Pecado original
domingo, 18 de janeiro de 2026
A Quarta Guerra Mundial já começou?
terça-feira, 13 de janeiro de 2026
A Doutrina “Donroe”
A Doutrina “Donroe” Deve Basear-se na Contenção, Não na Intervenção
James Holmes — Proceedings, janeiro de 2026
O autor apresenta quatro orientações para aplicar a chamada “Doutrina Donroe”, inspirada na Doutrina Monroe. Na sua conferência de imprensa na Flórida, após a operação relâmpago contra o regime de Nicolás Maduro em Caracas, o Presidente Donald Trump voltou a invocar a Doutrina Monroe como princípio duradouro da política externa dos EUA, afirmando mesmo que a sua administração tinha “superado largamente” a formulação original de 1823.
Se assim for, é necessária extrema prudência. A diplomacia norte-americana dirige-se a múltiplos públicos, internos e externos, e deve legitimar as suas ações junto do maior número possível, evitando ofender desnecessariamente aliados. Primeiro, é essencial ser preciso quanto aos objetivos e ao alcance do poder dos EUA.
As memórias do intervencionismo norte-americano entre as décadas de 1910 e 1930 permanecem vivas na América Latina, enquanto a literacia histórica nos próprios EUA é limitada. Se a administração Trump pretende fundamentar a sua política externa em princípios históricos, os decisores devem conhecer profundamente a história da Doutrina Monroe. Caso contrário, a retórica fica vazia.
A nova Estratégia de Segurança Nacional proclama um “Corolário Trump” à Doutrina Monroe, definido como “preeminência americana no Hemisfério Ocidental”. Este conceito é ambíguo e facilmente abusável. Theodore Roosevelt, autor do corolário de 1904, orgulhava-se precisamente de ter intervindo pouco na América Latina. O minimalismo deve orientar a ação. Operações como a derrubada de Maduro geram inevitavelmente controvérsia, e uma linguagem imprecisa amplifica reações negativas.
A Doutrina Monroe nunca significou “controlo dos Estados Unidos sobre o hemisfério”. No início do século XX, o ministro argentino Luis Drago elogiou a política tradicional dos EUA por condenar a opressão europeia sem procurar dominação regional. A Doutrina Monroe era, então, um instrumento de defesa contra a opressão externa, não uma justificação para a opressão norte-americana — e assim deveria continuar a ser. A
contenção deve ser o alicerce da Doutrina Donroe.
Segundo, a Doutrina Monroe visava impedir a apropriação territorial por potências externas. Hoje, embora China, Rússia e Irão sejam atores ativos no Caribe, não há sinais claros de que venham a adquirir território no hemisfério. Este facto distingue profundamente o contexto atual daquele do século XIX. A atenção deve centrar-se no território, não na influência difusa.
Terceiro, os EUA devem seguir um “Juramento de Hipócrates”: não causar danos. Após derrubar Maduro, não faz sentido apoiar figuras do próprio regime para governar o país durante a transição. A vontade eleitoral dos venezuelanos é conhecida e foi reafirmada em 2024, quando Edmundo González venceu de forma expressiva, apesar da repressãodo regime. Se forem necessárias novas eleições, devem ser livres e imediatas; caso
contrário, deve respeitar-se o resultado existente.
Quarto, se os EUA supervisionarem a transição venezuelana, esta deve ser curta e liderada pelos próprios venezuelanos. A Estratégia de Segurança Nacional rejeita a dominação americana no hemisfério — e essa rejeição deve ser levada a sério.
Francisco Vaz
21 de Janeiro de 2026
A Doutrina Monroe:
A Doutrina Monroe: origem, formação e consequências de umaideia que moldou o poder americano
segunda-feira, 12 de janeiro de 2026
Islão, literalismo e modernidade
Islão, literalismo e modernidade: um debate necessário
No Ocidente, discutir criticamente o Islão continua a ser um exercício desconfortável. Entre o receio de alimentar preconceitos e a tentação de relativizar tudo em nome da tolerância, o debate público acaba muitas vezes por evitar a questão central: a tensão entre textos religiosos antigos, leituras literalistas e os princípios e valores das sociedades modernas.
O Islão distingue-se por possuir um vasto corpo de fontes — Alcorão, Sunna e literatura jurídica — que regulam não apenas a vida espiritual, mas também comportamentos sociais, jurídicos e políticos. A vida e as ações de Maomé foram extensivamente registadas e transformadas em modelo normativo. Essa riqueza documental é historicamente relevante, mas torna-se problemática quando é lida de forma literal e aplicada fora do contexto em que surgiu.
