Pecado original

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segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

Natal, Misericórdia de Deu

Da Angústia à Esperança

A misericórdia divina pode ser compreendida como o lugar onde a infinitude de Deus encontra a finitude humana. Em Deus, a infinitude não é mera possibilidade, mas plenitude absoluta: Ele é ato puro, sem carência ou frustração. No mistério do Natal, essa infinitude em ato não permanece distante, mas inclina-se livremente sobre o finito. A misericórdia revela-se, então, como o transbordar do ser divino, que não reage às limitações humanas, mas as assume para comunicar sentido, perdão e possibilidade de recomeço.

O ser humano, por sua vez, vive numa condição marcada pela infinitude em potência. É capaz de desejar o absoluto, o bem pleno e a verdade total, mas age sempre de modo finito, histórico e frágil. Celebrar o Natal em 2025, num mundo marcado por incertezas, angústias e pela sensação de possibilidades infinitas acompanhadas de ações cada vez mais frágeis, é reconhecer que essa tensão não é nova, nem insolúvel. Dessa distância entre o que o homem sonha e o que efetivamente realiza nasce a angústia, sinal de que o ser humano é maior do que aquilo que consegue ser por si mesmo.

É precisamente nesse intervalo que a misericórdia divina se manifesta. O Natal recorda que Deus não elimina a finitude humana nem a substitui por uma perfeição artificial; Ele entra nela. A misericórdia não dispensa a responsabilidade do agir humano, mas impede que a limitação se transforme em desespero. Ao acolher o homem mesmo quando a sua ação não corresponde à amplitude do seu desejo, Deus reconcilia-o com a própria condição e devolve-lhe esperança.

Assim, no Natal, a misericórdia divina não suprime a tensão constitutiva do homem, mas transforma-a em caminho. A finitude deixa de ser condenação e torna-se espaço de encontro, onde o infinito não é conquistado, mas recebido como dom. A angústia humana, longe de ser sinal de fracasso, revela-se como abertura ao transcendente — uma abertura que encontra repouso no mistério celebrado no Natal: o infinito fez-se finito para que o finito pudesse participar do infinito.


Feliz Natal!


Francisco Vaz

25 de Dezembro de 2025

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