença europeia na América Central e no México, nomeadamente durante a intervenção francesa combatida pelo secretário de Estado William Seward.
O momento decisivo ocorreu em 1904, quando Theodore Roosevelt formulou o chamado Corolário Roosevelt, atribuindo aos Estados Unidos o direito de intervir no Hemisfério Ocidental em casos de “delitos crónicos” ou incapacidade governativa. A doutrina passou, assim, de um princípio de contenção europeia para uma justificação explícita de intervenções americanas, sobretudo no Caribe e na América Central, suscitando forte contestação na região.
Durante a Guerra Fria, a Doutrina Monroe foi ocasionalmente reativada como argumento de segurança. Na Crise dos Mísseis de Cuba, em 1962, a sua simbologia voltou ao centro do debate, e foi também invocada na invasão da República Dominicana em 1965. Com o fim da União Soviética, a doutrina perdeu centralidade e passou a ser
raramente mencionada pelos presidentes norte-americanos.
Quase dois séculos depois, a Doutrina Monroe permanece como um exemplo claro de como uma declaração aparentemente defensiva pode evoluir para um instrumento duradouro de poder. A sua história ilustra não apenas a ascensão dos Estados Unidos como potência hemisférica, mas também as ambiguidades entre proteção, influência e intervenção que continuam a marcar a política internacional.

Francisco Vaz
13 de janeiro de 2026

segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

Islão, literalismo e modernidade


Islão, literalismo e modernidade: um debate necessário

No Ocidente, discutir criticamente o Islão continua a ser um exercício desconfortável. Entre o receio de alimentar preconceitos e a tentação de relativizar tudo em nome da tolerância, o debate público acaba muitas vezes por evitar a questão central: a tensão entre textos religiosos antigos, leituras literalistas e os princípios e valores das sociedades modernas.

O Islão distingue-se por possuir um vasto corpo de fontes — Alcorão, Sunna e literatura jurídica — que regulam não apenas a vida espiritual, mas também comportamentos sociais, jurídicos e políticos. A vida e as ações de Maomé foram extensivamente registadas e transformadas em modelo normativo. Essa riqueza documental é historicamente relevante, mas torna-se problemática quando é lida de forma literal e aplicada fora do contexto em que surgiu.

Importa fazer uma distinção essencial: a maioria dos muçulmanos vive a religião de forma ritual, espiritual e cultural, sem qualquer ambição de impor um modelo político ou jurídico religioso. O problema não é o Islão enquanto fé, mas o islamismo político — a tentativa de transformar uma religião numa ideologia totalizante, que subordina a sociedade, a lei e os direitos individuais a uma interpretação rígida dos textos sagrados.

Negar que certas leituras desses textos legitimam desigualdades de género, hierarquias religiosas ou rejeição do pluralismo não ajuda o debate. Quando essas leituras são elevadas a programa político, aproximam-se de formas clássicas de totalitarismo: uma verdade única, imune à crítica, que não admite dissidência.

Historicamente, o Islão nasceu num contexto tribal do século VII. Pretender reproduzir esse modelo no século XXI ignora mais de mil anos de História. Nenhuma religião — cristianismo, judaísmo ou islão — sobreviveu no mundo moderno sem processos de adaptação, crítica interna e separação entre fé e lei civil.

Também é essencial distinguir religião de civilização. A civilização islâmica produziu ciência, filosofia, arte e pensamento jurídico de enorme valor. Reduzir a identidade islâmica a uma aplicação rígida da sharia é negar essa herança plural — precisamente o que fazem os movimentos salafistas.

O futuro do Islão nas sociedades democráticas não passa pela negação nem pelasa cralização absoluta, mas pela sua integração num espaço onde a lei comum, a razão crítica e os direitos fundamentais prevalecem. Enquanto houver quem procure reconstruir literalmente a comunidade política de Maomé como modelo obrigatório, a violência continuará a ser uma possibilidade real.

Evitar este debate não é tolerância; é abdicação intelectual. Enfrentá-lo com rigor, distinções claras e respeito pelas pessoas é a única forma de impedir que o espaço público seja dominado pelos extremos.


Francisco Vaz

12/01/2026

segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

Natal, Misericórdia de Deu

Da Angústia à Esperança

A misericórdia divina pode ser compreendida como o lugar onde a infinitude de Deus encontra a finitude humana. Em Deus, a infinitude não é mera possibilidade, mas plenitude absoluta: Ele é ato puro, sem carência ou frustração. No mistério do Natal, essa infinitude em ato não permanece distante, mas inclina-se livremente sobre o finito. A misericórdia revela-se, então, como o transbordar do ser divino, que não reage às limitações humanas, mas as assume para comunicar sentido, perdão e possibilidade de recomeço.

O ser humano, por sua vez, vive numa condição marcada pela infinitude em potência. É capaz de desejar o absoluto, o bem pleno e a verdade total, mas age sempre de modo finito, histórico e frágil. Celebrar o Natal em 2025, num mundo marcado por incertezas, angústias e pela sensação de possibilidades infinitas acompanhadas de ações cada vez mais frágeis, é reconhecer que essa tensão não é nova, nem insolúvel. Dessa distância entre o que o homem sonha e o que efetivamente realiza nasce a angústia, sinal de que o ser humano é maior do que aquilo que consegue ser por si mesmo.

É precisamente nesse intervalo que a misericórdia divina se manifesta. O Natal recorda que Deus não elimina a finitude humana nem a substitui por uma perfeição artificial; Ele entra nela. A misericórdia não dispensa a responsabilidade do agir humano, mas impede que a limitação se transforme em desespero. Ao acolher o homem mesmo quando a sua ação não corresponde à amplitude do seu desejo, Deus reconcilia-o com a própria condição e devolve-lhe esperança.