Importa fazer uma distinção essencial: a maioria dos muçulmanos vive a religião de forma ritual, espiritual e cultural, sem qualquer ambição de impor um modelo político ou jurídico religioso. O problema não é o Islão enquanto fé, mas o islamismo político — a tentativa de transformar uma religião numa ideologia totalizante, que subordina a sociedade, a lei e os direitos individuais a uma interpretação rígida dos textos sagrados.
Negar que certas leituras desses textos legitimam desigualdades de género, hierarquias religiosas ou rejeição do pluralismo não ajuda o debate. Quando essas leituras são elevadas a programa político, aproximam-se de formas clássicas de totalitarismo: uma verdade única, imune à crítica, que não admite dissidência.
Historicamente, o Islão nasceu num contexto tribal do século VII. Pretender reproduzir esse modelo no século XXI ignora mais de mil anos de História. Nenhuma religião — cristianismo, judaísmo ou islão — sobreviveu no mundo moderno sem processos de adaptação, crítica interna e separação entre fé e lei civil.
Também é essencial distinguir religião de civilização. A civilização islâmica produziu ciência, filosofia, arte e pensamento jurídico de enorme valor. Reduzir a identidade islâmica a uma aplicação rígida da sharia é negar essa herança plural — precisamente o que fazem os movimentos salafistas.
O futuro do Islão nas sociedades democráticas não passa pela negação nem pelasa cralização absoluta, mas pela sua integração num espaço onde a lei comum, a razão crítica e os direitos fundamentais prevalecem. Enquanto houver quem procure reconstruir literalmente a comunidade política de Maomé como modelo obrigatório, a violência continuará a ser uma possibilidade real.
Evitar este debate não é tolerância; é abdicação intelectual. Enfrentá-lo com rigor, distinções claras e respeito pelas pessoas é a única forma de impedir que o espaço público seja dominado pelos extremos.
Francisco Vaz
12/01/2026
segunda-feira, 5 de janeiro de 2026
Natal, Misericórdia de Deu
Da Angústia à Esperança
A misericórdia divina pode ser compreendida como o lugar onde a infinitude de Deus encontra a finitude humana. Em Deus, a infinitude não é mera possibilidade, mas plenitude absoluta: Ele é ato puro, sem carência ou frustração. No mistério do Natal, essa infinitude em ato não permanece distante, mas inclina-se livremente sobre o finito. A misericórdia revela-se, então, como o transbordar do ser divino, que não reage às limitações humanas, mas as assume para comunicar sentido, perdão e possibilidade de recomeço.
O ser humano, por sua vez, vive numa condição marcada pela infinitude em potência. É capaz de desejar o absoluto, o bem pleno e a verdade total, mas age sempre de modo finito, histórico e frágil. Celebrar o Natal em 2025, num mundo marcado por incertezas, angústias e pela sensação de possibilidades infinitas acompanhadas de ações cada vez mais frágeis, é reconhecer que essa tensão não é nova, nem insolúvel. Dessa distância entre o que o homem sonha e o que efetivamente realiza nasce a angústia, sinal de que o ser humano é maior do que aquilo que consegue ser por si mesmo.
É precisamente nesse intervalo que a misericórdia divina se manifesta. O Natal recorda que Deus não elimina a finitude humana nem a substitui por uma perfeição artificial; Ele entra nela. A misericórdia não dispensa a responsabilidade do agir humano, mas impede que a limitação se transforme em desespero. Ao acolher o homem mesmo quando a sua ação não corresponde à amplitude do seu desejo, Deus reconcilia-o com a própria condição e devolve-lhe esperança.
Assim, no Natal, a misericórdia divina não suprime a tensão constitutiva do homem, mas transforma-a em caminho. A finitude deixa de ser condenação e torna-se espaço de encontro, onde o infinito não é conquistado, mas recebido como dom. A angústia humana, longe de ser sinal de fracasso, revela-se como abertura ao transcendente — uma abertura que encontra repouso no mistério celebrado no Natal: o infinito fez-se finito para que o finito pudesse participar do infinito.
Feliz Natal!
Francisco Vaz
25 de Dezembro de 2025
Do Imperium Romano ao "Império Trump"
Do Imperium Romano ao “Império Trump”: continuidades e rupturas no exercício do poder
Comparar o imperium romano com aquilo que muitos analistas chamam, de forma metafórica, de “império de Donald Trump” pode parecer, à primeira vista, um exercício anacrónico. No entanto, quando observamos os modos de operação do poder, surgem paralelos reveladores — não tanto na forma institucional, mas na lógica moral, jurídica e geoestratégica que sustenta a dominação.
1. Virtude pública versus moral instrumental
O Império Romano construiu parte da sua legitimidade sobre um discurso moral relativamente coerente para a época: virtus, honor, disciplina e pietas eram valores exaltados como fundamentos da ordem imperial. Embora muitas vezes violados na prática, esses princípios funcionavam como horizonte ético comum, servindo para justificar conquistas, punir excessos e integrar elites locais.
Já o “império Trump” — entendido aqui como um projeto de poder personalista, nacionalista e mediático — opera segundo uma moral instrumental e situacional. A ética deixa de ser um valor estruturante e passa a ser uma ferramenta retórica: o que é “bom” ou “justo” depende do alinhamento com os interesses imediatos do líder ou do grupo político. O discurso moral é frequentemente substituído pela lógica do sucesso, da força e da lealdade pessoal, ecoando mais o final decadente da República Romana do que o seu período clássico.
Enquanto Roma buscava projetar uma imagem de civilização superior, Trump enfatiza a ideia de vitória, mesmo que à custa de normas éticas tradicionais, alianças históricas ou consensos democráticos.
2. Direito como estrutura vs. direito como obstáculo
O direito romano foi uma das maiores contribuições do Império à história ocidental. Mesmo sendo frequentemente desigual e elitista, o sistema jurídico romano funcionava como instrumento de coesão, previsibilidade e administração imperial. A lei não era apenas um mecanismo de repressão, mas uma linguagem comum que permitia governar vastos territórios.
No caso do “império Trump”, observa-se uma relação ambígua — e por vezes hostil — com o direito. As instituições legais são frequentemente tratadas como entraves ao poder, e não como sua base de legitimidade. Tribunais, imprensa, organismos internacionais e regras eleitorais são desacreditados quando não produzem resultados favoráveis.
Aqui surge um contraste fundamental:
-
Roma expandia o direito para consolidar o império;
-
Trump tenta flexibilizar, contornar ou deslegitimar
o direito para preservar o poder.
Esse modus operandi aproxima-se mais de uma lógica pré- imperial, baseada no chefe carismático, do que de um império institucionalizado.
3. Expansão integradora vs. transacionalismo agressivo
Do ponto de vista geoestratégico, Roma praticava uma expansão militar acompanhada de integração económica. Estradas, impostos, comércio e cidadania eram instrumentos para transformar territórios conquistados em partes funcionais do império. A guerra era meio; a estabilidade, o fim.
O “império Trump”, por sua vez, adota uma abordagem transacional e de soma zero. Alianças não são vistas como investimentos estratégicos de longo prazo, mas como contratos renegociáveis. A economia torna-se arma geopolítica direta: tarifas, sanções e chantagem substituem a diplomacia clássica.
Enquanto Roma procurava garantir rotas comerciais e estabilidade regional, Trump privilegia ganhos económicos imediatos, mesmo que isso gere instabilidade sistémica. A lógica imperial romana era expansiva e integradora; a lógica trumpista é defensiva, competitiva e fragmentadora.
Conclusão
O imperium romano, apesar da violência e da desigualdade, era sustentado por uma visão relativamente coerente de ordem, direito e civilização. O “império de Donald Trump”, em contraste, representa uma forma contemporânea de poder imperial desinstitucionalizado, altamente personalista e orientado por interesses imediatos.
Se Roma caiu quando deixou de acreditar nas suas próprias instituições, a grande questão que se coloca hoje é se as democracias modernas conseguem resistir a um modus operandi que, embora poderoso no curto prazo, mina silenciosamente os fundamentos éticos, legais e estratégicos que sustentam qualquer sociedade humana digna e duradoura.
Francisco Vaz
5 de Janeiro de 2026
Eros e Psique - 5 Janeiro 2026
Eros e Psique
Desceu da noite o deus alado,
Em sonho e névoa, em doce ardor;
Trazia o lume encantado
Do primeiro e último amor.
Psique dormia em véu de lua,
Sem ver o rosto que a beijou;
Mas cada toque, alma nua,
Dizia: “É teu quem te amou.”
Afrodite, em ciúme aceso,
Fez do amor pena e provação;
Mas onde há dor, há o desejo
De ser eterno o coração.
Por mares, ventos e colinas,
Psique buscou seu ser divino;
Nas flores viu as mãos divinas,
Nos astros, o seu destino.
E quando o céu enfim sorriu,
Selando o sonho e a paixão,
O amor — que tudo destruiu —
Fez-se luz, alma e perdão.
Francisco Vaz
5 de Dezembro de 2025
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