Assim, no Natal, a misericórdia divina não suprime a tensão constitutiva do homem, mas transforma-a em caminho. A finitude deixa de ser condenação e torna-se espaço de encontro, onde o infinito não é conquistado, mas recebido como dom. A angústia humana, longe de ser sinal de fracasso, revela-se como abertura ao transcendente — uma abertura que encontra repouso no mistério celebrado no Natal: o infinito fez-se finito para que o finito pudesse participar do infinito.


Feliz Natal!


Francisco Vaz

25 de Dezembro de 2025

Do Imperium Romano ao "Império Trump"

Do Imperium Romano ao “Império Trump”: continuidades e rupturas no exercício do poder

Comparar o imperium romano com aquilo que muitos analistas chamam, de forma metafórica, de “império de Donald Trump” pode parecer, à primeira vista, um exercício anacrónico. No entanto, quando observamos os modos de operação do poder, surgem paralelos reveladores — não tanto na forma institucional, mas na lógica moral, jurídica e geoestratégica que sustenta a dominação.

1. Virtude pública versus moral instrumental

O Império Romano construiu parte da sua legitimidade sobre um discurso moral relativamente coerente para a época: virtus, honor, disciplina e pietas eram valores exaltados como fundamentos da ordem imperial. Embora muitas vezes violados na prática, esses princípios funcionavam como horizonte ético comum, servindo para justificar conquistas, punir excessos e integrar elites locais.

Já o “império Trump” — entendido aqui como um projeto de poder personalista, nacionalista e mediático — opera segundo uma moral instrumental e situacional. A ética deixa de ser um valor estruturante e passa a ser uma ferramenta retórica: o que é “bom” ou “justo” depende do alinhamento com os interesses imediatos do líder ou do grupo político. O discurso moral é frequentemente substituído pela lógica do sucesso, da força e da lealdade pessoal, ecoando mais o final decadente da República Romana do que o seu período clássico.

Enquanto Roma buscava projetar uma imagem de civilização superior, Trump enfatiza a ideia de vitória, mesmo que à custa de normas éticas tradicionais, alianças históricas ou consensos democráticos.

2. Direito como estrutura vs. direito como obstáculo

O direito romano foi uma das maiores contribuições do Império à história ocidental. Mesmo sendo frequentemente desigual e elitista, o sistema jurídico romano funcionava como instrumento de coesão, previsibilidade e administração imperial. A lei não era apenas um mecanismo de repressão, mas uma linguagem comum que permitia governar vastos territórios.

No caso do “império Trump”, observa-se uma relação ambígua — e por vezes hostil — com o direito. As instituições legais são frequentemente tratadas como entraves ao poder, e não como sua base de legitimidade. Tribunais, imprensa, organismos internacionais e regras eleitorais são desacreditados quando não produzem resultados favoráveis.

Aqui surge um contraste fundamental:

  • Roma expandia o direito para consolidar o império;

  • Trump tenta flexibilizar, contornar ou deslegitimar

    o direito para preservar o poder.

Esse modus operandi aproxima-se mais de uma lógica pré- imperial, baseada no chefe carismático, do que de um império institucionalizado.

3. Expansão integradora vs. transacionalismo agressivo

Do ponto de vista geoestratégico, Roma praticava uma expansão militar acompanhada de integração económica. Estradas, impostos, comércio e cidadania eram instrumentos para transformar territórios conquistados em partes funcionais do império. A guerra era meio; a estabilidade, o fim.

O “império Trump”, por sua vez, adota uma abordagem transacional e de soma zero. Alianças não são vistas como investimentos estratégicos de longo prazo, mas como contratos renegociáveis. A economia torna-se arma geopolítica direta: tarifas, sanções e chantagem substituem a diplomacia clássica.

Enquanto Roma procurava garantir rotas comerciais e estabilidade regional, Trump privilegia ganhos económicos imediatos, mesmo que isso gere instabilidade sistémica. A lógica imperial romana era expansiva e integradora; a lógica trumpista é defensiva, competitiva e fragmentadora.

Conclusão

O imperium romano, apesar da violência e da desigualdade, era sustentado por uma visão relativamente coerente de ordem, direito e civilização. O “império de Donald Trump”, em contraste, representa uma forma contemporânea de poder imperial desinstitucionalizado, altamente personalista e orientado por interesses imediatos.

Se Roma caiu quando deixou de acreditar nas suas próprias instituições, a grande questão que se coloca hoje é se as democracias modernas conseguem resistir a um modus operandi que, embora poderoso no curto prazo, mina silenciosamente os fundamentos éticos, legais e estratégicos que sustentam qualquer sociedade humana digna e duradoura.

Francisco Vaz

5 de Janeiro de 2026

Eros e Psique - 5 Janeiro 2026


Psique recebendo o primeiro beijo de Cupido, 1798


Francois Pascal Simon Gerard


Eros e Psique


Desceu da noite o deus alado,

Em sonho e névoa, em doce ardor;

Trazia o lume encantado

Do primeiro e último amor.


Psique dormia em véu de lua,

Sem ver o rosto que a beijou;

Mas cada toque, alma nua,

Dizia: “É teu quem te amou.”


Afrodite, em ciúme aceso,

Fez do amor pena e provação;

Mas onde há dor, há o desejo

De ser eterno o coração.


Por mares, ventos e colinas,

Psique buscou seu ser divino;

Nas flores viu as mãos divinas,

Nos astros, o seu destino.


E quando o céu enfim sorriu,

Selando o sonho e a paixão,

O amor — que tudo destruiu —

Fez-se luz, alma e perdão.


Francisco Vaz

5 de Dezembro de 2025